sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Flor do Maracujá - Diamante Negro: das Raízes ao Poder da Criação

por Zekatraca, de Porto Velho

Cenário

O boi bumbá Diamante Negro vai se apresentar na noite de hoje 31, na abertura oficial da XXXI Mostra de Quadrilhas e Bois Bumbás do Arraial Flor do Maracujá.

De acordo com o presidente Aluizio Guedes o bumbá da Zona Sul vai apresentar o tema: “Das Raízes ao Poder de Criação – Você como ser humano através do imaginário popular”. O artesão responsável pelo desenvolvimento do tema é Wendel Miranda, que tem como soldador de ponta o Francenildo, escultor de ferro o Edinelson e o responsável pelo revestimento Tadeu, todos da Ilha Tupinabarana - Parintins (AM). Wendel garante que  o bumbá vai apresentar um espetáculo muito bonito, que começa com o descobrimento do Brasil com a Caravela de Cabral trazendo em seu bojo as brincadeiras que passaram a ser praticadas na terra conquistada. Daí pra frente, muitas surpresas irão acontecer, informa o artesão. Entre as alegorias que entrarão na arena na noite de hoje vamos apreciar a “Onça Preta” montada pela Porta Estandarte Leda Guedes; O Pajé Regis Lopes chegará à arena carregado por uma águia de duas cabeças. “É a metamorfose de homem réptil com a águia conhecida como ‘Unlaquínfia’”.

A apresentação do boi do Amo Aluizio Guedes começa às 23h, logo após a abertura oficial do evento que está marcada para as 22h no Parque dos Tanques.

Aluizio e sua família acreditam que o título será conquistado, fazendo a alegria dos simpatizantes do bumbá da Zona Sul.

Além dos cenários muito bem confeccionados pela equipe parintinense, o Diamante Negro coloca no “curral de dança” do Flor do Maracujá os seguintes itens: Cunhã Poranga Myrla Pinheiro, Rainha do Folclore Amanda Sara; Rainha da Batucada Leandra Firmino, Levantador de Toada Thiago, Porta Estandarte Leda Guedes, Sinhazinha da Fazenda Simone Guedes, Amo Aluizio Guedes, Mestre da Maruja Hudson Guedes, Walci do Cavaco cantor e diretor da Banda e o Fabiano que também vai atuar como Pajé.

Disputando como melhor toada, “Crisálida da Vida” com o ritual da “Procriação”.

Aluizio Guedes garante que seu grupo vai realizar um espetáculo de boi bumbá jamais visto  em Porto Velho. “Não estamos para brincadeira, vamos derrubar o contrário, seja ele quem for, passaremos por cima com nossa criatividade”.


Julgadores

A coordenadora da Comissão de Julgadores de Quadrilhas e Bois Bumbás do Arraial Flor do Maracujá, atriz Sueli Rodrigues, reuniu-se na manhã de ontem com os dirigentes dos grupos folclóricos e da Federou e colocou para análise, os nomes das pessoas que foram convidadas para atuar como jurado de Boi Bumbá e Quadrilha. Entre os nomes apresentados apenas dois foram impugnados pelos folcloristas: Edson José Corbim e Fabel Fabiano.

Após a análise dos nomes o corpo de jurados ficou assim:

Julgadores de QuadrilhasErinaldo Oliveira da Silva; Firmineto Mendes da Silva; Júnior Paixão Ribeiro Lima; Uelton Telio Ribeiro Salomão e Welington Luiz de Oliveira Sales.

Julgador de Bois Bumbás – Alberto Sidnei de Jesus Rodrigues; André Luiz Santos de Souza; Marcio Oliveira Brito; Flávio Daniel Pereira da Silva o quinto jurado virá ou de Cacoal ou de Rolim de Moura.

Das cinco notas, a menor e a maior de cada quesito será eliminada, sendo computadas apenas as três notas restantes.

Lenha na Fogueira - 31.8.12


por Zekatraka, de Porto Velho

Atenção minha galera, vamos levantar bandeira, e balancear no ar. Vamos fazer a contagem que a festa já vai começar:

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Um, dois, três e jáaaaaaaaaa!

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Bate tambor, afina a sanfona, coloca indumentária legal, vai para o Parque dos Tanques onde a partir das 20h00 desta sexta feira, começa a XXXI Mostra de Quadrilhas e Bois Bumbás do Areal Flor do Maracujá.

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Pela primeira vez na Amazônia, no Brasil e no Mundo uma festa junina acontece no mês de Setembro.

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Olha que mesmo assim, a gente tem que elevar as mãos para o céu em agradecimento ao Senhor pela realização do Flor do Maracujá.

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Este ano vários eventos considerados tradicionais em nossa cidade Porto Velhos, não aconteceram. Por exemplo:

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A peça O Homem de Nazaré do grupo Êxodo.

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O Carnaval Fora de Época do Bloco Maria Fumaça.

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A Expovel entre outros.

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A programação da XXXI Mostra de Quadrilhas de Bois Bumbás na noite é a seguinte:

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Às 20h Quadrilha da 3ª Idade do Sesc.

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21h00 – Quadrilha Mirim Nova Estação.

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22h00 – Abertura Oficial

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23h00 – Boi Bumbá Diamante Negro.

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De acordo com o Regulamento e Programação, o Diamante Negro tem 1h30 para desenvolver seu tema na arena do Flor do Maracujá.

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Isso quer dizer, caso não aconteça nenhum imprevisto do tipo, som não funcionar direito, iluminação etc. (coisa difícil de não acontecer), o Diamante Negro deixa o “Curral” de dança aos 30min do dia 1º de Setembro.

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Desejamos ao Aluizio Guedes e todos do Boi Bumbá Diamante Negro sucesso!

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Por falar em 1º de setembro em outros anos, nessa data o governador em solenidade em frente ao palácio Presidente Vargas abria solenemente a Semana da Pátria acendendo a “Pira” instalada pelo lado da entrada da Presidente Dutra.

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Depois a tropa desfilava em continência a sua excelência o governador do estado de Rondônia e até já chegaram a servir salgadinhos e refrigerante aos convidados.

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Este ano, pelo menos até a tarde de ontem, não haviam distribuído a programação alusiva à Semana da Pátria.

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De acordo com os últimos acontecimentos, a pergunta que não quer calar é a seguinte:

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Será que a Semana da Pátria vai ser adiada também?

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Semana da Pátria fora de época, no lugar do carnaval.

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Pelo amor de Deus, não me venham pra cá, alegar que o foco agora é a realização do Arraial Flor do Maracujá!

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Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Não confundam “alhos com bugalhos”

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Só consultando o “Coronel” Lenilson Guedes a respeito do assunto, quem sabe ele nos informe se vai ou não vai acontecer a Parada Militar/Estudantil de 7 de Setembro.

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Ora meus amigos, temos que nos preocupar com isso, afinal de contas o Comando da Policia Militar de Rondônia festejou garbosamente o dia do Patrono do Exército Brasileiro Marechal Luiz Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, no dia 25 de agosto, Dia do Soldado!

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Será que tão querendo revigorar os festejos do Dia do Soldado?

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Creio que a Casa Militar e a Casa Civil do governo estadual, não vão esquecer de promover a Parada de 7 de Setembro.

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Vamos aguardar que tão logo o Flor do Maracujá comece oficialmente, seja distribuída a programação da Semana da Pátria.

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Não posso ficar sem apreciar e aplaudir as fanfarras dos colégios e a furiosa da PM desfilando em continência aos símbolos da independência do Brasil!

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Bom! Antes disso vamos prestigiar as apresentações folclóricas do Arraial Flor do Maracujá.

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Amanhã dia 1º o Duelo será entre as quadrilhas: JUABP e Rádio Farol.

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Na realidade a programação oficial de sábado é a seguinte:

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20h00 – Boi Bumbá Flor do Campo de Guajará Mirim (convidado especial).

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21h00 – Quadrilha Mirim Rosas de Ouro.

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22h00 – Quadrilha JUABP

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23h05 – Quadrilha Caipiras do Rádio Farol.

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Na realidade essas duas quadrilhas conseguiram se apresentar na data acima, ou seja, sábado dia 1º por pura esperteza. Disseram para as que realmente tinham o direito de se apresentar nessa data, e disseram que foi o canal de televisão que vai transmitir o evento que exigiu. Tudo balela.

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O certo era: Os grupos que ficaram em terceiro e quarto lugar no arraial passado dançariam na primeira semana do Flor do Maracujá deste ano.

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Os grupos classificados em segundo e primeiro lugar no arraial passado (2011) dançariam no final da segunda semana.

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Severino e João Big foram espertos e levaram os demais no “bico” e por isso, vão aparecer para o mundo ao dançarem na noite deste dia 1º de setembro.

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Foi aquela: Se colar colou! Colou.

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Tô no Flor do Maracujá com a minha Cunhã Poranga!

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Altamiro Carrilho (1924-2012)(2)



O ETERNO JOVEM ALTAMIRO



Num bar da Alemanha, Altamiro Carrilho e Johann Sebastian Bach estão sentados a uma mesa, cada um com seu canecão de cerveja, conversando animadamente. Certa hora, o flautista brasileiro resolve falar ao mestre alemão sobre o choro, que, em suas palavras, deu origem aos demais “42 ritmos genuinamente brasileiros registrados pelo maestro Guerra Peixe, fora os 25 que os baianos inventam todo dia”. Bach mostrou-se vivamente impressionado com tudo isso, e quando Altamiro lhe revelou sua intenção de aproveitar fragmentos de músicas de Bach em uma composição, o mestre não se fez de rogado:

- Está tuto muinto bem, pode usar meus músicas no seu chorrô!

É assim que Altamiro explica o nascimento de sua composição “O Eterno Jovem Bach”, a partir dessa autorização obtida em sonho. Confesso que me falta um conhecimento mais profundo da obra de Johann Sebastian para reconhecer os tais fragmentos, mas é possível notar um certo clima barroco no choro, aquele maneirismo setecentista – e com muito menos voltinhas!

O aproveitamento da obra (e/ou do clima delas) de Bach por compositores brasileiros não é nenhuma novidade. Nosso maior letrista, Vinicius de Moraes, colocou versos em “Jesus, Alegria dos Homens”, dando-lhe ainda um andamento de marcha-rancho e um novo título, "Rancho das Flores". Heitor Villa-Lobos fez uma série célebre de nove “Bachianas Brasileiras”, enquanto Paulinho Nogueira, mais modesto, compôs várias “Bachianinhas”. Este tipo de integração entre o repertório popular e o de concerto é saudável e freqüente.

O que não é freqüente (mas é saudável!) é um flautista popular atuar junto a uma orquestra solando um concerto de Wolfgang Amadeus Mozart. Como Altamiro fez, com a Orquestra Unisinos regida por Roberto Duarte, interpretando o “Concerto nº 1 em Sol para Flauta e Orquestra”, dias 24 de agosto de 2003 na Unisinos (São Leopoldo – RS) e 27 no Teatro da AMRIGS (Porto Alegre – RS). Altamiro tocou esse concerto a primeira vez em 1972, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Nessa apresentação do dia 27, Altamiro incluiu na cadência do final do 2º movimento citações de “Brasileirinho” (Waldir Azevedo), “Urubu Malandro” (Louro) e “Tico-Tico no Fubá” (Zequinha de Abreu), enquanto um solo no 3º movimento incluiu “Prenda Minha” (tema popular gaúcho) e “Hino Nacional Brasileiro” (Francisco Manuel da Silva – Osório Duque Estrada). Ainda com a orquestra, tocou Pixinguinha: “Ingênuo”, “Rosa” e “Carinhoso” (no qual regeu o coral da platéia). Pixinga foi lembrado ainda com a “Fantasia sobre ‘Carinhoso’” que Altamiro compôs em 1973, na noite em que o autor de “Um a Zero” foi convocado para tocar flauta no céu. A “Fantasia...” traz o tema principal em vários andamentos, entremeado ao tema secundário, que entra mais como citação.

O concerto ainda teve Patápio Silva, com um trecho de “Primeiro Amor” em que Altamiro mostrou grande fôlego, e com “Zinha”, tocada duas vezes – na primeira, o flautista encerrou a polca com notas bem agudas, provando o domínio pleno de seu instrumento.

  • Making off: este comentário foi publicado no site Brasileirinho no final de agosto de 2003, pouco depois do concerto de Porto Alegre. Motivou o envio do seguinte e-mail de Altamiro:

Olá, Fábio! Tudo ótimo! Bela matéria. Há uma outra letra feita sobre "Jesus, Alegria dos Homens", de autoria do saudoso Miguel Gustavo, usando o andamento de marcha-rancho. Era um jingle da Banha Rosa. Um abraço musical. Altamiro Carrilho

  • Posteriormente, o flautista me comentou que encomendou tradução do texto para o francês e o alemão, passando a enviá-lo junto com seu currículo sempre que havia solicitações de contratantes do exterior. :) 


Altamiro Carrilho (1924-2012)(1)


Na manhã desta quarta, 15 de agosto, o flautista Altamiro Carrilho faleceu em uma clínica em Laranjeiras, zona sul do Rio de Janeiro. O país perde assim um dos maiores nomes do choro. Tive oportunidade de conviver breves momentos com Altamiro no final de agosto de 2003, quando ele esteve no Rio Grande do Sul a convite da Orquestra Unisinos, então mantida pela Universidade do Rio do Sinos, hoje extinta. Em homenagem a Altamiro, republico aqui a entrevista, publicada no site Brasileirinho em dezembro de 2003, e em seguida um comentário sobre o concerto realizado em Porto Alegre. 



Entrevista gravada em São Leopoldo (RS), em 25 de agosto de 2003

FABIO GOMES - O senhor tem tocando bastante repertório erudito, em apresentações com orquestras, não é?

ALTAMIRO CARRILHO - Estamos tocando não só música erudita como popular também, mas um popular mais tranqüilo, mais suave, de modo que combina muito bem com o erudito.

F - A sua carreira já tá numa fase que não tem mais essa questão "ah, agora estou fazendo música erudita", "agora estou fazendo música popular". Tem muita gente que tem medo de integrar as coisas.

A - Eu não acho diferença nenhuma. A música é uma só. Só existe um tipo de música: é a boa. Eu viajo o Brasil inteiro, fora do Brasil também já fiz grandes temporadas. Fiz durante 12 anos a caravana oficial do governo, divulgando a música brasileira no exterior, e conheci 40 e tantos países com música. Cada viagem nós atendíamos 4, 5 países diferentes e foi o grande passo que a música popular deu, foi por intermédio da lei de Humberto Teixeira, parceiro de Luiz Gonzaga, quando deputado federal (1958). E essa lei foi fantástica, porque não gastava muito, eles aproveitavam a bilheteria do próprio país em que estávamos para cumprir parte das despesas. Sempre teatros lotados. Na antiga União Soviética (1966), nós fomos para fazer 30 dias e ficamos 90 dias. Renovamos o contrato duas vezes, o que poucos estrangeiros conseguiram na Rússia. Pela nossa riqueza de ritmos. O Brasil é o país mais rico em ritmos no mundo inteiro. 

F - Essas viagens, isso aí já foi com a Bandinha?

A - Não. 

F - Não?

A - A Bandinha, nós viajamos somente pela América Latina. Porque a Bandinha tinha 9 componentes e onerava muito. Esse outro grupo era um grupo pequeno, era um quarteto, no máximo um quinteto, o que trazia uma despesa muito menor. Mas um quinteto escolhido assim a dedo. Músicos escolhidos com um cuidado assim...

F - Quem eram?

A - ... todo especial, música instrumental... Eram músicos do Teatro Municipal, aqueles músicos da Orquestra Tabajara, de Severino Araújo, músicos de São Paulo, da orquestra do Paes, Luís Arruda Paes. Bons músicos. Então mesclávamos, 2 do Rio, 3 de São Paulo, 1 de Minas, pra representar o Brasil, né? E o sucesso foi enorme, porque nós tocávamos 90% de música instrumental. Sem barreiras de idioma. O idioma é uma barreira enorme fora do Brasil. Pouquíssimos países falam português. Então ficamos absolutamente convencidos, depois da primeira caravana, que era o instrumental que agradava mais. Agora levamos sempre músicos de primeiríssima categoria, em saxofone, trumpete, trombone, flauta, acordeom, piano, bandolim, tudo da melhor qualidade, né? Então um grupo pequeno fazia as vezes de um grupo grande, porque cada um tocava mais de um instrumento. O pianista tocava acordeom, vibrafone; o contrabaixista tocava tuba e contrabaixo; formávamos uma pequena bandinha também - não fomos com a Bandinha completa, mas pelo menos um instrumento da banda tinha, que era a flauta, e mais a tuba. E íamos sempre com um cantor ou uma cantora bons. Naquela época, estava fazendo muito sucesso a Carmélia Alves, que era considerada a rainha do baião - era Luiz Gonzaga (rei do baião) e Carmélia Alves. Mas Luiz Gonzaga tava trabalhando muito no Brasil, não quis ir à Europa. As músicas foram por ele, os discos foram. E Carmélia Alves foi a primeira, depois foi a Isaurinha Garcia, grande sambista, depois foi Elis Regina... Elis Regina chegou a ir numa das últimas caravanas. Com todo o sucesso que ela conseguia no Brasil, lá ela perdia para meus instrumentistas. Por causa do idioma. Agora, instrumental era sempre sucesso garantido.

F - Eu tenho uma curiosidade, como estudioso e apreciador do choro, porque em 1951, quatro músicos do Regional de Benedito Lacerda fundam o Regional do Canhoto: Canhoto (cavaquinho), Dino (violão de 7), Meira (violão) e Gílson (pandeiro). A princípio, oficialmente, durante muito tempo circulou que Benedito Lacerda queria se aposentar e então se retirou do conjunto e Canhoto assumiu com o nome, embora não passasse a ser o solista...

A - É, porque o Canhoto era o mais antigo do conjunto. 

F - Eu fiquei sabendo (outra versão) há pouco tempo atrás num livro sobre Jacob do Bandolim (Tributo a Jacob do Bandolim - Discografia Completa, de Maria Vicencia Pugliesi e Sergio Prata, Rio de Janeiro: Centro Cultural Antonio Carlos Carvalho, 2002): na verdade os músicos é que não quiseram mais trabalhar com Benedito, que tava muito famoso, com avião particular, só querendo aproveitar a vida, viajar, não queria ficar mais tocando e tal. E aí, no caso, lhe convidaram para ser o flautista. Qual é a versão correta?

A - Não, aí essa versão eu não concordo. Porque o Benedito Lacerda fez uma amizade muito forte com o saudoso Ademar de Barros, que tentou a presidência da República várias vezes. Então Ademar de Barros queria que o Benedito Lacerda, como bom flautista que era, e que tinha um gênero de música muito alegre, que é o choro, (auxiliasse na campanha), essa coisa toda. O Ademar de Barros colocou à disposição dele um jatinho, com piloto, para ele ir onde quisesse, e nesses lugares estaria também Ademar de Barros fazendo sua campanha. (OBS: Em 1950, Ademar de Barros concorreu a senador pelo PSP de São Paulo, apoiando a chapa presidencial do PTB: Getúlio Vargas e Café Filho). Acontece que o Benedito Lacerda, nessa época, já estava doente, já estava com câncer no pulmão. Ninguém sabia. Ele sabia porque o médico falou e recomendou a ele que tocasse o instrumento o mínimo possível, porque dependia da respiração, certo? E além de tudo, Benedito fumava muito, nunca parou de fumar e com isso prejudicou mais, quer dizer, não deu chance ao organismo de reagir. Ele não queria abandonar o conjunto completamente, aproveitou essa oportunidade pra viajar pelo Brasil. Ele ia só prestigiar Ademar de Barros. O secretário do Ademar apresentava: "Aqui o grande músico brasileiro Benedito Lacerda, já gravou com todos os maiores cantores do mundo", e tal. Aí ele tocava com um pequeno trio, improvisado no Rio, e que foi pra lá porque o Canhoto gravava muito. Dino, Meira e Canhoto gravavam muito, eram o trio preferido dos cantores, com o Benedito, mas como o Benedito estava viajando... Houve uma resolução de consenso, os quatro componentes do grupo disseram: "Nós precisamos trabalhar mais, caiu o nosso nível de trabalho com a ausência do Benedito". Aí resolveram, então, quem assumiria o grupo? O Dino disse:
- Eu não, eu não posso, não quero liderar nada.
E aí o Meira também disse:
- Olha, eu também não. Aqui já está resolvido, é o Canhoto, porque eu não topo, você não topa, Dino, tem que ser o Canhoto.
Aí o Canhoto disse:
- E quem disse que eu topo? Eu também tenho que estudar um pouco essa situação. Eu não quero magoar nosso diretor, nosso amigo, seu Benedito.
Aí conversaram com o Benedito, o Benedito disse:
- Olha, vocês podem formar um novo conjunto, e eu tenho uma indicação pra fazer. Tem um garoto aí tocando flauta muito bem...
Antes que ele acabasse, o Meira disse:
- É Altamiro Carrilho.
- É. É ele mesmo, é o Carrilho. Esse menino vocês podem chamar sem susto que ele vai me substituir muito bem, toca meu repertório, toca tudo o que puser na frente, lê música, faz arranjos, tudo - com essa idade, você imagina.
Aquela coisa, o Benedito era muito expansivo e tinha uma simpatia assim por mim. Aí os três foram lá - Dino, Meira e Canhoto - me procurar pra conversar. Eu estava com meu grupo recém-formado na Rádio Guanabara, havia saído do Regional de Rogério Guimarães, que atuava na Rádio Tupi, Rádio Tamoio...

F - Que também era canhoto!

A - Também era canhoto. Rogério Guimarães. Aí eles chegaram na rádio, eu estava na hora de fazer o meu ensaio, falei com os companheiros que esperassem um pouco, que eu ia conversar com eles, e ao terminar a conversa ficou certo que eu iria trabalhar com eles. Porque o conjunto estava recém-formado, e a rádio também estava com uma programação nova, então o meu conjunto só tinha um solo por semana. Só meia hora de solo. Então consegui um clarinetista muito bom, da Orquestra de Napoleão Tavares, e coloquei no meu lugar. Hoje está vivendo em São Paulo, o Portinho. Chorão. Aí o Luiz Gonzaga sugeriu ao Canhoto que colocasse um acordeom no conjunto. Nessa altura, veio o Orlando Silveira pra fazer um teste no conjunto, passou no teste. Então a coisa foi assim. Eu depois resolvi voltar com meu próprio conjunto, porque eu formei uma bandinha (em 1955) e a Bandinha estava aparecendo mais que o Regional do Canhoto. 

F - Durante um tempo (1955 - 1957) o senhor jogou nas duas, né?

A - Joguei nas duas, mas não deu. Chegou a um ponto em que eu não podia atender aos dois lados. Começou a aparecer muito trabalho pra Bandinha, por causa da televisão, eu tinha um programa (Em Tempo de Música) num horário nobre, aos sábados, sete e meia às oito da noite, antes do Repórter Esso...

F - TV Tupi.

A - Imagina, antes do (que seria o) Jornal Nacional hoje... Conclusão, aí a Bandinha estava desgastando mais o meu tempo do que o conjunto. E o Canhoto, claro, não estava gostando muito da coisa. Então propus a eles eu mesmo arranjar um bom flautista para ficar no meu lugar, e eu ficaria só com a Bandinha, pelo menos provisoriamente, enquanto tinha aquele programa na televisão. Eu sabia que aquilo não ia durar sempre. Canhoto aceitou, assim, muito aborrecido, mas aceitou. E eu consegui então o Carlos Poyares, que tem um ouvido muito bom, andava tocando lá com um conjuntinho chué, lá, das 11 da noite às 5 da manhã pra sobreviver... Pra ele, Poyares, foi muito bom, e pro conjunto também, porque ele, como acompanhador, era muito bom. Não era assim um solista de primeira, mas tinha um ouvido bom e fazia as introduções certinhas. Então era isso que o Canhoto queria, que o Regional do Canhoto na verdade só fazia uns solinhos de vez em quando, esporadicamente. No mais, o forte mesmo era o acompanhamento. E isso o Poyares fazia bem. Então, resolveu. 

F - Nessa fase da sua atuação no Regional do Canhoto, o senhor deve ter acompanhado muito então o Sílvio Caldas e o Jacob do Bandolim.

A - É, se bem que Jacob do Bandolim preferia um grupo que ele mesmo organizava pra gravar. Ensaiavam semanas e semanas e semanas, ele preferia. Porque o conjunto do Canhoto era muito ocupado em atender outros artistas, em gravar com Orlando Silva, Sílvio Caldas, Francisco Alves, Augusto Calheiros, Nelson Gonçalves, todos gravavam com a gente.

F - Quando Jacob foi pra RCA, a RCA deixou ele um tempo com o regional próprio dele. Aí depois ele gravava com o Canhoto.

A - Exato. Já na Continental ele, antes de ir pra RCA, na Continental ele gravava com o grupo dele. 

F - Isso.

A - Jessé (violão), Pingüim (cavaquinho), Fernando Ribeiro (violão), enfim, aquela turma. Depois foi o César Faria (violão), também fazia dupla com o Fernando, quando não era o Jessé, era o César Faria, pai do Paulinho da Viola. E também tocava no meu grupo na Rádio Guanabara, olha o detalhe. 

F - Bom, peraí, ele tocou com o Dante Santoro...

A - É, ele tocou com muita gente no Rio. Ele até hoje é muito querido no meio. Então essas coisas de conjunto mudavam, um saía de um conjunto, ia pro outro e tal, e comigo aconteceu o mesmo, toquei com Ademar Nunes (1946), toquei com César Moreno (1947), toquei com Piranha (Edvar de Almeida Pires), um violonista que tinha esse apelido por causa dos dentes separadinhos, e com o Rogério Guimarães (1948-50), que era considerado o regional mais forte depois do Benedito Lacerda. Em primeiro lugar, Benedito, nunca ninguém superou, ninguém. O Canhoto ficou mais ou menos equilibrado com o Benedito porque, além da minha presença, tinha o Orlando Silveira que era muito bom! Fazia uns duetos comigo, nós bolávamos uns arranjinhos, é, foi uma fase muito boa.



F - Atualmente o seu repertório está estruturado em três pontos: clássicos do choro, as suas composições e clássicos da música erudita.

A - É, clássicos EM choro. É um resumo dos trechos mais conhecidos, porque não seria possível tocar sem aquela percussão grande, sem os baixos, os tímpanos...

F - Contrafagotes...

A - É, exatamente, sem o "corpo", digamos assim. Mas uma idéia a gente dá ao público, daquilo que aparece mais. Agora no momento estou terminando o CD (Música, Graça de Deus) que tem músicas religiosas, as "Ave Maria" de (Charles) Gounod e de (Franz) Schubert, tem a "Serenata" de Schubert, tem a "Ária da Quarta Corda" de (Johann Sebastian) Bach, que é uma coisa difícil - em flauta, então! Aliás, nunca foi gravado em flauta. E eu estou com um tecladista fabuloso, o Luís Américo, ele é jovem e está fazendo vários instrumentos com o teclado, calçando os arranjos com muita propriedade, e dentro desses arranjos também vão "Greensleeves", duas composições minhas, "Siciliano" e uma valsa-canção, vão três músicas de (Frédéric) Chopin: "Tristesse", a "Valsa em Si Menor" e a "Valsa do Adeus". Três músicas que sempre gostei muito e agora aproveitei e incluí. E além dessas mais umas duas ou três, também muito conhecidas, como o "Noturno" de Chopin, por exemplo. Usei um pouco de percussão, só percussão mais leve em algumas músicas, na "Ave Maria" tem um sino mesmo, um sino de igreja tocando, então tá muito bonito, tem violino, tem harpa, tem oboé, trompa, isso dá uma mini-sinfônica, bem leve, bem agradável. Tenho um programa de rádio. Só pega no estado do Rio e Minas, é na Rádio MEC, em FM e AM. Passa duas vezes por semana, às terças-feiras em AM, às 17h, e aos sábados em FM às 11 da manhã. Tá com audiência excelente, muito boa, isso comentado pela própria diretoria da rádio. Então é um programa que eu faço com convidados e apresento os CDs daqueles músicos que não têm como divulgar o seu trabalho, que as rádios comerciais só tocam música cantada. Não dão a mínima importância à música instrumental. Então esse programa cresceu em audiência porque quem ouviu já comenta com outro, o outro com outro, vai de boca a boca... Motoristas de praça então, tem 80% dos motoristas do Rio e de Minas ouvindo o meu programa. E eu peço o nome deles, eles mandam e-mail, (com) nome da esposa, até do papagaio, eu falo o nome de todo mundo: "O nosso ouvinte assíduo, muito obrigado e tal", e brincamos com os ouvintes. Dá impressão que estamos na casa do ouvinte fazendo o programa.