segunda-feira, 2 de agosto de 2004

Mistura e Manda: A passeata contra a guitarra

De todas as passeatas acontecidas nos anos rebeldes, a mais curiosa sem dúvida foi a que passou à História como a passeata contra as guitarras. O estranhíssimo fato se deu numa segunda-feira, 17 de julho de 1967, em São Paulo, indo do Largo de São Francisco ao Teatro Paramount (ou seja, algumas quadras da Av. Brigadeiro Luís Antônio).

O que teria feito a guitarra para que motivasse essa estranha marcha, certamente sem similar em qualquer cultura, mobilizando participantes do porte de Elis Regina, Jair Rodrigues, Edu Lobo, Geraldo Vandré, MPB-4, Zé Kéti, Luiz Loy, Wilson Simonal e Gilberto Gil (logo ele, que a partir dos anos 70 se tornaria um de nossos maiores guitarristas)? A bem da verdade, Gil participou como gratidão pela força que Elis lhe dera no início da carreira - mas foi muito a contragosto, pois já então admirava The Beatles, aceitava o iê-iê-iê e não via sentido em manifestar-se contra um instrumento musical.

Jair Rodrigues, Elis Regina, Gilberto Gil
e Edu Lobo na passeata

Essa mobilização que virou lenda como uma defesa da música brasileira contra a invasão estrangeira, ou mesmo um embate entre a MPB e a Jovem Guarda, não passou de um lance promocional de um novo programa que a TV Record lançava naquele julho, intitulado Frente Única - Noite da MPB. Houve várias reuniões com os artistas que participavam regularmente d'O Fino da Bossa, comandado por Elis e Jair, cuja audiência vinha caindo. O diretor da Record, Paulo Machado de Carvalho, teve a idéia salvadora: no mesmo dia e horário habituais do Fino, entraria o Frente Única, com apresentadores alternando-se a cada semana: Gil; Simonal; Vandré; Elis e Jair. A idéia da passeata também teria sido de Machado de Carvalho, conforme é narrado em Jovem Guarda - Em Ritmo de Aventura (Ed. 34, 2000). O autor deste livro, Marcelo Fróes, revela ainda que os manifestantes cantaram, acompanhados pela banda da Força Pública de São Paulo, "A Banda" - embora seu autor, Chico Buarque, tenha participado de poucos minutos da marcha, saindo à francesa (ou, segundo outros relatos, assistido a tudo da janela do Paramount). Roberto Carlos limitou-se a espiar a passeata de dentro do carro. Talvez o Rei tenha pressentido o que Caetano Veloso escreveria algumas semanas depois na Última Hora de São Paulo: "Penso até que, se no meio daquela psicose toda aparecessem a Wanderléa ou Erasmo Carlos, seriam mesmo massacrados", arrematando com a definição da passeata como "ridícula" e lembrando o Estado Novo.

Caetano, naturalmente, não tomou parte na manifestação. Já informara a Gil que era contra a passeata, principalmente depois que Nara Leão, numa das reuniões, afirmou que não via nenhuma disputa ideológica, e sim meramente uma questão comercial. Nara e Caetano é que acompanharam a passeata de uma janela - no caso, a do apartamento do empresário Guilherme Araújo no Hotel Danúbio - e espantaram-se com o que viram. De acordo com Carlos Calado em Tropicália - A História de uma Revolução Musical (Ed. 34, 1997), o baiano comentou:

- Nara, eu acho isso muito esquisito...

- Esquisito, Caetano? Isso aí é um horror! Parece manifestação do Partido Integralista. É fascismo mesmo!

Fróes acrescenta que, logo após a passeata, o Frente Única foi lançado no Paramount através de um show que contou com as participações de Vandré, Ataulfo Alves, Juca Chaves, Zimbo Trio, Caçulinha e a orquestra de Ciro Pereira. Nara também estaria presente, mas penso ser pouco provável (a não ser que ela tenha mudado rapidamente de idéia e se tornado integralista também...). De qualquer forma, o Frente Única não emplacou, durando apenas 9 semanas, saindo no ar no início de setembro de 1967 - quando iniciou a disputa do III Festival da Música Popular Brasileira, que consagrou a Tropicália, mostrando que combater a guitarra não tava com nada!

  • Making off do texto: publicado no Mistura e Manda nº 60, de 2 de agosto de 2004. O M & M era o informativo semanal do site Brasileirinho, atualizado semanalmente com notícias e curiosidades - como neste caso, em que busquei esclarecer o episódio da passeata, pelo qual Elis Regina foi durante algum tempo lembrada como alguém aferrada a um "purismo conservador" (e quem conhece a trajetória da cantora sabe o quanto isto é irreal), além do que em realidade a iniciativa da passeata nem partiu dela.