domingo, 11 de agosto de 2013

O que seria uma "família natural"? (A propósito do Dia dos Pais)

Dois episódios recentes, aparentemente sem conexão, me levaram a pensar bastante neste Dia dos Pais...

1 -O deputado federal Marco Feliciano foi hostilizado por dois passageiros que estavam no mesmo vôo Brasília-São Paulo que ele; os dois cantaram  "Robocop Gay", dos Mamonas Assassinas. Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, Feliciano comentou o episódio (que classificou como "assédio") em sua conta no Twitter, arrematando: "Não sou contra gays, sou defensor da família natural!"


2 - A exibição do filme Homem-Aranha (EUA, 2002), dirigido por Sam Raimi, na sessão "Temperatura Máxima" pela TV Globo justamente neste domingo, Dia dos Pais. Embora não pareça à primeira vista, a paternidade é sim um tema importante no filme. Quando Peter Parker é apresentado por seu colega de escola Harry Osborn ao pai deste, Norman Osborn, o futuro Homem-Aranha é elogiado por Harry, ao que Norman comenta: "Seus pais devem ficar muito orgulhosos de você". Meio envergonhado, Peter revela que mora com os tios. Mais adiante, já tendo poderes de aranha, Peter recebe uma carona de seu tio Ben, preocupado com as alterações de comportamento do jovem sobrinho. Os dois discutem, e ao final Ben cita uma circunstância que iria embasar um argumento - "Eu sei que não sou seu pai..." -, o que leva Peter a encerrar o papo: "Então pare de se comportar como se fosse!". No mesmo dia, Ben é morto por um assaltante que Peter poderia ter detido, o que se torna a base da luta do Aranha contra o crime. Perto do final do filme, na batalha decisiva contra o Duende Verde, o vilão apela para a piedade de Peter, revelando ser Norman Osborn, lembrando a amizade entre ele e Harry, e dizendo que considerava Peter um filho. A resposta vem pronta e firme: "Eu já tenho um pai e ele se chama Ben Parker!

***

Quando eu estava no segundo grau, na segunda metade dos anos 1980, a escola ensinava que uma família é "o núcleo formado por um homem, uma mulher e os filhos frutos deste casamento" . Ou seja, se não forem casados, ou não tiverem filhos, ou ainda não forem de sexos diferentes, não seria família.

 E isso era muito forte mesmo, ao menos lá em Bento Gonçalves, cidade gaúcha de forte imigração italiana que devia ter cerca de 70 mil habitantes na época. Lembro que uma vez rolou um certo debate em aula, porque algum(a) aluno(a) se referiu a um casal como sendo uma família e a professora 'corrigiu', dizendo que o casal em questão ainda não tinha filhos, quando os tivesse é que poderia ser considerado uma família!! Fico feliz em lembrar que vários dos meus colegas, assim como eu (todos nós do alto dos nossos 15 anos, por aí) tivemos a coragem e a lucidez de ir contra o absurdo que a professora defendia.

Bom, o problema maior com o conceito que a escola ensinava é que ele já não condizia então, e condiz cada vez menos, com a realidade. Claro que todo mundo conhece gente com pai e mãe casados morando juntos e tendo um ou mais filhos, mas esta não é mais a situação da maioria dos lares brasileiros há décadas. A gente não vê isso nem na realidade nem na ficção (chegamos lá). Se lembro bem, num censo realizado nos anos 90 o número de lares com o que o Feliciano chamaria de 'família natural' já era menos da metade nos domicílios do país - talvez 49%, pouco menos. Dali em diante, só fez diminuir.

Eduardo Coutinho

Lembro que, também na década de 90, eu já morando em Porto Alegre, o cineasta Eduardo Coutinho veio debater um filme seu (Santo Forte, talvez?) e em dado momento explicitou algo que eu não me dera conta ao ver a obra - todas as famílias que aparecem no filme têm o chamado 'pai ausente' - está vivo, é conhecido, mas não participa efetivamente da vida dos filhos, com os quais geralmente convive muito pouco. Bom, aqui não temos um caso ficcional, e sim um documentário.

Mas ok, vamos fazer um exercício mental. Se o tal modelo de 'família natural' seria um ideal a ser buscado por todos, era de se esperar que, ausente (ou ao menos não-predominante) na vida real, ele fosse exaltado largamente na ficção, não é? Pois não é o que acontece.

Um exemplo. Os personagens adultos do mundo Disney vivem namoros eternos (Donald-Margarida, Mickey-Minie etc) onde o homem é responsável pela criação dos sobrinhos homens, e a mulher cria suas sobrinhas mulheres (Donald cria Huguinho, Zezinho e Luisinho; Margarida faz o mesmo com Lalá, Lelé e Lili). Além de viverem em casas separadas (o que é até aceitável, afinal é um 'namoro'), jamais você vê a mais leve insinuação de que um deles teria passado a noite na casa do/a outro/a, ou passado a noite juntos em qualquer outro lugar (ou seja, é um universo assexuado). Bom, isso já foi debatido por outras pessoas e tal.



Mas uma coisa que tá me martelando a cabeça: e os pais dessas crianças??? Tipo, um dia na vida uma irmã do Pato Donald mandou uma carta avisando que ele ia receber os sobrinhos Huguinho, Zezinho e Luisinho, os patinhos chegam na casa dele e ficam morando lá pra sempre! E em história alguma eu lembro de ter visto uma visita, um telefonema, ao menos outra carta dos pais desses garotos ao menos se importando com eles. Assim como não há sexo, não há amor paternal no universo Disney, no máximo amor "tial" (neologismo relativo a tio). E, como é sabido, milhões de pessoas no mundo ao longo de décadas leram (e continuam lendo) essas histórias. O único personagem com filho que lembro é o Lobão, pai do Lobinho (mas cadê a mãe??).


Outro exemplo é dos super-heróis Marvel e DC. O já citado Peter Parker, o Homem-Aranha, é criado pelos tios, Ben e May. Bruce Wayne, o Batman, teve os pais assassinados quando pequeno e aí acho que ficou sendo criado pelo Alfred (que na boa deve ser uma entidade, afinal ele já era adulto quando os pais de Bruce eram vivos e segue inteirão). O garoto Dick Grayson, que se torna o Robin, é órfão, e Wayne passa a ser o tutor dele também sei lá por qual motivo. Isso pra não falar no caso de Clark Kent, cuja história está presente nos cinemas brasileiros atualmente com o filme Homem de Aço. O Super-Homem é simplesmente um extraterrestre criado por um casal do interior dos EUA, que não têm outro filho além dele.

Marvel e DC sofreram influência da Disney? Ou seria o caso de algum parâmetro social fortemente introjetado vindo à tona inconscientemente?

4 comentários:

  1. Sobre o tema:

    http://ulbra-to.br/encena/2013/08/21/Marco-Feliciano-e-o-fragil-discurso-de-familia-natural

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  2. Obrigado pela visita e pela dica, Thilfa.

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  3. Respostas
    1. Obrigado Patrícia, é sempre bom ter feedback de pessoas qualificadas como você.

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