sábado, 9 de janeiro de 2016

Opinião Cinema: Chico - Artista Brasileiro

Por Bianca Oliveira,
do Rio de Janeiro

Todos conhecem Francisco Buarque de Hollanda, o famoso Chico Buarque. Que tem vários Chicos conhecidos e amados:  o poeta, o ultrarromântico, o compositor politizado, o fã de futebol...todos dentro de um só ser (óbvio). Mas, aí o diretor Miguel Faria Jr., com toda a inteligência e sensibilidade que possui, vem e nos mostra um novo Chico, um cara humilde, honesto e que conquista todos com sua simplicidade e seu talento.




O documentário Chico - Artista Brasileiro é contado cronologicamente pelo próprio Chico, mesclando apresentações de várias composições do músico feitas por diversos intérpretes e amigos (Adriana Calcanhotto, Mart’nália, Péricles etc...) com depoimentos sobre sua vida, mas fugindo totalmente de perguntas conhecidas e bobas, mostrando questões que exploravam sua personalidade ao invés dos fatos de sua carreira. Parecia mais uma conversa entre amigos, e, é impossível que não percebamos como os detalhes que ele nos dizia acabavam se transformando em um “ingrediente” para suas composições e para seus livros, que têm alguns de seus trechos lidos durante a projeção por Marília Pêra (falecida poucas semanas após a estreia do filme).



Péricles

A construção do filme é feita com uma sensibilidade incrível. Miguel Faria coloca na tela uma poesia bonita de se ver, que arrepia, emociona, e que demonstra não uma biografia comum, mas algo mais humano, simples. Ele foca na sua identidade como artista, seu processo criativo e seu “particular estilo Chico de ser”.  O que aproxima mais o público a cada sequência, demonstrando um ser humano simples que vê beleza nas pequenas coisas e que com o passar do tempo ama cada vez mais o que faz, afinal, mais de 50 anos de carreira não é para qualquer um, não é mesmo?! A escolha do repertório também é cativante, nada de algo comum, óbvio, vai mais além, algo que celebra a vida que encaixa perfeitamente ao clima mais “humano”.



Dificilmente um documentário agrada o público tanto como esse conseguiu, talvez por todas as histórias que são contadas, elas fogem das polêmicas e nos fazem rir até a barriga doer: o público se encanta que nem consegue tirar os olhos da tela, é algo verdadeiro. Nada de ir ao cinema com expectativas, apenas viaje no tempo com as lembranças que Buarque nos conta com tanta familiaridade. Como o diretor disse: É um artista revisitando a sua própria história do ponto de vista da maturidade.


terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Opinião Cinema: Jogos Vorazes: A Esperança - O Final

por Bianca Oliveira,
do Rio de Janeiro 



O jeito é esperar, em 2015 vamos ver a senhorita Everdeen chegando ao fim na luta contra o Presidente Snow para salvar o povo de Panem, confesso que estou ansiosa e esperando muito desse filme. ”  - assim eu encerrei minha resenha de Jogos Vorazes - A Esperança (Parte 1) . E, olha aí, chegou! O dia em que descobrimos se uma das franquias mais importantes da atualidade tem um desfecho digno e também fiel ao livro (essa foi a adaptação da segunda metade do terceiro livro da série literária de Suzanne Collins) e infelizmente também foi a nossa despedida do ator Philip Seymour Hoffman (1967-2014) nas telas de cinema, ele faleceu durante as filmagens. Uma mistura de sentimentos, expectativas e esperança (bam-dum-tss), assim se pode resumir “O Final”.


Como já de costume da franquia, o 4° filme começa exatamente do mesmo ponto que o 3° terminou: Katniss (Jennifer Lawrence) está com o pescoço machucado e nem consegue falar após ser estrangulada pelo seu ex-amor, ou não, Peeta Mellark (Josh Hutcherson), que passou uma temporada sob tortura na Capital. A ameaça de guerra está cada vez mais forte, os distritos estão unindo-se para tomar Panem do Presidente Snow (Donald Sutherland) e o tordo da revolução está divido entre matar Snow e sua aversão à violência, que é praticada pelos próprios companheiros como parte da guerra. Com a ajuda de seus melhores amigos Gale (Liam Hemsworth) e Finnick (Sam Claflin), Katniss parte para a capital com o grupo do Distrito 13, encarando desafios nunca enfrentados em qualquer edição dos Jogos Vorazes.

Jennifer Lawrence carrega o filme nas costas, não é à toa que quase 100% de tela é dedicado à ela, seu carisma, a grandiosidade nas cenas de ação, o rosto indiferente durante as discussões políticas, a frieza depois de tanto sofrimento, tudo demonstra o quanto o conflito é cruel com a população e que não há inocentes independente da idade. Só que aí que o diretor Francis Lawrence erra totalmente, ao invés de usar a força do personagem ele demonstra uma menina enfraquecida que é excluída das cenas mais importantes. É tanta explicação, didatismo, que o filme fica com o ritmo totalmente bagunçado, começando dolorosamente lento, para em seguida se apressar quando realmente importa. Nós não queremos isso, queremos ação, queremos ver o que acontece, não precisa explicar, quando uma cena é boa um pequeno detalhe que seja faz com que até o mais leigo dos leigos entenda o que está acontecendo ali. O roteiro de Peter Craig e Danny Strong não conseguiu ganhar a empatia do público com vários dos personagens coadjuvantes, o longa recorreu a soluções simplistas e não mostrou a inovação característica da saga.




Outro erro foi a fotografia do filme de Jo Willems que sempre estava muito escurecida e sombria, tudo bem, eu sei que o país é oprimido por uma ditadura e arrasado pela guerra civil por isso a frieza da fotografia, só que além disso ainda teve o excesso de corte que  já estava dificultando nossa vida, e aliado a um filtro muito escuro então impediu que algumas cenas fossem entendidas. Nem vou comentar do 3D totalmente desnecessário, estava nítido que ali só teve 3D porque os ingressos eram mais caros, assim enchiam mais os bolsos dos produtores, porque não há outro motivo para o uso de tal tecnologia, absolutamente nada, nem em questão de profundidade.

Felizmente, há bons momentos no filme, destaque para Finnick lutando contra os bestantes no subterrâneo da capital (essa foi uma das melhores cenas da saga) e também, claro, o elenco é um dos pontos altos da história. Além de Jennifer, que sem dúvidas foi o maior certo da franquia, a atuação sensacional do mestre Donald Sutherland nos trouxe um presidente cínico, cruel e polido. Josh Hutcherson consegue passar para o espectador a angústia de Peeta, demonstra muito bem o conflito interno sufocante do seu personagem. Julianne Moore e Stanley Tucci fizeram muito bem seu papel, demonstraram que estavam bastante ligados ao seu personagem. Enquanto isso Liam Hemsworth era o perdido da cena, teve uma atuação inexpressiva e foi o “abandonado” tanto pelo roteiro quanto a direção.


O filme não é ruim, só é muito decepcionante. Fica aquela dúvida na cabeça: O que aconteceu com o ritmo e a ação que foi tão bem controlada nos dois primeiros filmes? Impossível não sair do cinema desapontada, nem comi minha pipoca (e vocês sabem como amo pipoca), é triste ver que uma franquia tão boa não soube abordar direito um tema inovador, atual e que tinha tudo para dar certo. Mas não tem o que pague conferir Philip Seymour Hoffman pela última vez nas telas de cinema, sua atuação não teve destaque, pois ele faleceu durante as gravações, mas foi digna de uma carreira fantástica, o seu adeus no filme nos deixa emocionados, com um aperto no coração e uma gratidão enorme pelos risos, choros, conselhos e por tudo que seu talento nos proporcionou.







segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Opinião Cinema: Ponte dos Espiões

Por Bianca Oliveira,
do Rio de Janeiro




Quando Steven Spielberg faz um blockbuster todos já sabemos que vem uma produção caprichada por aí, e quando tem Tom Hanks então, é lógico que será um sucesso. Inclusive, há chances de várias indicações para o Oscar 2016. Não assistiu ainda? Calma, vou fazer um resumo aqui e se você assistiu me conte depois se concorda com minha opinião.

O filme se baseia em fatos reais. James Donovan (Hanks) é um pacato advogado de seguradora, que é chamado pela Justiça americana para defender um espião soviético, Abel (Mark Ryklance), em 1957, auge da Guerra Fria. Os Estados Unidos querem mostrar que seu sistema judiciário trata todos igualmente e Donovan se torna um dos caras mais odiados pelos americanos, por defender um traidor. Sábio do jeito que é, o advogado sugere que o espião não seja executado, só aprisionado, pois quem sabe futuramente servirá como “moeda de troca”.  Na segunda parte do filme, que se passsa em 1960, Francis Gary Powers (Austin Stowell), piloto norte-americano que sobrevoava a Rússia a bordo de um avião de espionagem, é capturado atrás da Cortina de Ferro (bloco de antigos países comunistas da Europa Oriental)... e adivinhem só? Abel é usado na negociação para libertar Francis, e James é acionado para fazer essa troca no meio de duas superpotências.

Basicamente esse é o resumão,  não é para quem quer efeitos e mais efeitos, não tem explosões; é um filme cheio de diálogos tensos e profundos com minuciosas explicações sobre a situação política mundial da época, os conflitos, as principais características do embate, enfim um filme que deve ser utilizado nas salas de aula (alô, professores!). Apesar de o advogado ser americano, ele tenta ser o mais justo possível, um verdadeiro defensor dos direitos humanos, sempre buscando a superação dos preconceitos.

A experiência fantástica de Spielberg junto com o roteiro co-escrito pelos irmãos Joel e Ethan Coen faz com que o filme seja uma obra de arte nas telas. O olhar experiente de Spielberg extrai a beleza das pequenas coisas, desde um gota caindo até os enquadramentos que conseguem transmitir emoção e demonstrar que o ritmo teve uma atenção especial com transições suaves de cenas e de momentos da história. O diretor de fotografia Janusz Kaminski realmente está apaixonado pela luz “leitosa”, fraca, um tom distante mas que tem uma beleza incontestável.  A trilha sonora feita por Thomas Newman, o figurino de Kasia Walicka, todos os detalhes foram cuidadosamente construídos.



E tem mais, a escolha do elenco é de deixar qualquer um enlouquecido. Começando pelo Tom Hanks que demonstra estar super à vontade com o papel, seu personagem parecia até ser chato, metódico, mas Hanks consegue  transbordar carisma. Mark Rylance é um forte candidato ao Oscar de melhor ator coadjuvante no ano que vem, sua atuação foi simples ma, discreta e elegante; ele consegue deixar o público ansioso por qualquer dica sobre seu personagem. Além desses teve Amy Ryan, Dakin Matthews e Sebastian Kock, que não aparecem tanto no filme, porém, quando isso acontece eles enchem os olhos do público com atuações cativantes.

E aí, bateu a vontade de assistir? E você que já viu, concorda comigo? Bom, o filme tem tudo para entrar na agenda de todos com um dos melhores do anos, tem uma produção fantástica, um elenco talentoso e, além disso, Steven Spielberg , um diretor que sabe como o cinema pode afetar e ensinar as pessoas, e ainda nos mostra como uma história real consegue ser contada de uma forma espetacular.



terça-feira, 24 de novembro de 2015

11.920 km pelo Brasil


Ao final da quarta-feira, 18 de novembro, concluí uma importante etapa em minha trajetória profissional e pessoal não só deste ano, mas com certeza de minha vida. Ao desembarcar no aeroporto de Macapá, procedente de Manaus, encerrei uma viagem que durou quase cinco meses e me levou a percorrer sete estados brasileiros (Pará, Goiás, Tocantins, Bahia, Mato Grosso, Rondônia e Amazonas), totalizando (aproximadamente) 11.920km. A imagem que abre o texto mostra um barco navegando no Rio Madeira, entre Porto Velho e Manaus. 
motivo da viagem foi divulgar em outros estados o meu trabalho de valorização da cultura tradicional do Amapá, traduzido em meu projeto As Tias do Marabaixo, e também oferecer a instituições públicas e privadas a contratação de apresentações de artistas que produzo e/ou represento, nas áreas de Música e Literatura. Em meio à viagem, idealizei e estruturei uma nova atividade, a Oficina de Cinema Independente, que foi incorporada de imediato ao rol de atividades que ofereci às instituições. Isto no âmbito profissional; no aspecto pessoal, aproveitei para conhecer melhor os lugares por onde passei (eu já estivera em quase todos estes estados, menos Goiás e Mato Grosso,  quase sempre contratado para realizar um curso ou oficina, ou então cobrindo algum festival - em ambas situações, você acaba ficando muito focado no evento e pouco circula pela cidade onde ele se realiza). 
Eu já havia pensado antes em fazer algo semelhante, aliás, creio que o desejo de "botar uma mochila nas costas e sair por aí" é uma fantasia recorrente na nossa civilização. O que me fez ver que era oportuno investir nisso agora foi justamente o lançamento, no começo do ano, dos curtas-metragens do projeto As Tias do Marabaixo, que vieram se somar à exposição de fotos criada no ano passado. Minha intenção inicial era, além de tentar vender shows dos artistas que represento, ir realizando mostras dos filmes e expor as fotos ao longo do percurso. Programei-me para sair de Macapá após o Dia Estadual do Marabaixo (16 de junho) e retornar em novembro, a tempo de acompanhar o Encontro dos Tambores (grande evento que reúne na capital do Amapá, na Semana da Consciência Negra, todos os grupos de Marabaixo e Batuque existentes no estado).
A viagem começou a tomar forma em abril, quando recebi o convite para cobrir o Mutum - 1ª Mostra de Música Instrumental e Cultura Popular do Tocantins, entre os dias 10 a 12 de julho, no distrito de Taquaruçu, próximo a Palmas. A etapa inicial da viagem então seria primeiramente, sair de Macapá para Belém (o que é praticamente obrigatório, pois você só sai de Macapá de navio ou avião, e o primeiro destino no Brasil é, tradicionalmente, Belém; só há bem pouco tempo passou a haver vôos diretos entre Macapá e Brasília) e de lá ir para Palmas, participar do Mutum e depois seguir para a Bahia - eu tinha muita vontade de mostrar meu projeto, que retrata o Marabaixo, uma cultura negra forte, da Amazônia, na capital da cultura negra do Brasil. Depois da Bahia, a ideia era ir a Brasília contatar as embaixadas dos países de fala espanhola da América do Sul (são nove, os sete que fazem fronteira com o Brasil, mais Equador e Chile). Em todos estes países, o brasileiro pode entrar apenas com documento de identidade, não necessitando passaporte nem visto. Da capital federal, pretendia seguir por Mato Grosso e Rondônia (entrando eventualmente nos países vizinhos) até chegar a Manaus, de onde voltaria a Macapá de navio, mesmo meio de transporte pelo qual deixei o Amapá em junho. Quase todo o restante do percurso foi feito de ônibus, com exceção do final - como já mencionei, o retorno de Manaus para Macapá foi de avião. 
As razões de eu priorizar os deslocamentos por terra ou água foram basicamente três: , a vontade de conhecer mais a fundo as regiões por onde eu iria passar, o que você não consegue indo de avião (voando eu não teria visto uma chalana descendo o Rio Paraguai, como na canção de Mário Zan e Arlindo Pinto); 2º, o custo menor das passagens (salvo datas muito específicas, o custo das passagens de navio e ônibus não varia, como as de avião, que são tão mais altas quanto mais perto da data de viajar você compra); , o excessivo volume de bagagem que tive por quase toda a viagem.
Isto foi, sem dúvida, meu maior erro. Saí de Macapá com duas malas e uma bolsa grande (basicamente, numa mala tinha todas as minhas roupas, na outra material dos artistas que represento e na bolsa os banners com as fotos da exposição). A mala com material dos artistas ia ficando mais leve a cada cidade visitada, o que não acontecia com a bolsa. Mas aproveitei a viagem para exercer o desapego e doei boa parte das roupas que eu levava, em Belém e em Palmas. Já em Manaus, fui ao Correio me informar e soube que é possível você despachar uma mala (desde que ela não exceda 30kg, e a minha "bateu na trave", com 29,4kg). Sem dúvida bem mais prático e econômico do que pagar excesso de bagagem a uma companhia aérea (como se sabe, o limite para bagagem por passageiro é de 23kg). Livre da mala, pude enfim optar por pegar um avião. 
Um momento de turismo: visitando aldeia indígena Tucano Dessana, numa ilha às margens do Rio Negro, próximo a Manaus
Para quem pretende fazer uma viagem semelhante, circulando de ônibus pelo Brasil e de navio pela região amazônica, é bom ter em mente que as informações sobre itinerários e valores são, infelizmente, bem escassas, o que me impediu de já sair de Macapá em junho com o planejamento da viagem todo feito. Por exemplo, só chegando a Porto Velho é que você vai descobrir onde compra a passagem de navio para Manaus. Ou então constata que não tem como ir direto de ônibus de Belém a Palmas (embora sejam capitais de estados vizinhos). No meu caso, especificamente, essa impossibilidade de planejamento prévio não chegou a ser um problema; como já falei, nas vezes anteriores, eu ia para estes lugares para um evento, sem poder conhecer nada das cidades. Então usei esse aspecto, que poderia ser negativo, a meu favor, me permitindo ficar nas cidades visitadas o tempo necessário para fazer os contatos e, quase sempre, fazer turismo, seja visitando locais históricos, seja degustando a culinária local. (Dica: descobri que no site da Rodoviária de Goiânia é possível comprar passagens de ônibus para vários destinos no país, não necessariamente chegando ou partindo de Goiás, e o pagamento pode ser feito com cartão ou mesmo boleto bancário, do mesmo modo adotado por algumas companhias aéreas). 
Conversando com estudantes em Porto Velho, antes da exibição dos curtas
Em relação aos contatos, bem cedo me dei conta de que o agendamento de sessões dos meus curtas e/ou exposição das minhas fotos, durante o período mesmo da viagem, seria bastante difícil. Pela internet é possível saber que há uma vasta rede de cineclubes no país, mas não encontrei em lugar algum uma lista dos diversos existentes nos estados que percorri. Mesmo assim, consegui exibir os filmes em Paraíso (TO), Salvador (BA) e Porto Velho (RO) - nas duas primeiras cidades, também expus as fotos. Ainda na Bahia, realizei em Jequié a primeira edição da já citada Oficina de Cinema Independente, cuja ideia me ocorreu em julho no ônibus em que fui de Palmas a Salvador (aliás, devo dizer que aproveitei muito bem o tempo passado nos ônibus e nos navios, sem conexão possível com a internet, para organizar as ideias e projetar bastante coisa já para 2016. Mas enfim, tenha em mente que a propagandeada "cobertura nacional" das operadoras de celular se concentra, na maior parte das vezes, nos centros urbanos). 
A ideia de criar a Oficina alterou radicalmente a sequência da viagem. Eu já tinha um convite para ir a Jequié, no começo de agosto, para uma mostra dos curtas. Como o evento precisou ser transferido para setembro, vi ali a possibilidade de estrear a Oficina (foto acima), aproveitando então o tempo para escrever o texto-base e preparar as aulas. Ao retornar de Jequié, decidi ficar mais um mês em Salvador, para poder oferecer a Oficina para instituições culturais e de ação social. Acabei ficando, então, quase três meses (julho a outubro) em Salvador, o que influenciou todo o restante da viagem.
Ah, sim: tão logo o evento em Jequié mudou de mês, fui em busca de um quarto para alugar na área central da capital baiana - sendo a cidade turística, são comuns os aluguéis de casas ou mesmo quartos mobiliados por temporada, e mais uma vez a melhor forma de se informar é... estando lá). Nas outras cidades, escolhi os locais onde me hospedar em duas principais fontes: a rede de albergues da juventude Hi Hostels (à qual me associei assim que cheguei a Belém, em junho. Ser associado garante descontos nas hospedagens em 95 hostels de 20 estados) e o site Booking (após fazer se cadastrar e fazer a primeira reserva, você passa a contar com facilidades como reservar pelo site e só pagar a primeira diária ao fazer o check-in no hotel escolhido). 
Enfim, como só saí da Bahia em 20 de outubro e o Encontro dos Tambores acontece sempre na segunda quinzena de novembro, o jeito foi 'encurtar' as estadias nas etapas seguintes (além de trocar Brasília por Goiânia, já que também ficara descartada a ida aos países vizinhos ainda este ano). A passagem por Goiânia foi a mais breve do percurso (quatro dias, um dos quais feriado - o aniversário do município). Aqui, mais um aspecto da dificuldade de um "planejamento total", prévio à viagem: não existe (ou se existe, não encontrei) uma base de dados confiável informando feriados de municípios e estados do Brasil. Mesmo os sites oficiais podem omitir algumas datas comemorativas, como o Dia do Comerciário que fechou boa parte das portas das lojas de Salvador na véspera da minha saída (19 de outubro), e sobre a qual nem o hostel nem os serviços de turismo tinham conhecimento... 
Finda a viagem, é o momento de, primeiro, acompanhar o Encontro dos Tambores e, em seguida, retomar a rotina (até porque boa parte dos contatos só deve gerar frutos para o próximo ano) e começar a pensar na próxima viagem, na qual quero enfim percorrer os países vizinhos, não sem antes passar pelos estados do Nordeste (só conheço até hoje Bahia, Pernambuco e Maranhão). Datas e itinerários ainda estão em aberto, mas uma certeza eu já tenho: vou levar beeeeem menos bagagem - uma mochila para o notebook, uma bolsa para as roupas e talvez uma pequena mala que possa ser despachada nos trechos que eu venha a fazer de avião. Afinal, já diz o velho ditado que "é errando que se aprende". 
* Publicado originalmente no LinkedIN - 23.11.15

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Cinema Independente (2)

2
IDEIA NA CABEÇA

DA IDEIA AO ROTEIRO

Todo filme, seja curta, média ou longa-metragem, documentário ou ficção, com alto, baixo ou nenhum orçamento, começa com uma ideia. Você tem uma ideia que quer compartilhar com as outras pessoas de forma audiovisual, e a partir daí mobiliza outras pessoas para que colaborem com você nessa empreitada. O cinema é por definição uma arte coletiva – claro que nada impede que você filme apenas aspectos da natureza (por exemplo, um canteiro de flores num parque público de sua cidade, ou as travessuras de seu gatinho dentro de casa), edite e publique isto na internet, sem a interferência de mais ninguém. Mas se não houver a participação de outras pessoas, nem que seja assistindo, qual o sentido em se fazer um filme?

A ideia é apenas isto, uma ideia. Para se transformar em filme, ela primeiro deve poder ser expressa de forma clara e concisa, de modo a poder ser facilmente entendida por qualquer outra pessoa. Digamos que você queira adaptar a peça Romeu e Julieta, de William Shakespeare, ambientando a ação no Rio de Janeiro nos dias atuais. Essa frase que acabei de escrever – “adaptar a peça Romeu e Julieta, de William Shakespeare, ambientando a ação no Rio de Janeiro nos dias atuais” – já serve para transmitir a ideia. Essa frase concisa que descreve brevemente a ideia para o filme é ora chamada de sinopse, ora de storyline.

Há quem diferencia sinopse de storyline, como o roteirista Doc Comparato, em seu livro Da Criação ao Roteiro: “a story line representa o quê (o conflito-matriz escolhido), a sinopse representa o quando (a temporalidade), o onde (a localização), o quem (as personagens) e, finalmente, o qual (a história que vamos contar)”.

 O passo seguinte é elaborar o argumento, que, no entender de Garcia Filho, é “a verdadeira base de todo o filme”, acrescentando que “por argumento, se compreende o conjunto de ideias que serão desenvolvidas no roteiro. Ele tem a ação delineada, bem como a sequência, personagens e locações. Normalmente não tem diálogos e sua narrativa é pobre”. Seu tamanho é variável; enquanto uma convenção de Hollywood estipula que uma página de argumento equivale a dez páginas de roteiro, o crítico Inácio Araújo afirma que “normalmente são utilizadas de duas a quatro páginas para indicar as linhas gerais da história que será tratada: o que acontece, o porquê e quem são os personagens.”

Já o roteiro é um texto com a sequência detalhada das cenas do filme, na ordem em que serão apresentadas ao espectador, contendo indicações de cenários, horários em que as cenas se passam, personagens (com atitude corporal e entonação a usar nas falas, se necessário) e os diálogos completos – basicamente, o roteiro pode ser considerado “o filme por escrito”.

Para exemplificar melhor as diferenças entre argumento e roteiro, vamos ver trechos que correspondem à sexta cena do filme Cidade de Deus, de Fernando Meirelles e Kátia Lund, cujo roteiro foi escrito por Bráulio Mantovani:

Argumento:
Pelas ruas da Cidade de Deus Cabeleira, Alicate e Marreco fogem da polícia. Eles percorrem algumas ruelas, trocam de roupa e correm até o campinho onde fingem jogar bola com os meninos.

Roteiro:
6 EXT. RUAS DO CONJUNTO - DIA
Cabeleira, Alicate e Marreco correm, perseguidos de perto, por um POLICIAL que dá tiros para o alto. Eles riem. E também atiram para o alto.

BUSCA-PÉ (V.O.)
O Trio Ternura não tinha medo de ninguém.
Nem da polícia... Eles achavam que a Cidade
de Deus era deles. Mas tinha um monte de
bandido que achava a mesma coisa. Naquele
tempo, a Cidade de Deus ainda não tinha
dono.

Os bandidos se metem pelas ruelas do local.
MONTAGEM cria a sensação de labirinto: o Policial nunca sabe para onde ir.
Os bandidos param um instante. Tiram as camisetas vermelhas, jogando-as por trás do muro de uma casa. Todos agora estão de camiseta branca. Eles continuam correndo até o...

Há uma importante diferença a respeito de roteiro quando o filme a ser produzido for um documentário. Num filme de ficção, você primeiro estrutura toda a história no papel para só depois filmá-la. Num documentário, você trabalha inicialmente com sinopse e argumento, e aí já parte para produzir a filmagem e filmar. Após a filmagem, você assiste o material captado, fazendo a chamada “decupagem” (ou seja, você anota o que foi gravado e transcreve as falas) e só então escreve o roteiro, que será utilizado nas etapas de montagem e pós-produção.

AUTORIZAÇÕES

Fazer cinema envolve, em algum momento, a necessidade de obter autorizações de outras pessoas. Vamos ver os principais casos:

- você precisa obter autorização para adaptar obra de outra pessoa. Fernando Meirelles e Kátia Lund precisaram obter de Paulo Lins a autorização para transformar o romance Cidade de Deus em filme. Já uma adaptação de qualquer peça de Shakespeare pode ser feita livremente, pois o autor é falecido há mais de 70 anos, prazo após o qual tudo o que alguém tenha produzido passe ao domínio público. Durante o período entre a morte de um autor e a entrada de sua obra no domínio público, a autorização deve ser obtida junto aos herdeiros. Geralmente a autorização é concedida por um prazo determinado, ao fim do qual, se o filme não foi ao menos iniciado, o diretor perde o direito a adaptar a obra para o cinema, e o autor pode vender os direitos para outro produtor.

- você precisa obter autorização para utilizar obra de outra pessoa. Por exemplo, para utilizar uma música na trilha sonora de seu filme, ou ainda um poema ou qualquer texto que não seja seu e que não faça parte da obra cujos direitos foram adquiridos. Em relação a música, caso ela tenha mais de um autor, a contagem dos 70 anos para entrada em domínio público só inicia após a morte do último parceiro. Por exemplo: “Carinhoso” é de Pixinguinha e João de Barro. Pixinguinha faleceu em 1973 e João de Barro em 2006. Portanto, “Carinhoso” só passará ao domínio público em 2077 (a liberação se concretiza em 1º de janeiro do ano seguinte ao que se completam as sete décadas do falecimento). Até lá, a inclusão de “Carinhoso” em filme precisa ser autorizada pelos herdeiros de ambos os autores. A inserção de cenas de filmes brasileiros feitos há mais de 70 anos independe de autorização, bem como o uso de textos de autores falecidos há pelo menos 70 anos. Obras de autores estrangeiros podem ter prazos maiores de proteção aos direitos autorais, pois cada país é livre para fixar o período que quiser, desde que nunca menos de 50 anos, prazo estabelecido pela Convenção de Berna.

- você precisa obter autorização para usar a imagem das pessoas. É o chamado “direito de imagem”. Em cinema, esse direito está mais ligado a documentários – todas as pessoas que irão dar depoimento precisam assinar um documento afirmando que autorizaram ser filmadas. Não é necessário obter essa autorização quando a filmagem for feita em local público, ou em evento aberto ao público.

- você precisa obter autorização para usar o nome das pessoas. Isso pode acontecer, por exemplo, se você quiser adaptar uma biografia. Digamos que você queira filmar um trecho do livro de memórias Antes que me Esqueçam, de Daniel Filho. Depois de obter a autorização do autor para a filmagem, você teria que buscar a autorização de cada pessoa real citada por Daniel no livro que vá se tornar um personagem do seu filme – é um caso semelhante ao do uso de obra alheia: as autorizações referentes a pessoas já falecidas devem ser obtidas com seus herdeiros, com o detalhe de que neste caso não existe o prazo de 70 anos que há em relação ao direito autoral. O direito de imagem é um direito moral, e não prescreve, ou seja, nunca tem fim.

- você também irá precisar de autorização para filmar em imóveis de outras pessoas, sejam casas, empresas, terrenos, fazendas etc. – enfim, todo e qualquer lugar onde você não poderia entrar livremente. Filmar na rua, praia, praças, parques, estradas, rios, lagos etc. independe de autorização.



3
CÂMERA NA MÃO


PRÉ-PRODUÇÃO

Tendo escrito o argumento e/ou roteiro e obtido as autorizações necessárias, é o momento de se dedicar à pré-produção. Nesta etapa, você analisa o roteiro e organiza como se dará a filmagem das cenas; raramente o que vemos na tela corresponde à ordem em que realmente as cenas foram filmadas. O mais comum é ordenar as cenas em função da disponibilidade de locação – digamos que parte da história se passe num hotel; dificilmente há como manter uma equipe de filmagem por semanas a fio em um estabelecimento comercial que esteja funcionando, isso atrapalharia o dia-a-dia do hotel e atrasaria bastante as filmagens. Num caso assim, o hotel, ou a parte dele necessária para o filme, fica à disposição da equipe durante um período X de tempo (horas, ou dias, ou semanas, enfim, o que for combinado) e nesse período todas as cenas que tenham o hotel como locação deverão estar filmadas. Outras variáveis a considerar é a agenda dos profissionais envolvidos – os atores, por exemplo, podem estar participando na mesma época de outro filme, ou de peça teatral, ou ainda de alguma novela ou série. Enfim, é durante a pré-produção que se procura esquematizar o plano de filmagem, ou seja, um cronograma elaborado de modo que se possa fazer a filmagem otimizando ao máximo os profissionais envolvidos e os recursos necessários, levando em conta os recursos disponíveis.

No caso de documentários, o plano de filmagem tem mais a ver com o agendamento das entrevistas; de todo modo, o plano é menos rígido do que o de um filme de ficção, porque nem sempre ao início da produção de um documentário o diretor sabe exatamente quantas pessoas serão entrevistadas, e onde as gravações irão ocorrer. Mesmo no caso de um doc como Edifício Master, de Eduardo Coutinho, que se passa todo dentro de um prédio de Copacabana. A equipe alugou um apartamento no edifício, permanecendo lá durante um mês, e a filmagem aconteceu em apenas 7 dias, ouvindo 37 moradores.

FILMAGEM

Muitas vezes o projeto do filme já está roteirizado e pré-produzido, porém não começa a ser filmado de imediato em função da busca de recursos para a produção do filme. Talvez aqui esteja a maior diferença entre filmes realizados com o apoio de grandes companhias e o cinema independente. Cineastas independentes costumam financiar seus filmes das mais diversas formas: ou com suas próprias economias, ou recorrendo a empréstimos de parentes, ou através de campanhas de financiamento coletivo (também conhecidas pelo nome em inglês crowdfunding), ou ainda inscrevendo o projeto em editais (falaremos mais detalhadamente sobre editais no capítulo 5). Em função disso, pode acontecer de um filme independente ter sua produção iniciada sem que se tenha em mãos todo o valor necessário para sua conclusão.

No cinema independente é comum que a equipe utilize os equipamentos que cada um tem à disposição, como câmeras digitais, tablets e mesmo celulares (já até festivais dos quais só podem participar filmes gravados em celulares e tablets). Havendo dinheiro em caixa, é possível alugar equipamentos, com ou sem os respectivos técnicos, para a realização das filmagens. 

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Os 5 Valores de uma carreira de sucesso



No dia 2 de novembro, publiquei no LinkedIn o texto Como saber se uma proposta vale a pena?, relatando o ocorrido com uma colega jornalista, convidada para ser "ghost writer" de outra pessoa no Facebook. Para minha felicidade, de imediato o texto começou a ser bastante lido e comentado (nenhuma outra publicação minha lá alcançara 55 visualizações em pouco mais de 24 horas). Em função disso, resolvi cumprir logo o prometido ao final daquele texto - publicar lá mesmo no LinkedIn o meu método intitulado Os 5 Valores de uma carreira de sucesso, mencionado naquela postagem. Dividi a publicação lá em duas partes (a primeira entrou no ar dia 4, a segunda ontem). Aqui neste post, você poderá ler o texto completo. Como saber se uma proposta vale a pena?
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O método que intitulei Os 5 Valores de uma Carreira de Sucesso é uma versão atualizada de um workshop que desenvolvi em 2011, chamado Me Formei, E Agora? Apesar deste nome, ele a rigor não era destinado unicamente a recém-formados, embora não há dúvidas de que costumamos ver mais pessoas se dizendo sem saber que rumo seguir na carreira ao terminar a faculdade do que depois de algum tempo de formado. Mas isso não é uma regra, inclusive comigo aconteceu o contrário. Concluí o curso de Comunicação Social - Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Porto Alegre-RS) em 2001, e já tinha definido o que faria a partir dali. 
Desde o ano anterior, eu trabalhava num projeto de programa de rádio que destacaria o samba e o choro, intitulado "Brasileirinho". Pelo fato de, na época, ser funcionário público municipal, eu estava numa situação econômica confortável, que me permitiu seguir na elaboração do projeto até que o julgasse maduro para ser oferecido às emissoras locais. Em 2002, gravei dois pilotos do programa: um, caseiro, em fita cassete, que foi ouvido por algumas pessoas que escolhi a dedo (jornalistas, publicitários, relações públicas) e cuja opinião foi levada em consideração na gravação do segundo piloto, feito em estúdio e finalizado em CD. Não houve interesse, porém, das emissoras da capital gaúcha, nem na minha contratação para fazer o programa, nem na venda de horário que me permitisse levá-lo ao ar. Diante disso, segui com minha proposta de jornalismo musical no site cujo domínio havia registrado, o www.brasileirinho.mus.br 
Jornalismo Cultural - InícioFoi bem depois disso que fiz minha revisão de carreira, experiência que deu origem ao workshop e posteriormente ao método. A revisão aconteceu em junho de 2009; eu saíra do serviço público no final de 2003, pois constatara que a rigidez dos horários a cumprir (entre outros fatores) impediam que eu me dedicasse como queria ao site; não tinha como viajar, por exemplo, a não ser em períodos de férias. Entre 2003 e 2005, fiz várias viagens a Minas Gerais e São Paulo; em uma delas, recebi a solicitação do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo para elaborar o curso Jornalismo Cultural, o que deu origem a outro site meu, o www.jornalismocultural.com.br, e a novos convites para cursos nos anos seguintes em São Paulo (SP), Belém (PA), Joinville (SC), Jaraguá do Sul (SC) e Rio Branco (AC), afora outros chamados para palestras em Salvador e Santo Amaro da Purificação (BA); os convites vindos do meu estado, o Rio Grande do Sul, eram sempre para palestras em faculdades do interior: Novo Hamburgo, Passo Fundo e Santa Maria. Em Porto Alegre, onde eu morava, depois de realizar um curso de Jornalismo Cultural em setembro de 2005, só consegui formar outra turma em agosto de 2009 (mas isto já foi depois da revisão de carreira). Para não depender tanto da receita de cursos e palestras, eu já resolvera em 2006 utilizar minha estrutura de assessoria de imprensa para divulgar trabalhos de terceiros, após três anos de atuação na área divulgando apenas meus próprios projetos. Novamente aqui meus clientes eram todos de fora do Rio Grande do Sul - era chamado para divulgar projetos culturais de brasilienses, cariocas, pernambucanos, paraenses e paulistas, mas nunca de gaúchos. 
Enfim, em junho de 2009 eu me encontrava sem nenhum cliente fixo de assessoria de imprensa, sem chamado algum para palestra ou curso dentro ou fora do Rio Grande do Sul e bastante assustado com a perspectiva econômica imediata, diante desse quadro. Foi então que resolvi promover uma profunda revisão na minha carreira, avaliando minha trajetória até ali e traçando os rumos futuros. Em suma, me planejar. 
E como fiz isto? Bom, eu sei que dizer isso hoje pode até soar mal, mas... me inspirei na FIFA! Sim (risos). Lógico que não nos alegados métodos de suborno, que fizeram a entidade ser alvo de uma operação do FBI em maio de 2015. Em junho de 2009, o que me fez pensar na FIFA foi um evento realizado no final do mês anterior nas Bahamas, onde a entidade escolheu as cidades-sedes da Copa do Mundo marcada para 2014 no Brasil - isso sem falar que a FIFA nos apontara como país-sede em outubro de 2007. Ou seja, definindo o que irá fazer e quando, a FIFA passa a direcionar suas ações para atingir o objetivo estabelecido. Ainda na área esportiva, o mesmo acontece com o Comitê Olímpico Internacional (COI) - também em 2009, mas já em outubro, a entidade decidiu realizar no Rio de Janeiro os Jogos Olímpicos de 2016. Porém, me pareceu que sete anos é um prazo bastante largo para um planejamento pessoal, e optei por trabalhar com a ideia de cinco anos. 
Então me fiz estas duas perguntas, que sugiro que você também se faça: 
1 - Como você se imagina daqui a cinco anos?
2 - O que você não mudaria em sua vida se ganhasse na Mega Sena? Do que você faz hoje, o que continuaria fazendo caso se tornasse milionário do dia pra noite?
Evidentemente, não há resposta 'certa' ou 'errada' para estas perguntas. O objetivo delas é auxiliar no seu processo de conhecimento pessoal.
A primeira pergunta está totalmente ligada à forma como FIFA e COI se organizam: se seu objetivo é traçar um caminho a seguir, isto só será possível se você souber aonde quer chegar. Cinco anos é uma distância de tempo razoável, não muito longa nem extremamente próxima, permitindo à pessoa um certo grau de abstração da situação imediata.
Já a segunda pergunta nos ajuda a definir o que nos motiva - algo que não deixaríamos de fazer mesmo que nunca mais precisássemos de dinheiro para sobreviver. 
Um dos conceitos mais importantes para nosso processo de planejamento é o FOCO, que você poderá notar que eu considero tão importante que sempre o escrevo em maiúsculas. Repetindo a frase dita acima - "se seu objetivo é traçar um caminho a seguir, isto só será possível se você souber aonde quer chegar", o FOCO neste caso é manter-se sempre avançando na direção escolhida.
E como se mantém o FOCO? Cuidando para que as ações a serem desenvolvidas por você se encaixem sempre, ou o máximo possível, numa destas duas categorias:
- ações diretamente ligadas ao objetivo ("ações-fim"); ou
- ações que auxiliem de algum modo na concretização do objetivo ("ações-meio"). 
O que não se encaixar em nenhuma destas duas categorias deve ser evitado, sob pena de consumir seu tempo, seus recursos e seus esforços, sem fazer com que você avance.
Vamos a um exemplo. Digamos que você tenha estabelecido como seu objetivo escrever sobre Economia em algum jornal de sua cidade. Fazer um curso sobre Jornalismo Econômico está diretamente ligado a este objetivo, pois o qualificará para a posição almejada (ação-fim). Já aceitar um “frila” na editoria de Esportes não tem ligação direta com o objetivo, e a princípio, pensando-se em FOCO, deveria ser descartado. Porém, pode acontecer de que seja justamente com o valor que irá receber do “frila” para Esportes que você conseguirá pagar o curso de Jornalismo Econômico - isto torna o “frila” em Esportes, no contexto, uma ação-meio para a obtenção do que você almeja. 
Uma forma bastante segura de verificar o FOCO de uma ação é avaliar sua relação com o que eu denomino Os 5 Valores de uma Carreira de Sucesso
- Currículo
- Experiência
- Contatos
- Projeção
- Remuneração
Mas o que exatamente eu estou querendo dizer com cada um destes Valores?  Vejamos. 
Experiência - Naturalmente, tudo o que fazemos constitui uma experiência. O que é importante aqui é avaliar a qualidade da experiência, sob um parâmetro (apenas aparentemente) muito simples: Eu repetiria esta experiência, sim ou não?
- Currículo - Quantas vezes já não dissemos a respeito de algo que estamos prestes a fazer: Isto vai ficar ótimo no meu currículo? O que se deve considerar aqui é o quanto a ação vai acrescentar em sua bagagem pessoal - a ponto mesmo de, literalmente, ser incluída em seu currículo.
Contatos - Considere aqui qual a capacidade que a ação tem de colocar você em contato com pessoas que podem fazer diferença em seu network.
Projeção - Avalie se a ação poderá de algum modo ajudar a tornar você e/ou seu trabalho mais conhecidos junto a um novo público, que ainda não ouviu falar de você.
- Remuneração - Não é preciso explicar muito este item, não é? O que deve ser avaliado aqui é se o valor oferecido compensa à altura seus esforços de desenvolver o trabalho combinado. 
Importante: não deve se confundir "projeção" com "contatos". A principal diferença é que contatos são diretos e recíprocos - as pessoas conhecem você e vice-versa. No exemplo que vimos acima: os seus colegas do curso de Jornalismo Econômico são contatos seus. Já quando o jornal publicasse seu texto na seção esportiva, você estaria obtendo projeção - pessoas que até ali não sabiam do seu trabalho iam passar a conhecê-lo, saber quem você é, mas não você não vai conhecer nem saber quem são estas pessoas. E por que devemos dar especial atenção à projeção? Porque sem ela apenas os seus contatos diretos é que o chamariam para novos trabalhos. 
Vamos pensar no caso da minha colega que foi convidada para ser "ghost writer": como o nome dela não apareceria nas publicações a serem feitas no Facebook, ela não teria possibilidade alguma de Projeção, nem mesmo de Contatos (seu único contato na atividade seria com o próprio contratante), e logicamente não poderia incluir este trabalho em seu Currículo. Foi por isso que eu disse, no artigo anterior, que eu não aceitaria a proposta "pois ela não contemplaria os valores Currículo, Contatos e Projeção, apenas Experiência e Remuneração, e mesmo esta poderia não compensar". E, de fato, não iria compensar mesmo, pois ao final da negociação o possível-futuro-cliente da minha colega se mostrou disposto a pagar apenas um valor extremamente baixo. A rigor, nem mesmo a Experiência seria válida, pois certamente, mesmo que aceitasse esse trabalho, a colega não pretenderia fazer algo semelhante no futuro. 
Sempre uso este método para avaliar as propostas que recebo, e até mesmo para pensar nos projetos que me proponho a fazer, e ele tem me sido de grande valia ao longo desses últimos seis anos.

Gosto muito de utilizar histórias, sejam reais (acontecidas ou não comigo), sejam fictícias, para ajudar no entendimento e fixação de conceitos. Inclusive quem me honra com a leitura regular de meus artigos sabe que a publicação desta série iniciou com o compartilhamento da consulta que recebi de uma colega jornalista sondada para ser "ghost writter" (veja o texto Como avaliar se uma proposta vale a pena?). 
Quero dividir com vocês agora estas duas histórias:
1 - Em setembro de 2007, fui convidado pelo Ministério da Cultura para palestrar sobre História do Samba na inauguração da Casa do Samba da cidade de Santo Amaro da Purificação, na Bahia. O MinC cobriria todas as despesas, mas não me ofereceria pro labore pela palestra. Aceitei o convite. O que levei em consideração?
Eu iria participar de um evento onde também iriam palestrar José Miguel Wisnik, Caetano Veloso e Carlos Sandroni, entre outros, e que contaria com a presença, no evento inteiro, do então ministro da Cultura, Gilberto Gil, além de ter a oportunidade de passar praticamente uma semana entre o Recôncavo e Salvador (foi minha primeira viagem à Bahia). Era uma experiência que me interessava, além do quê ter participado deste evento ajudou com certeza a valorizar meu currículo posteriormente (concretamente falando, rendeu um convite para que eu retornasse a Salvador em dezembro, para participar dos debates do Dia Nacional do Samba, desta vez com pro labore). Fiz excelentes contatos e também obtive projeção, pois minha palestra foi citada com destaque em jornais da Bahia e n’O Estado de São Paulo antes e depois do evento. Levando-se tudo isso em conta, entendo que ficou plenamente compensada neste caso a ausência de remuneração direta (mas é bom relembrar que não tive despesa alguma desde que saí de Porto Alegre até o momento que retornei).
O Diabo Veste Prada : foto
2 - Em 2006, um dos grandes sucessos do cinema foi o filme O Diabo Veste Prada, estrelado por Meryl Streep e Anne Hathaway, com roteiro de Aline Brosh McKenna, adaptando o best-seller de Lauren Weisberger, e direção de David Frankel. Vou postar aqui trechos do resumo da obra, publicado na página do filme na Wikipedia:  
Andrea "Andy" Sachs é uma aspirante a jornalista que sai da Universidade Northwestern. Apesar de achar ridícula a superficialidade da indústria da moda, ela consegue um emprego que "um milhão de garotas se matariam para ter", ela se torna assistente pessoal júnior de Miranda Priestly, a editora-chefe da revista Runway. Andy planeja aguentar o tratamento arrogante, humilhante e um tanto que explorador, aproveitador, de Miranda por um ano,na esperança de conseguir um emprego como repórter ou escritora em outro lugar. (grifo meu)
A qualquer hora, em qualquer lugar,
a vida de Andy era pautada 
pelas ordens de Miranda

Podemos dizer então que Andy Sachs viu no cargo de assistente pessoal júnior de Miranda Priestley uma oportunidade de, desfrutando de uma boa remuneração, obter contatos que a ajudariam a avançar na direção de seu FOCO. Apenas isto, pois, como ser assistente de uma editora de moda não é, de modo algum, ação-meio para você ser um jornalista da área de cultura, estar nesse cargo em nada lhe ajudava quanto aos valores currículo, experiência e muito menos projeção. Mas nem em relação aos contatos Andy agiu a seu favor: em dado momento, o jornalista e aspirante a escritor Christian Thompson se dispõe a lhe apresentar o editor da New Yorker (este sim um contato alinhado com o FOCO de Andy), porém ela dispensa a oportunidade por:
1-estar, em plena noite, executando um serviço pedido por Miranda;
2- acreditar piamente (mas sem base concreta alguma) que oportunidade semelhante poderia lhe surgir na semana da moda de Paris (onde, naturalmente, todos os editores presentes seriam de moda, e para os quais ela, Andy, não seria uma aspirante a jornalista cultural, e sim uma assistente de uma editora de moda!). Ou seja, durante todo o tempo em que esteve a serviço de Miranda, em momento algum Andy avançou na direção dos objetivos que se propusera ao sair da faculdade. 
Talvez o avanço de Andy houvesse sido mais rápido se, ao invés de secretariar Miranda, ela se dedicasse, logo ao se formar, a estabelecer o seu diferencial competitivo. Que pode ser definido como aquilo em que os outros reconhecem uma competência especial em você – por isso, algumas vezes pode ser algo que até escapa à nossa percepção imediata. Por exemplo, quando recebi o convite, citado acima, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo para elaborar o Curso de Jornalismo Cultural, minha primeira reação foi de estranheza, já que eu não me via como um professor, porém a resposta é que eles gostariam, sim, de conhecer como eu trabalhava nas pautas que publicava no site Brasileirinho.
Som do NorteSeu diferencial competitivo pode variar com o tempo, de acordo com os rumos que sua carreira tome – a partir de agosto de 2009, tão logo eu coloquei o blog Som do Norte no ar, passei a ser chamado por diversas publicações para escrever sobre a música da Amazônia.
O seu diferencial competitivo pode ser inclusive construído - mesmo que não hoje os outros não apontem você como “autoridade” em determinado assunto, você pode investir nisso, através de leituras, estudos, um curso específico etc. Eu sempre procurei ouvir muito Villa-Lobos e ler tudo o que era possível de sua vida e obra, e hoje meu texto sobre as “Bachianas Brasileiras” é citado na Wikipedia como uma referência no assunto; em função disso, cheguei a ser consultado em 2008 por um dos maiores críticos de arte do país, Olívio Tavares de Araújo, quando ele fôra convidado para escrever a respeito da obra do maestro (o artigo, intitulado Villa-Lobos: Configurando um Mundo Sonoro, foi incluído no livro O Brasil como Império, organizado por Sonia Guarita do Amaral, lançado pela Companhia Editora Nacional em 2009).
Enfim, o diferencial competitivo é que fará que as preferências para determinada missão recaiam sobre você e não sobre outra pessoa. Nem todos, é claro, vêm a possuir um diferencial competitivo, mas penso ser fora de questão que dificilmente você conseguirá um destaque a ponto de ser lembrado para trabalhos específicos se não tiver um diferencial competitivo bem estabelecido (e, logicamente, combinado com projeção: não basta você fazer algo muito bem, os outros têm que saber disto).
Planejamento de carreira - Quando já estão claros para você os seus objetivos profissionais, o seu FOCO, as ações-meio e ações-fim para atingi-lo e as relações de tudo isso com os 5 Valores, bem como seu diferencial competitivo, é chegado o momento de você começar a escrever o plano de carreira onde vai detalhar seus rumos futuros. 
No começo do artigo, eu sugeri que você se imaginasse daqui a cinco anos, e também que pensasse sobre o que você não deixaria de fazer mesmo que ganhasse na Mega Sena (ou seja, estabelecer de onde vem sua motivação). Leve em consideração estas respostas para estabelecer seus objetivos. Mesmo que você trabalhe numa empresa (pública ou privada), não se esqueça que a sua carreira é uma responsabilidade sua, logo você é quem precisa ter atenção para verificar se o que a empresa lhe oferece hoje e as perspectivas que aponta para o futuro estão alinhadas com as metas que você definirá em seu plano.
Estabeleça seus objetivos: aonde você quer chegar? O que é importante para você? Pelo que você quer as pessoas lembrem de você futuramente? Objetivos estabelecidos, enumere as ações-meio e as ações-fim relacionadas a cada um deles. Não esqueça, caso você já trabalhe, embora não sendo na área de sua formação, de incluir no plano o que você já faz, afinal se você quiser mudar para outro emprego/atividade terá que planejar esta transição.
(Em tempo: creio ser importante, aqui, esclarecer o meu conceito de planejamento. Eu cada vez menos acredito na possibilidade real de você fazer um planejamento, seja profissional, seja pessoal, que estabeleça ações e metas para prazos determinados e que consiga ser executado à risca - basta apenas pensar em como, por exemplo, a recente alta do dólar modificou completamente as expectativas de tantas pessoas e empresas em nosso país. Enfim, quando falo em "fazer um planejamento", quero dizer detalhar o que você se propõe a colocar em prática, se não houver nenhum imprevisto, seja positivo ou negativo. E o que seria um "imprevisto positivo"? Digamos que você seja convidado para assumir a gerência de uma empresa em sua cidade, ou mesmo em outro estado; a partir do convite, você analisa se o aceita ou não, e caso aceite, se estrutura para a mudança. Mas você não pode viver à eterna espera de que surja uma proposta de trabalho que mude a sua vida; você precisa ter definido o que você quer fazer, independente de receber ou não alguma proposta. E é a este definir o que você quer fazer que eu chamo de planejar-se.)
Cada ação, seja ela meio ou fim, incluída no plano deve estar acompanhada de alguns parâmetros acerca de sua realização: 
- Prazo: até quando, ou a partir de quando, você se dedicará a essa ação? Pode ser uma data específica, ou uma estimativa (“curto”, “médio”, “longo prazo”).
- Barreiras: o que você imagina que poderá atrapalhar ou mesmo impedir a concretização da ação? De que alternativas você dispõe para contornar estes obstáculos? Avalie também se, caso a ação se torne impossível, em que grau isso compromete o êxito do plano.
- Parceiros: com quem você pode contar para a realização da ação planejada? De que forma eles participariam?
- Valores: a qual, ou quais, dos 5 Valores (Currículo, Experiência, Contatos, Projeção e Remuneração) a ação está relacionada?
- FOCO: a ação tem mesmo relação com seu FOCO de carreira? Se não tiver, mesmo assim ela merece ser feita, ou ao menos há justificativa para que ela conste do plano?
Não há um modelo a ser seguido na redação de seu plano. Por ser algo que incorpora as suas experiências e reflete as suas expectativas, ele deve ser redigido da forma que lhe permita melhor visualização dos caminhos traçados e, dentro de pouco tempo, dos progressos alcançados. Apenas uma observação, fruto de minha experiência pessoal: quando o único valor relacionado a uma ação, seja ela meio ou fim, for a remuneração, geralmente essa ação acaba sendo de curto prazo, já que há ‘N’ outras formas de ganhar dinheiro com algo que tenha mais ligação com o seu FOCO - como, aliás, creio ter ficado bem demonstrado no caso da jornalista que se recusou a ser ghost writtter.  
Quando escrevi meu primeiro plano, em junho de 2009, dividi-o em linhas de atuação, cinco ao todo, e em cada uma detalhei as ações-meio e ações-fim correspondentes. Embora eu tenha chegado a implementar com sucesso algumas das ações que me propus então - uma delas, o lançamento do Som do Norte -, em poucos meses eu me dei conta de que era necessário promover uma alteração radical no plano. 
Assim, meu segundo plano foi redigido em novembro de 2009, e teve como principal mudança a substituição das cinco linhas de atuação pelas áreas “Vida”, “Carreira” e “Parcerias”. Na primeira, estão ações que quero ou necessito fazer e que não têm a ver diretamente com meu trabalho – foi ali, por exemplo, que fixei o objetivo de me mudar para Belém, em razão do sucesso de meu blog Som do Norte, lançado em agosto de 2009. Em “Carreira”, estão objetivos e ações especificamente ligados ao meu FOCO - minha atuação como jornalista cultural, cineasta e palestrante. Já em “Parcerias”, vão as ações que tenho interesse em realizar, sem que delas vá depender a minha sobrevivência – caso de minha atuação como produtor cultural ou assessor de imprensa, em ambos os casos de trabalhos artísticos de terceiros. Esta, veja bem, é a divisão do plano que a mim parece a mais lógica desde então. Você pode – e deve – criar a que lhe parecer melhor, e que lhe permita uma visualização mais clara de suas metas.  
Reconheço que se passou um tempo relativamente muito curto entre o primeiro plano (junho de 2009) e o segundo (novembro de 2009, apenas cinco meses depois). E por quê? Isto se deveu a dois fatores: primeiro, ao grande sucesso de uma iniciativa prevista na versão de junho – o já bastante citado lançamento do Som do Norte. O interesse demonstrado ao longo dos anos anteriores pelo público nortista em relação a meu trabalho como jornalista cultural, mais os contatos (então) recentes e cada vez mais intensos com a cena dos estados da Amazônia, em especial a do Pará, animou-me a criar o blog, cobrindo a movimentação musical da região Norte, extensa área do país ausente da grande mídia na ocasião – minha iniciativa antecedeu em três anos o “estouro” da música paraense, que projetou nacionalmente artistas como Gaby Amarantos, Lia Sophia e Felipe Cordeiro. O sucesso imediato do blog fez com que, em “Carreira”, eu optasse por cancelar as páginas de agenda cultural dos sites Brasileirinho e Jornalismo Cultural (já que não conseguia mais atualizá-las como deveria), e, em “Vida”, incluísse como objetivo a mudança para Belém tão logo fosse possível (o que foi viabilizado em junho de 2010). Não fosse esta grande repercussão do blog, talvez eu demorasse mais tempo para me dar conta dos erros cometidos na formulação do primeiro plano.  
Onde errei? Foram três os principais erros.
  • Primeiro, havia um único grande objetivo no plano, cuja concretização era dificílima: quase tudo convergia para a linha de atuação “Rede” – era minha idéia inaugurar e/ou adquirir uma casa de shows em cada cidade-sede da Copa do Mundo de 2014 (para custear isso, provavelmente, só ganhando mesmo na Mega Sena!).

  • Segundo, o plano era redigido aos moldes de uma lista de tarefas, e a cada ação realizada (ou descartada), eu ficava ansioso para substituí-la logo por outra, como se houvesse alguma lógica no acúmulo de tarefas realizadas.

  • Terceiro, faltava FOCO em minha atividade como jornalista, como é facilmente dedutível pela simples menção à tal rede de casas de shows, ideia bastante utópica, convenhamos (basta dizer que nunca ao menos se tentou criar uma rede assim em nosso país). Era como se em meu próprio plano eu mesmo não acreditasse no meu potencial como jornalista!
Felizmente, o sucesso do Som do Norte, ação essencialmente jornalística que me deu uma visibilidade (= projeção) que eu jamais tivera na profissão até então, abriu inúmeras portas para mim a partir dali. Por exemplo, de uma série de entrevistas com personalidades da música nortista, publicadas no blog a partir de 2013, veio a ideia de gravar entrevistas em vídeo com As Tias do Marabaixo, o que acabou originando a uma série de documentários lançados em 2015 e dando o impulso inicial para eu abraçar uma nova carreira, a de cineasta. Enfim, claro que eu não tinha como prever isso ao final de 2009, mas em cinco meses ficou claro que eu precisava revisar com urgência o plano, o que me oportunizou identificar e eliminar os erros citados acima.

As Tias do Marabaixo
Para concluir, creio ser importante ressaltar que o plano, por si só, não tem “poderes mágicos” – de nada adianta escrevê-lo e deixá-lo esquecido num canto da casa ou do computador; é você quem deverá se empenhar, diariamente, para transformar seus objetivos em realidade.
Outra observação importante é que o plano não deve ser tratado como algo imutável. Ele pode e deve ser mudado quantas vezes se mostre necessário, seja por erros constatados, seja por novos acontecimentos, que podem ser conseqüências do próprio plano, ou mesmo não previstos. Afinal, se você trabalhar adequadamente a partir de agora pela sua carreira, em especial se cuidar do valor “Projeção”, aumentam as possibilidades de que você receba convites inesperados para novos desafios – e aí caberá a você ver se eles são compatíveis com o já planejado, ou merecem até uma revisão do plano. Não se esqueça de avaliar qualquer novo convite que receber com base em seu FOCO e nos 5 Valores - Currículo, Experiência, Contatos, Projeção e Remuneração.