segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Opinião Cinema: Liga da Justiça

Por Bianca Oliveira,
do Rio de Janeiro




Liga da Justiça é o primeiro filme que a Warner Bros. reúne em um longa os maiores heróis da DC Comics. O filme dá sequência a Batman vs Superman - A Origem da Justiça, que não teve a melhor recepção do público. Desta vez, o fator que causou certa tensão foi o afastamento do diretor Zack Snyder, por motivos pessoais, quase no final das gravações, assumindo Joss Whedon - o público se perguntava: o que, afinal, aconteceria com um dos filmes mais esperados do ano? 

O longa começa com a Mulher-Maravilha (Gal Gadot) e o Batman (Ben Affleck) recrutando outros super-heróis - Super-Homem (Henry Cavill), Flash (Ezra Miller), Aquaman (Jason Momoa) e Ciborgue (Ray Fisher) para ajudarem a salvar a humanidade do Lobo de Estepe (Ciarán Hinds) que tem planos terríveis em sua mente. Como quase todo filme de super-herói esse resumo é o mais rápido e fácil, sempre há um megavilão tentando destruir o planeta, então qual o diferencial desse? A união de seus personagens e um tom mais leve que a DC tem experimentado.




Os filmes anteriores já indicavam uma mudança na DC, Batman vs Superman iniciava a formação da Liga da Justiça e no filme solo da Mulher Maravilha vimos um lado divertido e suave, diferente do que estávamos acostumados. Liga da Justiça acaba exagerando no seu lado cômico, pecando em coisas básicas como direção e roteiro. Seria a DC se tornando uma Marvel? Ou pelo menos indo nesse caminho? Claro, eu sei que apresentar três novos personagens assim não deve ser nada fácil, mas o roteiro de Chris Terrio e Joss Whedon peca no exagero: nos diálogos, no alívio cômico e até no drama principal. O vilão é só mais uma forma de levantar “a moral” dos heróis? Ele não poderia ter uma motivação, uma construção melhor? Ou ele simplesmente nasceu mal e quer as caixas maternas para acabar com a humanidade? 

Henry Cavill Justice League Superman Man of Steel
Também creditado como roteirista, Joss Whedon dirigiu a parte final das filmagens; assumir assim a direção não deve ser uma tarefa fácil e isso pode ser sentido na tela. Obviamente, Whedon é mega talentoso, Os Vingadores: Era de Ultron tá ai para provar isso. Mas há sim um conflito entre visões opostas. A diferença do que é ter Snyder na pós-produção é enorme, suas cenas de ação são sempre impecáveis, e provavelmente ele não deixaria passar a fotografia que utiliza cores e luzes totalmente opostas do sentido do filme e trabalharia melhor a questão da remoção do bigode de Henry Cavill (só eu fiquei extremamente incomodada com a computação gráfica?). 

Mas, calma! Há luz sim no fim do túnel. O elenco é a melhor parte de tudo. É incontestável a força de Gal Gadot como a Mulher Maravilha, talvez seu único defeito seja ser tão talentosa assim. Ben Affleck nos apresenta um Batman diferente, mais leve, que ainda carrega aquele peso dramático, porém é representado com um olhar até mais suave. Ezra Miller, Jason Momoa e Ray Fisher são surpreendentes, mesmo estreando na franquia eles nitidamente estavam à vontade em seus papéis, cada um da sua maneira mostrando que há um mundo que ainda vai ser mais explorado pela DC, mostrando personagens que são, sem dúvidas, cativantes por si só e suas representações foram fiéis. Ezra nos apresentou um Flash que era alívio cômico e ele era perfeito para o papel, a sua atuação foi ótima e agradável visualmente. 

Liga da Justiça não é ruim, mas há um caminho que precisa ser percorrido ainda: a DC precisa definir se vai seguir o caminho mais leve e interligado de super-heróis ou volta para o misterioso e sombrio que já conhecemos. As cenas após os créditos demonstram que tem muita coisa ainda por vir, só que dessa vez espero que Zack Snyder esteja do início ao fim no projeto.



sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Reciclagem musical: "Pastorinhas"


Alguns compositores praticam o que chamo de "reciclagem musical": pegam letras e melodias que já haviam utilizado para compor novas músicas. Algumas vezes isso acontece porque a primeira versão não emplacou. É o caso de "Pastorinhas" (Noel Rosa - João de Barro), que venceu um concurso carnavalesco em 1938. João de Barro vencera o certame com "Touradas em Madrid" (parceria com Alberto Ribeiro), mas alguns colegas, inconformados com a derrota, alegaram que "Touradas..." era pasodoble, um gênero estrangeiro, proibido pelo concurso (quando ela é uma marcha, e das boas!). Anulado o concurso, procedeu-se a nova apuração, que premiou "Pastorinhas", parceria de João de Barro com o já falecido Noel, que fora sambar no céu em 4 de maio de 1937.




Na verdade, "Pastorinhas", gravada por Sílvio Caldas, era uma reciclagem de "Linda Pequena", que Noel e João de Barro compuseram em 1934 e acabou sendo lançada para o carnaval de 1936. João Petra de Barros gravou-a e ninguém tomou conhecimento. A cirurgia a que João de Barro submeteu a marcha original foi sutil, muito sutil. Na primeira estrofe, só uma palavra: "E as moreninhas" deu lugar a "E as pastorinhas". No começo da segunda estrofe, dois versos: "Linda pequena/ Pequena que tens a cor morena" virou "Linda pastora/ Morena da cor de Madalena".

Contam que novamente houve chiadeira: Nássara protestou que quem ganhara o concurso fora a alma de Noel...





  • Making-off do texto -  Uma das notas do Mistura e Manda nº 71, de 18.10.04. Abriu uma série dedicada a apontar "reciclagens musicais" feitas por artistas os mais diversos, desde Heitor Villa-Lobos até Os Paralamas do Sucesso, passando por Vinicius de Moraes e Jorge Ben. Ao todo foram sete notas, sendo a última publicada no M&M  108, em 4.7.05. As três notas sobre os Paralamas foram reunidas no texto "Reciclagens Musicais dos Paralamas", que incluí no livro Ouvindo o Nordeste (pág. 46). 
  • Sílvio Caldas é acompanhado por Napoleão Tavares e Seus Soldados Musicais, e João Petra de Barros pela Orquestra Odeon.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Opinião Cinema: Terra Selvagem

Por Bianca Oliveira,
do Rio de Janeiro



Aquilo que é distante do nosso meio é sempre visto com estranhamento. O “diferente” assusta e quase nunca refletimos sobre as culturas que são tão distantes das nossas. Isso quando consideramos cultura. Pensando em assuntos assim, Taylor Sheridan nos apresenta Terra Selvagem, sua estreia na direção, premiada na mostra "Un Certain Regard" do Festival de Cannes. Um filme que fala da cultura indígena dos Estados Unidos, do extermínio de seu povo nas aldeias. Precisamos falar disso, mais do que isso, precisamos ouvir o que indígenas tem a dizer, reconhecer o seu lugar de fala. 

Jeremy Renner vive Cory Lambert,  caçador na reserva indígena de Wind River, situada na parte mais fria do estado de Wyoming. Em uma de suas andanças na neve, Cory encontra o corpo de uma adolescente, que era amiga de sua filha que também foi assassinada. A agente do FBI Jane Banner (Elizabeth Olsen) é designada para o caso; novata e inexperiente, principalmente naquela realidade tão diferente da sua, Jane pede para Cory ajudá-la na investigação. Juntos os dois enfrentam seus próprios medos - incluindo velhas feridas do Cory, reabertas pelas lembranças do modo pelo qual sua filha morreu - e fazem quase o impossível para descobrir o culpado.




É curioso como dificilmente ouvimos falar das condições de uma reserva indígena. E o propósito do filme é bem nítido, o texto mostrado antes dos créditos finais é assustador, é um choque de realidade. O roteiro e a direção de Sheridan exploram a solidão e o drama daquela comunidade, a narrativa é simples mas tratada de maneira reflexiva; o autor explora cada personagem e suas vivências. O ritmo do longa é muito bom, o único ponto negativo é o desfecho que acontece de forma rápida e sem nenhuma criatividade, não deu nem tempo de duvidarmos ou tentarmos descobrir, já foi tudo entregue de bandeja. 



A fotografia de Ben Richardson valoriza o clima frio e gelado, os planos abertos nos mostram todo a solidão que aquela neve pode proporcionar, a paleta de cores em tons frios – literalmente – também nos sugere as sensações e a dor que aquela tribo sente. Um dos pontos que mais favorecem é o fato de ter um elenco com indígenas, afinal, se você quer falar sobre as estatísticas de homicídio de indígenas, sobre o extermínio desse povo, o mínimo que tem que fazer é dar voz, ouvir a população que sofre com isso, e o elenco indígena foi fundamental para isso.

Jeremy Renner nem nos lembra do seu personagem Gavião Arqueiro na franquia Os Vingadores. Renner nos mostra um homem sombrio, traumatizado, ele não perde a força e garra do personagem em nenhum momento. Elizabeth Olsen atua de forma forte e convincente, sem dúvida este é o personagem mais adulto de sua carreira; mesmo que ele não peça tanta coisa, Elisabeth demonstra que tem um grande potencial. 

Um tema diferente, ousado e pouco comentado mas que demonstra ter muito a oferecer. Não tenho dúvida que todos sairão da sala de cinema, no mínimo, com uma sensação de que deveriam fazer mais, no mínimo, conhecer mais, a palavra de ordem é ouvir. Se despir de todos os pré-conceitos, pré-julgamentos e todo egoísmo que carregamos conosco, olhar mais adiante, olhar para o outro, principalmente para o sofrimento do outro. Refletir e buscar, sempre!




sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Noel Rosa cantou o horário de verão

O horário de verão deste ano começou no domingo, 15. O governo o vem adotando anualmente desde 1985. Protestam uns, alegam desconforto biológico uns outros, outros uns apontam a pouca economia resultante etc., mas a tradição é mantida. 

O que ninguém mais tem feito é cantá-lo. Em 1931, quando pela primeira vez o Brasil recorreu ao horário de verão, Noel Rosa compôs e gravou dois sambas ironizando o fato. Destinadas ao carnaval de 1932, as composições não chegaram a ser sucesso. 

Um dos sambas, "O Pulo da Hora", também ficou conhecido pelo seu primeiro verso: "Que Horas São?".


 Infelizmente o áudio está muito baixo :/


Já o outro, intitulado "Por Causa da Hora", era identificado no selo do disco como "samba do horário". Se sua última estrofe era francamente gozadora ("Eu que sempre dormi durante o dia/ Ganhei mais uma hora pra descanso/ Agradeço ao avanço/ De uma hora no ponteiro./ Viva o dia brasileiro!"), dois versos do refrão remetiam ao surrealismo que a mudança de horário poderia causar: "Olho, ninguém me responde/ Chamo, não vejo ninguém".





  • Making-off do texto - Uma das notas do Mistura e Manda nº 74, de 8.11.04, numa época em que o horário de verão era adotado a partir de novembro, e não de outubro, como ocorre desde 2008. (No original, eu falava em "começou na terça, dia 2").

  • Sim, curiosamente, no ano em que a nota foi publicada originalmente, o horário foi implantado numa terça, 2 de novembro, e não num domingo, como é de praxe. Não recordo mais, e não consegui localizar agora, o motivo desta alteração pontual.

  • Ambas as composições são de Noel Rosa, e tanto elas quanto os fonogramas incluídos na postagem se encontram em domínio público. 


quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Amapá: Coletivo Cenopoesia expõe poemas na FLIST

Os poetas Ana Anspach, Barbára Primavera, Bruno Muniz, Carla Nobre, Cláudia Patricia, Celestino Filho, Marven Franklin, Mary Paes, Pedro Stkls e Thiago Soeiro, que formam o Coletivo Cenopoesia, levam a exposição Biomas Poéticos para a Feira Literária de Santana (FLIST), que acontece no período de 26 a 29 de outubro, na Praça Cívica do município, no horário de 18h às 22h.

Nos quatro dias de exposição, os visitantes poderão entrar em contato com os olhares singulares de cada um dos poetas sobre o lugar onde vivem e como as paisagens do seu cotidiano interferem em suas criações. É o encontro de olhares que se movem nas palavras de cada um dos artistas presentes.

O grupo busca com a exposição despertar no público visitante a vida que pulsa na palavra, instigando aos leitores e admiradores dos poemas todo o lirismo que guarda esta arte.

A exposição será realizada a convite do SESC Amapá e está será a segunda vez que é apresentada ao público.


Poema de Mary Paes ilustrado por Augusto Minighitti
(Foto: Thiago Soeiro)


sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Músicas de Noel Rosa em Domínio Público


No dia 1º de janeiro de 2008, a parte da obra de Noel Rosa que é de autoria apenas dele, ou criada junto com parceiros que houvessem falecido até 31 de dezembro de 1937, passou ao domínio público. No dia 5, Overmagrani publicou no Overmundo o texto Noel Rosa é nosso!, apresentando uma lista das obras liberadas, elaborada pelo Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da FGV.

A primeira coisa que me chamou a atenção foi a música de nº 120, "Samba anatômico" - não por ela estar fora da ordem alfabética, mas porque Noel não compôs música com este nome  (ver Observação B). Há outras questões: de vários dos títulos da lista, não se conhece a melodia e, em alguns casos, nem a letra - na prática, delas só restou mesmo o título; também não era mencionada obra alguma feita com parceiro falecido antes de Noel.

Resolvi então colaborar com o uso criativo do legado artístico de Noel, cruzando as informações da lista com musicografias elaboradas por outros estudiosos de sua obra, em especial a relação feita por João Máximo e Carlos Didier, autores de Noel Rosa, uma Biografia, cuja pesquisa durou 7 anos e que não recebeu contestações significativas ao longo dos 18 anos que decorrem do lançamento da única edição (Linha Gráfica/ UnB, 1990). As diferenças de minha lista em relação à da FGV são comentadas ao final. 

01) Agora
02) Amor de Parceria
03) Arranjei um fraseado
04) Até amanhã
05) Belo Horizonte (ver Observação A)
06) Canção do galo capão
07) Cansei de implorar
08) Cansei de pedir
09) Capricho de rapaz solteiro
10) Choro
11) Cidade mulher
12) Com que roupa?
13) Condeno o teu nervoso
14) Contraste
15) Cor de cinza
16) Coração
17) Cordiais saudações
18) Dama do cabaré
19) Disse-me-disse
20) Dona Aracy
21) Dono do meu nariz
22) É preciso discutir
23) Envio essas mal traçadas
24) Espera mais um ano
25) Estamos esperando
26) Eu não preciso mais do seu amor
27) Eu sei sofrer
28) Eu vou pra Vila
29) Festa no céu
30) Fita amarela
31) Foi ele
32) Fui uma Vez (ver Observação A)
33) Gago apaixonado
34) A Genoveva não sabe o que diz
35) João-Ninguém
36) O maior castigo que eu te dou
37) Malandro medroso
38) Marcha da primavera
39) Mardade de cabocla
40) Maria-fumaça
41) Mentir
42) Mentiras de mulher
43) Meu barracão
44) Minha viola
45) Mulata fuzarqueira
46) Mulato bamba
47) Mulher indigesta
48) Não brinca não
49) Não me deixam comer
50) Não morre tão cedo
51) Não tem tradução
52) Negócio de turco
53) No baile da flor-de-lis
54) Nos três dias de folia
55) Nunca... jamais
56) Nuvem que passou
57) Onde está a honestidade
58) Paga-me esta noite
59) Palpite infeliz
60) Para atender a pedido
61) Pela décima vez
62) Pesado 13
63) Picilone
64) Por causa da hora
65) Por esta vez passa
66) Pra esquecer
67) Precaução inutil
68) O pulo da hora
69) Quando o samba acabou
70) Quando pelas aulas ando
71) Que a terra se abra
72) Quem dá mais?
73) Quem não dança
74) Quem ri melhor
75) Rapaz folgado
76) Remorso
77) Riso de criança
78) Roubou, mas não leva
79) São coisas nossas
80) Século do progresso
81) Seja breve
82) Seu Jacinto
83) Seu Zé
84) Silêncio de um minuto
85) Tipo zero
86) Três apitos
87) Tudo que você diz
88) Último desejo
89) Vagolino de cassino
90) Verdade duvidosa
91) Você é um colosso
92) Você, por Exemplo (ver Observação A)
93) Você Sabe de Onde eu Venho? (ver Observação A)
94) Você vai se quiser
95) Voltaste (pro subúrbio)
96) Vou te ripar I
97) Vou te ripar II
98) O X do problema
99) Yolanda

Observações:
  • (A) Coloquei em negrito as músicas que não constam da relação publicada pelo Overmundo
  • (B) Não existe música de Noel com o nome "Samba anatômico", expressão usada como identificação do gênero musical de "Coração". Na época em que Noel atuou, era de praxe colocar no selo do disco, ao lado do nome de cada música, qual seu gênero musical. Alguns compositores usavam isso para dar a sua criação um caráter mais humorístico, como neste caso, ou mais solene - Ary Barroso fez isso ao classificar "Aquarela do Brasil", um samba, como "cena brasileira"

Músicas com melodia perdida

Alô Beleza * Baianinha * Chuva de vento * Cumprindo a promessa * É difícil saber fingir * Fita de cinema * Mas quem te deu tudo isso? * Numa noite à beira-mar * Por você sou capaz * Pra lá da cidade * Quem parte não parte sorrindo * Saí do presídio * Só você * Vingança de malandro

Músicas com letra e melodia perdidas

Brincadeira de roda * Coisas do sertão * Juju * Lira abandonada * Madame honesta * Meu bem * Muito riso, pouco siso * Proezas de seu fulano * Saí da tua alcova (parcialmente perdida) * Vaidosa

MÚSICAS DE NOEL ROSA COM PARCEIROS FALECIDOS ATÉ 31/12/1937

Esta é a parte mais delicada da lista. Noel Rosa compôs com muitos parceiros, alguns famosos como Ismael Silva e Lamartine Babo, outros de breve passagem pela música, sendo mais difícil a localização de seus dados biográficos. A inclusão de obras nesta parte da lista será feita à medida em que eu me certifique de que os co-autores efetivamente faleceram até o final do ano de 1937. Na dúvida, não ultrapass(ar)ei.

Parcerias com Canuto (falecido em 27/11/1932)

100) Esquecer e Perdoar
  • Outra música de ambos, Cadê Trabalho, tem melodia perdida
Parcerias com Henrique Brito (falecido em 11/12/1935)

101) Meu Sofrer
102) Queimei Teu Retrato


  • Making-off do texto - Publicado no Brasileirinho em março de 2008, deu início à divulgação sistemática naquele site da obra de Noel Rosa em domínio público, material que agora estamos divulgando aqui no blog Jornalismo Cultural. 
  • Originalmente minha publicação trazia também a lista divulgada pelo Overmundo. Como o link ainda se encontra no ar, optei por não repetir a lista aqui novamente.
  • Na lista do Overmundo, além do inexistente "Samba anatômico", consta outra música com título errado: "Seu José", certamente uma menção a "Seu Zé". 
  • O Overmundo trazia ainda como sendo de autoria de Noel Rosa e em domínio público a música "Faz Três Semana", que em texto de setembro de 2008 (que irá sair aqui em breve) eu demonstrei não ser de Noel nem estar com os direitos liberados. 
  • Na minha lista inicialmente constava a música "Vejo Amanhecer", que depois excluí por descobrir não ser obra exclusiva de Noel Rosa (em breve contaremos também aqui esta história). 

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Entrevista: Jornalismo Cultural nos dias atuais

Em 27 de setembro, Mateus Santana, estudante de Jornalismo do UNIAN (Centro Universitário Anhanguera de Niterói, RJ), enviou-me as seguintes perguntas, para um trabalho de grupo referente a Jornalismo Cultural e a atuação do profissional da área nos dias atuais. Estas são as respostas que enviei em 3 de outubro. 

***

que gravei em Belém em 17.5.17


Porque o jornalismo cultural é importante, na sua visão?

Permitam-me reproduzir o conceito de Jornalismo Cultural que exponho no meu livro de mesmo nome, à pág. 8 (obra disponível em http://www.jornalismocultural.com.br/jornalismocultural.pdf):
Jornalismo cultural é o ramo do jornalismo que tem por missão informar e opinar sobre a produção e a circulação de bens culturais na sociedade. Complementarmente, o jornalismo cultural pode servir como veículo para que parte desta produção chegue ao público.  

Deste modo, podemos dizer que o jornalismo cultural é importante, primeiramente, por levar ao público informações sobre um setor da vida cotidiana com igual ou até maior importância que os demais - se no dia a dia, seja nas redações, seja nos lares em geral, se priorizam notícias sobre política e economia, é muito raro que alguém guarde ou mesmo colecione cadernos de jornal sobre assuntos econômicos. O mais certo é que os escolhidos para serem colecionados sejam cadernos sobre cultura; talvez o único assunto que igualmente mobilize o público neste sentido de guardar seja o esporte (em especial edições especiais e pôsteres de conquistas de campeonatos).

Além do papel complementar de levar a público parte da produção de bens culturais, auxiliando em sua difusão (exemplos seriam os CDs e livros encartados em edições de jornais ou revistas, ou publicação de capítulos de romance, contos, fotografias, reprodução de quadros, ou divulgação de músicas e até filmes inteiros em páginas de internet), atualmente acredito que uma importante missão do jornalismo cultural é demonstrar ao público em geral que a arte é fundamental na vida humana, e que a verdadeira arte tende a ser mais questionadora do que acomodada em relação ao estado de coisas vigente em nossa sociedade. 

Na sua opinião, existe espaço na imprensa brasileira para grandes reportagens sobre cultura, entretenimento, entre outros? 

Teoricamente falando, o espaço existe, a questão é que os grandes veículos não costumam cobrir eventos que não ocorram em suas cidades (salvo grandes exceções como o Oscar, por exemplo) nem têm aberto espaço para eventos que não estejam ligados a interesses econômicos dos grupos a que pertencem (podemos citar aí a generosa presença dos festivais Rock in Rio e Lollapalooza nos telejornais da Rede Globo, contra quase nenhuma presença de festivais da cena independente brasileira). 

O mesmo se repete na mídia impressa e nos espaços destes veículos na internet. Acrescente-se que mesmo os jornais de grande circulação nacional costumam limitar a cobertura cultural ao que aconteça no município onde têm sede, priorizando além disso a parte de agenda; a crítica, embora com menor presença do que tempos atrás, ainda é mais frequente que a reportagem. Geralmente quando questionados a respeito, os editores dos cadernos de cultura costumam alegar que não fazem reportagens por não haver verba para cobrir as despesas decorrentes (razão porque se vê muito release publicado na íntegra e pouca reportagem na imprensa em geral). 

Enquanto os grandes veículos, que poderiam fazê-las, preferem não se dedicar às grandes reportagens, os veículos independentes muitas vezes gostariam de suprir esta lacuna, porém não dispõem dos recursos necessários. 

Na sua opinião, que competências deve ter um jornalista cultural?

Um jornalista cultural é, antes de mais nada, um jornalista, então deve ter todas as competências que se exige para a profissão - ter acesso às fontes, fazer uma apuração correta, redigir bem e cumprir prazos. A especificidade da editoria Cultura, aliada às expectativas do público que consome este tipo de informação, faz com que seja preferível e até imprescindível que o jornalista cultural saiba escrever com uma certa elegância. Uma boa dose de cultura geral também é recomendável; por mais que um profissional admire Dança, se estiver numa redação poderá um dia ser escalado para cobrir Teatro, ou um festival de Cinema, e geralmente há pouco tempo para se informar do básico sobre cada linguagem antes de partir para o evento. De todo modo, um bom grau de curiosidade e uma mente aberta sempre são importantes para se trabalhar com Cultura.



sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Noel Rosa, Cantor

Ao longo do tempo, as gravações feitas por Noel Rosa têm recebido pouca atenção. Entre 1930 e 1936, ele gravou 42 músicas de sua autoria, entre elas clássicos como "Com que Roupa?", "Gago Apaixonado", "Feitiço da Vila" e "Conversa de Botequim" (as duas últimas, parcerias com Vadico).

Em 21 dessas músicas - ou seja, exatamente metade deste repertório - , Noel convidou alguém para dividir o vocal; a recordista foi Marília Batista, que gravou com ele 6 sambas, mas a lista inclui parceiros como Ismael Silva, João de Barro, Artur Costa e ainda I. G. Loyola, João Petra de Barros e Léo Vilar (mais tarde líder dos Anjos do Inferno). Curiosamente, Noel dava preferência a fazer duetos nas músicas que compunha de parceria – são 13 duetos em músicas com parceiros, contra apenas 8 em obras assinadas exclusivamente por ele. Desconheço o motivo.

A obra gravada do Poeta da Vila, deste modo, aponta em duas direções. Numa, ao fazer tantas parcerias vocais, Noel mostrou-se um artista do seu tempo: como cada disco tinha apenas duas músicas, e muitos cantores lançavam vários discos por ano, esses duetos ocasionais eram muito comuns. Noutra, ao gravar regularmente suas composições, o que era raro na época, Noel antecipou o que é quase uma regra hoje, quando são poucos os artistas exclusivamente cantores.

A pouca atenção mencionada para esta obra gravada se reflete nas lacunas das discografias das biografias de Noel escritas por Almirante e João Máximo & Carlos Didier, onde não consta o número da matriz de cada disco, dado importante para que se consiga estabelecer, mesmo que de modo aproximado, em que data cada música foi gravada e até mesmo em que gravadora. Nosso levantamento traz os números de todas as matrizes.

Só posso atribuir essas lacunas ao descaso com que a obra de Noel como cantor tem sido tratada. Embora haja muitos relatos do sucesso que ele fazia cantando no rádio e em shows, e a venda expressiva de discos como o "Com que Roupa?", também se sabe de restrições que Noel recebia por não ter um "vozeirão", o que era muito valorizado em seu tempo.

Certamente outro fator que contribuiu para a pouca difusão das gravações de Noel ao longo do tempo foi o fato de ele, num período bastante curto, ter atuado em várias gravadoras, que nem sempre tinham depois repertório suficiente para um LP ou CD inteiro (na Victor, hoje parte da Sony Music, por exemplo, Noel gravou apenas quatro músicas). Assim, só quando do lançamento da caixa de CDs Noel Pela Primeira Vez (Velas/Funarte, 2000), o público teve acesso à totalidade das interpretações de Noel para suas próprias músicas. Sim, porque, como o conceito da caixa era de músicas assinadas por Noel, não havia como incluir o samba "Sentinela, Alerta!", de Ary Barroso, que o Poeta da Vila gravou em dupla com João Petra de Barros.



  • O texto era inédito até hoje, com exceção (novamente!) do segundo parágrafo. O título deste texto inspirou o novo título do texto publicado na semana passada
  • Fazia parte do pacote ainda a charge que abre o texto (charge que, escaneada por mim, ganhou o mundo, como contei em texto recente).
  • O levantamento mencionado no final do quarto parágrafo é a revisão completa da discografia original do Poeta Vila como cantor, compositor e instrumentista, e que será disponibilizada em futuras Sextas do Noel. As fichas técnicas dos CDs virtuais de Noel disponíveis para download aqui no blog já são baseadas neste levantamento. 

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Opinião Cinema: Lady Macbeth

Por Bianca Oliveira,
do Rio de Janeiro




Baseado em Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk (1865), do russo Nikolai Lenskov - que se inspirou na personagem da tragédia Macbeth (c. 1603-07), do inglês William Shakespeare -, o primeiro longa tanto do diretor William Oldroyd quanto da roteirista Alice Birch chega aos cinemas com uma nova visão da personagem que já inspirou tantas obras. Apesar de serem estreantes vemos, nitidamente, que eles não têm medo de arriscar e mostrar a sua verdade, provocando o público e nos apresentando a personagem mais complexa e delicada dos últimos tempos. 

Inglaterra, zona rural, 1865, Katherine (Florence Pugh) é trocada por terras por Boris (Christopher Fairbank) para se casar com seu filho Alexander (Paul Hilton). Alexander a trata como propriedade, não liga para sua esposa, nem sequer tenta “consumar” o casamento – quando chegar em casa manda a esposa tirar a roupa e virar para a parede, enquanto ele prefere se masturbar. Durante uma viagem de negócios do marido, Katherine se aproxima do empregado Sebastian (Cosmo Jarvis); os dois logo viram amantes e cúmplices. 

O filme é um misto de emoções. Uma boa parte é chata, monótona, repetitiva, a outra é surpreendente, um pouco assustadora e totalmente diferente. O longa tem como principais temas a sociedade, as relações de poder e principalmente o lugar da mulher. 



A personagem principal possui, no começo, uma vida muito  monótona, o que é mostrado em todas as ações diárias que se repetem como: o abrir da janela toda manhã, a escovação do seu cabelo pela criada Anna, as roupas apertadas e incômodas, isso serve para entendermos toda a opressão em que ela está inserida. Infelizmente, apesar da boa intenção, nós ficamos extremamente entediados, nunca imaginei isso, mas nos 10 primeiros minutos, eu quase levantei e fui embora – ainda bem que resolvi ficar e dar uma chance-. 

Graças a God o tom começa a mudar, para o sombrio, quando Sebastian aparece. A protagonista finalmente se liberta, todo o longa fica com suspense no ar, ficamos intrigados se ela está fazendo aquilo por amor, loucura ou puro egoísmo. Toda a produção é complexa, mas sem dúvidas, Katherine é uma das personagens mais fortes e confusas do cinema. Florence Pugh mesmo assim consegue interpretá-la de forma perfeita,  é um deleite a cada olhar, postura, fala, virada dramática. O resultado, nas telas, é realmente incrível, Pugh demonstra uma maturidade e um conhecimento invejável. 

Além de Florence, Naomi Ackie nos apresenta uma Anna com olhar vazio, triste, que não sabe o que fazer, de fato outra interpretação fantástica. Tirando elas, o elenco em si é bom, nada tão fantástico, apenas todo mundo fazendo sua interpretação certinha. 



O longa é direto, e isso é bom, tudo contado de forma clara, a ambientação toda é simples, só que de uma forma bonita, a casa principal não tem nada de glamourosa, não está cheia de objetos cênicos, tudo demonstra justamente aquelas tristeza e monotonias que comentei no começo. A direção de arte e figurino são realistas e detalhistas, a fotografia é simples, mas bonita, poucas cores, porém as mais vibrantes aparecem sempre do lado de fora, com planos mais longos, simbolizando a liberdade e a vida que Katherine não possui em casa. 

Lady Macbeth é um filme complicado, com falhas, que realmente nos deixa confusos sobre nossa opinião. Ele me fez ter medo, ficar confusa, querer ir embora, buscar detalhes na história e tantas outras sensações e emoções. E, incrivelmente, isso demonstra todo potencial do diretor, afinal, qual seria a melhor função do cinema do que não nos intrigar? Falando nisso, vou até assistir de novo para procurar mais detalhes e desvendar esse nó da minha cabeça.






sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Noel Rosa, Compositor




Esta coletânea - Noel Rosa Compositor Vol. 1 - organizada por mim e lançada pelo blog Noel Rosa Sempre reúne 13 músicas de autoria de Noel Rosa gravadas originalmente por outros intérpretes, estando composições e fonogramas em domínio público – inclusive duas parcerias, “Meu Sofrer”, com música de Henrique Brito, falecido em 1935, e “Esquecer e Perdoar”, que Noel escreveu com Canuto, morto em 1932. Há pelo menos três obras-primas no pacote: “Eu Vou pra Vila”, “É Preciso Discutir” e “Mulato Bamba”.

Considero importante a difusão desta parcela da obra de Noel Rosa, afinal foram os 113 fonogramas lançados de 1928 até 1937 de que Noel Rosa era autor, sozinho ou com parceiros, que o consagraram como um compositor excepcional ainda em vida, um reconhecimento que sabemos ser raro. De toda sua obra póstuma, apenas “Três Apitos”, lançado por Aracy de Almeida em 1951, tornou-se um clássico da música brasileira.

As gravações aqui reunidas foram lançadas originalmente entre 1930 e 1932, e compõem um painel bem variado da obra de Noel, geralmente associado apenas ao samba. Temos tango (“Pesado Treze”, paródia de “El Penado 14” – a única paródia de Noel que chegou ao disco enquanto ele vivia), modinha (“Meu Sofrer”, onde a letra segue os cânones fixados no começo do século 20 por autores como o poeta Catulo da Paixão Cearense, ao mesmo tempo em que antecipa “Eu Sei Sofrer”, do próprio Noel), embolada (“Não Brinca Não”) e até uma “marcha faminta”: “Não me Deixam Comer”, praticamente um esquete cantado que serve como veículo para a graça do cômico Pinto Filho.

Mais que essa variedade, a coletânea documenta a passagem de Noel de um compositor iniciante gravado principalmente pelos amigos para a de um autor de destaque no repertório dos maiores intérpretes brasileiros da época. Até o final de 1931, seus principais intérpretes eram ele mesmo e seus parceiros do Bando de Tangarás (Almirante e João de Barro). Só uma fora gravada até então pelo cantor de maior sucesso da época, Francisco Alves (a marcha “Gosto, Mas não é Muito...”, parceria com Chico e Ismael Silva). Quando Chico foi gravar outra marcha sua ("Palpite", parceria com Eduardo Souto), Noel apresentou-lhe o samba “É Preciso Discutir”, que escrevera especialmente para que gravasse com Mário Reis (a quem coube o famoso verso Para cantar com Francisco Alves em dueto). A partir daí, tornou-se um dos compositores preferidos de Chico e de Mário, gravando juntos ou separados (ou, no caso de Chico, também com outros parceiros vocais). Uma cabal demonstração de como Noel Rosa tinha senso de marketing, quando esta palavra ainda não estava incorporada ao vocabulário cotidiano.

Noel se faz presente em quatro faixas da coletânea, aquelas em que Almirante e Lucila são acompanhados pelo Bando de Tangarás (“Não Brinca Não” foi a última gravação de Noel com o grupo). Em “Dona Aracy”, é possível ouvi-lo fazer o contracanto Dona Aracy... na segunda e na quarta repetições do refrão (alternando-se com João de Barro, que faz a primeira e a terceira), e é seu o violão que cadencia “Eu Vou pra Vila”.


  • Making-off do texto - Texto escrito em setembro de 2011 para acompanhar, juntamente com a charge de autoria do próprio Noel Rosa que abre o post, o pacote de download do CD virtual Noel Rosa Compositor - Vol. 1, lançado em 1.10.11. 
  • Texto inédito até hoje, à exceção do segundo parágrafo. 
  • O título original deste texto era o mesmo do CD que ele acompanhava. O novo título foi dado hoje. 
  • Os primeiros dez downloads do CD foram oferecidos como brinde aos primeiros inscritos na segunda turma de setembro de 2011 do meu Curso à distância de Jornalismo Cultural



quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Entrevista: Jornalismo Cultural na internet

Em 19 de março de 2013, o jornalista Franthiesco Ballerini, por e-mail, convidou-me para ser o "entrevistado central" do capítulo sobre Jornalismo Cultural na internet do livro que ele estava escrevendo na ocasião (mais detalhes no final do post). Estas foram as respostas que encaminhei no dia 8 de abril, uma semana antes do prazo final.


Sendo entrevistado pela jornalista Raísa Carvalho
para a
Folha de Boa Vista - 11.3.13

***

De modo geral, o que você acha da presença e da cobertura de jornalismo cultural nos blogs e portais nos últimos anos?

Creio que estamos vivendo uma etapa de expansão, com o surgimento de novos blogs e portais e consolidação dos já existentes. Depois de um período em que as pessoas se voltavam mais para redes sociais, e cujo auge considero ter sido no ano passado, noto que novamente os blogs voltam a ser referência na área. Muita coisa boa é veiculada em redes como o Facebook, porém a falta de um bom mecanismo de pesquisa impede que se localize facilmente um conteúdo publicado por um amigo seu (ou mesmo por você mesmo) na semana passada, pior se for algo mais antigo. Blogs e portais levam vantagem por serem facilmente pesquisáveis, indexáveis pelo Google, além de serem páginas que estão abertas a qualquer internauta. 

Quais foram as grandes mudanças na cobertura de cultura e entretenimento na internet com a proliferação de sites no século 21?

Eu considero, primeiramente, que a própria internet causou no jornalismo cultural uma das maiores mudanças desde a década de 1950, quando se tornou comum órgãos de imprensa apoiarem ou promoverem eventos culturais. A partir de meados da década de 1990, com o advento da internet,  pela primeira vez a imprensa não é mais necessária para a mediação entre artistas e público. Tanto artistas quanto público podem se expressar livre e diretamente, através de sites, blogs, Twitter e redes sociais. Seja gerando notícia (artistas e fãs), seja opinando sobre eventos culturais (fãs). Esta transformação segue em curso. 

Pensando em termos da própria internet, ao longo desses 17 anos de presença brasileira na rede, as mudanças têm sido o que a tecnologia de cada momento permite. Os primeiros sites, até o final do século passado, tinham poucas imagens, raríssimos áudios e vídeos e nenhuma interação em tempo real (interagir com um site era você mandar um e-mail para ele). Antes do YouTube, ter um vídeo em seu site exibia muita capacidade de armazenamento, e conhecimentos técnicos para criar um player para o vídeo. A partir de 2005, isso deixa de ser necessário. Em 2007, surge um similar do YouTube para áudio, o Souncloud, que veio facilitar a inserção de áudio principalmente em blogs (antes dele, para abrigar streaming de áudio era necessário registrar um domínio - ou seja, ter um site - e hospedar lá seus MP3s, além de precisar criar um player para os internautas ouvi-los). Estas modificações foram importantes, porque atualmente se você apenas posta um comentário ou notícia sobre um CD, mas não põe amostra alguma do som, o internauta se frustra, pois espera que o portal ou blog exercite ao máximo a convergência de mídias que a internet possibilitou. 

Você acredita que os jornalistas que cobrem cultura na internet têm a formação acadêmica, cultural e pessoal necessárias para tal? Por quê?

Desconheço estatísticas neste sentido. O ideal seria que sim, mas sabemos que hoje nem mesmo para escrever para impressos é exigido diploma (uma verdadeira aberração, que já está mais que na hora de acabar). Em relação a blogs, que geralmente são iniciativas pessoais ou de coletivos não ligados à grande mídia, mesmo que a pessoa não tenha formação específica, dificilmente ela vai se aventurar com o que não tem afinidade - só alguém que estude ou aprecie Filosofia irá cobrir um "Café Filosófico", por exemplo, já que este não é o tipo de evento frequentado por "famosos" e que geraria interesse nos chamados "sites de celebridades". Essa base da afinidade por si só acaba por limitar naturalmente maiores excessos. Já no caso de portais ligados a grupos de comunicação, nem sempre a pessoa tem a mesma liberdade, pode ser escalada para cobrir um evento com o qual não tenha afinidade alguma, por questões de pessoal da redação, interesses da empresa etc. Enfim, de todo modo cabe ao profissional interessado investir na sua qualificação, já que dificilmente a empresa irá fazer algo neste sentido por seu empregado. E acredito que também de certo modo funcione aqui uma espécie de "seleção natural" - se não tiver afinidade com a área, o profissional acabará por deixá-la, rumando para outra editoria com que se identifique mais.

Quais são as diferenças principais das matérias de cultura e entretenimento vistas em portais e blogs com relação ao que se vê na mídia tradicional (jornais e revistas)?

A principal diferença é a presença da opinião. Na mídia tradicional, o espaço opinativo em jornalismo cultural vem se reduzindo. O que se formos parar para pensar é espantoso, pois a cultura é a única editoria onde os eventos são anunciados no veículo, que depois não publica uma linha dizendo se eles ao menos aconteceram - só se dá o "antes", nunca o "depois", salvo raras exceções. Mas também há outras diferenças: a quantidade de assuntos publicada e o tamanho das matérias podem ser bem maiores na internet do que no meio impresso, sem falar no imediatismo. Hoje com um simples celular o repórter pode publicar na internet vídeo ou fotos de um show ou evento cultural que ainda esteja em andamento. 

Quais são os maiores obstáculos para se cobrir cultura na internet?

Para os blogs e páginas não ligados a grandes grupos de comunicação, a maior dificuldades geralmente é o acesso aos eventos - credenciamentos nem sempre são concedidos - e também a bens culturais - há quem ainda faça press-kit apenas para redações dos grandes veículos. Essa situação gera uma dificuldade correlata, que são os custos de cobertura - muitos não têm como pagar o ingresso, mais ida e volta ao local do evento. Ainda há também artistas e produtores que desdenham da oportunidade de falar para um veículo "alternativo". Mas essa sensação de pouca credibilidade associada ao meio internet está em franco declínio, felizmente. Outro fator que outrora era quase proibitivo, os custos de acesso à internet e manutenção das páginas, hoje não pesa tanto, devido à proliferação da rede de banda larga, lan houses, celulares e smartphones com acesso à internet - enfim, hoje é bem mais fácil navegar, e optar por ter um blog elimina o custo de criação e manutenção de um site. 

A linguagem utilizada na cobertura de cultura na internet é formadora de novos públicos ou há vícios de linguagem?

Tenho visto poucos vícios de linguagem nos portais e blogs que acesso, mas não sei se a excelência neste campo, por si só, formaria novos públicos. Vejo isto mais ligado aos assuntos abordados e à maior possibilidade de acesso à rede. 

Você acredita que a cultura é um campo privilegiado na internet ou é deixada de segundo plano em detrimento de política, economia, cidades?

Diferentemente dos meios impressos, com escassez de espaço, e dos eletrônicos, com escassez de tempo, a internet não tem essas limitações. Mesmo assim, nos portais de cobertura geral, não vejo aumento do espaço destinado à cultura, sendo uma proporção semelhante à dos veículos impressos similares. Mas também há bem mais veículos (no caso, sites e blogs) destinados exclusivamente à cobertura cultural, o que não ocorre no meio impresso. 

Você acha que o jornalismo cultural na internet brasileira segue as fórmulas e padrões de outros países do ocidente? Se pudesse, gostaria que ressaltasse as diferenças, caso conheça algumas delas.

Não tenho elementos para responder a pergunta. 

De modo geral, quais você acha que são os rumos que o jornalismo cultural está tomando na internet neste século 21?

Conforme já falei anteriormente, vejo como principais características do período o aprofundamento da convergência de mídias e um renascer do interesse por blogs, talvez porque as redes sociais não se mostraram tão aptas como os blogs para a cobertura cultural. 

***

Como última pergunta, Ballerini me pedia que indicasse outra pessoa do ramo que pudesse gerar uma boa entrevista, e indiquei a jornalista Luciana Medeiros, do blog Holofote Virtual (Belém). 

O livro saiu pela Summus Editorial em 2015 (ao lado, sua capa), porém eu só soube disto em abril deste ano, quando uma jornalista me procurou querendo saber mais sobre o mercado para jornalistas culturais, dizendo que havia lido minha entrevista no referido livro. 


sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Sextas do Noel

A partir de hoje, as sextas-feiras aqui no blog Jornalismo Cultural serão dedicadas a Noel Rosa. Nem vou me preocupar em resumir sua trajetória por dois motivos: ou você já conhece Noel, ou se ainda não conhece o texto publicado logo abaixo será, acredito/espero uma apropriada introdução.

Noel Rosa sempre foi personagem frequente de meus textos sobre música brasileira, principalmente a partir de 2008, quando criei no meu site Brasileirinho um hotsite inteiramente dedicado à sua obra que se encontra em domínio público (já falei disso no texto publicado ontem nas Ovelhas Desgarradas - "Vamos Falar de Domínio Público?"). Como o site saiu do ar ano passado, se perdeu o acesso a este conteúdo.

E o que havia no hotsite? Além de textos meus de variados tamanhos e datas sobre Noel ou onde ele era citado ao lado de outros grandes nomes da MPB, muito material original de autoria do próprio Noel - poemas, pensamentos, peças radiofônicas, textos variados, charges etc., além claro de sua produção musical. 

As músicas de Noel em domínio público já estão parcialmente publicadas aqui no blog, na aba CDs de Noel Rosa para baixar. Até o momento são 3 CDs virtuais (dois com Noel cantando, o terceiro com interpretações de sua obra por outros cantores). Nesse processo pretendo completar com novos CDs a totalidade das gravações originais de composições de Noel cujos fonogramas já se encontram igualmente em domínio público. 

Uma curiosidade: cada um desses CDs virtuais é acompanhado por ficha técnica das faixas (baseada na discografia que eu elaborei, corrigindo inúmeras falhas e omissões disseminadas ao longo do tempo em diversas biografias do artista), uma charge de autoria do próprio Noel e um texto meu inédito. Estes textos nunca foram publicados na íntegra em lugar algum, portanto até hoje só foram lidos por quem baixou os CDs. Até hoje? Sim, porque é exatamente por estes textos que iremos começar as Sextas do Noel! Vem com a gente. 

=)



Noel Rosa

Noel de Medeiros Rosa (1910-1937), compositor, cantor, instrumentista, poeta e cartunista, é considerado pela crítica especializada como um dos mais geniais músicos brasileiros. Em apenas 26 anos de vida, transitou por quase todos os gêneros musicais conhecidos em seu tempo, como toada, valsa, rumba, embolada, marcha e fox-trot; foi ao samba, porém, que mais se dedicou, tendo sido o único autor da década de 1930 a ser parceiro tanto de músicos com formação erudita como Eduardo Souto e Ary Barroso quanto de autodidatas como Cartola e Ismael Silva.

Poucos artistas brasileiros produziram em tão pouco tempo uma obra tão vasta e de tamanha qualidade. Noel deixou um legado de 259 músicas, entre as quais clássicos da música popular brasileira como “Com que Roupa?”, “Palpite Infeliz”, “Fita Amarela”, “Conversa de Botequim” e “Feitiço da Vila” (as duas últimas em parceria com Vadico). Tematicamente, tanto abordou temas universais, como amor e tristeza, quanto traçou um retrato do Rio de Janeiro de seu tempo, ao descrever seus bairros e seus tipos característicos, em letras com humor, ironia e romantismo. Em suas melodias elaboradas, várias de suas soluções harmônicas antecipavam os avanços da Bossa Nova.

Também é incomum a perenidade de sua produção, toda escrita para veiculação imediata em meios de comunicação de massa como o rádio e o cinema, ou aproveitamento em obras culturais de caráter efêmero como o teatro. Talvez por isso, sua obra foi praticamente esquecida logo após sua morte e só voltou a ser valorizada em 1951, através da iniciativa de dois contemporâneos seus: Almirante, que produziu o programa No Tempo de Noel Rosa para a Rádio Tupi, e Aracy de Almeida, que gravou uma série de discos para a Continental, com arranjos especiais de Radamés Gnattali, numa edição luxuosa com capa de Di Cavalcanti, com vários sucessos antigos e algumas inéditas - entre elas o clássico “Três  Apitos”. Desde então, jamais a obra de Noel deixou de ser gravada e executada por intérpretes de todo o Brasil; muitos de seus sucessos, como “Com que Roupa?”, têm sido cantados por sucessivas gerações.

Pouca atenção tem sido dada à atuação de Noel como cantor, gravando 42 composições suas. Nenhum outro intérprete da época levou tantas músicas de Noel ao disco quanto ele mesmo. Desta forma, ele foi um precursor da tendência de o próprio autor interpretar o que compôs - hoje quase uma regra, mas algo raro à época. Menos atenção se dá a seu papel como instrumentista: foi tocando violão no Bando de Tangarás que Noel começou sua atuação profissional na música, em 1929. Até 1932, participou de registros históricos como o de “Na Pavuna” (Almirante – Homero Dornellas), o primeiro samba com forte percussão a ser gravado. É conhecida ainda sua presença nos grupos Batutas do Estácio, Turma da Vila e Noel Rosa & seu Grupo.



  • Making-off do texto - Escrito em setembro de 2009 a pedido de uma cantora que planejava gravar um CD unicamente com composições de Noel Rosa (inscrito num edital, o projeto não foi aprovado e o CD nunca saiu). 
  • Foi este texto  que escolhi para acompanhar o pacote de download do CD virtual Noel Rosa Cantor - Vol. 1, juntamente com a charge que abre o post, uma autocaricatura de Noel, que se retratou ao microfone da Rádio Mayrink Veiga; o desenho pertenceu ao acervo do ex-presidente João Figueiredo. O CD foi lançado no site Brasileirinho em 2.7.11.
  • Um parágrafo - o segundo - era até hoje o único trecho publicado deste texto, no post linkado acima. 

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Vamos falar de domínio público?


(Ovelhas Desgarradas - 41)

No Brasil, o tema do domínio público é escassamente debatido. A única vez, de fato, que vi o tema ser bastante comentado foi no começo de 2008, quando, passados 70 anos da morte de Noel Rosa (em autocaricatura ao lado), sua obra passou ao domínio público – que nada mais é que o fim do período de exclusividade de utilização econômica de uma obra intelectual (literária, artística ou científica). Até ali, a maioria das pessoas associava a expressão a um e-mail enviado como spam em que alguém, alarmado, dizia que estava para sair do ar o site www.dominiopublico.gov.br, por falta de acessos (jamais ameaçado, o site completará 7 anos em novembro).

A passagem de uma obra ao domínio público abre uma série de possibilidades interessantes. Permitiu-me, por exemplo, compilar e lançar no blog Noel Rosa Sempre o CD virtual Noel Rosa Cantor – Vol. 1,  apenas com fonogramas liberados, para download gratuito (o único pagamento exigido do interessado é o envio de uma mensagem sobre o CD para sua rede social). Também propicia o surgimento de uma editora como a Legatus, de Alexandre Pires Vieira, que só lança e-books de textos que ele busca no já citado site Domínio Público. Vieira chega a faturar 6 mil dólares por mês com suas vendas na livraria virtual Amazon. Machado de Assis está entre os autores que Vieira publica. Assim como ele, diversos outros editores hoje podem lançar Machado, de modo que há concorrência e o leitor pode optar pela edição que achar melhor. Outros benefícios são a redução de custos para produção de CDs, shows e livros que utilizem obras liberadas.


Alexandre Pires Vieira, dono da Legatus
(Foto: Joene Knaus)


O medo de enfrentar concorrência, num setor da economia onde ela não é habitual, acaba gerando distorções, que se ligam ao silêncio em relação ao domínio público. Eu soube, por exemplo, de uma cantora que pagou a uma editora musical em 2009 pela gravação de uma música de Cândido das Neves. Tendo este autor falecido em 1934, desde 2005 sua obra se acha em domínio público – ou seja, cessou, por força de lei, o mandato que a editora tinha para representar os herdeiros do autor. O correto seria a editora comunicar à cantora que a obra estava liberada e que ela poderia gravá-la sem ônus. Na mesma época, um cantor me procurou porque queria lançar uma compilação, semelhante à que fiz de Noel, de obras de Sinhô, morto em 1930 e cuja obra está liberada desde 2001. Ao buscar os fonogramas originais nas gravadoras, era informado, erroneamente, que a cada mudança de suporte (ou seja, do 78 rpm para o LP, deste para o CD, MP3 etc), a contagem de 70 anos de proteção se reiniciava (não há nada parecido com isso escrito na Lei do Direito Autoral em vigor no país, a 9610/98).

É bom não esquecer que o papel do direito autoral é assegurar um período de exclusividade ao autor e seus herdeiros, para a exploração comercial de sua obra. Findo esse período, a obra passa ao domínio público, se tornando então patrimônio de todos; fica, porém, assegurado, eternamente, o direito moral do reconhecimento da autoria. Esse é o mesmo princípio das patentes de invenções – por exemplo, Alexander Graham Bell inventou o telefone e durante alguns anos sua empresa, a Bell, teve o monopólio legal assegurado; acabado esse período, qualquer outra empresa poderia fabricar telefones, com o que o consumidor ganhou, por meio da concorrência, melhorias técnicas e redução de custos. Enfim, por não encarar o domínio público com a mesma visão que o dono da Legatus, Alexandre Pires Vieira, algumas gravadoras e editoras adotam as atitudes citadas no parágrafo anterior. Ao lado da desinformação, pode acontecer também a pressão sobre os legisladores para a extensão do prazo de proteção. Nos Estados Unidos, o prazo, que era de 70 anos, passou a ser de 90, em 1998; a emenda ganhou o apelido de “Mickey Mouse Protection Act”, pois se comentava que a Disney é que teria exigido a prorrogação, para evitar a liberação dos filmes mais antigos do camundongo.

Cartaz do primeiro filme sonoro de Walt Disney com o Mickey, 
lançado em 1928, e que teria motivado o "Mickey Mouse Protection Act”



Observem que Brasil e Estados Unidos adotam prazos de proteção diferentes. Pois é, cada país é livre para fixar o período que lhe parecer melhor, desde que não seja inferior ao estabelecido pela Convenção de Berna - 50 anos. Essa autonomia acaba gerando um efeito colateral preocupante: a falta de parâmetros claros sobre qual legislação deve ser considerada em cada caso. A ponto de, no site Domínio Público, o próprio Ministério da Educação admitir que “as diferentes legislações que regem os direitos autorais de outros países trazem algumas dificuldades na verificação do prazo preciso para que uma determinada obra seja considerada em domínio público.”

Pode não parecer, mas 70 anos post mortem é muito tempo. No caso de obra em parceria (muito comum no campo da música), a contagem do prazo só começa após a morte do “último dos co-autores sobreviventes”, como diz o artigo 42 da Lei 9610. Peguemos um exemplo, o caso de “Carinhoso”, choro que Pixinguinha compôs no começo dos anos 1920 e que foi letrado por João de Barro em 1937. Como Pixinguinha morreu em 1973, e João de Barro em 2006, “Carinhoso” só passará ao domínio público em 2077, mais de 150 anos depois de ter sido escrita!

É possível alterar isto? Não muito. O direito autoral é regulado desde 1886 pela Convenção de Berna. O Brasil, sendo seu signatário, deve seguir vários princípios ali fixados, como esse do prazo mínimo de 50 anos. O país que ousar fixar um período menor arrisca-se a ser excluído do acordo e ver seus criadores intelectuais perderem o direito à proteção no exterior. Sou favorável a que, na revisão que o Congresso Nacional deve fazer em breve na Lei do Direito Autoral, o prazo de proteção seja reduzido para 50 anos.


 Laura Dantas 
(Foto: Eduardo Matos)


Seria importante que mais gente no Brasil entendesse os benefícios econômicos e culturais do domínio público. São raras as iniciativas como a minha, criando um hotsite com toda a obra já liberada de Noel Rosa. Ou projetos como o Noel Inédito, da cantora e compositora baiana Laura Dantas, que musicou letras de Noel cuja melodia se perdeu. Vários outros compositores importantes já estão com as obras em domínio público - cito apenas três: Carlos Gomes, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth. Acima de tudo, entendo que falta, principalmente, um referencial. Algo que dê visibilidade às obras em domínio público. Penso que artistas que estivessem pesquisando repertório para um CD ou roteirizando um novo show poderiam consultar uma base de dados para ter opções de obras pelas quais, legalmente, não precisariam pagar direitos autorais, reduzindo consideravelmente seus custos de produção. Óbvio que sabemos que este não é o único critério a levar em consideração (a qualidade da obra e sua identificação com o intérprete certamente pesarão mais), mas não deixa de ser relevante – além de ajudar a colocar novamente em circulação na sociedade obras criadas há pelo menos 70 anos, e que fazem parte do rico patrimônio cultural de nosso país.



  • Making-off do texto - Meu terceiro texto para o Rockazine, publicado no site em 3.10.11 e saído na terceira - e última - edição da revista (capa ao lado), no mesmo mês. 
  • O título original do texto era "A Propósito de Domínio Público". Eu mesmo pedi para modificá-lo antes da publicação.
  • Atualização 22.9.17: Este texto foi republicado na íntegra, sem me creditar como autor, no blog Cultura de Domínio Público, em 13.7.13 - não sei se o pior foi não me creditar, ou elogiar meu texto como "escelente" [sic]. Houve um comentário de leitor em 2015. O blog durou apenas 18 posts, entre junho e julho de 2013, e seu autor assinava apenas MARCMOSHE. Uma pista do seu (talvez) verdadeiro nome aparece no primeiro post, ao se reproduzir uma correspondência do MinC endereçada ao "Senhor Emerson". Possivelmente ele fosse de Porto Alegre, pois em vários posts menciona a programação da POA TV, canal por assinatura da capital gaúcha - neste post inclusive dá a entender uma ligação do blog com um programa dessa emissora, logicamente não captável em outros estados. 
  • Têm sido persistentes os boatos sobre o fim do site Domínio Público, sempre "em breve" - numa rápida pesquisa agora, encontrei dois desmentidos - um do Blog do Lucho, de 2009, e outro do Boatos.org, de 2016. É evidente que é louvável que o MEC ofereça todo o conteúdo reunido ali, mas além de manter a interface espartana, o site não parece vir sendo atualizado, não da forma como se esperava - acabei de fazer uma pesquisa com os termos "som  - Noel Rosa - português" e o resultado foi nulo - isto a pouco mais de dois meses de se completar 10 anos da passagem da obra de Noel ao domínio público! O ideal é que a cada ano, preferentemente em janeiro, fossem incorporadas ao site as obras dos autores cuja morte estivessem completando então 70 anos. 
  • Atualização 22.9.17: Não lembrava mais, após 6 anos, qual era minha fonte para a menção à editora Legatus. Encontrei-a na edição 305 da revista Info Exame, de julho de 2011 (meu artigo foi enviado ao Rockazine em 16.8). Na época, eu comprava em banca, mensal e religiosamente, apenas duas revistas: a Info e a Você S/A. A edição 305 pode ser lida e baixada na íntegra no Issuu. A reportagem de Maurício Moraes (com a foto que utilizei para ilustrar meu artigo) chega a mencionar - classificando a atitude como um "deslize" - o não-pagamento da editora aos tradutores das obras estrangeiras que publicava (nem todas as traduções se encontravam igualmente em domínio público) e até uma ameaça de processo ao editor. Mas é difícil considerar o caso como um "deslize" qualquer: pesquisando ontem sobre a Legatus no Google, encontrei uma série de posts do blog não gosto de plágio, da tradutora Denise Bottmann, sobre inúmeros problemas nos créditos das traduções dos livros editados por Vieira, e inclusive com leitores comentando que se sentiram lesados. A maioria dos posts é de fevereiro de 2011, cinco meses antes, portanto, da publicação da Info. Atualmente, a Legatus não tem mais nenhum livro à venda na Amazon; a empresa, cujo nome registrado é Montecristo Editora e Treinamento Ltda. ("Legatus" é um nome fantasia, o que é perfeitamente legal), tem como atividades descritas neste site "Treinamento em desenvolvimento profissional e gerencial; Serviços de organização de feiras, congressos, exposições e festas", sendo portanto um caso curioso de uma empresa que tem editora no nome e não publica livros. 
  • Lançado por mim em agosto de 2011, o blog Noel Rosa Sempre saiu do ar em 18.9.16.
  • A frase (entre parênteses) sobre o "pagamento pelo CD" ("o único pagamento exigido do interessado é o envio de uma mensagem sobre o CD para sua rede social") se refere ao serviço PagSocial, que solicitava que ao baixar gratuitamente algum conteúdo, o internauta postasse sobre o produto baixado em alguma de suas redes sociais (Twitter, Facebook ou Orkut). O serviço segue no ar, porém alterou radicalmente seu modo de funcionamento sem aviso prévio, de modo que atualmente não recomendo seu uso. Clicando no nome do CD, o download iniciará imediatamente. 
  • Sempre vi a data da composição de "Carinhoso" da forma como mencionei ("no começo dos anos 1920"). Mais recentemente, parece ter havido um consenso de que Pixinguinha escreveu esta música em 1917. Isto, porém, não influi na contagem do tempo para a passagem ao domínio público. 
  • Não chegou a haver até hoje uma revisão pelo Congresso Nacional da Lei do Direito Autorial em vigor no Brasil - segue valendo a de 1998, citada e linkada no texto. Apenas, após o fim da CPI do ECAD, em abril de 2012, o Senado aprovou projeto de lei proposto pela própria CPI, modificando o funcionamento do ECAD (o que afeta apenas a arrecadação de direitos na área da Música). Remetido à Câmara dos Deputados em julho de 2013, o projeto aguarda votação. 
  • O hotsite com a obra liberada de Noel Rosa esteve no ar no site Brasileirinho entre 2008 e 2016. Atualização 22.9.17: A partir de hoje, este material começará a ser publicado aqui no blog - pesquise pela tag Sextas do Noel
  • Laura Dantas apresentou pela primeira vez suas melodias para letras inéditas de Noel Rosa no show Mil Tons, no Teatro do Irdeb (Salvador) em 7.12.10; a gravação do show foi exibida pela TVE-BA em 31.7.11.