sexta-feira, 20 de abril de 2018

Novos editais: Cinema


Editais abertos nesta semana dos quais cineastas brasileiros podem participar, sem cobrança de taxa de inscrição, em qualquer país do mundo. Confira outros editais abertos.




  • CADASTRO DE PROPOSTAS PARA O SESC-SC - Profissionais do audiovisual de todo o Brasil (exceto de Santa Catarina) podem cadastrar propostas de palestras, oficinas e assessorias, para possível contratação ao longo do ano. Inscrições prorrogadas até  16.4. Informações: https://cultura.sc/sesc/inscrevase

  • FESTIVAL DE INVERNO DE OURO PRETO E MARIANA: FÓRUM DAS ARTES 2018 - Pessoas jurídicas atuantes no ramo do Audiovisual podem propor eventos culturais e oficinas a serem realizados durante o Festival, programado para acontecer em Ouro Preto, Mariana e João Monlevade (MG), de 6 a 22.7. Inscrições até 29.4. Premiação: R$ 300 a R$ 1.000 (eventos) e R$ 50 por hora-aula (oficina). Informações: http://festivaldeinverno.feop.com.br/


  • “Encontros com o Cinema Brasileiro” - XXVIII Edição - Esta etapa irá selecionar longas brasileiros, de no mínimo 60 minutos, e inéditos internacionalmente, para a Mostra Internacional de Arte Cinematográfica de Veneza (Itália), que acontece entre 29.8 e 8.9, e para o Festival de Cinema de Locarno (Suíça – 1 a 11.8). Podem se habilitar também filmes ainda não finalizados, mas já com corte provisório de imagem/som, bem como filmes já exibidos no Brasil há no máximo um ano até o final das inscrições. Inscrições até 29.4. Regulamento: https://ancine.gov.br/sites/default/files/1-%20EncontrosCB-RegulamentoXXVIII.pdf

  • CORREDOR CULTURAL 2018 - Artistas do ramo do Cinema podem cadastrar propostas de atividades culturais para o evento, a ser realizado em Juiz de Fora (MG) de 25 a 27.5. Inscrições até 30.4. Premiação: até R$ 2.000. Informações: https://www.pjf.mg.gov.br/corredorcultural/




  • CURITIBA_LAB - Roteiristas e cineastas podem se inscrever no Módulo Longa-Metragem do Curitiba LAB, um espaço para desenvolvimento de projetos cinematográficos, com o objetivo de apontar suas forças e fraquezas, além orientar os produtores de modo a tornar seus projetos mais atraentes e viáveis.  Inscrições até 7.5. Informações: https://www.olhardecinema.com.br/2018/br/curitiba_lab-2018/

  • 46º FESTIVAL DE GRAMADO - O tradicional festival gaúcho recebe inscrições de filmes concluídos a partir de maio de 2017.  Inscrições prorrogadas até 11.5. Premiação: R$ 1.000 a R$ 5.000 (remuneração pela exibição, para todos os selecionados) e R$ 5.000 a R$ 65.000 (filmes premiados com o Kikito). Informações: http://www.festivaldegramado.net/noticias/inscricoes/ (OBS: no edital e no site ainda consta a data final anterior, 22.4. A prorrogação foi informada pelo Festival no Twitter em 20.4 - https://twitter.com/cinemadegramado/status/987378608544075777 )





  • MOSTRA PERMANENTE DE CURTAS - Seleção de curtas falados ou legendados em português, de até 25 minutos, produzidos a partir de 2000, para exibição em Goiânia (GO) entre julho de 2018 e junho de 2019. Cada diretor pode inscrever até 3 obras. Inscrições até 21.5. Premiação: R$ 400. Informações: http://kinoptera.com/mostra-permanente-de-curtas/

  • 7º FILMAMBIENTE - O festival, a ser realizado no Rio de Janeiro e em Niterói de 20 a 26.9, aceita filmes - documentários, ficções, filmes experimental e de animação -, sejam curtas (até 20 min) ou longas (a partir de 60 min), com tema ambiental, realizados a partir de 2016 e inéditos no Brasil e na internet. Inscrições até 30.5. Premiação: segundo o edital, o festival "poderá conceder prêmios em dinheiro". Informações: http://filmambiente.com/festival/pt/convocatoria2018/

  • DESENVOLVIMENTO DE PROJETOS PARA A INFÂNCIA - Empresas com registro regular na Ancine podem apresentar propostas de Desenvolvimento de Projetos de Obras Audiovisuais Não Seriadas de Longa-metragem de Ficção, de Animação e para Obras Audiovisuais Seriadas para Televisão, de Ficção e de Animação, para o público de 0 a 12 anos. Trinta por cento dos projetos selecionados devem ser de produtoras sediadas nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste e outros 20% de produtoras sediadas na região Sul e nos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Em relação aos roteiros, 50% dos projetos devem ter por roteiristas mulheres, cisgênero ou transexual/travesti; 50% dos projetos selecionados deverão ter novos roteiristas e 25% dos projetos selecionados deverão ter roteiristas negros e/ou indígenas. Inscrições prorrogadas até 30.5. Premiação: R$ 200.000. Informações: http://www.cultura.gov.br/edital-desenvolvimento-de-projetos-para-a-infancia


  • DESENVOLVIMENTO DE PROJETOS - 200 ANOS DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL - Empresas com registro regular na Ancine podem apresentar propostas de Desenvolvimento de Projetos de Obras Audiovisuais Não Seriadas de Longa-metragem de Ficção, de Animação e de Documentário, e para Obras Audiovisuais Seriadas para Televisão, de Ficção e de Animação, com temática relacionada ao bicentenário da Independência do Brasil. Trinta por cento dos projetos selecionados devem ser de produtoras sediadas nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste e outros 20% de produtoras sediadas na região Sul e nos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Em relação ao roteiro, 50% dos projetos devem ter roteiristas mulheres, cisgênero ou transexual/travesti; 50% dos projetos selecionados deverão ter novos roteiristas e 25% dos projetos selecionados deverão ter roteiristas negros e/ou indígenas. Inscrições prorrogadas até 30.5. Premiação: R$ 100.000 e R$ 200.000. Informações: http://www.cultura.gov.br/1372




  • (RJ) EDITAL DE FOMENTO AO AUDIOVISUAL - Produtoras brasileiras com registro na ANCINE e sediadas no estado do Rio de Janeiro podem apresentar projetos de produção de curtas, médias e longas, séries para TV, telefilmes, distribuição comercial de longas, produção e difusão de conteúdos audiovisuais em novas mídias, pesquisas sobre o setor audiovisual, além de categorias específicas para realização em Niterói (RJ): manutenção de cineclubes, projeções em espaços urbanos e mostras e festivais de cinema. Inscrições até 4.6. Premiação: R$ 20.000 a R$ 900.000. Informações: http://culturaniteroi.com.br/chamadas/?id=151


  • SÃO PAULO WEBFEST - Podem ser inscritas séries com pelo menos 2 episódios produzidos a partir de dezembro de 2015. Inscrições até 10.6. Premiação: o item 14 do regulamento menciona prêmios em dinheiro, sem especificar o valor. Regulamento: http://www.spwebfest.com/#rules

  • 3ª MOSTRA TELA INDÍGENA - Podem ser inscritos filmes (curtas, médias, longas, live action ou animação) realizados por indígenas das Américas. Filmes com temática indígena, feitos por realizadores não-indígenas, também serão aceitos. A mostra está prevista para os dias 13 a 17.9 em Porto Alegre (RS).  Inscrições até 10.6. Informações: https://www.mostratelaindigena.com.br/

  • VI Tudo Sobre Mulheres: Festival de Cinema Feminino de Chapada dos Guimarães – Podem participar curtas de até 25 minutos que focalizem o protagonismo feminino em narrativas que priorizam personagens mulheres em suas múltiplas identidades. O festival será realizado na cidade mato-grossense de 5 a 9.9. Inscrições até 29.6.  Informações: http://tudosobremulheres.art.br/inscricao/

  • FestCine Poços de Caldas - Curtas de ficção lançados nacionalmente entre junho de 2016 e junho de 2017 em circuito nacional podem ser inscritos no festival, que acontece em Poços de Caldas (MG) de 26 a 29.7. Inscrições até 30.6. Informações: https://filmfreeway.com/Festcine

  • METRÔ: Festival do Cinema Brasileiro Universitário - O festival aceita inscrições de curtas de até 30 minutos finalizados a partir de 2016, que tenham na direção e em ao menos uma outra função técnica de relevo universitários ou estudantes de Cinema/Audiovisual. O evento acontece em Curitiba, em data ainda não divulgada no site do festival. Inscrições até 6.7.  Informações: http://metrouniversitario.com.br/

  • 40 FESTIVAL INTERNACIONAL DEL NUEVO CINE LATINOAMERICANO - O festival promove diversos concursos. O de Filmes compreende as categorias de Ficção, Documentário e Animação. Na categoria Ficção, concorrem separadamente: Longas-Metragens; "Ópera Prima" (primeiro longa de seu diretor); e Curtas e Médias-Metragens em uma única disputa. Todos os filmes devem ter tema latino-americano e ter sido concluídos a partir de 2017. Há também um concurso de Roteiros Inéditos, para autores da América Latina e do Caribe; um concurso de Cartazes, para autores da América Latina e do Caribe; e um Concurso de Pós-Produção, para longas (ficção, animação ou documentário) sobre temas latino-americanos e caribenhos, iniciados em 2017 ou 2018. O festival será realizado em Havana (Cuba) de 6 a 16.12. Inscrições até 30.8.  Informações (em espanhol): http://habanafilmfestival.com/reglamento/


quinta-feira, 19 de abril de 2018

Novos editais: Fotografia

Editais abertos nesta semana dos quais fotógrafos brasileiros possam participar, sem cobrança de taxa de inscrição, em qualquer país do mundo. Confira outros editais abertos.








  • Der Greif »Guest Room: Siobhán Bohnacker« - Podem ser inscritas fotos com o tema "Pertencimento" para avaliação da editora sênior da revista The New Yorker. As fotos selecionadas poderão ser publicadas no site alemão Der Greif. Inscrições até 26.4. Informações (em inglês): https://www.picter.com/dergreif/guest-room-siobhan-bohnacker/

  • FESTIVAL DE INVERNO DE OURO PRETO E MARIANA: FÓRUM DAS ARTES 2018 - Pessoas jurídicas atuantes no ramo das Artes Visuais podem propor eventos culturais e oficinas a serem realizados durante o Festival, programado para acontecer em Ouro Preto, Mariana e João Monlevade (MG), de 6 a 22.7. Inscrições até 29.4. Premiação: R$ 300 a R$ 1.000 (eventos) e R$ 50 por hora-aula (oficina). Informações: http://festivaldeinverno.feop.com.br/

  • CORREDOR CULTURAL 2018 - Artistas do ramo da Fotografia podem cadastrar propostas de atividades culturais para o evento, a ser realizado em Juiz de Fora (MG) de 25 a 27.5. Inscrições até 30.4. Premiação: até R$ 2.000. Informações: https://www.pjf.mg.gov.br/corredorcultural/








  • PLASTIC - Seleção de fotos sobre o tema, para participar de exposição em Roma (Itália) em agosto. A exposição irá destacar, através de uma visão mais ou menos crítica, aspectos relacionados à vida do indivíduo e à moderna sociedade tecnológica. Inscrições até 15.5. Informações (em inglês): https://www.loosenart.com/pages/calls 


  • Edital Prêmio Funarte Arte e Educação 2018 - O edital visa premiar projetos, propostas artísticas e planos de trabalho na linguagem de Artes Visuais, em quaisquer meios e formatos, que promovam o reconhecimento e incentivem a continuidade de iniciativas inovadoras e experimentais no campo da arte e educação, e tenham sido realizados a partir de 2016. Inscrições até 28.5. Premiação: R$ 5.000 e R$ 10.000. Informações: http://www.funarte.gov.br/edital/edital-premio-funarte-arte-e-educacao-2018/

  • 6º Prêmio FOCO ArtRio - Artistas brasileiros com até 15 anos de carreira podem se inscrever. Inscrições até 31.5. Premiação: residência artística de 6 a 8 semanas no Rio de Janeiro, Salvador ou Havana (Cuba) e participação na exposição coletiva durante o ArtRio (Rio de Janeiro, 26 a 30.9). Informações: http://artrio.art.br/premio-foco-inscricao


  • 6º Prêmio EDP nas Artes - Artistas brasileiros com idades entre 18 e 29 anos podem inscrever obras inéditas. Os selecionados irão expor em São Paulo em novembro e concorrer a residências artísticas no exterior. Inscrições até 8.6. Premiação: R$ 2.500. Regulamento: http://premioedpnasartes.institutotomieohtake.org.br/regulamento/


  • The Getty Images ARRAY Grant - A bolsa visa dar apoio financeiro a artistas que capturam a narrativa visual de comunidades étnicas sub-representadas e usam seu meio para progredir na representação visual - comunidades como Afro-Americano, Caribe, Sul da Ásia, Árabe, Indígenas ou Latinos. Inscrições até 8.6. Premiação: 5.000 dólares. Informações (em inglês): http://wherewestand.gettyimages.com/gi_grants/array-grant/#how_to_apply


  • Capricious Photo Award - Fotógrafos podem se inscrever para se habilitar a recursos visando a publicação de um fotolivro de edição limitada. Inscrições até 15.6. Premiação: 10.000 dólares. Informações (em inglês): https://www.picter.com/capricious/photo-award-2018/





  • 2ª BIENALSUR - Artistas e curadores podem inscrever projetos de obras e curadorias de pesquisa para integrar a programação de sua segunda edição, que terá lugar em diferentes locais e espaços localizados em um território expandido e multipolar que integra simultaneamente aos países da América do Sul e outros da África, Ásia, Europa, América Central e do Norte, entre junho e setembro de 2019. Inscrições até 30.6. Informações: http://bienalsur.org//pt/convocatoria



  • 2018 Photogrvphy Grant - Fotógrafos com mais de 18 anos podem inscrever projetos em andamento ou concluídos a partir de 2015, com um destes temas: Corpo, Clima, Cotidiano, Experimental, Urbano. Inscrições até 31.8. Premiação: 1.000 dólares. Informações (em inglês): http://grant.photogrvphy.com/page/terms-conditions



  • Smithsonian.com’s 16th Annual Photo Contest  - Fotógrafos com mais de 18 anos podem inscrever séries de até 15 imagens, feitas a partir de 2016, com os temas Mundo Natural, Viagem, Pessoas, A Experiência Americana, Imagens Alteradas e Mobile (fotos feitas com celular ou tablet). Inscrições até 30.11. Premiação: 500 e 2.500 dólares. Informações (em inglês): https://www.smithsonianmag.com/photocontest/rules/



terça-feira, 17 de abril de 2018

Dona Ivone Lara, um desfile de dignidade do Samba



O pianista Leandro Braga afirma que Dona Ivone Lara é uma das maiores compositoras brasileiras. E deixa claro que não se refere apenas ao universo do samba. Braga vê junto dela apenas nomes como Heitor Villa-Lobos e Tom Jobim, este com certeza o inspirador da frase que tem repetido por onde passe: "A gente (ainda) vai ter um aeroporto com o nome dela".

Braga sabe do que fala. Em 2001, gravou o CD instrumental Primeira Dama, só com melodias da grande partideira da Serrinha (menos uma faixa, justamente a título, feita por Braga em homenagem a ela). Dª Ivone inclusive participou da gravação do disco.

Dito assim, fica difícil acreditar que os dois nunca haviam se apresentado juntos. Pois é, a honra de reuni-los no palco pela primeira vez coube ao projeto Unimúsica - Piano e Voz, desenvolvido em Porto Alegre pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

O espetáculo da tarde de 12 de fevereiro de 2004 foi aberto por Braga ao piano, tocando mansamente "Pra Afastar a Solidão" (Dona Ivone Lara - Délcio Carvalho). Em alguns momentos, o pianista chegou a tocar só com a mão esquerda, deixando a direita balançando. Em seguida, um sambão temperado com alguma sutileza: "Tendência", parceria de dª Ivone com Jorge Aragão.

Braga, a partir de seu trabalho com as músicas de dª Ivone, elaborou um método para explicar aos pianistas do país do samba como se toca samba no piano. Parece incrível, mas é difícil mesmo ver um samba bem tocado ao piano, geralmente o intérprete puxa para o choro. Braga atribui o fato à recusa dos pianistas em aceitarem o fato de que o piano é um instrumento de percussão - de cordas, sim, percutidas (o som que ouvimos vem de martelinhos que, acionados pelas teclas, batem nas cordas) -, provavelmente devido ao tradicional desprezo europeu pelo ritmo em detrimento da melodia e da harmonia.

Outro sambão em que Braga não deixou dúvidas a respeito da utilidade de seu método foi "Mas Quem Disse que Eu te Esqueço?" (parceria de dª Ivone com Hermínio Bello de Carvalho). Entre um e outro, momentos de calma para a platéia respirar: Braga apresentou sua homenagem a dª Ivone com "Primeira Dama" - motivo bem sincopado, harmonia explorando as possibilidades do tom menor, num andamento calminho - e na fantasia sobre "Sonho Meu" (clássico dela com Délcio Carvalho), em que ele conseguiu um efeito belíssimo na cadência em oitavas descendentes. Ao final de "Sonho Meu", enfim o momento tão aguardado: dª Ivone Lara surge majestosa no palco, fazendo um vocalise nesse samba que é um dos preferidos dela (e o que eu mais gosto do seu repertório).

Dizer que o público que lotava o Salão de Atos da UFRGS aplaudiu dª Ivone é pouco. A princípio, sim, foram aplausos. Em pouco tempo, a cada samba se sucedia uma ovação, uma apoteose, um culto à grande dama do samba, plena em sua dignidade, cantando com voz forte, clara, firme, afinadíssima, BELA!

O público ainda ficou contido sob a emoção de vê-la enquanto ela apresentou outro clássico, "Alguém me Avisou" (outra da superparceria com Délcio Carvalho). Depois, cantou junto com a dama praticamente todas as músicas: "Enredo do Meu Samba" (parceria com Jorge Aragão), simplesmente de arrepiar; "Nasci para Cantar e Sonhar" (que ela principiou cantando forte, ligando as notas, para repeti-la fraseando meio tom acima), em que ela suspendeu levemente a barra da saia para mostrar que tem muito samba no pé também, dançando ao som das palmas ritmadas da platéia; e o pot-pourri "Acreditar" (sublime) e "Sonho Meu", essa também arrepiando - ah, novamente duas músicas com Délcio.

Dª Ivone quis encerrar com o samba-enredo "Aquarela Brasileira" (Silas de Oliveira), que iniciou com um vocalise, passando a cantar com firmeza, força, beleza. O público não ousava nem respirar nessa hora, que dirá cantar junto. Mas eis que depois do verso "assisti em Pernambuco à festa do frevo e do maracatu", dª Ivone convocou a todos: "Pode cantar, minha gente!" e a partir daí o salão explodiu num coro só: "Brasília tem o seu destaque...".

Quis encerrar, eu disse, pois após esse samba, a grande dama foi aplaudida de pé por mais de três minutos. Para retribuir o carinho recebido, dª Ivone cantou seu primeiro partido-alto, composto quando tinha 12 anos: "Tiê", acompanhada por todo o auditório na voz e nas palmas ritmadas, que a animaram a sambar mais um pouco. Braga alternou os ritmos, forte no refrão e suave nas segundas-partes. Encerrado "Tiê", ambos se retiraram do palco.

O público ainda aplaudiu de pé por mais de dois minutos, pedindo a dª Ivone que voltasse. Ela, porém, não retornou. Eu compreendo. Essa atitude, partindo de um artista jovem, poderia ser vista como pedante, mas depois de 82 anos de pura magia ninguém seria capaz de pensar isso de dª Ivone Lara. A hora que ela passara conosco já nos reconfortou a alma pro ano inteiro.

Noto que, a partir da entrada de dª Ivone no show, pouco falei de Braga. É natural, pois assim correspondo à postura que ele adotou no palco: tocando maravilhosamente os sambas (inclusive dando um show à parte em "Aquarela Brasileira"), mas sempre demonstrando que considerava que o espetáculo era dela. Vinda de um compositor e um arranjador de seu quilate, essa atitude só poderia ser uma homenagem. E era.


  • Making-off do texto - Publicado no site Brasileirinho poucos dias após o show. Foi a segunda e última apresentação que vi de Dona Ivone Lara. Gravei o show num gravador digital, o que permitiu, entre outras coisas, determinar com exatidão quanto tempo o público aplaudiu nas partes finais (houve na época quem chegasse a me perguntar como eu apurara isto - risos). 

  • Já não recordo exatamente da data do show anterior, apenas lembro que foi um evento comemorativo do Dia Internacional da Mulher no Auditório Araújo Vianna (Porto Alegre), quando ele já contava com a cobertura, inaugurada em 1996. Creio que terá sido em março de 2001.

  • A foto que abre a matéria foi publicada no Correio do Povo no dia do espetáculo, sendo creditada como "Divulgação/CP".

  • Dona Ivone Lara (1921-2018) foi a primeira mulher a fazer parte da ala de compositores de uma escola de samba - a Império Serrano, que desfilou em 1965 com seu samba-enredo "Os Cinco Bailes da História do Rio", parceria com Silas de Oliveira e Bacalhau. Para mim, pessoalmente, é a autora do meu samba preferido desde a infância - "Sonho Meu", parceria sua com Délcio Carvalho, que conheci na gravação de 1978 com Maria Bethânia e Gal Costa.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Novos editais de Literatura



Editais abertos nesta semana dos quais escritores brasileiros podem participar, sem cobrança de taxa de inscrição, em qualquer país do mundo. Confira outros editais abertos.









quarta-feira, 4 de abril de 2018

Pantera Negra, um sopro de esperança

Por Bianca Oliveira
do Rio de Janeiro




Vocês sabem o quanto eu comento aqui sobre a importância da representatividade, não é? E soa até clichê eu voltar nesse assunto ao falar de Pantera Negra, mas o que posso fazer? Pantera Negra é sinônimo de representatividade! Você pode ser adepto do discurso de que: “Já existiram outros heróis negros”. Isso é verdade! Mas com que frequência um filme de Hollywood tem um elenco majoritariamente negro? E vai além disso, esse elenco é inteligente, é poderoso, é rico, não o negro pobre estereotipado... A gente sabe como a mídia representa um negro e quando um longa vai contra tudo isso, não podemos nos calar.

Para não fugir muito da crítica, vamos focar primeiramente nas questões técnicas do filme, ok? Em Pantera Negra vemos T’challa (Chadwick Boseman) se tornando Rei de Wakanda após a morte de seu pai T’chaka (John Kani) em Capitão América: Guerra Civil. Wakanda não é um lugar qualquer, pois simboliza a união entre as raízes e a modernidade, possui também uma tecnologia altamente avançada e uma cultura extremamente rica - além do vibranium que é um dos mais resistentes e poderosos metais da Marvel. Mas nem tudo ocorre como T’challa deseja, um antigo inimigo questiona seu poder e coloca Wakanda em risco. Cabe ao rei achar um jeito de devolver a paz ao seu povo.



O elenco é lindo! Não consigo achar outra palavra para definir. Boseman é um líder nato e está, aparentemente, super se identificando com seu personagem, ele transmite muito bem todas as dúvidas, motivações, tristezas, alegrias, absolutamente todas as sensações que T’Challa está sentindo. A representação feminina também é importante aqui, o longa coloca em tela mulheres fortes, inteligentes, que assumem seu poder. Lupita Nyong’o e Danai Gurira nos mostram uma atuação “power”, principalmente nas cenas de batalha, há em cena um ar de empoderamento inspirador. Letitia Wright é a surpresa do dia, a atriz nos presenteia com uma Shuri - irmã mais nova do protagonista - divertida e carismática, sendo o cérebro, o gênio tecnológico daquele lugar.



Não é difícil ter um elenco elogiado pela crítica, não é? Qual é o maior erro do mundo Marvel? O que eu e quase todos os fãs sempre reclamam? Estrelinha para quem respondeu que eram os vilões. Eles sempre são rasos e servem apenas como um degrau para levantar a moral dos protagonistas. Só que dessa vez não. Michael B. Jordan tem uma base fundamentando, um porquê da sua raiva, do seu rancor, ele intimida com o olhar, a sua ameaça amedronta a todos, o seu passado tem um peso muito especial. Eu posso dizer facilmente e sem medo, que ele é o melhor vilão que a Marvel já criou. Com Andy Serkis isso já não funciona tão bem, mas é inegável a importância de sua participação.

A caracterização de Wakanda funciona de forma eficiente. A fotografia aí vai muito além das belíssimas paisagens, ela está no cuidado com o figurino, a movimentação dos corpos, a ambientação do lugar que mescla perfeitamente o tribal com o avanço tecnológico.  A força da trilha sonora com os tambores, a dança, a construção por completo dos costumes, línguas, de tudo é diferente do que já vimos, sabe? O que eu senti ali? Que a ideia era representar a África e não agradar a América e não tenho nem como expressar a importância disso.

Ryan Coogler possui uma direção firme, sólida que sabe o que quer entregar. A construção da ambientação, caracterização, movimentação da câmera, tudo tecnicamente e perfeitamente alinhado. Mas a sua preocupação foi tão detalhada nisso que as cenas de ação deixaram e muito a desejar, elas quebravam o ritmo de uma forma que incomodava. O roteiro também não teve nada de extraordinário: ele funciona, segue aquela linha de clichês, porém não diminui em nada a beleza do longa.

Como resumir tudo que eu vi ali em uma frase só? Para mim o filme simboliza luta, representatividade, dar exemplo aos jovens negros de que eles podem ser reis, gênios, fortes, ali a gente vê um novo “tipo de padrão”. Sem dúvida alguma, é o filme mais politizado e profundo dos Estúdios Marvel, não tem aquele tom de piadinhas que estamos acostumados a ver, e as cutucadas políticas estão presentes. E se vocês tinham dúvida do poder da representação é só dar uma olhada nos números: com a arrecadação do 3º fim de semana o filme garantiu que a bilheteria americana atingisse US$ 1 bilhão em fevereiro pela primeira vez; foi ainda a terceira produção a atingir mais rápido a marca de US$ 500 milhões nos Estados Unidos. Em um mundo tão mau, ver Pantera Negra nos dá um ânimo, um sopro de esperança, não só no mundo cinematográfico, como na vida real também.



sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Opinião Cinema: O Touro Ferdinando

Por Bianca Oliveira,
de Macapá



Em 1936, o escritor americano Munro Leaf lançou o livro O Touro Ferdinando (no original, "The Story of Ferdinand"). Sua obra era considerada algo progressista e foi proibida em vários países, como a Espanha na época do ditador Francisco Franco. Em 1938, Walt Disney produziu um curta-metragem com a adaptação do livro, com direção de Dick Richard, que ganhou o Oscar no ano seguinte. Oitenta anos depois, o maior nome da animação brasileira, Carlos Saldanha, volta a adaptar esse clássico da literatura infantil para o cinema, com o estúdio Blue Sky, com o qual ele já produziu animações famosas como a trilogia A Era do Gelo e Rio (leia aqui a crítica sobre Rio 2). E é sobre esta nova adaptação que vamos falar aqui.

O longa começa nos apresentando um Ferdinando pequeno. Um bezerrinho crescendo em um rancho na Espanha, onde touros são criados para lutar nas touradas e aqueles que não são fortes o bastante são vendidos para um abatedouro. No meio disso tudo, vemos que Ferdinando é incomum, ele é contra violência, ama flores. Diferente dos outros, ele não sonha em lutar nas touradas, quer um futuro em paz. Pequeno, ele vê seu pai sair para uma tourada e nunca mais voltar, daí acaba fugindo e encontrando Nina, que mora com sua família em uma fazenda cheia de flores e muito amor, do jeito que ele gosta. Ele é criado ali, cresce e se transforma em um touro grande (beeeem grande) e extremamente dócil. Tudo parece perfeito, até que em um dia, por um equívoco de aparências, a cidade pensa que Ferdinando é uma fera e o manda, adivinhem para onde? Isso mesmo, aquele rancho da sua infância. Onde, junto com o protagonista, reencontramos seus amigos de infância e conhecemos novos animais, com destaque para a cabra Lupe e os ouriços Um, Dois e Quatro (jamais pergunte sobre o Três).


O roteiro de Brad Coperland infelizmente é infantil até demais, a trama principal demora a se desenvolver, o ritmo é bem lento e tudo só é desenvolvido de fato quase no final, o que torna intermináveis as quase 2 horas de duração. A qualidade técnica e narrativa é questionável, ainda bem que visualmente o filme é lindo e os coadjuvantes são hilários.

Aliás, a peça chave dessa adaptação são os coadjuvantes. Cada um com uma personalidade, um jeito diferente, há aqueles que são mais fracos, outros fortes, outros “loucos”, cada animal de certa forma estava quebrando o paradigma que já nasceu com eles, como o cachorro de Nina que é o contrário dos cães dóceis e fofos que queremos. Podemos tirar várias lições deste filme, começando pela tourada que é uma prática que persiste em certos países, depois jogando a ideia dos abatedouros, mostrando que o touro só tem duas opções: ou ir para a tourada ou ir para o abatedouro. E quão distante isso é da nossa realidade?


Porém, o que mais me chamou atenção é a mensagem de aceitação. Ferdinando sabe desde pequeno quem ele é, não importa o que digam, não importa se acham que touros são obrigados a ser durões, Ferdinando não quer ser assim, do começo ao fim ele nos ensina que devemos persistir no que sentimos, que precisamos lutar pela pessoa que somos e aceitar todos, mesmo os que parecem ser mais “esquisitos”. Em um mundo que as pessoas lutam diariamente por sua voz e um espaço, é extremamente importante Saldanha colocar em questão a diferença, ainda mais em uma animação infantil. Ferdinando é cativante, sua força, sua bondade nos mostram que ser diferente é extremamente normal.




terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Livro Macapá: Das Declarações de Amor que eu não fiz



A escritora e jornalista Mary Paes lança seu primeiro livro solo neste sábado. O evento terá música, exposição e performances inspiradas nos poemas do livro, com a participação de artistas amigos da autora, além de algumas surpresas.

Sobre o livro, o professor de Literatura e Língua Portuguesa Ezequias Corrêa escreveu:

O novo livro de Mary Paes, Das declarações de amor que eu não fiz, é uma experiência criativa que estabelece outra perspectiva do eu-poético para com suas frustrações, por assim dizer. Engana-se quem pensa que o livro trata de uma lamúria sobre amores que não vingaram, na verdade, o que temos aqui é o extremo oposto disso. Mary Paes promove, através de seus versos, um retorno, uma rememoração ou mesmo uma reinvenção da “vida inteira que podia ter sido e não foi”, a escritora usa sua escrita para reviver o que não foi vivido ou dar um novo fim a uma história cujo final não lhe apraz. Ao proceder desse modo ela dá continuidade a uma tradição poética que existe desde que a Literatura é Literatura. O título do livro é a um só tempo belo e instigante, pois desvela um tema não muito explorado entre os chamados poetas líricos. Neste livro de poemas Mary Paes opta por falar de amores não vividos, de desejos incontidos, de pensamentos que não se concretizaram, porém ao falar de tudo isso a poetisa sul-mato-grossense radicada no Amapá consegue, através de sua escrita fácil, dizer algo ao seu público sem carregar o peso que o próprio tema acarreta. Os poemas são curtos, de formas livres e marcados por um forte apelo erótico, marca registrada da autora que já teve alguns de seus poemas lançados em diversas coletâneas. Mary Paes faz poesia com a mesma intensidade com que ama a vida e a nós cabe apenas apreciar a boa literatura que está sendo produzida por aqui. 

  • O livro cabe na palma da mão, vai confortavelmente dentro de um bolso, não ocupa muito espaço em bolsa, sacola ou mochila - ele permite esta praticidade - é leve, é simples, mas carrega em seu bojo as impressões da autora sobre o sentimento mais inexplicável que existe: o amor. Ela nos vai fazendo breves revelações e aos poucos vai tornando visível as palavras guardadas como quem abre pequenas gavetas, as gavetas do não-dito que, na poesia, encontra o seu lugar, Mary escolheu o agora e decide que está na hora de fazer todas as declarações de amor que não disse. (Adriana Abreu


Serviço

LIVRO "Das declarações de Amor que eu não fiz "
LANÇAMENTO: 3/2/2018, 20h
LOCAL: Avenida Mendonça Júnior - 12H/Altos (próximo à praça de alimentação da Casa do Artesão) 
PREÇO DO LIVRO: R$ 25,00 
Contatos: (96) 98128-5712 \ 99179-4950 (Mary Paes) 
Classificação: 16 anos 
Produção/Realização: Tatamirô Grupo de Poesia

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Opinião Cinema: Extraordinário

Por Bianca Oliveira,
de Macapá





Eu ouvi vários comentários, a maioria dizia que eu deveria assistir Extraordinário - baseado no livro Extraordinário, de R.J. Palacio (pseudônimo da escritora norte-americana Raquel Jaramillo). No começo não conseguia entender o porquê de todo esse alvoroço em torno do filme, imaginei que seria apenas um filme apelativo, só que este não é o caso de Extraordinário. Nos 10 primeiros minutos eu já estava aos prantos, mas calma! Juro que vou ser menos emotiva e mais crítica e vou explicar tudinho sobre esse filme. Vem comigo!

No longa conhecemos um garoto de 10 anos chamado Auggie (Jacob Tremblay), que foi educado em casa por sua mãe Isabel (Julia Roberts). Um dia ela decide que está na hora de ele enfrentar o “mundo” e ir para uma escola. Acompanhamos a trajetória e adaptação de um menino como qualquer outro lutando nesse ambiente escolar, mas ele tem uma diferença: Auggie nasceu com a síndrome de Treacher-Collins, uma má formação facial congênita, e passou por 27 cirurgias que deixaram marcas na sua pele.

Dito assim, parece que estamos falando de um filme chato ou melodramático, porém a grande sacada do diretor Stephen Chbosky é justamente não ir por esse lado, e sim utilizar uma linguagem simples e delicada. Auggie é diferente? Sim. Ele sofre por sua aparência? Sim. Mas até onde isso é tão distante da gente? Não estamos falando da doença, explorando e mostrando uma “incapacidade” extremamente estereotipada; o diretor aproxima a história de seu público, ele aborda de tal forma que dá a sensação de entendermos um pouco do que ele sente. Como não rir ao ver o olhar da criança com o Chewbacca de Star Wars (aliás, essas são as melhores cenas)? Com uma analogia tão simples assim nos ligamos de uma forma fascinante com Auggie.



Mostrar o ponto de vista de quem está em torno de Auggie foi uma sacada de mestre, desde sua mãe que teve que deixar tanta coisa para ajudar seu filho, sua irmã que se sente excluída pelos pais, até seu melhor amigo e a melhor amiga de sua irmã, assim, podemos conhecer a luta de cada um, mostrando suas particularidades e angústias e o quanto são influenciados pelo menino. As subtramas não tiram o foco do personagem principal, mas acabam prejudicando o ritmo; algumas histórias são interrompidas e o desenvolvimento fica cíclico. O roteiro de Stephen Chbosky, Steve Conrad e Jack Thorne precisaria ser mais dinâmico, no meio do filme já estamos um pouco cansados.

Entretanto, isso não tira o brilho do elenco. Jacob Tremblay é uma das crianças mais talentosas da atualidade, mesmo que seu personagem exija bastante maquiagem e próteses, o êxito de sua atuação está no olhar, na sua expressão. O seu carisma transborda as telas, seu personagem não está ali para causar piedade em ninguém e sim inspirar e isso é evidente. Julia Roberts é a emoção, a força, a coragem, a atriz é espetacular - todos sabemos - porém nesse papel isso é assustadoramente surpreendente, suas cenas com Tremblay são sensacionais. A personagem de Izabela Vidovic parecia ser imperceptível, uma mera coadjuvante, e foi inesperado o seu crescimento em tela, Vidovic transmite muito bem a melancolia e sutileza de sua personagem; é emocionante o seu amor pelo seu irmão, isso é demonstrado nos pequenos detalhes, olhares e palavras. Diante de tantos mundos Owen Wilson é ofuscado, ele é carismático, competente, atua bem e pronto, faz bem o que se propõe mas nada assim memorável. A brasileira Sonia Braga não fica muito tempo nas telas, ainda assim domina a sua cena, entrega uma avó carinhosa e importante para seus netos.

Extraordinário demonstra que não é preciso ter vários efeitos especiais e uma megaprodução. O filme provoca sentimentos que vão de gargalhadas explosivas a lágrimas incontroláveis. Há um enorme amadurecimento no decorrer do filme, é lindo ver Auggie vencendo seus próprios desafios, encarando o preconceito, superando seus medos. Isso tem uma importância inimaginável, isso é representação, isso é gritar para que milhões de pessoas olhem para os outros, que não rotulem quem tem má formação ou qualquer síndrome como pessoas incapazes, porque eles podem conquistar o mundo!



sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Natais de Noel Rosa


Noel Rosa, um presente de Natal

O compositor Noel Rosa nasceu no Rio de Janeiro no dia 11 de dezembro de 1910, mas seu nome não deixa dúvidas: a família esperava que ele nascesse no dia 25. Em função disso, resolveu batizá-lo como Noël, ou seja, Natal em francês. Na época, embora naturalmente não houvesse como saber o sexo do bebê antes do nascimento, Marta e Manoel de Medeiros Rosa estavam certos de que teriam um menino. Influiu na escolha o amor que o pai dedicava à cultura francesa.

A antecipação do parto é em geral atribuída pelos biógrafos de Noel à Revolta da Chibata, movimento dos soldados da Marinha, liderado por João Cândido, que pedia o fim dos castigos corporais naquela Arma. A revolta começara em novembro, durara quatro dias e aparentemente se encerrara com a promessa do governo de acabar com o castigo, anistiando os revoltosos. Mas, como vários marinheiros foram expulsos da corporação ou presos, a luta recomeçou na noite de 9 de dezembro, com a tomada do Batalhão Naval pelos revoltosos. Forças rebeldes e do governo bombardearam-se, chegando a atingir a população civil com balas perdidas (a coisa vem de longe). O pânico tomou conta da capital federal. Foi em meio a esse clima que Marta deu à luz seu filho, preferindo manter o nome escolhido: Noel.

***

Natais de Noel Rosa

Dois estudiosos da vida de Noel, os autores de Noel Rosa, uma Biografia, João Máximo e Carlos Didier, consideram o desinteresse do compositor pela comemoração do Natal uma ironia com seu próprio nome. Mas era a realidade: todo ano sua mãe, Marta, armava árvore e presépio no chalé da família em Vila Isabel e Noel nem aí. Dizia, para justificar-se:

- Para que esperar um ano para se dar presente a quem se gosta?

Foi pela época do Natal de 1935 que Noel soube que seria papai. Sua esposa, Lindaura, esperava um filho. Poucos meses depois, porém, ela perdeu a criança, ao cair da goiabeira do quintal do chalé.


  • Making-off do texto - Estas duas notas foram publicadas originalmente no Mistura e Manda nº 80, de 20.12.04.



segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Opinião Cinema: Liga da Justiça

Por Bianca Oliveira,
do Rio de Janeiro




Liga da Justiça é o primeiro filme que a Warner Bros. reúne em um longa os maiores heróis da DC Comics. O filme dá sequência a Batman vs Superman - A Origem da Justiça, que não teve a melhor recepção do público. Desta vez, o fator que causou certa tensão foi o afastamento do diretor Zack Snyder, por motivos pessoais, quase no final das gravações, assumindo Joss Whedon - o público se perguntava: o que, afinal, aconteceria com um dos filmes mais esperados do ano? 

O longa começa com a Mulher-Maravilha (Gal Gadot) e o Batman (Ben Affleck) recrutando outros super-heróis - Super-Homem (Henry Cavill), Flash (Ezra Miller), Aquaman (Jason Momoa) e Ciborgue (Ray Fisher) para ajudarem a salvar a humanidade do Lobo de Estepe (Ciarán Hinds) que tem planos terríveis em sua mente. Como quase todo filme de super-herói esse resumo é o mais rápido e fácil, sempre há um megavilão tentando destruir o planeta, então qual o diferencial desse? A união de seus personagens e um tom mais leve que a DC tem experimentado.




Os filmes anteriores já indicavam uma mudança na DC, Batman vs Superman iniciava a formação da Liga da Justiça e no filme solo da Mulher Maravilha vimos um lado divertido e suave, diferente do que estávamos acostumados. Liga da Justiça acaba exagerando no seu lado cômico, pecando em coisas básicas como direção e roteiro. Seria a DC se tornando uma Marvel? Ou pelo menos indo nesse caminho? Claro, eu sei que apresentar três novos personagens assim não deve ser nada fácil, mas o roteiro de Chris Terrio e Joss Whedon peca no exagero: nos diálogos, no alívio cômico e até no drama principal. O vilão é só mais uma forma de levantar “a moral” dos heróis? Ele não poderia ter uma motivação, uma construção melhor? Ou ele simplesmente nasceu mal e quer as caixas maternas para acabar com a humanidade? 

Henry Cavill Justice League Superman Man of Steel
Também creditado como roteirista, Joss Whedon dirigiu a parte final das filmagens; assumir assim a direção não deve ser uma tarefa fácil e isso pode ser sentido na tela. Obviamente, Whedon é mega talentoso, Os Vingadores: Era de Ultron tá ai para provar isso. Mas há sim um conflito entre visões opostas. A diferença do que é ter Snyder na pós-produção é enorme, suas cenas de ação são sempre impecáveis, e provavelmente ele não deixaria passar a fotografia que utiliza cores e luzes totalmente opostas do sentido do filme e trabalharia melhor a questão da remoção do bigode de Henry Cavill (só eu fiquei extremamente incomodada com a computação gráfica?). 

Mas, calma! Há luz sim no fim do túnel. O elenco é a melhor parte de tudo. É incontestável a força de Gal Gadot como a Mulher Maravilha, talvez seu único defeito seja ser tão talentosa assim. Ben Affleck nos apresenta um Batman diferente, mais leve, que ainda carrega aquele peso dramático, porém é representado com um olhar até mais suave. Ezra Miller, Jason Momoa e Ray Fisher são surpreendentes, mesmo estreando na franquia eles nitidamente estavam à vontade em seus papéis, cada um da sua maneira mostrando que há um mundo que ainda vai ser mais explorado pela DC, mostrando personagens que são, sem dúvidas, cativantes por si só e suas representações foram fiéis. Ezra nos apresentou um Flash que era alívio cômico e ele era perfeito para o papel, a sua atuação foi ótima e agradável visualmente. 

Liga da Justiça não é ruim, mas há um caminho que precisa ser percorrido ainda: a DC precisa definir se vai seguir o caminho mais leve e interligado de super-heróis ou volta para o misterioso e sombrio que já conhecemos. As cenas após os créditos demonstram que tem muita coisa ainda por vir, só que dessa vez espero que Zack Snyder esteja do início ao fim no projeto.



sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Reciclagem musical: "Pastorinhas"


Alguns compositores praticam o que chamo de "reciclagem musical": pegam letras e melodias que já haviam utilizado para compor novas músicas. Algumas vezes isso acontece porque a primeira versão não emplacou. É o caso de "Pastorinhas" (Noel Rosa - João de Barro), que venceu um concurso carnavalesco em 1938. João de Barro vencera o certame com "Touradas em Madrid" (parceria com Alberto Ribeiro), mas alguns colegas, inconformados com a derrota, alegaram que "Touradas..." era pasodoble, um gênero estrangeiro, proibido pelo concurso (quando ela é uma marcha, e das boas!). Anulado o concurso, procedeu-se a nova apuração, que premiou "Pastorinhas", parceria de João de Barro com o já falecido Noel, que fora sambar no céu em 4 de maio de 1937.




Na verdade, "Pastorinhas", gravada por Sílvio Caldas, era uma reciclagem de "Linda Pequena", que Noel e João de Barro compuseram em 1934 e acabou sendo lançada para o carnaval de 1936. João Petra de Barros gravou-a e ninguém tomou conhecimento. A cirurgia a que João de Barro submeteu a marcha original foi sutil, muito sutil. Na primeira estrofe, só uma palavra: "E as moreninhas" deu lugar a "E as pastorinhas". No começo da segunda estrofe, dois versos: "Linda pequena/ Pequena que tens a cor morena" virou "Linda pastora/ Morena da cor de Madalena".

Contam que novamente houve chiadeira: Nássara protestou que quem ganhara o concurso fora a alma de Noel...





  • Making-off do texto -  Uma das notas do Mistura e Manda nº 71, de 18.10.04. Abriu uma série dedicada a apontar "reciclagens musicais" feitas por artistas os mais diversos, desde Heitor Villa-Lobos até Os Paralamas do Sucesso, passando por Vinicius de Moraes e Jorge Ben. Ao todo foram sete notas, sendo a última publicada no M&M  108, em 4.7.05. As três notas sobre os Paralamas foram reunidas no texto "Reciclagens Musicais dos Paralamas", que incluí no livro Ouvindo o Nordeste (pág. 46). 
  • Sílvio Caldas é acompanhado por Napoleão Tavares e Seus Soldados Musicais, e João Petra de Barros pela Orquestra Odeon.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Opinião Cinema: Terra Selvagem

Por Bianca Oliveira,
do Rio de Janeiro



Aquilo que é distante do nosso meio é sempre visto com estranhamento. O “diferente” assusta e quase nunca refletimos sobre as culturas que são tão distantes das nossas. Isso quando consideramos cultura. Pensando em assuntos assim, Taylor Sheridan nos apresenta Terra Selvagem, sua estreia na direção, premiada na mostra "Un Certain Regard" do Festival de Cannes. Um filme que fala da cultura indígena dos Estados Unidos, do extermínio de seu povo nas aldeias. Precisamos falar disso, mais do que isso, precisamos ouvir o que indígenas tem a dizer, reconhecer o seu lugar de fala. 

Jeremy Renner vive Cory Lambert,  caçador na reserva indígena de Wind River, situada na parte mais fria do estado de Wyoming. Em uma de suas andanças na neve, Cory encontra o corpo de uma adolescente, que era amiga de sua filha que também foi assassinada. A agente do FBI Jane Banner (Elizabeth Olsen) é designada para o caso; novata e inexperiente, principalmente naquela realidade tão diferente da sua, Jane pede para Cory ajudá-la na investigação. Juntos os dois enfrentam seus próprios medos - incluindo velhas feridas do Cory, reabertas pelas lembranças do modo pelo qual sua filha morreu - e fazem quase o impossível para descobrir o culpado.




É curioso como dificilmente ouvimos falar das condições de uma reserva indígena. E o propósito do filme é bem nítido, o texto mostrado antes dos créditos finais é assustador, é um choque de realidade. O roteiro e a direção de Sheridan exploram a solidão e o drama daquela comunidade, a narrativa é simples mas tratada de maneira reflexiva; o autor explora cada personagem e suas vivências. O ritmo do longa é muito bom, o único ponto negativo é o desfecho que acontece de forma rápida e sem nenhuma criatividade, não deu nem tempo de duvidarmos ou tentarmos descobrir, já foi tudo entregue de bandeja. 



A fotografia de Ben Richardson valoriza o clima frio e gelado, os planos abertos nos mostram todo a solidão que aquela neve pode proporcionar, a paleta de cores em tons frios – literalmente – também nos sugere as sensações e a dor que aquela tribo sente. Um dos pontos que mais favorecem é o fato de ter um elenco com indígenas, afinal, se você quer falar sobre as estatísticas de homicídio de indígenas, sobre o extermínio desse povo, o mínimo que tem que fazer é dar voz, ouvir a população que sofre com isso, e o elenco indígena foi fundamental para isso.

Jeremy Renner nem nos lembra do seu personagem Gavião Arqueiro na franquia Os Vingadores. Renner nos mostra um homem sombrio, traumatizado, ele não perde a força e garra do personagem em nenhum momento. Elizabeth Olsen atua de forma forte e convincente, sem dúvida este é o personagem mais adulto de sua carreira; mesmo que ele não peça tanta coisa, Elisabeth demonstra que tem um grande potencial. 

Um tema diferente, ousado e pouco comentado mas que demonstra ter muito a oferecer. Não tenho dúvida que todos sairão da sala de cinema, no mínimo, com uma sensação de que deveriam fazer mais, no mínimo, conhecer mais, a palavra de ordem é ouvir. Se despir de todos os pré-conceitos, pré-julgamentos e todo egoísmo que carregamos conosco, olhar mais adiante, olhar para o outro, principalmente para o sofrimento do outro. Refletir e buscar, sempre!