domingo, 23 de fevereiro de 2014

Poeta do Mês: Walter Poeta (4)

TRISTEZA AUGUSTIANA

Sepultei um grande amor que amei
Nessa terra árdua que me espera um dia
E na vida, com minha alma triste fiquei
Do amor guapo que só me trazia alegria.

Foi-se embora a grande esperança
Da aurora que todo o dia eu via
Da dor plangente vinda de uma criança
Que nos braços da mãe chora ao ver a luz do dia.

De que serve agora esse amor que procurei?
E que hoje me deixou arrependido
Trazendo essa maldita desgraça que herdei
Desse amor eterno que virou bandido.

Mas hoje desconheço esse amor extraordinário 
Que se diz ser belo e que hoje  não me anima
Mas sei que vai estar para sempre sepultado




Esse sentimento rijo que começa e depois termina.





domingo, 16 de fevereiro de 2014

Poeta do Mês: Walter Poeta (3)

SOMBRA

Esse espaço sem luz escurecido
Que me acompanha nessa fúnebre estrada afora
Não sabe direcionar seu próprio destino
Na tempestade forte e sombria que sempre apavora.

Mas essa mancha que ao meu lado parece fantasma
Não separa da substância física que é meu corpo
Se rasteja feito um animal imundo e invertebrado
É primitivo, obscurosamente um fiel desditoso.

E no dia que for embora a minha mocidade
Esse fantasma infeliz não me seguirá no futuro.
Ficará o sofrimento, a dor e esse sentimento triste chamado saudade.

Nessa vida que é hostil, amarga e hedionda.
Minhas células ficarão vagando nesse enorme mundo
E nunca mais meu Deus eu verei o desconforto dessa pobre sombra.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Oficina Macapá: Organização e Planejamento de Eventos


Nem toda coincidência é plágio

Rafael Infante e Fábio Porchat, 
em cena de Dura

Sou um fã entusiasmado do canal Porta dos Fundos, e procuro sempre assistir os novos vídeos assim que eles entram no ar. Foi assim na segunda passada, dia 3, data em que entrou no ar aquele que eu considero um dos melhores vídeos já feitos pelo canal. Intitulado Dura, mostra dois cidadãos que abordam dois policiais que estão dormindo dentro de uma viatura, e começam uma revista nos PMs (ou seja, uma situação de inversão de papéis, um recurso clássico do humor). 



Obs: infelizmente o YouTube colocou restrição de idade 
no vídeo, portanto se não conseguir ver no link acima 
você vai precisar entrar no YouTube e fazer login


Por mais genial que seja, o vídeo gerou quase de imediato duas dores de cabeça ao canal, em especial a Fábio Porchat, que além de atuar no esquete, é o autor do roteiro. Aguardei algum comentário a respeito no "Portaria" deste domingo (pra quem não sabe, é um outro canal do YouTube onde atores do Porta dos Fundos comentam os vídeos lançados na semana e respondem perguntas do público). Mas o programa Portaria 25, que ontem contou com o próprio Porchat ao lado de Clarice Falcão, não abordou nenhuma das dores de cabeça. Em dado momento, Fábio chegou a falar de um assunto que teria a ver - foi na hora em que alguém quis saber sobre quantos processos o canal já levou, ao que ele respondeu que o "Porta" nunca foi processado por ninguém. Mas nada sobre as duas dores de cabeça que passo a comentar em seguida.

A primeira, sobre a qual não vou me alongar, pois não é o tema que quero abordar neste texto, foi a reação de alguns policiais militares, expressa numa postagem anônima no Blog do Soldado, citada por reportagem do site G1 Rio de Janeiro. A mesma matéria traz o texto de uma nota do Porta dos Fundos, afirmando que "Nosso vídeo é uma crítica ao policial corrupto e não à Polícia Militar como instituição". Ao G1, a PM do Rio informou que "defende a liberdade de expressão e que não tem nenhuma medida prevista contra o canal Porta dos Fundos."

A segunda dor de cabeça começou quase imediatamente à postagem do Dura. Internautas começaram a comentar na página do vídeo sobre a semelhança dele com O Troco, postado no canal de Márcio Menezes em maio de 2006, e no qual... dois cidadãos abordam dois policiais que estão dormindo dentro de uma viatura, e começam uma revista nos PMs. A situação é semelhante, o encaminhamento da ação em alguns momentos também, com a diferença que aqui um dos cidadãos entra no carro da PM para revistá-lo. 




Também ao G1, mas no caso numa reportagem da editoria Pop & Arte, Porchat afirmou: "Foi uma coincidência. Roteiristas que escrevem esquetes podem ter ideias parecidas ou até as mesmas", disse Porchat. De acordo com ele, o roteiro da esquete foi escrito em junho de 2013 e "até hoje, ninguém do Porta dos Fundos conhecia o vídeo do outro canal. Nesse caso, a ideia foi a mesma, eu acho realmente muito parecido, mas eu nunca roubaria um roteiro que já existe e ainda por cima produziria um vídeo exatamente igual", defende-se.

Beleza, aí chegamos ao ponto que eu queria: pegar algo que já existe, criar uma outra obra exatamente igual (ou extremamente parecida) e apresentar como criação sua não é algo que um verdadeiro artista irá fazer. O artista almeja ser conhecido - e quiçá, admirado - pelo que cria de novo, pela marca única que pretende deixar no mundo, e que talvez perpetue sua memória séculos afora, quando nada mais de sua matéria física aqui restar. 

(Um parêntese: quando eu escrevia histórias em quadrinhos, o que fiz até começo dos anos 1990, eventualmente usava como ponto de partida para meus roteiros alguma história que eu havia lido, fosse do universo Disney, fosse da Turma da Mônica. Desde então eu já considerava essas histórias como meros "exercícios" e jamais me passou pela cabeça publicar esse material, afinal isso não faria sentido algum).


Voltando: embora até o momento eu desconheça alguma manifestação de Márcio Menezes a respeito (se alguém souber, por favor me informe nos comentários), concordo plenamente com o que disse meu xará Fábio Porchat - foi uma coincidência. E elas podem ser mais frequentes do que se imagina. Afinal, quando você vai fazer um vídeo, escrever um poema, compor uma música etc etc, não tem como ouvir, ler, assistir tudo o que já foi feito, para ver se não está plagiando ninguém. Então, um belo dia me aconteceu de, ao ler um poema de Lara Utzig, minha amiga e parceira (compomos juntos um funk. Sim! Agora só falta a Anitta gravar), reconhecer algo de familiar no início dele. Falo de "Porta-Bandeira da Dor", cujos dois primeiros versos são: 

A Banda passa bem cedo
E nos perdemos no trio elétrico...

Comparem com o começo deste meu poema "25 Anos de Festivais":

A banda passa em disparada
Atrás do trio elétrico.


E aí? Cinco palavras iguais em dois versos, e todas nas mesmas posições!!! Imediatamente comentei com Lara, mas já julgando se tratar de coincidência, pois ela de fato não conhecia esse meu poema escrito em 1990, publicado no ano seguinte no meu jornal mega-alternativo O Arauto (que eu fazia em xerox em Bento Gonçalves, RS) - Lara nem nascera quando isto aconteceu - e que republiquei no site Brasileirinho, em 2003. (Leia o poema completo no post anterior). Tanto o fato não deixou seqüelas que a própria Lara escolheu "Porta-Bandeira da Dor" como um dos seus três trabalhos a serem publicados aqui quando foi a Poeta da Semana.

Então, maravilha, até aqui concluímos que coincidência não é plágio. Mas então, quando pode se dizer que ocorre o plágio? Ou, mais conceitualmente: o que é mesmo plágio?

Aí é que está. Temos uma Lei de Direito Autoral em pleno vigor (a 9.610, que completa 16 anos no próximo dia 19), que não define o que é plágio. Pior ainda: não cita o termo em nenhum de seus 115 artigos!!! Mas a função (ou uma das, pelo menos) de uma lei autoral não é justamente evitar o plágio, ou ao menos proteger dele os legítimos autores?? 

À falta de definição legal, vamos "decretar" aqui que:

  • coincidência não é plágio
  • caracteriza-se a coincidência quando o autor da nova obra não conhece a obra anterior

E o plágio, portanto, estaria caracterizado quando se pudesse comprovar que a obra anterior era do conhecimento do autor da obra mais recente. O que aconteceu, por exemplo, com As Aventuras de Pi, do americano Yann Martel, de 2001, cuja história é basicamente a mesma do conto que dá título ao livro Max e os Felinos, publicado em 1981 pelo gaúcho Moacyr Scliar. Quando alguém apontou a semelhança, Martel disse não ter lido o livro de Scliar, apenas uma "resenha negativa de John Updike publicada no New York Times" e pensado que havia ali "uma boa ideia mal aproveitada". Além da ofensa tácita ao brasileiro, Martel incorreu numa mentira, pois o livro jamais foi resenhado por Updike. Quando o livro ganhou o prêmio Man Booker na Inglaterra, em 2002, aí sim o  New York Times publicou, de verdade, uma reportagem sobre o caso (neste link, em inglês). Enfim, apesar de todas as evidências, Scliar desistiu de processar Martel, devido ao alto custo de um processo internacional. Martel chegou a incluir uma nota de agradecimento a Scliar no prefácio das edições mais recentes. No ano passado, o caso voltou ao noticiário, em função dos quatro Oscars ganhos pela adaptação do livro de Martel para o cinema pelo diretor Ang Lee. O editor de Scliar, Luiz Schwarcz, conta a história com mais detalhes no blog da Companhia das Letras.


Detalhe da capa de Max e Os Felinos



Poema: 25 Anos de Festivais



A banda passa em disparada
Atrás do trio elétrico.
É proibido proibir
A questão de ordem:
Alegria, alegria!

Vão todos no arrastão
Passar o domingo no parque
A roda-viva tá girando, oi girando
Tudo é divino, maravilhoso

Todos vão caminhando
Contra o vento
Sem lenço nem documento
Mas cantando e seguindo a canção

Eram os festivais
Da Globo, Excelsior, Record
Tempos que não voltam mais
Músicas que muitos ainda sabem de cor

Tudo isso já passou
Mas poder relembrar é uma brasa, mora
E que tudo mais vá pro inferno!


Fabio Gomes - 1990

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Poeta do Mês: Walter Poeta (2)

RECIFE  


Recife cidade maravilhosa
Recife dos rios e dos manguezais
Recife cidade maravilhosa
Recife brilhando na beira do cais.

Vou andar nas ruas de Recife
Vou pegar o ônibus lotado
Passar por cima do Rio Capibaribe
Ver São José e o seu grande mercado.

Vou andar de chapéu de palha
Para o sol não queimar a cabeça
Ver no alto os antigos sobrados
E os bairros antes que eu me esqueça.

Recife capital do frevo
Recife terra de Nassau
Recife de Manoel Bandeira
Recife de João Cabral.

Quem vem lá,
Seu Salú com seu Boi-bumbá

(inspirado em Evocação do Recife, de Manoel Bandeira)

Especial 50 anos sem Ary Barroso



Para homenagear o compositor Ary Barroso, falecido em 9 de fevereiro de 1964, mesmo dia em que o Império Serrano desfilava com o enredo em sua homenagem "Aquarela Brasileira" (com o samba-obra-prima de Silas de Oliveira), publicamos aqui uma seleção de notas saídas originalmente no Mistura e Manda do site Brasileirinho. 

***

O "baiano" Ary Barroso

Mineiro de Ubá, Ary Barroso (1903-1964) esteve na Bahia pela primeira vez em 1929, como pianista da orquestra Apolo Jazz, dirigida por Napoleão Tavares. Foi a semente de uma paixão pela boa terra que se refletiu em muitas músicas. Algumas delas ajudaram a construir a imagem de baiana que consagrou Carmen Miranda: o batuque “No Tabuleiro da Baiana” (1936), que ela gravou com Luís Barbosa, o samba-jongo “Quando Eu Penso na Bahia” (parceria com Luiz Peixoto, 1937), levado à cera por Carmen e Sílvio Caldas, e o superclássico “Na Baixa do Sapateiro” (1938). O cantor paulista Déo lançou outros dois sambas baianos de Ary: “Iaiá da Bahia”, em 1951, e “Bahia Imortal” (1945, gravado em dupla com Dircinha Batista). A série foi inaugurada com a gravação de “Bahia” por Sílvio Caldas em 1931, seguindo-se “Nega Baiana” (parceria com Olegário Mariano, 1931), lançado por Elisa Coelho e o Bando de Tangarás; “A Baiana Saiu de Espanhola”; e “Faixa de Cetim”, lançado por Orlando Silva em 1942. A gravação de “Quero Voltar à Bahia” em 1961, por Jorge Goulart, aparentemente encerrou o ciclo, mas é possível que existam outros.

Luiz Peixoto, letrista de “Quando Eu Penso na Bahia”, curiosamente, foi o responsável pela “desbaianização” de outro samba, que seria intitulado “Bahia”, com versos de Ary (“Bahia/ Cheguei hoje da Bahia/ Trouxe uma figa de Guiné...”), e que, com a nova letra de Peixoto, virou “Maria” (“Maria/ O teu nome principia/ Na palma da minha mão...”).

(Mistura e Manda nº 4, 30.6.2003)

***
O mineiro Ary Barroso 

Ary Barroso enfrentou cobranças de mineiros por cantar mais a Bahia do que Minas Gerais. Ele compôs “Aquarela Mineira” (1950), sem repercussão. A O Estado de Minas, em 1959, Ary queixou-se que a música não fizera sucesso porque os mineiros não quiseram.

Outra música sobre Minas foi “Sinfonia das Montanhas”, composta em 1943, quando narrou futebol para a Rádio Guarani de Belo Horizonte. (Receberia outros convites da imprensa mineira: o jornal Binômio o chamou para entregar troféus aos melhores do ano, em 1959 e 1960). “Sinfonia...” devia entrar no filme americano Brazil (1944), o que não ocorreu. A música não chegou a ser gravada. O filme, com trilha de Ary, tem cenas filmadas em BH e numa fazenda nos arredores, onde os vaqueiros faziam churrasco e usavam bombacha. A crítica brasileira malhou a fita.

1 - Nico Duarte, proprietário do Cassino Ao Ponto;2 - Ary Barroso. Poços de Caldas, 1926.
Temporada em Poços de Caldas, 1926. Ary é o 2 da foto. 
A seu lado, o 1 é Nico Duarte, 
dono do cassino Ao Ponto


Ainda em 43, Ary fez shows com artistas mineiros. Ele já atuara no estado como pianista, em uma excursão iniciada em Santos em 1926 e que ficou em Poços de Caldas por 9 meses, até maio de 1927. Retornaria várias vezes a Poços de Caldas, sempre bem acompanhado – em 1938, com Francisco Alves, Carmen Miranda e Vassourinha; em 1945 (por dois meses), com Sílvio Caldas.


Ary Barroso (anos 40) em Poços de Caldas.
Em Poços de Caldas, 1945


Formado em Direito em 1930, Ary tentara ser promotor público em Nova Resende, mas não se sabe se ele chegou mesmo a ser nomeado ou, tendo sido, desistiu logo, voltando ao Rio de Janeiro. Já em 1962, pensou em se lançar a deputado federal por Minas. À revista Manchete, assim justificou a desistência: “Com que dinheiro iria comprar votos?”

Quando Ary necessitou de albumina humana por estar com cirrose, em 1963, a direção do Pronto-Socorro de BH providenciou-a e conseguiu que o comando da Base Aérea de BH realizasse um vôo em plena madrugada, enviando 3 frascos ao Rio.

Ao que parece, os maiores críticos da baianidade de Ary eram moradores de Ubá, mas isso fica para o outro M&M.

(Mistura e Manda nº 5, 7.7.2003)

***

Ary Barroso de Ubá... 



Os mineiros sempre demonstraram admirar Ary Barroso, que correspondia – até documentos ele fazia em Minas, mesmo com décadas de residência no Rio de Janeiro (carteira de motorista, Ubá, 1924; certificado de reservista, Juiz de Fora, 1940)! Pelo jeito, os incomodados pelo amor entre Ary e a Bahia eram os moradores de Ubá.

O último sobrado e onde morava Ary com sua avó Gabriela e com a tia Ritinha. Ubá - Minas Gerais
Sobrado em Ubá onde Ary morou até se mudar para o Rio


Ninguém duvidava que ele gostasse de Ubá. Enquanto cursava Direito, Ary sempre passava lá as férias, inclusive deixando procurador para matriculá-lo no Rio. No carnaval de 1929, os ubaenses esgotavam as edições de O Jornal nas bancas para votar em “Vou à Penha”, samba de Ary que ganhou na votação dos leitores de todo o Brasil (mas não ficou entre os quatro premiados na apuração da comissão de especialistas). Um leitor de Ubá escrevera a O Jornal, manifestando esperar da comissão um julgamento “desprevenido, legítimo e sincero”...

Houve, é certo, uma grande mágoa de Ary com Ubá quando, em 1954, a Câmara de Vereadores recusou-se a dar seu nome a uma rua, quando outras pessoas vivas já haviam recebido esta homenagem. Isso o levou a recusar-se a participar das comemorações dos 100 anos do município, em 1957. As pazes só foram feitas em agosto de 1959, quando o Tabajara Esporte Clube, completando um ano, resolveu homenageá-lo. Uma avenida recebeu seu nome e inaugurou-se um monumento representando uma clave de sol. Ary levou grande comitiva do Rio e ficou seis dias em Ubá, inclusive visitando a Fazenda da Barrinha, onde passava as férias na infância. Por sinal, esta fazenda é o único local de Minas citado nominalmente na “Aquarela Mineira”.


A famosa Fazenda da Barrinha onde Ary passava as férias escolares de fim de ano junto com seus primos que sumiam p'ro mato a caça de brincadeiras para desespero de sua tia Etelvina. Barrinha era sinônimo de Liberdade.
Fazenda da Barrinha


Ary tem outra música, inédita, chamada ... “Ubá”. Uma de suas primeiras composições foi o hino do bloco carnavalesco Ubaenses Gloriosos (1919). Mas, pelo jeito, “não valiam” para os descontentes. Certa feita, Ary estava no bar Vilariño, no Rio, quando uma senhora ubaense mostrou-se indignada por tantos sambas para a Bahia e nenhum para Ubá. Ary respondeu que a conterrânea não tinha razão, pois a cidade era citada no samba “Risque”:

- Preste atenção na letra – disse Ary, passando a cantar: - “Mas se algum dia talvez/ A saudade apertar/ Não se perturbe/ Afogue a saudade/ Nos copos de Ubá...”


Show em Ubá, Minas Gerais - Parte do show demostrando aos estrangeiros atônitos o instrumento "cuíca".
Show em Ubá, 1959 - Ary está em pé à esquerda



...e da Bahia

Ary Barroso compôs ao menos 11 músicas sobre a “boa terra” – além das 10 citadas no Mistura e Manda nº 4, descobri mais uma, “Maria”, samba de 1931 gravado por Leonel Faria homenageando o remelexo da baiana (nada a ver com a “Maria” que Ary fez com Luiz Peixoto. Mania dele de ficar colocando o mesmo nome em várias músicas e dificultando as pesquisas!).

Por essa música e outras como “No Tabuleiro da Baiana” e “Na Baixa do Sapateiro”, o compositor mineiro recebeu em junho de 1956 em Salvador o título de Cidadão Baiano. Na Ladeira de São Miguel, junto ao Pelourinho, alunos e professores de universidades promoveram um ato público, com muitos discursos e, claro, a interpretação de alguns sambas baianos de Ary por talentos locais. 

(Mistura e Manda nº 6, 14.7.2003)

***

Ary Barroso sem bigode



Quase todas (eu diria quase 100% d)as imagens conhecidas de Ary Barroso mostram-no com bigode.. Nem sempre foi assim, lógico. Ary só passou a usar bigode em 1929, além de ter ficado alguns dias sem ele em 1955 por causa de uma aposta, como conta Sérgio Cabral em No Tempo de Ari Barroso. Ferrenho torcedor do Flamengo, o autor de "Aquarela do Brasil" discutia a favor de seu clube contra o compositor Haroldo Barbosa, adepto do Fluminense, a respeito do Fla-Flu do Campeonato Carioca que seria disputado dali a alguns dias. A discussão ocorreu no bar Vilariño, diante de dezenas de testemunhas que ouviram claramente quando os dois torcedores acertaram o seguinte: se o Flamengo vencesse, Ary rasparia o bigode de Haroldo; mas, se o Fluminense ganhasse, Haroldo é que tiraria o bigode de Ary.

Casamento Yvonne e Ary. Rio, dia 26 de fevereiro de 1930No domingo, o Fluminense surpreendeu, vencendo o favorito Flamengo por 2 a 1. Na segunda, a partir das 3 horas da tarde, muita gente chegava ao Vilariño para ver Ary perder o bigode. Porém, o compositor não aparecia. Às 6 horas, alguém descobriu que ele se escondera na casa das cantoras Dircinha e Linda Batista. Formou-se um corso de automóveis para a residência. Flagrado, Ary resistiu o quanto pôde: argumentou que em poucos dias iniciaria uma temporada ao lado do cantor Ernani Filho na boate Plaza e não poderia estar sem o bigode, uma marca pessoal. Desculpa rejeitada, tentou o último recurso: disse que sua esposa não o aceitaria de cara raspada. Haroldo telefonou para Yvonne, que respondeu: "Casei com Ary, e não com o bigode dele..." (ao lado, foto do casamento, em 1930). Sem outra chance, o rubro-negro aproveitou para fazer um apelo: "Quero que o meu sacrifício fique como uma lição para os jogadores do Flamengo".


O visual de Ary sem bigode foi destaque nos principais jornais do Rio de Janeiro, chegando a merecer uma nota na revista americana Time. E, pelo jeito, o apelo aos jogadores funcionou: o Fla sagrou-se tricampeão carioca naquele ano. A vitória inspirou o samba "Flamengo Tricampeão" (Haroldo Lobo - Ari Cordovil). Gravada por Jorge Veiga, a música não podia deixar de fazer menção ao "sacrifício": "Flamengo já parou de perder por aí/ Eu vi o Haroldo Barbosa/ Fazer o bigode do Ary".

Ary com a cantora Ângela Maria no gramado do Maracanã, festejando o tri campeonato de futebol (anos 53-54-55). Como vereador Ary foi um dos responsáveis do projeto na Câmara, conseguindo os votos da bancada comunista, que resultou na construção do Estádio
No Maracanã, comemorando o tricampeonato
do Flamengo com Ângela Maria

(Mistura e Manda nº 62, 16.8.2004)

***

"Nova" viagem de Ary Barroso à Bahia

Um tema recorrente aqui no Mistura e Manda é a relação de Ary Barroso com a Bahia, por dois principais motivos: 1º, a Boa Terra deu origem a memoráveis sambas de Ary (ver notas acima); 2º, uma viagem de Ary a Salvador teria sido a causa da instituição do dia 2 de dezembro como Dia Nacional do Samba (tema do Mistura nº 122 - ver observação abaixo). Por isso, informo aos leitores uma "nova" viagem de Ary à Bahia, em 1933 - nova, obviamente, no sentido de que não é tão conhecida como as de 1929 e 1956. A de 1933, diferentemente das anteriores, não é citada na ótima biografia No Tempo de Ari Barroso, de Sérgio Cabral (ed. Lumiar). Aliás, curiosamente no trecho em que aborda este ano, entre as págs. 126 e 129, Cabral dá conta de que foi um ano de pouca atividade para o autor de "Faceira": teve só seis músicas gravadas e passou meses sem atividades teatrais, seja musicando ou escrevendo peças de teatro de revista.

Bem, talvez seja mais correto falar em pouca atividade no Rio de Janeiro. 1933 iniciou com uma revista de Ary em cartaz no Teatro Alhambra: Brasil da Gente, escrita em parceria com Marques Porto, Gastão Penalva e Velho Sobrinho, estreou em 30 de dezembro de 1932 e saiu do programa em 12 de janeiro. Estrelada por Mesquitinha, contava com Sílvio Caldas lançando o samba de Ary "Segura Esta Mulher". Durante a temporada, o o empresário Francisco Serrador, dono do teatro, convidou Ary a ser o diretor da orquestra da casa. Não era pouca coisa: o Alhambra era um empreendimento ousado de Serrador, já então o dono da Cinelândia. Nos oito anos em que existiu (um incêndio o consumiu em 1940), foi uma das casas de espetáculo de maior prestígio da então Capital Federal. Sua inauguração se dera em 9 de agosto de 1932, com a peça Feitiço, de Oduvaldo Vianna, apresentada pela Cia. Procópio Ferreira. Além de abrigar espetáculos do teatro de revista e do então chamado teatro de comédia (também dito "teatro declamado", em oposição ao "musicado" da revista), o Alhambra também funcionava como cinema. Ali estreou em 29 de maio de 1933 a produção da Cinédia Ganga Bruta, dirigida por Humberto Mauro e protagonizada por Durval Bellini e Déa Selva.

Foi justamente na qualidade de diretor da Companhia de Revistas, Sainetes e Operetas do Alhambra que Ary esteve em Salvador. Aninha Franco informa no livro O Teatro na Bahia Através da Imprensa - Século XX (1994) que a "Companhia do Alhambra apresentou um repertório de primeira, com revistas escritas e musicadas pelo próprio Ary, por Velho Sobrinho e Marques Porto, que fizeram enorme sucesso. (pág. 70)". Onde e quando teria acontecido essa temporada do grupo carioca em Salvador? O local, com certeza, era o Cine-Teatro Jandaya, preferido pelos grupos de passagem pela Bahia, devido à qualificação que lhe deu a reforma de 1931. A data, embora não mencionada por Aninha, não é difícil de deduzir, ao menos aproximadamente. A autora informa que a Cia. de Comédias de Teixeira Pinto "abriu a temporada teatral de Salvador, em 1933, (...), sucedida pela Companhia (...) do Alhambra". No teatro soteropolitano, considerava-se temporada então o período compreendido entre abril e outubro. Após a saída do Alhambra, a Cia. Palmerim Silva-Cecy Medina fez uma "temporada mais longa do que as habituais", dando lugar a Cia. de Espetáculos Modernos, dirigida por Lamartine Babo, em julho. Teria sido então em alguma data entre abril e julho de 1933 esta permanência de Ary na Bahia, possivelmente coincidindo com o período em que o filme Ganga Bruta esteve em cartaz no Alhambra (maio-junho). É certo que em setembro ele já se encontrava de volta ao Rio, pois no dia 15 daquele mês estreou no Teatro Rialto a revista Mossoró, Minha Nega, que escrevera junto com Marques Porto. Com Mesquitinha e Alda Garrido à frente do elenco, a peça ficou duas semanas em cartaz.

Enfim, não foi então dessa vez que Ary Barroso esteve em Salvador num dia 2 de dezembro...

(Mistura e Manda nº 140, 11.7.2006)

OBS: A questão relativa à instituição do Dia Nacional do Samba e sua relação com Ary Barroso foi brilhantemente esclarecida aqui no Jornalismo Cultural por artigo do pesquisador Márcio Gomes. Leia as duas partes do especial:

1ª - texto meu falando das viagens de Ary Barroso à Bahia em 1929 e 1956 - http://vamosfalar-jornalismocultural.blogspot.com.br/2013/12/especial-dia-nacional-do-samba-1.html


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Sobre Ary Barroso, veja também:





sábado, 8 de fevereiro de 2014

Especial 50 anos sem Ary Barroso: Ary Piano Barroso


Neste domingo, 9 de fevereiro, completam-se 50 anos desde que Ary Barroso foi tocar piano no céu. Para homenageá-lo, publicaremos amanhã uma seleção de notas a seu respeito publicadas no Mistura e Manda. 

E para abrir os trabalhos, postamos hoje um texto comentando um show que vi em São Paulo há 11 anos, com o repertório do CD Ary Piano Barroso, do pianista Ricardo Camargos, que já havia traduzido para as teclas brancas e pretas a obra de Pixinguinha e Cartola e que desde então (de acordo com o Dicionário Cravo Albim) não mais lançou nenhum disco. Não lembro exatamente se era um show de lançamento, embora o CD houvesse saído naquele mesmo ano, mas a produção de Ricardo não tinha o CD para vender ao final do espetáculo, razão pela qual pude adquirir apenas o (excelente) Piano Pixinguinha (1995).  

***

RICARDO CAMARGOS: ARY PIANO BARROSO


O pianista Ricardo Camargos, de formação clássica, trabalha há mais de 30 anos com a música popular, tendo integrado o grupo O Fruto ao lado do guitarrista Victor Biglione. Recentemente, tem se dedicado a visitar a obra dos grandes mestres com olhos (e dedos) de pianista, trabalho que já resultou nos CDs Piano Pixinguinha (1996) e Piano de Cartola (1999) e que agora prossegue com o disco Ary Piano Barroso, em mais uma merecida homenagem ao centenário compositor. Foi com o repertório desse trabalho que Ricardo fez um belo espetáculo no Auditório SESC Av. Paulista (São Paulo), em 3 de novembro de 2003, acompanhado por Mike Ryan ao flugelhorn e trompete e o veterano percussionista Ovídio Brito, que nesse dia tocou pandeiro.

O grande momento do fim de tarde foi o arranjo de Ricardo para o samba-jongo "Na Baixa do Sapateiro". Após iniciar com ênfase no grave e acordes quadrados ao piano, pontuados aqui e ali pelo trumpete, a interpretação do grupo assumiu um ritmo mais vivo na segunda parte da música, com um excelente solo de Mike. Em seguida, Ovídio fez um solo de pandeiro, acompanhado discretamente por Ricardo ao tamborim, tudo se encaminhando para um final em que o piano fez belas variações sobre a melodia.

Além de bom pianista e arranjador, Ricardo conduziu bem o espetáculo, convidando o público a cantar junto sucessos consagrados, como "Risque" (escolhida para o bis), "Pra Machucar meu Coração", "Folha Morta" e "Camisa Amarela" (a preferida de Ricardo) e lembrando histórias engraçadas, a maioria relativa ao programa de rádio Calouros em Desfile, que Ary comandou de 1936 a 1961.

O pianista comparou Ary Barroso a Heitor Villa-Lobos no amor pelo Brasil, na valorização que ambos sempre fizeram do país e na excelência como compositores. Lamentou que a memória de Ary esteja dispersa: as partituras que ele fez para filmes americanos só se encontram em Hollywood; a família de Ary tem algumas fitas que o compositor deixou, mas sem uma preservação adequada; fora o que já não tem mais como ser recuperado mesmo. Exemplo? Ricardo tocou o "Choro Brasileiro nº 3" (uma bela composição, com tema alegre, bem cadenciada na segunda parte, com piano bem sacudido e bons contrapontos do flugel). Pois bem: onde estão os "Choro Brasileiro nº 1" e "Choro Brasileiro nº 2"? Ninguém sabe. Ricardo só chegou ao nº 3 porque ele foi gravado no LP Encontro com Ary (1956) e o fonograma foi relançado pela Editora Abril em um fascículo da coleção História da Música Popular Brasileira.

Na pesquisa que desenvolveu para selecionar o repertório, Ricardo descobriu outras pérolas pouco conhecidas ou completamente ignoradas do público, casos de "Sambando na Gafieira", em que o piano brilhou nas excelentes passagens de ritmo vivo para lento, com boa base rítmica do pandeiro de Ovídio e do agê empunhado por Mike; "Nega Baiana", que iniciou com pandeiro e agê, o piano integrando-se bem balançado, com um solo surpreendentemente mais calmo; e "Minha Mágoa", valsa executada nesse dia no SESC apenas pelo piano. Lenta, algo nostálgica, era definida pelo próprio autor como "uma valsa à moda antiga". Em "Minha Mágoa", chama a atenção o emprego em larga escala das voltinhas ao final dos compassos que eram uma marca registrada de Ary - não tantas, porém, a ponto que ele tivesse de mudar seu nome para Ary Barroco... 

Também cheia de voltinhas era a música mais antiga do repertório: "Vou à Penha", primeiro samba de Ary gravado, por Mário Reis, em 1928. A boa base melódica do piano recebeu uma bela contribuição da harmonia feita pelo trompete.

O grande clássico do repertório de Ary Barroso, "Aquarela do Brasil", logicamente não podia ficar de fora. O tema foi apresentado por Ricardo em um sintetizador, acompanhado pelos floreios do flugel. Na parte em que corresponde aos versos "Ouve essas fontes murmurantes", os músicos passam para, respectivamente, piano e trompete, esse conduzindo mansamente a melodia, aquele fazendo os contracantos, com leve marcação do pandeiro. Súbito, uma pausa, e todos caem no samba, inclusive com alguns compassos só com percussão, pois Ricardo empunhara o tamborim e Mike o agê. Só um reparo em relação a "Aquarela": o pianista denominou seu arranjo como "suíte rítmica"; creio que "fantasia" exprimiria melhor. Ao menos pra mim, pra mim, pra mim, pra mim...

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Música Rio de Janeiro: Bárbara Eugenia


Poema: "Tributo a Macapá"



Hoje é o aniversário de Macapá. A capital do Amapá completa 256 anos de fundação; as comemorações iniciaram ainda em janeiro. Um dos eventos foi o sarau alusivo aos 40 anos da Banca do Dorimar, realizado  em 31 de janeiro na praça onde ela está localizada, a Veiga Cabral, com participação do movimento Poesia na Boca da Noite. 

Uma das integrantes do movimento, Andreza Gil (foto acima), 17 anos, declamou seu poema "Tributo a Macapá", que também foi distribuído em pergaminhos aos presentes no evento e aos freqüentadores da praça. Leia a seguir o poema, composto quando a autora tinha apenas 10 anos de idade: 


"É com grande satisfação e alegria
A mil, que vou homenagear minha
Terra varonil.

Se você quer conhecer uma cidade
A prosperar, venha então visitar
Macapá, capital do Amapá.

Venha conhecer os pontos
Turísticos do lugar como a
Famosa Beira-Rio, Fazendinha e
Araxá e a Fortaleza de São José de Macapá.

Macapá é como uma mãe que a
Todos os filhos quer agradar.
Ela acolhe aqueles que aqui chegam
Com o propósito de ficar.

Minha cidade é bonita, possui
Riquezas sem par, cortada pela
Linha do Equador, banhada pelo
Rio-Mar, minha cidade é Macapá.

De todas as riquezas que minha
Cidade possui, uma está em primeiro lugar.
É o povo macapaense que engrandece esse lugar!

Parabéns Macapá!"

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Opinião: Dez impressões sobre a Festa de Iemanjá


Autores: Pedro Amorim e Paulo César Pinheiro


Por Calila das Mercês,
de Salvador


1 – A Festa de Iemanjá é um evento festivo religioso, que acontece em 2 de fevereiro desde 1923, e que reúne centenas de pessoas para celebrar o dia da Rainha do Mar. Estas pessoas (a maioria, devotos do candomblé, umbanda e catolicismo) vão homenagear, agradecer ao orixá das águas e pedir graças. A celebração tem essa energia!

2 – A Festa de Iemanjá é - um evento que parcialmente se tornou algo como - um mini-carnaval, em que pequenos grupos com suas cordas e “barricadas” organizam em garagens, bares e pedaços de ruas suas comemorações particulares. Para participar de alguma, a pessoa deve ser convidada ou então pode comprar o seu abadá e participar, com direito a comida, a uma mesa e assistir apresentações de bandas. (Afinal, ser VIP é uma moda que pegou na Bahia!)

3 – Lixo, sujeira e mau cheiro. Bem, as ruas do Rio Vermelho, bairro onde a Festa ocorre, ficam extremamente sujas e com o que se pode chamar de um forte-cheiro-forte. E não só falo das ruas, mas o mar também fica bastante poluído. Não são apenas flores para Iemanjá, mas cestos de palha, frascos de perfumes, imagens de barro e plástico, pentes, tecidos, comida e coisas a mais. Não basta somente fazer as oferendas, mas também poluir. Compreendo que existe a tradição, mas tradições são inventadas, construídas e descontruídas. Onde é que diz que se o cesto de palha não for junto às flores, Iemanjá não irá gostar? E por que não pensar também na sustentabilidade?

4 – Programações desamarradas. Não entendo o porquê de ainda não existirem espaços na festa para os grupos locais se apresentarem. Todos os anos ficam pessoas (as que não são VIPs) perambulando sem saber para onde ir. Uma fanfarra toca aqui, um grupo independente ali, mas não há algo organizado dizendo os locais das apresentações para se ter uma festa mais interessante. Fica a pergunta: Por que não investir na Festa de Iemanjá, com uma programação decente para o povo?

5 – Transportes públicos, cadê? Quase não se vê ônibus em direção ao evento. Quem se arrisca a ficar em um ponto, pode esperar horas. Táxi, para quem não mora no Rio Vermelho, acaba sendo a única opção. Deve-se lembrar de que ontem, por ser domingo, os táxis em Salvador rodavam com bandeira 2, o que significa que o preço foi mais caro!

6 – Fila gigante para entrega das oferendas. Ainda não pensaram em criar alguns pontos de entrega das oferendas e não somente um? Ficam centenas de pessoas, todos os anos, debaixo do sol extremamente quente aguardando o momento de entregar as oferendas.

7 – Prioridade para o Festival de Verão. Na mesma data comemorativa à Iemanjá, acontece em Salvador o grande e mercadológico evento nacionalmente conhecido, o Festival de Verão. Aparentemente, o que há de organização e comprometimento com o público de um, falta com o outro. Será que as festas populares não geram receita?

8 – Festa aberta e democrática. O evento mesmo com problemas estruturais, ainda consegue ser aberto e democrático. É possível ver diferentes pessoas de classes sociais distintas fazendo suas oferendas e transitando no mesmo ambiente. Mas a festa continua sem muitas novidades em relação à programação.

9 – Iemanjá é black: militância negra e de terreiro (contra a intolerância religiosa). 2 de fevereiro é uma data comemorativa em muitos terreiros de candomblé. Alguns grupos aparecem fazendo um convite a todos a respeitarem as religiões de matrizes africanas e também a sua cultura. É muito comum a intolerância contra os terreiros, mesmo em uma cidade na qual a cultura afro é tão tradicional. Movimentos em que destacam uma Iemanjá negra têm sido recorrentes também!

10 – Em azul e branco: Viva! - para Iemanjá. Saudações, mesmo com as contradições! Odoyá!

Poeta do Mês: Walter Poeta

Como informamos ontem, a seção "Poeta da Semana" deixa de existir aqui no blog, sendo substituída pela "Poeta do Mês". Um(a) poeta será destacado mensalmente, tendo um poema publicado a cada domingo. A estréia do novo espaço se dá, excepcionalmente, nesta segunda, e segue normalmente a partir do próximo domingo, 9. (Fabio Gomes)

***


Walter Poeta é pernambucano nascido no Recife, cresceu na cidade de Paulista, onde teve inicio seu contato com a poesia, a música e a política. Hoje, um homem comunista, compositor, músico e poeta, entusiasta da cultura pernambucana e engajado nos movimentos sociais da sua cidade, participante do Coletivo Escambo Cultural atuante na cidade de Paulista. "Todo revolucionário é movido por grandes sentimentos de amor."


ESPERANÇA SERTANEJA

A tarde chega a noite logo escurece
Vou fazer aquela prece para meu santo protetor
Pedindo a ele muita água, muita fartura
Acendo um maço de velas pro meu povo sofredor

A seca é braba, o carcará é traiçoeiro
Pega a sua presa e mata pra poder sobreviver
E a vela queima nos pés do meu santo forte
Na rede velha eu balanço vendo a hora amanhecer

Quando amanhece a vela está apagada
O galo cantando lá fora acorda a fé do meu povo
Calço o chinelo, lavo o rosto, pego a enxada
e quando eu volto pra casa, faço a minha prece de novo.


domingo, 2 de fevereiro de 2014

Post nº 800: Joe e Jordan

 Naomi (Margot Robbie) tenta conter o ímpeto de
Jordan Belfort (Leonardo Di Caprio) em O Lobo de Wall Street


Joe e Jordan não se conhecem (até onde sei) e, afora um improvável crossover entre os universos de Ninfomaníaca - Vol. 1 e O Lobo de Wall Street, irão continuar sendo desconhecidos um para o outro. Mas posso garantir que os mais recentes filmes de Lars von Trier e Martin Scorcese, respectivamente, têm mais em comum do que possa parecer à primeira vista.  

Por essas coisas da vida, coincidiu que vi os dois filmes, um após o outro, na mesma sala, inclusive, na quarta passada, 29/1, num cinema de shopping aqui em Belém. Contrariando o que se poderia esperar, havia bem mais gente para ver um filme-cabeça dinamarquês (a sala estava praticamente lotada) do que para ver um exemplar do cinemão norte-americano (a sala devia ter metade da lotação no começo, e foi se esvaziando progressivamente - talvez nem todos tenham atentado para o fato de que era uma fita com 3h de projeção). Um resumo rapidão pra quem não viu:

  • em Ninfomaníaca, Joe (Charlotte Gainsbourg), uma mulher de meia idade, narra a Seligman (Stellan Skarsgård), um homem que a socorreu após um assalto, sua iniciação sexual (nesta fase, a personagem é vivida por Stacy Martin) e sua juventude marcada pela ninfomania.

  • em O Lobo de Wall Street, Jordan Belfort (Leonardo Di Caprio) conta sua ascensão de jovem corretor em Wall Street à fortuna construída por meio da venda a clientes ricos de "ações-tostão" (de pequenas empresas fora do pregão), combinada com sonegação fiscal e apetite irrefreável por sexo e drogas.

Os dois têm, portanto, uma característica que infestou o cinema brasileiro da chamada "Retomada" (anos 1990): um personagem-narrador. Von Trier justificou melhor o uso deste recurso: Joe decide contar sua história a Seligman, no intuito de que este concorde com sua visão auto-depreciativa - ela se julga merecedora de castigo em função de ter manipulado sexualmente inúmeras pessoas. Já o filme de Scorcese mostra, principalmente no início, Jordan falando diretamente para o espectador, recurso que é abandonado ao longo do filme, com eventuais retomadas; tem-se a impressão que, na dúvida entre ter um filme todo narrado ou um sem narração alguma, Scorcese decidiu fazer um híbrido (o que não seria problema maior, se isto contribuísse de modo positivo para o resultado final, o que não ocorre. Não chega a estragar o prazer de ver o filme, mas é sim uma aresta que poderia ter sido aparada). 

Von Trier não chega a explicar quem é Seligman, o homem que encontra Joe desacordada em meio à neve e a leva para casa. Apesar de seu nome, Seligman, significar "o feliz" em hebraico, ele esclarece (mais de uma vez, aliás) que não é judeu. Embora eu conheça pessoas de sobrenome Seligman em Porto Alegre, o personagem deixa claro que este é um prenome. Assim, como numa reunião de grupos de mútua ajuda como os Alcoólicos Anônimos, por exemplo, duas pessoas dividem uma conversa sobre adicção sem saberem seus respectivos sobrenomes. Pode-se deduzir que Seligman mora sozinho (afinal, chega com uma mulher desconhecida em casa, com quem conversa por dias a fio, sem interferência alguma) e cultiva hábitos no mínimo curiosos, como a audição de Bach ainda em gravador cassete (o que pode indicar que a ação "atual" não seria nos dias de hoje), curiosidades matemáticas como os números de Fibonacci, e a leitura de manuais de pesca (todos esses elementos acabam sendo relacionados, seja por Seligman, seja por Joe, à compulsão sexual dela). Embora Joe demonstra que quer o repúdio de seu ouvinte à sua vida desregrada, ele se nega a julgá-la, afirmando que ela pode ter contribuído com a felicidade de muitas daquelas pessoas. 

Já em O Lobo..., fica difícil entender a quem se dirige a narração (e  o porquê da suspensão dela em boa parte do filme) de Jordan e o que ele pretende com ela, pois, assim como Joe, Jordan não se poupa de revelar em minúcias tudo o que considera ter feito de mais abjeto, incluindo o arremesso de anões (!) ao alvo em pleno escritório de sua corretora de valores (eis aí uma sequência totalmente dispensável). Jordan não tenta disfarçar, por exemplo, que sua ascensão começa de fato quando sua primeira esposa, Teresa (Cristin Milioti), lhe sugere vender ações-tostões para ricos, o que ninguém fazia até então, e que após ficar milionário desenvolvendo esta idéia, ele simplesmente troca Teresa pela amante Naomi (a estonteante Margot Robbie) - e morar junto com Naomi, e depois se casarem, não era impecilho, a seu ver, para seguir freqüentando garotas de programa (o que não significa que ele tivesse rejeitado a nova esposa, ele apenas queria transar com ela e também com as garotas de programa!). 

Há também um certo jogo dos diretores com a história de seus protagonistas. Embora Joe queira o desprezo de Seligman por sua vida de excessos sexuais, Von Trier mostra sua compulsão de forma até simpática, em especial no Capítulo 5, onde o grande número de amantes é relacionado com as polifonias de Bach. Ao passo que, mesmo que Jordan não fique se condenando nos trechos em que há narração, Scorcese deixa muito claro que um caminho como o seguido pelo corretor não poderia levar a um bom lugar. Notável neste aspecto é a seqüência onde Jordan e seu sócio Donnie (Jonah Hill) ingerem um medicamento vencido há 15 anos (!) e sofrem delírios e paralisia parcial - com a patética cena de Jordan literalmente ir rastejando até seu carro e dirigir sabe-se lá como até em casa. Só esta seqüência diz mais contra o consumo de drogas do que inúmeras campanhas governamentais. 

Outro ponto em comum entre as duas obras é o final abrupto de seqüências importantes em cada uma. Em Ninfomaníaca, o Capítulo 3 ("Senhora H") mostra Joe começando a enfrentar problemas com o grande número de amantes que vinha mantendo. Esperando A para o jantar, ela decide terminar seu romance com H, blefando que, como ele não havia ainda deixado a esposa, tudo estava acabado entre eles. Ele vai embora e, qual não é a surpresa de Joe, retorna com a esposa (Uma Thurman, sensacional!) e os três filhos pequenos, oficializando assim sua separação! Embaraçada com a situação, Joe chega a dizer aos garotos: "Meninos, eu não amo o pai de vocês!", mas nada parece adiantar. O impasse piora com a chegada de A... embora esta seja disparada a melhor cena do filme, em especial pela participação de Uma, Von Trier passa para o Capítulo 4 sem dar um desfecho para o imbroglio Joe-H-A. 

A seqüência em aberto de O Lobo... é na parte em que Jordan e Donnie levam as esposas para a Itália de navio (eles não poderiam deixar os Estados Unidos de avião, pois o FBI já estava investigando aqueles ganhos enormes e continuados na bolsa), mas ao chegar lá Naomi descobre que sua tia Emma (Joanna Lumley) morreu em Londres. Detalhe: recentemente Jordan usara a tia da esposa como "laranja" para uma de suas contas na Suíça. Ele tinha que ir então, com urgência, para a Suíça resolver isto, embora não pudesse revelar para a esposa, que logicamente queria ir a Londres para o funeral - e não desembarcar em Mônaco e ir de carro até a Suíça.... Fosse como fosse, o capitão do navio informa que não havia como navegar no Mediterrâneo naquela noite, devido à previsão de fortes ondas. Jordan manda ignorar e seguir em frente, o que os leva a enfrentar uma terrível turbulência, da qual só escapam por serem socorridos por um navio italiano (dentro do qual aparecem comemorando terem se salvo e até dançando)... e em seguida corta para todo mundo já de volta a Nova York, sem comentário algum sobre como ficou a conta na Suíça!

Somando os prós e contras, vale sim muito a pena ver os dois filmes. Talvez Scorcese pudesse ter tentado ser um pouco mais conciso, já que 3h me parece de fato ser uma metragem exagerada. Ou seguido o exemplo de Von Trier, que fatiou seu Ninfomaníaca, com 5h30 de duração, em duas partes (que foi ainda mais retalhada pelos produtores, com a ciência do diretor, para tirar as seqüências mais "fortes", num filme que, no Brasil, não escaparia de modo algum da censura para 18 anos. Só ficou uma cena mais forte, um close em penetração, isso já no Capítulo 5. O restante me parece condizente com a história e a proposta). A segunda parte de Ninfomaníaca deve estrear nas telas brasileiras ainda neste semestre.


Ninfomania polifônica - Joe com F e Jerôme, 
e alguém tocando Bach

Sobre o "Poeta da Semana"

Hoje excepcionalmente não teremos atualização da seção "Poeta da Semana". O artista convidado não remeteu o material a tempo, impedindo sua edição para entrar no ar na tarde deste domingo, como vinha acontecendo desde janeiro. 

Enfim, esta lacuna coincide com um momento de renovação. Talvez em vez de destacar um(a) poeta por semana, esse destaque se torne mensal. Estamos avaliando. O certo é que a poesia contemporânea brasileira seguirá com espaço garantido no blog, quando a isto não há dúvida possível! 

Fabio Gomes

Mistura e Manda: Iemanjá, rainha das águas

Duas capitais brasileiras, Porto Alegre e Salvador, param neste dia 2 de fevereiro para homenagear Iemanjá, a rainha das águas. Na capital gaúcha, a festa oficialmente é de Nossa Senhora, com participação intensa de representantes dos cultos afro. A comemoração neste dia ocorre devido ao sincretismo da orixá com duas invocações de Nossa Senhora: em Salvador, Nª Srª do Rosário; em Porto Alegre, dos Navegantes. 


Iemanjá é bastante cultuada nas cidades portuárias, em razão de reinar sobre as águas, favorecendo a pesca. É a ela que o pai pescador recorre na canção praieira "Promessa de Pescador" (Dorival Caymmi): "Senhora que é das águas/ Tome conta de meu filho/ Que eu também já fui do mar/(...)/ Quando chegar seu dia/ Pescador véio promete/ Pescador vai lhe levá/ Um presente bem bonito/ Pra dona Iemanjá". Já em "Arrastão" (Edu Lobo - Vinicius de Moraes) - onde é chamada também por outro de seus nomes, Janaína - a atuação da orixá é decisiva para o sucesso da pesca: "Nunca jamais se viu tanto peixe assim".

Além da pesca (e do amor, como veremos a seguir), os fiéis acreditam na proteção da deusa para ajudar a progredir na vida. Inclusive ajudando o Carnaval carioca a evoluir desde a Praça Onze - "As africanas, que fato original/ Iemanjá, Iemanjá,/ Enriquecendo o visual", exaltava o samba-enredo "Bum Bum Paticumbum Prugurundum", campeão de 1982 pelo Império Serrano, de autoria de Beto sem Braço e Aloísio Machado.

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Iemanjá, deusa do amor

Não fica muito claro qual foi a graça alcançada pelo personagem de "Dois de Fevereiro" (Dorival Caymmi): "Escrevi um bilhete a ela/ Pedindo pra ela me ajudá/ Ela então me respondeu/ Que eu tivesse paciência de esperá// O presente que eu mandei pra ela/ De cravos e rosas, vingou". Mas dá pra imaginar que fosse uma questão de amor, pois a deusa tem especial influência no assunto.



O amante de "Morena do Mar" (Caymmi), para enfeitar a amada, leva a ela "as conchinhas do mar/ As estrelas do céu (...)/ E as estrelas do mar/ (...) As pratas e os ouros/ De Iemanjá".

Sua ajuda para o amor era invocada no afro-samba "Canto de Iemanjá" (Baden Powell - Vinicius): "Se você quiser amar/ Se você quiser amor/ Vem comigo a Salvador/ Pra ouvir Iemanjá". 

Sendo ela tão bela e poderosa, não é raro os homens por ela se apaixonarem e quererem viver esse amor na plenitude, mesmo que seja preciso gestos extremos: "Vou me atirar, beber o mar/ Quero morrer pra viver/ Com Iemanjá" ("Sargaço Mar", de Caymmi). Já em "Sexy Iemanjá" (Pepeu Gomes - Tavinho Paes), música de abertura da novela Mulheres de Areia (TV Globo, 1993), o clima era bem diferente: toda a noite a deusa vinha à praia para encontrar-se com seu amado, não exigindo dele maiores sacrifícios. Mas, se fosse preciso, ele estava disposto a tudo: "Se ela me chamar, eu vou vou vou vou..."

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Moças, não desafiem Iemanjá!

Iemanjá pode auxiliar nos amores entre humanos, mas não vá uma moça querer um rapaz de quem a deusa tenha se enamorado. Esse ela leva pra junto dela, no fundo do mar, e nunca mais aparece, e dele se diz que "Fez sua cama de noivo/ No colo de Iemanjá" ("É Doce Morrer no Mar", Caymmi - Jorge Amado).



Toquinho e Vinicius, em "A Bênção, Bahia", ou não pegaram bem a coisa ou tinham uma visão mais romântica do colo: "Olorô, Bahia,/ Nós viemos pedir sua bênção, saravá!/ Hepa he, meu guia/ Nós viemos dormir no colinho de Iemanjá". 

O pretexto da fúria da orixá pode ser a ausência da namorada na festa: como "no dia dois de fevereiro/ Maria não brincou na festa de Iemanjá/(...) Aí, Iemanjá pegou e levou/ O moço de Maria para o mar" ("Maria Vai com as Outras", Toquinho - Vinicius).

Realmente, quando Iemanjá se apaixona, mulher nenhuma pode querer enfrentá-la. No samba-obra-prima "Contos de Areia" (Romildo - Toninho), a moça que amava um canoeiro que foi pra Iemanjá chorou tanto que fez nascer "toda tristeza que tem na Bahia".

Com tudo isso, era natural que a mulher temesse pela volta do pescador Mané, em "Iemanjá" (Gilberto Gil - Othon Bastos): afinal, "Iemanjá é rainha/ É bonita, é mulher". Mas a orixá dessa vez permitiu sua volta: "Lá vem a jangada voltando do mar/ Trouxe pouca pesca, mas Mané voltou/ Salve Nossa Senhora/ Salve Nosso Senhor".

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Outros dias de festa

Existem festas para Iemanjá em outros dias, como no Ano-Novo, com a famosa queima de fogos de artifício na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. Na música "De Ouro e Marfim", Gilberto Gil fala dessa festa como uma "homenagem/ De coração/ Ao grão-mestre dessa ordem/ Venerável da canção/(...)/Curumim da mata virgem/ Antônio Carlos Jobim". E o saúda como a um pai em iorubá: "Ê, babá, ê, babá, ê/ Antônio Carlos Jobim".

* Publicado no Mistura e Manda nº 34 - 2.2.2004