quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Ainda a propósito de O Espetacular Homem-Aranha 2

Em 21 de maio, publiquei aqui neste blog minha crítica ao filme O Espetacular Homem-Aranha 2 - A Ameaça de Electro, então em cartaz nos cinemas brasileiros. Eu assistira o filme na véspera, em cópia dublada, no cine Imperator (Macapá). Mal podia imaginar que o texto se tornaria um dos mais lidos da história deste blog (conta até o momento com 1.269 visualizações, aproximadamente uma média de 6 acessos por dia!) - aliás, também o meu texto mais lido aqui no Jornalismo Cultural (o campeão segue sendo o comentário de Calila das Mercês sobre a peça baiana Éramos Gays, 1.733 views). 

Meu texto, ao qual eu dei o subtítulo de "Sobram efeitos, falta roteiro", também se encontra entre os mais comentados do blog, com 11 comentários até o momento. São cinco comentários assinados por "Anônimo", datados de 28 de julho (dois), 15 de setembro (também dois) e 30 de setembro, com minhas respectivas respostas, e um último de "Anônimo 2", de 14 de novembro - este respondeu de modo geral aos cinco comentários do anterior, de algum modo considerando que eram todos da mesma pessoa - Obrigado pela aula Anônimo... Da próxima vez convida ele para te ajudar Fabio. Mas, relendo-os (ao final da postagem linkada no começo do texto), parecem ser de pelo menos 2 ou 3 pessoas diferentes - o mais possível é que seja uma pessoa diferente a cada dia de comentário. Comentários que aliás eu demorei a responder (os de julho respondi em 5 de agosto, os de setembro em 20 de outubro) porque, embora eu tivesse programado a notificação de novos comentários para o meu e-mail, isso não vinha acontecendo, então eu só os via quando clicava no link "Comentários" na área de edição do blog. O problema já foi resolvido. 

Enfim, a questão é que, no geral, o Anônimo 1, ou os Anônimos 1, contestaram vários pontos do meu texto, o que eu achei ótimo, afinal, primeiro de tudo, mostra que alguém se importa com o seu texto a ponto de lê-lo e querer rebatê-lo; segundo, me leva a pensar se ver o filme apenas uma vez no cinema - e, ainda por cima, dublado - e em seguida escrever sobre ele é de fato a melhor maneira de lidar com o produto cultural "filme". Um pouco você pode ser traído pela memória (não lembrar adequadamente de tudo ao escrever) ou mesmo pode não ter entendido bem alguns trechos. Pois bem, comigo aconteceram as duas coisas, como pude constatar ao locar nesta semana o DVD do filme para rever onde eu poderia ter errado ao escrever o meu texto e fazer este novo (pois creio que a humildade deve ser exercitada constantemente). 

Pra um melhor entendimento, vou começar respondendo, pela ordem, os comentários do(s) Anônimo 1 e arrematar com algumas outras falhas (minhas ou do filme) que não foram objeto de comentário naquele post. 

Duende Verde por Glen Orbik.jpg1
Anônimo 28 de julho de 2014 13:25
'''e ainda com uma importante alteração em relação às HQs: neste filme, é Harry Osborn (Dane DeHaan) quem se torna o Duende,'' cara, vc se enganou isso não é alteração alguma, nos quadrinhos o Harry se torna o Duende Verde.... já vacilou 

De fato, por um breve período nos anos 1970, Harry Osborn se tornou o Duende Verde, ao encontrar o arsenal e as anotações de seu pai, Norman Osborn, o Duende original (como aliás foi mostrado no último filme da saga dirigida por Raimi, Homem-Aranha 3). Também chegaram a ser o Duende o psiquiatra de Harry, Bart Hamilton, e Phillip Urich. Nada disso invalida o fato de que o primeiro Duende Verde, e aquele que o foi por mais tempo, é Norman Osborn, Já no filme em questão - O Espetacular Homem-Aranha 2 -, Norman morre legando ao filho o segredo da armadura, embora ele próprio, Norman, não pareça tê-la usado algum dia. Aliás, a rigor o nome "Duende Verde" jamais é pronunciado durante o filme! 

2
Anônimo 28 de julho de 2014 13:32
'' E aí, novo momento sem explicação no roteiro: ao se aproximar do Aranha perto de uma unidade da Oscorp Power, vê o herói conversando com Gwen Stacy (que ele, Harry, sabia ser a namorada, ou melhor, um rolo de Peter Parker) e apenas baseado nisso, conclui que Parker é o Aranha!! Uau! '' cara tu é ruim pra caralho numa análise de filmes, o Harry sabia da extrema proximidade do Peter com o Aranha, ao ponto de pedir a Peter que consiga uma gota de sangue do Aranha, e depois disso ver o Aranha conversando com a Gwen e deduzir que o Aranha é o Peter é totalmente plausível considerando a esperteza do Harry em sacar as coisas aff




Revi o filme e mantenho minha opinião: este ponto é uma forçação do roteiro. Não seria fora de propósito o Aranha, para enfrentar Electro, recorrer à ajuda de alguém que conhecia o funcionamento da rede da Oscorp - no caso, Gwen Stacy. A impressão que tenho é que o roteiro necessitava que em algum momento Harry descobrisse que Peter é o Aranha, o que geraria um sentimento de ódio decorrente da negativa do Aranha em ceder seu sangue; esse ódio se torna fundamental para que Harry primeiro combata o Aranha diretamente, e depois estimule o recrutamento de Rhino. Apenas discordo da forma como essa descoberta aconteceu. 

3
Anônimo 15 de setembro de 2014 17:32
A armadura do Duende Verde não aparece do nada, ao descobrir que aquele "cubo" dado por Norman Osborn continha vários projetos, Harry abre uma janela no "computador" e vê o traje, ouvindo suas especificações. Ao saber a função do traje, ao se transformar no Duende Verde, ele rapidamente recorre a ele, o qual "cura", seus danos e o prepara para a batalha contra o Homem-Aranha. E o Electro explode no fim da segunda luta. O homem misterioso que aparece conversando com Harry após a luta que acarreta a morte de Gwen, é chamado de " Mr. Fears" pelo "Jarvis" da Oscorp. Juntos, combinam o que provavelmente pode ser a formação do Sexteto Sinistro.

Bem, aqui está comentado o meu maior erro no texto original. Aqui fui traído pela memória e misturei os momentos que Harry se torna o Duende em O Espetacular Homem-Aranha 2 com momento similar no Homem-Aranha 3. É neste que uma porta secreta se abre na casa dos Osborn e Harry descobre o traje, o arsenal e as anotações que o pai lhe deixara. Já no Espetacular..., de fato, quando Harry recebe a injeção do veneno de aranha geneticamente modificada, ele se debate, reagindo às alterações pelo qual seu corpo passa, e vê perto de si a armadura - que, como o Anônimo bem disse, já fôra mostrada quando Harry descobre os projetos contidos no cubo deixado por Norman. Isso é mostrado muito rapidamente no filme, quarenta minutos antes da transformação - Harry encontra o cubo em 1h03 e se transforma em 1h43 -, mas é mostrado, de todo modo. 

Sobre Electro, sim, tudo indica que nada sobrou dele ao final da segunda luta (volto ao assunto mais adiante). 

E não, não é com ele que Harry conversa e que solta Rhino. Quem faz isso é o Sr. Fiers (assim chamado pelo 'Jarvis' da Oscorp em 2:06 - a grafia é a da legenda em português). 


4
Anônimo 15 de setembro de 2014 17:34
E Max Dillon não projetou a rede da cidade toda, e sim a rede da Oscorp que tem como função abastecer a cidade toda. São duas coisas bem diferentes..

Com certeza, são duas coisas bem diferentes. O que o Anônimo diz confere com a sequência do diálogo legendado no DVD:

Chefe - Não vê que a Oscorp é responsável pelo suprimento de energia da cidade?

Max - Eu submeti vários projetos pra usina que eles usaram. E eu notei que aquelas usinas foram projetadas por mim. 

Chefe - Você que projetou? É claro. E eu sou o Homem-Aranha. 

Mas isso é diferente do que Max dizia na versão dublada que eu assisti em maio, e pela qual eu baseei meu texto. Enfim, de algum modo, considerei que se afirmar autor do projeto elétrico inteiro de uma cidade de 8,5 milhões de habitantes condizia com os delírios de grandeza de Max (outro deles: apenas por ter falado uma vez com o Aranha, ele já considerava que o herói era um grande amigo seu). 

5
Anônimo 30 de setembro de 2014 11:45
Acredito que quem provavelmente visitou Harry na prisão foi Wilson Fisk, o "Rei do Crime".

Bom, isso já foi respondido acima, no comentário 3. Não é Fisk, e sim Fiers - o que só demonstra como é difícil apreender de uma vez só toda essa quantidade de informações. Seja como for, se expor dessa forma, visitando um prisioneiro, mesmo que chegasse disfarçado, não combina com o Rei do Crime - que, aliás, embora importantíssimo no universo Marvel das HQs, só foi aproveitado uma única vez pelo cinema até agora, no filme Demolidor, o Homem sem Medo (2003). 

***

Fora esses pontos levantados pelos leitores, há outros no meu texto original que merecem reparo:

numa das poucas cenas onde Harry ainda aparece, comenta que "a doença vem e vai", não ficando muito claro se, quando está melhor, continua a ser o Duende ou mesmo se lembra da identidade do Aranha (nos quadrinhos, Norman Osborn alternava lucidez e loucura, e só recordava que Parker era o aracnídeo quando a insanidade o dominava). 


* Na verdade, aqui eu confundi um pouco a questão de Harry neste filme com o passado conhecido de Norman nas HQs. A doença que levou o pai à loucura nos quadrinhos não parece afetar mentalmente o filho no filme. Ou seja, tudo indica que Harry siga sim sendo o Duende, sem prejuízos à sua saúde mental e à memória, o que faz com que ele lembre perfeitamente que Parker é o Aranha. 


- Outra coisa que fica "no ar" é se Electro morre ou não após a grande batalha com o Aranha (a segunda, nas proximidades da Oscorp Power).

No comentário 3, reproduzido acima, o Anônimo diz que Electro explode ao final da segunda luta. De fato, parece nada sobrar dele. Porém, a Sony já anunciou para 2016 o filme Sexteto Sinistro, jogando um novo filme do Aranha para 2018. Nos quadrinhos, a formação original do Sexteto incluía os vilões Abutre, Homem-Areia, Rhino, Electro, Dr. Octopus e Shocker - notem, três deles estão no filme que comentamos. (Aliás, enquanto o Sr. Fiers caminha pelo corredor do Instituto Ravencroft a caminho da cela de Harry, podem-se ver as asas do Abutre, os tentáculos do Dr. Octopus e o traje de rinoceronte do Rhino). Agora, o que considero mais esquisito no filme anunciado é que o Aranha não estaria nele. A Sony pretende fazer uma fita só com vilões?? De todo modo, se Electro aparecer neste filme, deverá haver uma explicação sobre seu sumiço ao fim da segunda luta. 


- A Felícia que é secretária de Harry na Oscorp é ou não Felícia Hardy, a Gata Negra, originalmente inimiga e posteriormente parceira do Aranha? (A escalação da atriz Felicity Jones para o papel indica para mim que não, já que a Felícia Hardy dos quadrinhos é loira, aliás nos anos 80 com o cabelo branco mesmo nas HQ publicadas pela Abril).

Tanto no filme quanto nos créditos finais, a personagem é identificada apenas como "Felicia", mas vários sites ligam a personagem à Felicia Hardy, a Gata Negra. Neste caso, houve erro na escalação da atriz Felicity Jones, cujo cabelo é preto, diferente do cabelo todo branco da Gata. 


- Outra pergunta deve ficar sem resposta: tudo bem, pelas anotações que encontrou na Oscorp, Harry descobriu que Richard Parker, quando trabalhava na empresa, fez experiências com aranhas (...). Mas como ele soube ou deduziu que o Homem-Aranha surgiu a partir da mordida de uma dessas aranhas modificadas por Richard?????

O mistério persiste! Como Harry estabeleceu essa ligação? E como essa firme convicção em sua mente não foi usada para ajudá-lo a constatar que Peter (afinal, o filho de Richard!) é o Aranha, e essa dedução surge apenas porque ele vê o Aranha conversando com Gwen?? 

Outro ponto viajandão do filme está ligado a Richard, o pai de Peter: a cena em que ele, a bordo de um avião, abre um notebook e acessa a internet - isso em 2000! O ano é este, sem dúvidas: a história na fase atual se passa em 2014 (a data aparece no obituário de Norman Osborn na empresa - "1951-2014") e é mencionado que os pais de Peter sumiram há 14 anos. Mas só em 2009 a United Airlines começou a oferecer o serviço de internet a bordo de suas aeronaves. E o modelo de notebook que Richard usa em 2000 é muito semelhante aos que só começaram a se tornar comuns no comércio uma década depois. 



sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Opinião/Cinema: Jogos Vorazes - A Esperança (Parte 1)

Por Bianca Oliveira,
de Macapá



Um filme que me fez ficar apreensiva do começo ao fim, não levantei nem pra comprar pipoca (e olha que adoro pipoca!), esse foi Jogos Vorazes: A Esperança- Parte I. Uma continuação que vai superando as expectativas e evoluindo mais e mais, com uma protagonista forte, diferente de outras que querem ser salvas pelos seus príncipes, além de uma história que não tem vampiros, bruxas e magia, é apenas uma menina que quer sobreviver e salvar aqueles que ama.


Se você não assistiu os anteriores é melhor assistir, pois ...A Esperança começa imediatamente após o fim de Jogos Vorazes: Em Chamas (2013), quando Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) destruiu os Jogos. Daí a história se desenrola com a líder do 13, a presidente do governo rebelde Alma Coin (Julianne Moore) querendo que Katniss se torne O Tordo, para motivar uma rebelião contra o presidente Snow (Donald Sutherland - à direita) - um velhinho bem ameaçador que pareceria mau até se não falasse nada. Katniss aceita mas com algumas condições: salvar Peeta (Josh Hutcherson) e os outros participantes do torneio anterior e deixar que sua irmã Primrose (Willow Shields) fique com seu gatinho de estimação. 


Katniss e a presidente Coin



O filme vai além do que o público-alvo adolescente poderia esperar, não é esse tipo de história de ação, romance e blaá-blá-blá, ele coloca na tela questões atuais e complexas que nos fazem refletir sobre o uso da propaganda e como as pessoas estão midiáticas em qualquer tempo, até nos de guerra (como quando a Katniss começa a cantar atendendo um pedido de um colega e a música vira o hino dos rebeldes). Jennifer está maravilhosa, sua atuação é fantástica, podemos sentir a angústia do personagem, o quanto ela sofre e ao mesmo tempo uma força admirável (um exemplo? Na cena em que descobre como ficou seu distrito, o 12, após um ataque da Capital).

               
Se esse já foi bom, com uma ótima direção de arte, efeitos especiais e um elenco encantador, imagina o quarto filme?  O jeito é esperar, em 2015 vamos ver a senhorita Everdeen chegando ao fim na luta contra o Presidente Snow para salvar o povo de Panem, confesso que estou ansiosa e esperando muito desse filme. Que venha o último Jogo e que a sorte esteja sempre a seu favor!             
  

 Vestida como O Tordo, Katniss visita feridos num hospital no Distrito 8


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Exposição Belém: Estereoscopia



“Os olhos levam o corpo ao infinito”, nos diz o poema. E, de fato, os olhos deflagram processos sensíveis que dão à existência humana variadas informações de ordem mnemônica, emocional, física, espacial. As janelas anímicas inferem, em seu duplo labor, a dimensão que aprofunda o estar no mundo, impulsionando o corpo ao deslocamento no espaço, no sentido, e no sentimento.

Francelino Mesquita, um artista com raízes na engenharia e no desenho arquitetônico, já apresentou na Galeria Theodoro Braga sua investigação espacial baseada em tala de miriti. Mauritia Flexuosa, individual de 2008, trazia proposições formais instigantes, que flutuavam entre a escultura, a instalação, e o desenho, haja visto seu efeito direto – as estruturas, reduzidas às suas linhas de construção em miriti – e seus efeitos residuais – as sombras, projetadas pela iluminação da galeria, em movimento, provocando novos desenhos.

Em Estereoscopia, o artista aprofunda sua pesquisa no material (sai da superfície – a tala – e mergulha em sua carne íntima – a bucha), permitindo novas oscilações do pensamento acerca da matéria-viva, e culturalmente peculiar, do miriti: sua leveza retrabalhada sob o escopo da densa materialidade da escultura.

É possível considerar que a dimensão desses novos trabalhos não permita um distanciamento tão grande dos já conhecidos brinquedos de miriti; contudo, numa apreciação mais atenta e proximal, as seduções visuais apresentam sua potência: a paralaxe, distância horizontal entre as imagens captadas simultaneamente pelo olho esquerdo e direito, dialogam com o movimento do objeto; as sombras, ainda, cumprem sua função complementar, comentando em duas dimensões o que a estereoscopia dos objetos quer fazer crer; o efeito tridimensional ganha, então, sua corporeidade final, situando o trabalho de Francelino entre influências do minimalismo e da Op Art.

A estereoscopia, de modo literal, seria a técnica utilizada para obter informações tridimensionais à partir das imagens colhidas em duas fontes, dois pontos diferentes. Em nós, humanos, essas duas fontes são os olhos, e o que faz o cérebro ao processar essas informações é criar uma sensação visual, fundamental para nos situarmos e vivermos a espacialidade do mundo. Se a arte é, como muitos ainda creem, um mero simulacro, aqui reafirma que, na vida, há ilusões absolutamente imprescindíveis.

Texto: Renato Torres 
músico, poeta e arte-educador

​Serviço:


Abertura: 11/12/2014 (quinta), 19h
Galeria Theodoro Braga - Subsolo do Centur
Entrada Franca

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Livros: Mar de Letras relança Outras Etiópias

Em comemoração ao Dia Nacional da Consciência Negra, 20 de novembro, a editora Mar de Letras (selo Sapere) faz o relançamento do livro Outras Etiópias. A obra, de 2012, é de autoria de Orlando Sperle Fraga Junior e Adílio Jorge Marques e visa atualizar os conhecimentos não só sobre a Etiópia, mas também, com a quebra de estereótipos, aprofundar a análise sobre a África.

Mitos bíblicos, a valorização da cultura negra e o movimento conhecido como Rastafarianismo são alguns temas abordados no livro, que traz à luz um outro olhar sobre o país. Ao apresentar acontecimentos desconhecidos por muitos, como a vitória das forças etíopes sobre o exército do fascista Benito Mussolini na Segunda Guerra Mundial e a sua influência cultural no norte e no nordeste brasileiro, Outras Etiópias rompe os estigmas da fome e das guerras civis, ajudando a entender melhor a história e a cultura africana.

Perguntas como “Qual é o lugar da Etiópia nas narrativas da resistência negra nas Américas, incluindo o Brasil?” e “Quando esse espaço começou a se consolidar no imaginário da diáspora negra?” são respondidas na obra, que está à venda no site da editora em www.livrariamardeletras.com.br.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

A propósito de Manoel de Barros

Hoje, depois de quase 98 anos por aqui, o poeta Manoel de Barros nos deixou, e foi para o lugar que acreditamos ser melhor. 

A primeira vez que ouvi falar do poeta foi através de um curta-metragem, Caramujo-Flor (citado e incluído na íntegra no texto a seguir), exibido no final dos anos 1980 (eu diria ter sido em 1988, mas a ficha no YouTube informa que o filme foi feito ano seguinte. Enfim...) na Biblioteca Pública Castro Alves, em Bento Gonçalves, que tinha sessões regulares de cinema brasileiro, e que foi fundamental para minha formação intelectual :)

Afora um que outro poema seu lido depois em alguma antologia, meu reencontro definitivo com Manoel se deu através do filme Língua de Brincar, exibido no CineEsquemaNovo 2007 – Festival de Cinema de Porto Alegre, que nesse ano teve entre os apoiadores meu site Brasileirinho. No evento eu também fui um dos alunos da Oficina de Crítica Cinematográfica ministrada pelo crítico do site Contracampo Ruy Gardnier. Ruy estava no júri oficial do festival, e a nós oficinandos coube a tarefa de constituirmos o júri que apontou o melhor longa do certame - que recebeu o nome pomposo de Prêmo da Nova Crítica (moral, hein?). Concorriam com LínguaConceição – Autor Bom é Autor Morto, de Daniel Caetano, André Sampaio, Guilherme Sarmiento, Samantha Ribeiro e Cynthia Sims (RJ); O Quadrado de Joana, de Tiago Mata Machado (MG); e Selva do Meu Desejo, de Roberto Athayde (RJ). Este último teve a maioria dos votos de meus colegas (eu obviamente votei em Língua). 

Ano passado, a convite de uma amiga do Mato Grosso do Sul, fui passar o carnaval em Corumbá, e antes e depois de ir pra fronteira fiquei alguns dias em Campo Grande, onde já havia uma avenida Manoel de Barros (o que me fez até perguntar para a amiga se Manoel ainda vivia. Sim, ela confirmou). Ao longo de toda a extensão dessa avenida, que atravessa o Parque dos Poderes, diversas placas reproduzem trechos de poemas de Manoel. O melhor de tudo é que isso foi feito ainda com o homenageado vivo, dando as flores em vida, como pediam Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito no samba "Quando Eu me Chamar Saudade". 

O texto que lemos a seguir é a crítica do filme Língua de Brincar, que escrevi durante a citada oficina do CineEsquemaNovo 2007. 


***

LÍNGUA DE BRINCAR: 
O RETRATO DO CINEMA ENQUANTO POESIA



O que dizer sobre Língua de Brincar? Que é um documentário que, ao retratar o poeta Manoel de Barros, foge do convencional? Foge, por certo, embora essa "fuga" de um tipo de documentário-com-locutor-que-comece-dizendo: "Fulano de tal nasceu na cidade tal na data tal" esteja quase se tornando uma convenção também. Considero que os diretores Lúcia Castelo Branco e Gabriel Sanna acertaram em cheio quando foram além e buscaram captar em seu filme o que seria um retrato do cinema enquanto poesia.

Sei de pelo menos um filme anterior sobre Manoel de Barros que teve o mesmo propósito de fuga do convencional: Caramujo-Flor, de Joel Pizzini. Nesse curta de 1988, enquanto víamos belas imagens do Pantanal e de Campo Grande, ouvíamos poemas de Manoel na voz de artistas como Ney Matogrosso e Aracy Balabanian, além de um depoimento do acadêmico Antônio Houaiss situando a obra do poeta no panorama da literatura - e a fala descompromissada de amigos como o jornalista Fausto Wolff, contando como é bom bater um papo com Manoel.



Língua de Brincar avança na linha aberta por Caramujo-Flor: mostra paisagens do Pantanal, tem poemas lidos por artistas, como Maria Bethânia, a opinião de especialistas como o português João Barrento, e a fala dos amigos - a lista aqui aumenta: além de Wolff, temos o ator Orã Figueiredo, o bibliófilo José Mindlin e outros contando suas conversas memoráveis com Manoel. E, felizmente, depois de ter visto Língua de Brincar eu não preciso mais ficar imaginando como seria bom bater um papo com Manoel: tenho a certeza disso ao ver o poeta conversar com a equipe de filmagem em várias cenas. 

Sim, um dos achados do filme é incorporar à narrativa seu próprio making-off. Isto ocorre, por exemplo, nos depoimentos: ao invés do clássico enquadramento fixo em que o depoente parece estar falando sozinho (um padrão no estilo "documentário convencional"), mostra-se o contexto em que o depoimento é captado. Sob esse aspecto, o grande momento do filme é a hora em que Orã Figueiredo fala sobre sua atuação numa peça feita a partir dos poemas de Manoel. Enquanto o ator fala, a câmera brinca com suas múltiplas imagens exibidas nos vários espelhos do camarim do teatro, mudando o ângulo de observação diversas vezes. Foi um dos momentos em que lembrei desses versos do poema "Uma Didática da Invenção": Repetir repetir - até ficar diferente/ Repetir é um dom do estilo.

A idéia da repetição como dom do estilo foi estendida à estrutura de Língua de Brincar, o que tanto ajuda quanto atrapalha. Atrapalha por exemplo na seqüência em que, enquanto vemos uma árvore em preto-e-branco, uma voz feminina repete diversos poemas curtos definindo pedra, homem, borboleta etc., em português e em espanhol (para piorar, esta seqüência, é reapresentada na íntegra após alguns minutos!). A repetição ajuda quando se varia a forma de fazer os poemas voltar à cena (por exemplo, o poema lido por Bethânia, "Ruína", já fora lido em off noutra passagem); ajuda também quando depoimentos longos são divididos em várias intervenções curtas, de modo a não se tornarem enfadonhos. Um cuidado que infelizmente não foi estendido à cena que encerra Língua de Brincar: a da cartomante que vê no tarô a sorte do filme (sic). 

Afora certa coerência com a idéia de incorporar o making-off à estrutura, este final é praticamente uma negação do caráter da obra. Além de a cena nada acrescentar de informativo ou de poético em seus quase sete minutos de duração, ela tem o demérito de tirar o espectador do enlevo a que o levara a cena anterior e que me parecia o final mais adequado a um filme sobre Manoel de Barros: enquanto ouvíamos uma locutora ler os créditos finais do filme, víamos as imagens de coisas ou paisagens identificáveis dando lugar a massas de cores atravessadas a intervalos por linhas luminosas (difícil colocar em palavras isso, desculpem). Confesso que logo de início estranhei, mas em seguida embarquei na proposta e deixei as cores e linhas me levarem ao Pantanal. Vi ali árvores crescendo, animais correndo ou nadando - a vida acontecendo em sua plenitude, enfim. É como se, ao invés da visão de diferentes posições ocupadas por um ser em movimento, eu pudesse, pela vez primeira, ver capturada numa tela de cinema a essência do movimento em si. Tamanha beleza remeteu-me a uma frase do pintor Carlos Vergara: O que está na tela é um pretexto para catalizar áreas sutis no espectador.


Música Penedo (RJ): Thaís Motta e Marvio Ciribelli


sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Poesia Macapá: Pena e Pergaminho



A exposição de fotografias As Tias do Marabaixo, de Fabio Gomes, faz parte da programação deste mês. 

O evento terá como homenageada (ou seja, a 'Pergaminosa' do Mês) a poeta e atriz Lorrana Maciel, que foi a Poeta do Mês de abril do blog Jornalismo Cultural. 



quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Cinema Belém: Xingu


Exposição Macapá: Navi


Navi – Uma Viagem ao Magnífico Cérebro Assombrado é a nova exposição do artista plástico amapaense Ivam Amanajás. As obras, de cunho surrealista, poderão ser apreciadas entre os dias 31 de outubro e 7 de novembro no hall do Teatro das Bacabeiras. No dia 31, a vernissage acontece a partir das 20h; nos demais dias, a mostra pode ser visitada gratuitamente no horário das 8 às 18h. Todas as telas estarão à venda. 



As 24 telas são inspiradas em homens robóticos, natureza mecanizada e vida artificial cotidiana, com uma criativa arte de vanguarda. A coleção possibilita que o visitante possa adentrar em um mundo de enigmas e mistérios, que segundo o artista, é algo fascinante para o ser humano, que vive em constantes disputas e questionamentos. 

“Sem que se perceba, nosso cérebro vive em constante disputa. Navi é uma situação amplamente surrealista, cuja mensagem principal é a ampla dependência do homem para com a máquina e a tecnologia”, explica o artista.




Dominante de temas e traços nada convencionais, Ivam Amanajás cria um perfil diferenciado em seu trabalho e como o próprio artista destaca: "Sou da Amazônia, caboclo universal, e pinto com o barro da minha terra, mas as minhas imagens são para o mundo." 

Um dos mestres do Surrealismo foi o espanhol Salvador Dalí; inspirado nele, Ivam afirma que a vertente artística é algo latente e amplamente imortal. “Qualquer coisa que não tenha um feito visual, um toque surreal, não é algo diferente e impactante. Ninguém gosta de assistir um filme com imagem estática, todos gostam do espanto, do enigma e da surpresa. Hoje tudo tem que ter efeitos visuais. Minha influência se faz em tudo aquilo que converso, vejo, leio, assisto, escuto. Nos ambientes que me rodeiam. Estamos com o planeta sendo envenenado. Estamos com o homem voltado pela mecanização e problemas, como o aquecimento global. E com estas obras quero mostrar este mundo em que criei, pois como afirma um grande impressionista amigo meu, Padre Fulvio, as cores falam” conclui.

Ivam Amanajás nasceu em 1956 em Macapá e começou a pintar muito cedo; aos 13 anos teve oportunidade participar de uma exposição coletiva no extinto Ginásio de Macapá (GM), junto com os artistas locais R. Peixe, Antônio Homobono, Olivar Cunha e Abenor Amanajás, entre outros. Ainda muito jovem, sua arte mostrou uma inclinação pela expressão surrealista, e aos poucos foi incorporando outras linguagens. 

A partir dos anos 70, o artista começou a expor fora do Amapá, primeiramente em Belém, e depois no Distrito Federal, Minas Gerais e Rio de Janeiro, tornando a sua arte conhecida nacionalmente. Hoje define seu estilo como Realismo Fantástico.



terça-feira, 28 de outubro de 2014

Música Porto Alegre: Leandro Maia


Exposição Duque de Caxias (RJ): A Herança da Terra


Na década de 1940, o escritor Antoine de Saint-Exupéry foi pioneiro na consciência ecológica, ao inserir o tema em sua obra-prima O Pequeno Príncipe. Em sua homenagem, foi criada na França a exposição A Herança da Terra - Salvar o planeta do Pequeno Príncipe. A mostra, desenvolvida por Jerôme Pecnard a partir da concepção do escritor e historiador Jean-Pierre Guéno, estará no Museu Ciência e Vida a partir de 6 de novembro. 

São mais de 30 painéis, com belas fotografias da Terra e do Universo feitas pela NASA, CNES (Centro Nacional de Estudos Espaciais do Governo francês) e ESA (Agência Espacial Europeia), e pelo renomado fotógrafo francês Yann Arthus-Bertrand, acompanhadas de textos bilíngues (francês-português) da obra do piloto e escritor Antoine de Saint-Exupéry que provocam uma reflexão sobre o desgaste do planeta em que vivemos. A programação conta, ainda, com visitas teatralizadas da companhia “Noir sur Blanc”, apresentando uma seleção de textos e reflexões sobre a obra de Sant-Exupéry do ponto de vista ecológico de uma forma global.

A exposição é realizada pela Aliança Francesa com apoio da Embaixada da França e do Museu Ciência e Vida, em parceria com a Fundação Antoine de Saint-Exupéry para a Juventude e faz parte da Programação Científica de 2015, no âmbito do projeto “Vive La Science Dans Les Alliances”, que apresenta exposições de circulação em diferentes estados brasileiros.

SERVIÇO:

Abertura: 6 de novembro, às 11h

Visitação: de 6 de novembro a 1 de fevereiro de 2015
De terça a sábado: das 09h00 às 17h00
Domingos e feriados: das 13h00 às 17h00

ENTRADA FRANCA

Local: Museu Ciência e Vida
Endereço: Rua Aílton da Costa, s/n – Jardim 25 de Agosto - Duque de Caxias – RJ - CEP 25.071-160 - Duque de Caxias – RJ.

Informações:
(21) 2671-7797

Visitas teatralizadas da Companhia “Noir sur Blanc”: 

Agenda 2014:

- Dias 06, 09, 13, 16 e 22 de novembro

Agenda 2015:

- Dias 18, 21 e 25 de janeiro, e 01 de fevereiro.

Música Porto Alegre: Motivos Óbvios



A banda gaúcha de reggae Motivos Óbvios, com 24 anos de estrada, revela a sua essência musical no novo show Em Tempo de Revolução!

A "Motivos" possui uma personalidade sulista singular, adquirida através da fusão das raízes negras com as modernidades da música pop mundial, em composições próprias e também em releituras de clássicos.

São convidados especiais deste show, Luis Vagner (o "guitarreiro"), Paulo Dionísio e Fabão. 


Evento: Motivos Óbvios “Em Tempo de Revolução!”
Data: 30 de Outubro
 Horário: 20 horas.

Local:
 Teatro do SESC – Avenida Alberto Bins, 665,
Porto Alegre - RS


Ingressos


1ºLote- R$20,00- GRÁTIS DVD*
2ºLote- R$25,00- GRÁTIS DVD*
3ºLote- R$30,00- GRÁTIS DVD*

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Aluno da Escola Nanci Nina Costa, de Macapá, participa da Olimpíada de Língua Portuguesa


A Olimpíada é uma iniciativa do Ministério da Educação (MEC) e da Fundação Itaú Social, com coordenação técnica do Cenpec — Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária, e tem como parceiros na execução das ações o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) e o Canal Futura. Desenvolve ações de formação de professores com o objetivo de contribuir para a melhoria do ensino da leitura e escrita nas escolas públicas brasileiras. Tem caráter bienal e, em anos pares, realiza um concurso de produção de textos que premia as melhores produções de alunos de escolas públicas de todo o país. Na 3ª edição participam professores e alunos do 5º ano do Ensino Fundamental (EF) ao 3º ano do Ensino Médio (EM), nas categorias: Poema no 5º e 6º anos EF; Memórias no 7º e 8º anos EF; Crônica no 9º ano EF e 1º ano EM; Artigo de opinião no 2º e 3º anos EM. Nos anos ímpares, desenvolve ações de formação presencial e a distância, além da realização de estudos e pesquisas, elaboração e produção de recursos e materiais educativos.

Os textos dos alunos da escola do Estado do Amapá para participar da 4ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro já foram selecionados pelas Comissões Julgadoras Escolar, Municipal e Estadual do projeto.  A escola vencedora no estado na categoria crônica com o tema “Antigamente” foi a ESCOLA ESTADUAL PROFESSORA NANCI NINA COSTA, que será representada pelo aluno WINSTON KENRICK DE ALMEIDA HARRY (14 anos), sob a coordenação da professora de língua portuguesa SILVIA PATRÍCIA DE LIMA FERREIRA.

Aluno Winston Harry


A crônica foi analisada e, depois de passar por todas essas etapas, foi selecionada e está entre os 500 textos semifinalistas da Olimpíada em todo o Brasil. Concorrerá à semifinal regional com outros 125 da mesma categoria, sendo que serão classificados para a final nessa etapa 38 textos somados com as demais regiões do país, assim serão 152 textos na final.

O aluno Winston, juntamente com a professora Silvia Patrícia e os demais classificados das outras categorias, viajarão nos dias 10, 11 e 12 de novembro de 2014 para representar o Amapá na etapa regional (semifinal), em Porto Alegre, tendo a viagem e despesas de hospedagem e transporte e alimentação custeadas pela Olimpíada.

***



TÍTULO DO TEXTO: ANTIGAMENTE
CATEGORIA: CRÔNICA
ALUNO AUTOR: WINSTON KENRICK DE ALMEIDA HARRY
PROFESSORA: SILVIA PATRICIA DE LIMA FERREIRA
DIRETOR: KLEBER MARCIO MARTINS DOS SANTOS
ESCOLA: ESC EST PROF NANCI NINA COSTA
MUNICÍPIO/UF: Macapá/AP




                             Antigamente



Muitas vezes eu fico cansado de ouvir minha mãe falar coisas como: No meu tempo, antigamente, como se o meu tempo fosse o pior tempo para se viver ou para criar filhos. Às vezes ela fala tanto das brincadeiras de criança, da relação entre vizinhos, dos fins de tarde reunidos em frente de casa, das conversas animadas etc., que só falta chorar!

Ela jamais cansa de dizer que não podemos mais sentar em frente de casa, para conversarmos, nas nossas cadeiras de balanço sem sermos assaltados. Diz, também, que o “Zap zap” e o Facebook me afastam dela, me deixam apático; que o videogame me tira a oportunidade de me relacionar  e socializar com outras crianças e que isso pode até me prejudicar no futuro.

A minha mãe e eu moramos no Buritizal, ela diz que é o bairro em que viveu toda vida, bem, eu também vivo aqui e apesar de tentar muito, não consigo ver relação entre o bairro dela e o meu. É como se fossem dois mundos diferentes. Eu acho que o tempo realmente contribuiu para a mudança desse lugar.

Minha mãe não perde a oportunidade de resaltar:  No meu tempo era tudo mais fácil e melhor!

Ela conta de como ela era feliz nas brincadeiras de bandeirinha, queimada, elástico, macaca (amarelinha), cirandas, o banho no lago da Aningueira, hoje lago se transformou nas famosas ʺpassarelasʺ do Muca. Devido à grande poluição causada pelos moradores, não é mais possível tomar banho lá. O lago agora fica embaixo de palafitas e pontes, dessa forma a água ficou imprópria.

Narra o respeito que existia entre as pessoas e dos namoros inocentes (apesar das fugas dos namorados pra cima da caixa d’água do Buritizal, isso pra mim é surpreendente, no entanto, talvez isso se dava pelo fato de serem extremamente vigiados pelos velhos), depois de todo esse risco valia a pena as risadas nas rodas de amigos.

Fala que na quadra junina as pessoas faziam lindas fogueiras e passavam através dela para se tornarem respeitáveis compadres e comadres de fogueira por toda a vida, eu mesmo conheço alguns compadres de minha mãe: ʺcumpadi Melkeʺ ʺcumpadi,Ramiro”, ʺcumpadi Amâncio”; é assim que ela trata eles. Passar fogueira era dar as mãos e passar cada pessoa de um lado da fogueira e pedir para são João e são Pedro confirmar essa união e a partir daí se tornavam compadres e comadres de fogueira.

Ela expõe ainda, que as quadrilhas eram caipiras e as moças se vestiam como verdadeiras bonecas. Na minha Macapá, ninguém sabe se é festa junina ou é carnaval de tanto brilho que tem. As quadrilhas eram originais e com roupas decentes, lindas de se ver, mas a evolução deixou quadrilhas tradicionais bastante diferentes das do tempo dela, com culturas trazidas de outros lugares que segundo ela, perderam o valor da raiz, a tradição era o que encantavam as belas quadrilhas: Coronel Virgulino, Dama de Ouro (onde minha mãe dançou na juventude), El Dourado, Matuto Espalha Brasa. Essas eram o nome de algumas das quais fizeram história na Macapá de minha mãe.

Às vezes morro de vontade de ter conhecido esses tempos só para ver a diferença e poder sentir exatamente o que ela sentiu um dia, apesar de, sem saber o porquê, eu sinto saudades, talvez pela forma como ela fala, com tanta nostalgia, um olhar doce e suspiros perdidos.  Apesar de não saber mais viver sem meu celular com câmera, entendo que talvez se ela tivesse um para registrar tudo, eu poderia fazer essa viagem no tempo com mais facilidade e saberia as informações com mais precisão e mesmo que eu abrisse mão dos recursos tecnológicos isso não seria possível (seria capaz de abrir mão deles facilmente só para viver a viagem a Macapá saudosa de minha mãe). No entanto, como é impossível esse retorno, resolvi historiar a minha primeira crônica.


Winston A. Harry



sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Poesia Macapá: Mary Paes




Na quinta-feira, 25/9, a partir das 21h, o República Bar Vintage, em Macapá, traz para o palco a poetisa Mary Paes, com um repertório recheado de “poemas eróticos”, de sua autoria, no recital Previsão do tempo: quente e úmido ao anoitecer. Será a primeira vez que a artista se arrisca numa apresentação solo abordando o erotismo.

A idéia do recital nasceu a partir do convite do proprietário do espaço, Ronaldo Costa, empresário amapaense com visão cultural, que se estende para além do segmento musical, privilegiando artistas de outros segmentos, como a poesia e o teatro. A produção do espetáculo é conduzida pelo Tatamirô Grupo de Poesia, com a colaboração da artista visual Aline Pacheco.

Mary Paes espera que o público receba bem a proposta, por se tratar de algo ainda não experimentado por ela, em outros eventos literários da capital. “Estou bastante ansiosa, e desde já agradeço o apoio dos amigos para a apresentação. Além de algumas surpresas reservadas para o público, a noite será, no mínimo, bastante quente e úmida”.

Depois do recital de Mary, a noite continua com participações especiais do Tatamirô Grupo de Poesias, Poetas Azuis, Pena & Pergaminho, Kássia Modesto, Carla Nobre, Lorrana Maciel e Patricia Andrade.

Serviço

Previsão do tempo: quente e úmido ao anoitecer
Data: 25 de Setembro de 2014 (quinta-feira)
Hora: 21h
Local: República Bar Vintage
Rua Orlando Pinto, 640F, Santa Rita. Macapá/AP
(em frente ao salão de festas da Divina Arte)
Couvert artístico R$5
Contato: (96) 9179 4950