segunda-feira, 31 de março de 2014

Música Brasília e São Paulo: Gigs Primavera Sound


S.O.S. Mulheres ao Mar, um alento na atual avalanche de comédias nacionais



Avassaladoras : Poster
Confesso que não entrei no cinema esperando muito de S.O.S. Mulheres ao Mar, o novo filme de Cris D'Amato lançado quinta passada nos cinemas brasileiros. Pra começar, a diretora é a mesma que assinou ao lado do experiente Daniel Filho a direção do recente Confissões de Adolescente, que mais parecia um capítulo estendido da interminável atração global Malhação. Depois, não havia como não relacionar de imediato o argumento do filme com outra produção recente, Meu Passado me Condena, de Julia Rezende, também filmado a bordo de um cruzeiro com destino à Itália. Além disso, seria o segundo filme (o primeiro foi Avassaladoras, de 2002) a reunir Reynaldo Gianecchini e Giovanna Antonelli (que também atuaram juntos nas novelas Laços de Família, Da Cor do Pecado, Sete Pecados e atualmente estão vivendo um casal na trama global das nove, Em Família). Sem contar que parece que atualmente só se podem filmar comédias no Brasil, temos tido uma avalanche de produções deste gênero, em especial no cinema comercial, e o ciclo já dá sinais de cansaço criativo. 

Mas enfim, eu nunca fui da política do "não vi e não gostei' - apenas quis dizer que fui ver sem grandes expectativas. E me surpreendi! S.O.S... tem um bom roteiro, feito a seis mãos por Marcelo Saback (que pode ser apontado como um dos precursores do atual surto de comédias, por ser o roteirista do grande sucesso De Pernas pro Ar 1, de 2010), Sylvio Gonçalves e Rodrigo Nogueira. Adriana (Antonelli), que julgava viver um casamento feliz com Eduardo (Marcelo Airoldi), é surpreendida com o pedido de divórcio, quando ele chega de viagem. Descobrindo que ele em seguida embarcaria em um cruzeiro para a Itália com a nova namorada, Beatriz (Emanuelle Araújo), resolve ir disfarçada no mesmo navio, pensando em reconquistar Eduardo, arrastando junto sua irmã Luiza (Fabiula Nascimento) e até a empregada doméstica Dialinda (Thalita Carauta). 

S.O.S. - Mulheres ao Mar : Foto
Emanuelle e Airoldi

O disfarce logo é descoberto (afinal, é uma comédia!), mas mesmo assim tanto Adriana quanto Dialinda vivem romances a bordo - a empregada com um garçom que se passava por milionário, e a patroa com um boa pinta, André (Gianecchini), a quem ela não se furta de fazer confidências, por julgá-lo gay (equívoco que surge por ela ter visto no porto André trocando beijos no rosto com seu pai, participação especial de Flávio Galvão).  Vem aliás desse equívoco, ou melhor, de quando ele é desfeito - na hora em que, no corredor do navio, em meio a um beijo Adriana e André se abraçam e ela sente a ereção dele - a melhor frase do filme: E eu esse tempo todo achando que estava fazendo confidências para uma biba amiga. Você não tinha o direito de não ser gay! De todo modo, o romance dos dois não avança durante a viagem pois Adriana descobre que André está noivo. Mas a história não acaba aí...

Calma que não vou contar tudo! Mas de fato considero que o filme está sim um passo à frente das demais comédias da atual safra 2013-14. Diferentemente do já citado Meu Passado me Condena, também rodado num cruzeiro, mas com visível dose de improvisação na filmagem, o roteiro de S.O.S. me parece mais coeso. Talvez o que destoe mesmo no filme seja o título, já que nenhuma das três que seriam as "mulheres ao mar" (Adriana, Luíza e Dialinda) está correndo perigo de fato, a não ser a primeira que está em busca de salvar seu casamento (embora ele já tenha naufragado antes mesmo do cruzeiro iniciar). Por se tratar de uma comédia com viés romântico, algumas soluções (em especial a que determina o final de Adriana) se dão segundo a cartilha do gênero, mas nada que soe foçado. O elenco todo de modo geral está muito bem, e D'Amato consegue nos fazer rir sem precisar ancorar o filme em atores que sejam exclusivamente de comédia, à natural exceção de Thalita Caruta, bem melhor nesta produção do que em seus papéis habituais no programa Zorra Total, em que não raro nem se consegue entender o que ela fala (ou ao menos eu não consigo). 


domingo, 30 de março de 2014

Poeta do Mês: Odara Rufino (extra)


Eu Não Mereço Ser Estuprada

sem blusa ou burca
eu não mereço ser estuprada

princesa ou bruxa
eu não mereço ser estuprada

criança ou adulta
eu não mereço ser estuprada

magra ou urca
eu não mereço ser estuprada

brasileira ou turca
eu não mereço ser estuprada

santa ou puta
eu não mereço ser estuprada

com roupa longa ou curta
eu não mereço ser estuprada

delicada ou bruta
eu não mereço ser estuprada

ouvinte ou surda
eu não mereço ser estuprada

falante ou muda
eu não mereço ser estuprada

jovem ou murcha
eu não mereço ser estuprada

grande ou miúda
eu não mereço ser estuprada

branca ou escura
eu não mereço ser estuprada

com ou sem loucura
eu não mereço ser estuprada

em casa ou na labuta
eu não mereço ser estuprada

intelectual ou burra
eu não mereço ser estuprada

limpa ou suja
eu não mereço ser estuprada

humana ou musa
eu não mereço ser estuprada

na reta ou na curva
eu não mereço ser estuprada

pobre ou perua
eu não mereço ser estuprada

vestida ou nua
eu não mereço ser estuprada

no quarto ou na rua
eu não mereço ser estuprada

consciente ou confusa
eu não mereço ser estuprada

dentro ou fora da luta
eu não mereço ser estuprada

nenhuma
mulher merece o machismo exagerado

em suma
ninguém merece ser estuprado

* Publicado por Odara Rufino às 23h30 de hoje no Facebook, 
segundo a qual 65% dos entrevistados responderam que 
"mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas"

Poeta do Mês: Odara Rufino (5)

A saudade que não some
 

Você sempre será
meu Sartre
e eu, sua Simone.
Quando você partir
para outra cidade
para outro país
não esqueça meu nome.
Ne me quitte pas
no me dejes
não me abandone.
Você sempre será
a saudade que arde
a saudade que não some.

Para Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir

Opinião: Her


Por Calila das Mercês,
de Salvador





Diante da complexidade de se pensar a influência das novas tecnologias - computadores, smartphones, softwares e afins - nas relações amorosas e humanas, o filme Her ("Ela", em português), escrito, dirigido e produzido por Spike Jonze, é uma assombrosa reflexão e primorosa surpresa.

Justamente pela sua qualidade técnica e excelência no que tange o enfoque sobre a pós-modernidade, o filme recebeu ótimas críticas e indicações a diversas premiações do cinema mundial em 2014, vencendo o Globo de Ouro na categoria Melhor Roteiro e levando o Oscar de Melhor Roteiro Original.

Protagonizado pelo experiente ator Joaquin Phoenix (que atuou em Johnny & June, Brigada 49, Contos Proibidos do Marquês de Sade e Gladiador, entre outros), o filme conta a história de Theodore, um escritor recém-separado que, na sua solitude, inicia uma relação amorosa com o sistema operacional de um computador, Samantha, cuja atuação vocal foi da atriz Scarlett Johansson.



O longa consegue ir além de uma história de amor trivial. Analisa a modernidade, a solidão do escritor talentoso engolido pela multidão e rapidez das grandes metrópoles. Demonstra claramente como as paixões são criadas, não apenas por sistemas operacionais, mas pelas próprias pessoas que se apropriam de um discurso amoroso para, simplesmente, viver, continuar a viver.

Destaca-se no filme a questão estética, de como objetos e vestimentas chamadas retrôs são inseridas em ambientações completamente futuristas. A trilha sonora composta por William Butler e Owen Pallett da banda canadense Arcade Fire configurou-se como um doce e primordial complemento às cenas de Her.


Sem fugir da pessoalidade de quem acompanha os últimos lançamentos da indústria cinematográfica, posso afirmar que o longa-metragem é um dos melhores filmes de 2014. Altamente recomendado. Complexo, apaixonante e poético, como a voz de um sistema operacional.

Teatro Curitiba: Pesadelo

A companhia teatral “Cia Sala Escura de Teatro” estreia no próximo dia 5 de abril, no Festival de Teatro de Curituba, o espetáculo "Pesadelo", inspirado na obra do psicanalista Carl Gustav Jung.




Além da atmosfera psicológica jungiana, a construção dramatúrgica e estética de "Pesadelo" também busca inspiração no legado literário do escritor Lewis Carroll, autor de 'Alice no País das Maravilhas' e no trabalho do cineasta Tim Burton, conhecido por seus filmes de temática gótica.

A peça, com texto e direção de Iuri Kruschewsky, é a terceira e última parte da “Trilogia dos Sonhos” da companhia, iniciada com “É Culpa da Vida que Sonhei ou dos Sonhos que Vivi”, seguida de “Memória Inventada no Sonho de Alguém”, que também serão apresentadas no festival. Em “Pesadelo” a narrativa se desenvolve em torno da história de uma mulher que, após uma vida imersa em solidão se percebe fisicamente mudada: restou-lhe apenas a cabeça. Decidida a não ser mais só, rapta um homem com o intuito de arrancar-lhe a cabeça e torná-lo igual a ela, pois acredita que só assim pode conquistar seu amor.

Segundo o autor, ‘Pesadelo’ propõe a união de distintas vertentes artísticas, como música ao vivo, circo e dança,investigando o medo como um lugar provocante e o sonho como local dos desejos.

Recém-ingresso na companhia, o ator Breno Augusto Guimarães (à esquerda na foto acima) ficou feliz com o convite para o espetáculo por ser um trabalho de tema denso, referenciado em profunda pesquisa e com proposta ousada. Breno interpreta na peça o personagem ‘Y’, que representa a opressão, o mau, o pai que ele nunca conheceu, a crueldade. Aos poucos ele se depara com sua sombra e seus elementos, na iminência da morte. O ator necessitou mergulhar no desafio de entrar em contato com aspectos mais profundos da mente para a construção do personagem.

“Esse é um personagem interessantíssimo, pois representa uma busca interior de lugares muito conhecidos por mim, através de vivências pessoais, reunidos sob o nome de ‘sombra’, segundo Jung, o lado negro de cada um de nós. Não precisei de laboratório, mas de mergulhos internos e exposição dessas reminiscências. É, ao mesmo tempo, um processo criativo e uma expurgação catártica dessas porções profundas do ser sombrio que tenho e que todos temos. A direção do Iuri é tão criativa que só mesmo um tema onírico poderia abarcar tal nível imagético de nuances e viagens lúdicas.” revela Breno.

No elenco estão ainda os atores Ana Beatriz Macedo, Ariella Braz, Bruno Quaresma, Maria Assunção, Marianna Pastori, Nayana Carvalho, Patrícia Elizardo e Rodrigo Turazzi; além dos músicos em cena Daniel Pimenta, Filipe Oliveira, João Medeiros e Pedro Nêgo.

Depois das apresentações em Curitiba, a peça segue para temporada no Rio.

Serviço:

“Pesadelo” da Cia Sala Escura de Teatro – Festival de Teatro de Curitiba
Direção: Iuri Kruschewsky
Elenco: Ana Beatriz Macedo, Ariella Bráz, Breno Augusto Guimarães, Bruno Quaresma, Maria Assunção, Marianna Pastori, Nayana Carvalho, Patrícia Elizardo, Rodrigo Turazzi.
Datas: 5 e 6 de abril de 2014.
Horários: 05/04 às 21h e 06/04 às 19h.
Local: Teatro Bom Jesus – Rua 24 de Maio, 135, Curitiba/PR.  Telefone: (041) 2105-4034
Ingressos do Festival: R$60,00 e R$30,00 (meia).

domingo, 23 de março de 2014

Poeta do Mês: Odara Rufino (4)

Minha mãe, a mulher de Lot


Anjos bateram em minha porta
e os homens das minhas cidades
queriam voar com eles.
Meu pai Lot, fez uma oferta
ofereceu minha virgindade
mas os homens queriam os anjos.

Tivemos que fugir para a montanha
tivemos que destruir nosso passado
como se destrói uma teia de aranha.

Íamos ser salvos
se não olhássemos para trás.
Meu pai não olhou,
eu e minha irmã não olhamos
mas minha mãe olhou
e olhou o fogo comer os homens
olhou seu jardim e a nossa casa,
sentiu vontade de voltar,
sentiu vontade de salvar as cidades
com um balde de água.

Minha mãe olhou para trás
porque esqueceu
seu vestido preferido,
seu batom predileto,
no guarda-roupa.
Olhou porque queria voltar
para lavar a louça.
Olhou para trás, porque lembrou
que eu esqueci o meu livro de poemas
na escrivaninha de mármore.
Olhou para trás por revolta
por não ter volta
por achar Deus um bárbaro.

Minha mãe olhou para trás
e virou estátua de sal.
Minhas cidades foram
destruídas por Deus
com fogo e enxofre,
com raios de sol.

Tivemos que carregar
a estátua de sal até a nova casa.
Minha mãe olhou para trás
mas não íamos deixá-la para trás.

Até hoje tenho saudade da minha mãe
tenho saudade da minha infância
em Sodoma e Gomorra
tenho saudade do Mar Salgado.
Tenho saudade de passar as manhãs
brincando na varanda, na gangorra,
na escada e no pecado.

Até hoje eu me jogo aos pés da estátua
até hoje eu sofro com essa quimera
até hoje penso que o feitiço se desfará
e que minha mãe voltará a ser doce como era.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Debates na Fortaleza São José de Macapá discutem memória e identidade cultural

Fotos: Angela Carvalho


O Museu Fortaleza São José de Macapá comemora nesta semana seus 232 anos de inauguração, realizando uma série de eventos, entre eles o ciclo de debates e palestras Memórias e Identidades Culturais. Acompanhei três destes momentos.


Ontem à tarde, o escritor e tradutor Nilson Moulin (em pé na foto acima) falou sobre Graciliano Ramos, falecido a 20 de março de 1953, ou seja, há exatos 61 anos. Mulan comentou a trajetória do "velho Graça" desde os tempos de infância, passando pelo cargo de prefeito de Palmeira dos Índios (AL), onde sua vocação literária foi descoberta - num caso único no Brasil, quiçá no mundo - por meio dos relatórios financeiros do município que ele redigia com raro brilho. Foi dedicada especial atenção ao período da prisão de Graciliano, por conta da Intentona Comunista de 1935, durante a ditadura de Getúlio Vargas (o chamado Estado Novo), traçando-se um paralelo com a ditadura militar iniciada em 1964. Mulan destacou ainda a preocupação de Graciliano com a educação - o mestre alagoano chegou a ocupar o cargo de inspetor de ensino, e desde os anos 1930 já demonstrava preocupação com questões educacionais que ainda hoje nossa sociedade não solucionou. O palestrante também traçou um comparativo entre as trajetórias de Graciliano e de seu contemporâneo italiano Cesare Pavese. Uma pena o público muito reduzido para o evento (cerca de 10 pessoas), mas enfim, quem foi aproveitou muito bem!




Hoje pela manhã, mais duas palestras. A primeira, com o escritor e sociólogo Fernando Canto (em pé, à direita, na foto acima), tratou do engenheiro italiano Henrique Galuccio, autor do projeto da Fortaleza, a quem o palestrante considera um verdadeiro gênio. Canto começando traçando um panorama da época em que Galuccio viveu em Macapá, a década de 1760: o rei português Dom José I, coroado em 1750, mas o governo de fato era exercido pelo Marquês de Pombal, que expulsou os jesuítas do Brasil. Um acontecimento marcante foi também o terremoto de Lisboa, em 1755. No Brasil, um destacamento português foi mandada para o atual Amapá para se encontrar com outro destacamento, esse espanhol, que saiu da região do Rio Negro (atual Estado do Amazonas) para demarcar os novos limites das terras sul-americanas que cabiam a cada reino pelo Tratado de Madri, o que não chegou a acontecer porque os dois destacamentos jamais se encontraram. 

A construção de um grande forte junto à foz do rio Amazonas visava garantir a segurança do extremo Norte da colônia, e como de hábito a missão coube a um estrangeiro (junto com Galuccio trabalharam na construção outros italianos, um inglês e um alemão). Canto apresentou evidências de que Galuccio já exercia a função desde 1762, e não 1764 como sempre se acreditou, por esta ser a data do lançamento da pedra fundamental da fortaleza pelo governador do Grão-Pará Ataíde Teive. Galuccio seguiu trabalhando na construção até morrer, em 1769, de malária. Mas, por sua vontade, teria saído antes; Canto relatou as inúmeras tentativas do italiano de sair da construção, nem que fosse para poder ver a família, que trouxera de Portugal para Belém. Mas nem isso lhe foi concedido. De todo modo, Canto acredita que se não houvesse morrido de causas naturais, Galuccio poderia ter tido o mesmo destino que o império chinês dava à época a seus engenheiros militares: eram decapitados ao final da construção, para que não pudessem revelar segredos militares a Estados inimigos. Aliás, Canto referiu que em 19 de março de 1782 não aconteceu de fato uma inauguração da Fortaleza, e sim o abandono das obras. 

Homem culto que citava Virgílio (poeta romano do século I, também nascido em Mantova, terra de Galuccio) em suas cartas - nas quais jamais mencionou Deus ou qualquer santo, observou Canto -, Galuccio esteve na mira do Tribunal do Santo Ofício, também conhecido como (Santa) Inquisição, que esteve em Belém de 1763 a 1769 para investigar casos de heresia. O engenheiro foi acusado de "estar poetando"; segundo Canto, nenhum poema seu chegou aos dias de hoje. Tudo indica que Galuccio tenha sido sepultado em Macapá, mas não há referências quanto ao local.  


Em seguida, Piedade Videira (ao centro da foto acima) falou de seu livro Batuque, Folias e Ladainhas. A palestrante começou recordando sua infância no bairro do Laguinho, onde desde cedo percebeu uma contradição: embora no seu dia-a-dia vivenciasse a sabedoria viva das benzedeiras, do marabaixo, do batuque, e diversas outras influências afros em nossa cultura, não via isso refletido nos currículos da escola, que não lhe trouxe nenhuma referência positiva aos negros. O que não a impediu de perceber que a educação seria a porta para buscar alcançar uma melhor qualificação, uma forma de ajudar sua família, de origem humilde (seu pai era trabalhador braçal, sua mãe lavadeira) e mais ainda um meio de começar a transformar esta situação. 

Em 2007, fazendo doutorado na Universidade Federal do Ceará, Piedade resolveu estudar a aplicação da Lei 10.639, que tornou obrigatório nas escolas brasileiras o estudo de História e Cultura Afro-brasileira e Africana, promulgada quatro anos antes, chegando então à Escola Estadual José Bonifácio, situada na área quilombola do Curiaú, Zona Norte de Macapá. Esta instituição já trabalhava com os conteúdos definidos pela lei antes mesmo dela ser promulgada - em 2000, os professores iniciaram o projeto Canto de Casa, preocupados por perceber que os alunos, na maioria negros, sempre que iam se representar graficamente não pintavam os desenhos, como se sua pele fosse branca. A partir da criação da lei, o Canto de Casa evoluiu para o Eu Mostro a Minha Cara.

O sucesso do trabalho com conteúdos africanos e afro-brasileiros na José Bonifácio, com evidentes reflexos no rendimento escolar e na auto-estima dos alunos, porém, ainda está longe de ser regra nas escolas em geral. A professora Rosália, que atua na José Bonifácio e na Secretaria de Educação do Estado, relatou que em visita a uma escola particular de Macapá encontrou um aluno que desconhecia completamente a existência do marabaixo. Comentou também que só das escolas públicas se cobra a implantação do previsto na Lei 10.639, enquanto nas particulares o mesmo não ocorre, o que faz com que todas estas, hoje, desrespeitem a Lei, já que fora fixado um prazo de dez anos para que as escolas comecem a ministrar aos alunos os conteúdos relativos a História e Cultura Afro-brasileira e Africana. O prazo acabou em 2013. 

Teatro Macapá: Tropeço


domingo, 16 de março de 2014

Poeta do Mês: Odara Rufino (3)

Minha rinite não permite


Eu queria poder
amar o cheiro velho
dos teus livros
ligar o ventilador
limpar a tua butique
mas minha rinite
não permite.

Eu queria poder
comer camarão
sentir o que a lagosta gosta
desfrutar dos frutos do mar
comer um ceviche
mas minha rinite
não permite.

Eu queria poder
pirar mais
espirrar menos
viver a vida
sem frescurite
mas minha rinite
não permite.


sexta-feira, 14 de março de 2014

Dias de poesia em Belém


  • Quinta, 13/3: Uma tarde com Pedro Jr.

A tarde desta quinta foi "loca de especial", para usar um dito popular gaúcho. Recebi em Belém meu amigo Pedro Júnior da Fontoura, poeta e declamador, que estava a caminho de Macapá, onde participou, na noite mesmo de quinta, do evento Virada Poética, que antecipava a comemoração do Dia Nacional da Poesia, que é hoje. O evento, além de reunir grupos de poetas do Amapá, contou com as presenças de Pedro e do roraimense Eliakin Rufino. 

A amizade com Pedro é das mais longas que conservo - estudamos juntos na Escola Estadual Padre Landell de Moura, em Bento Gonçalves (RS), na segunda metade dos anos 1980. Ele já então envolvido com a tradição gaúcha, se apresentando e sendo premiado em festivais e rodeios. Eu, escrevendo o jornal da sala de aula. Depois fui morar em Porto Alegre e perdemos contato direto, eu sabia mais a respeito dele através de minha mãe, que falava do trabalho de Pedro à frente da Biblioteca Pública Castro Alves (que eu frequentava quando criança) e também da Feira do Livro de Bento Gonçalves (da qual participei das primeiras edições, ainda nos anos 80). Fomos nos reencontrar apenas em dezembro de 2012, em Macapá, quando ambos participamos da programação do Festival Quebramar - ele recitando poemas gaúchos acompanhado por um grupo de marabaixo, eu ministrando meu Workshop de Jornalismo Cultural. 


Pedro Jr, Rosa Rente (atriz), 
Eliakin Rufino e Annie Carvalho (poeta)
- Museu Sacaca (Macapá), 14.3.14

O vôo de Pedro para Belém, vindo de Porto Alegre, com escala em Curitiba (o que dá mais de sete horas direto a bordo da mesma aeronave, viagem bem puxada), atrasou pra sair de São Paulo, o que fez com que ele chegasse na capital paraense perto das 15h, uma hora depois do previsto. Como sua ida para Macapá seria apenas às 19h, calculamos que daria pra mostrar pra ele um pouco do Centro de Belém. 

Viemos pro Centro, almoçamos e mostrei a ele alguns dos principais pontos turísticos, como a Praça da República, o Theatro da Paz, o Bar do Parque, o Cinema Olympia e o Teatro Experimental Waldemar Henrique (enquanto me dava conta de que, apesar de existirem Paratur e Belemtur, desconheço a existência de postos de informação turística em Belém!). Foi aí que decidi convidar Pedro para conhecer uma lancheria na galeria da Assembleia Paraense que mistura diferentes frutas em seus sucos, obtendo sabores inusitados. Tomamos um de tangerina, taperebá e maracujá, e depois um de graviola com ameixa. E, para felicidade nossa, enquanto estávamos ali, entrou no local o violonista Salomão Habib com três índios da etnia Kayapó. 

Apresentei Pedro a Salomão, e eles logo se enturmaram. Pedro contou que quem toca violão habitualmente em seus CDs é o argentino Lúcio Yanel. "O professor do Yamandu (Costa)!", festejou Salomão. Em homenagem aos índios presentes, Pedro declamou um trecho de poema do escritor Alcy Cheuiche, sobre os Sete Povos das Missões, e logo o papo versou sobre o líder dos guaranis Sepé Tiaraju. O rápido encontro encerrou com uma breve visita ao Teatro Waldemar Henrique, do qual Salomão é diretor, a troca de livos e CDs, e o convite para que Pedro se apresente em Belém neste sábado (sim, amanhã, dia 15). Se for confirmado, iremos noticiar. Dali já pegamos um táxi para o aeroporto, para que Pedro chegasse a tempo de pegar o vôo para Macapá.

  • Sexta, 14/3: Dia Nacional da Poesia


Comecei minha sexta lançando, através do blog da Poeta Amadio, o primeiro CD desta artista cujo trabalho eu produzo, intitulado Bem que Podia. O disco reúne poemas dela e de seus mestres Binho e Eliakin Rufino; inclui também três poemas musicados. Você pode ouvi-lo clicando aqui. A repercussão tem sido a melhor possível, principalmente através do Facebook, já que a divulgação junto à imprensa começa mesmo na semana que vem. 

Já no fim da tarde, acompanhei no SESC Boulevard a 2ª Festa Paraense da Poesia, uma parceria entre entre o selo Versivox e a Nós Outros Companhia Teatral. O evento iniciou com uma homenagem da Nós Outros aos 450 anos de nascimento do dramaturgo e poeta inglês William Shakespeare. Seguiu-se a chamada "Rota Intercâmbio", um bate-papo do ator Hudson Andrade com a poeta Rita Melém, que contou um pouco de sua trajetória e leu alguns de seus poemas, todos invariavelmente bem curtos. Ela chegou a comentar que notava que, ao final de cada poema, o público ficava esperando alguma continuação... Algumas pessoas da plateia também participaram, entre elas a sobrinha de Rita, Thaís Frazão. Outra participação muito especial durante a conversa com Rita foi dos rappers do grupo Arsenal de Rimas, que chegaram a improvisar a partir de um poema de Rita lido por Hudson. 

O final da Festa foi dedicado à comemoração dos 145 anos da publicação do poema O Navio Negreiro, de Castro Alves (o responsável, em última instância, por hoje ser o Dia Nacional da Poesia, já que ele nasceu em 14 de março de 1847). O escritor Carlos Correia Santos comandou este momento, intitulado "O Samba Veio no Navio Negreiro", no qual intercalou músicas que compôs falando das questões sociais e raciais - do preconceito, enfim - que o negro enfrenta ainda hoje na sociedade brasileira, passados 126 anos da Abolição. As músicas foram interpretadas pelo próprio Carlos (que recentemente foi aluno de uma oficina de canto ministrada por Dayse Addario), acompanhado pelo violonista Renato Rosas (sempre uma opção de qualidade) e pela backing vocal Ani Barbosa (irmã de Carlos). A canção que dá título ao espetáculo tem mensagem muito contundente e pinta de futuro clássico da nossa música. Entre uma canção e outra, Carlos declamou trechos de "O Navio Negreiro". Fosse só isso, já estava ótimo, mas houve mais: a apresentação das canções e do poema era alternada com a encenação de uma cena teatral escrita e dirigida por Hudson Andrade, com os atores Alexandre da Silva e Karina Lima, narrando o drama de um escritor negro, que às vésperas de lançar seu primeiro livro (e sonhar, em função disso, com o reconhecimento e a saída da miséria), é confundido com um ladrão e morto. 


Ani Barbosa, Carlos Correia Santos e Renato Rosas


(Parêntese: assim como posso me orgulhar de uma amizade de longa data com Pedro Jr., posso quase dizer o mesmo em relação a Carlos Correia Santos. Ele é meu amigo de Belém mais antigo, pois nos conhecemos em agosto de 2005, quando vim pela primeira vez ao Pará para ministrar o módulo de Jornalismo Cultural do MBA de Gerência em Jornalismo da FGV. Depois, em 2009, tive a honra de, por alguns meses, ser seu assessor de imprensa.)

Terminado o evento, ainda consegui ver o finalzinho do show de Camila Honda em homenagem a Nara Leão, que acontecia também no SESC no mesmo horário. Vi Camila cantar "A Banda", de Chico Buarque, com a participação especial de Arthur Espíndola. 

Quando saímos todos do SESC, chuviscava. Vi uma garota falar com uns amigos para seguirem para seu destino mesmo assim, alegando: "Ninguém é de tapioca. Bora lá!"


quinta-feira, 13 de março de 2014

A mobilização pela internet livre continua!

A votação do projeto de lei do Marco Civil da Internet brasileira, previsto para acontecer ontem no Congresso Nacional, foi adiada para a próxima semana. Isto significa que você ainda pode ajudar a manter a internet do jeito que ela é hoje, em que o provedor apenas garante o acesso e você navega por onde quiser, sem restrições. Se aprovado do jeito que está redigido, o Marco Civil em tramitação no Congresso tornará a internet uma espécie de TV por assinatura, onde o valor básico garante poucos conteúdos, e tudo o mais que você quiser é pago à parte, através de pacotes "premium". Veja como colaborar com esta importante causa no texto que consta no site da Avaaz (que se define em seu site como "comunidade de mobilização online que leva a voz da sociedade civil para a política global", com quase 34 milhões de membros em 194 países, que realizaram 181 milhões de ações nos últimos 7 anos). 

***

Por uma internet livre e democrática!


ASSINE A PETIÇÃO

Aos deputados e senadores:


Exigimos que o Marco Civil da Internet no Brasil seja votado de forma integral, preservando os conceitos de neutralidade da rede, liberdade de expressão e a privacidade do usuário de internet brasileiro. Nós exigimos que V. Exas se mantenham firme contra o lobby das empresas de telecomunicações e garantam que nenhum usuário perca seus direitos por causa do lucro de empresas privadas. A internet é livre e precisa continuar dessa forma.
Atualização: 13 março 2014
Ontem, nossa enorme petição com 300 mil assinaturas foi ouvida nos corredores do poder em Brasília – até o relator da proposta mencionou nossa petição durante o debate no plenário da Câmara. No entanto, uma ofensiva desesperada para acabar com o Marco Civil forçou o adiamento da votação. Os próximos dias são decisivos para convencer os parlamentares indecisos de que precisamos ganhar - assine e compartilhe com todos para aumentar a pressão!

Há muitos anos eu me encanto com o poder da internet e a criatividade que nela circula, mas agora estou muito preocupado que isso possa acabar. A Câmara dos Deputados vai votar um novo projeto de lei que poderá declarar o fim da liberdade na rede e diminuir nosso poder de escolha. 


Já nos anos em que fui Ministro da Cultura discutíamos formas de garantir o caráter democrático e aberto da internet – dessa construção coletiva, nasceu o Marco Civil. Mas, agora, o poderoso lobby das empresas de telecomunicações está influenciando nossos políticos para que transformem a internet em uma espécie de TV a cabo, em que se poderia cobrar a mais para podermos assistir a vídeos, ouvir música ou acessar informações. A votação será apertada, mas uma grande mobilização pública pode convencer os deputados de que suas reeleições dependem desse voto! 



Junte-se a mim nesta campanha da Avaaz para criar a maior mobilização já vista por uma internet livre no Brasil. Assine agora e conte para todos. Nós levaremos a voz de todos que assinarem a petição diretamente aos parlamentares. Vamos vencer essa batalha e salvar a internet.



Gilberto Gil e a equipe da Avaaz


Música São Paulo: Neu Sacode!


domingo, 9 de março de 2014

Poeta do Mês: Odara Rufino (2)

MPB e eu


Quero os olhos azuis do Chico
quero o falsete do Caetano
e o xodó do Gilberto Gil.

Quero a viola do Paulinho
quero a fidelidade do Vinicius
e a rosa vermelha do Noel.

Quero a magia pura do Sérgio Sampaio
quero a labiata do Lenine
e a metamorfose do Raul.

Quero ver Noite Ilustrada
quero o xote do Gonzaga
e o samba do Adoniran.

Quero o pandeiro do Jackson
quero muito do Toquinho
e o amor puro do Djavan.

Quero andar na vila do Martinho
quero Caymmi ou cair em mim
quero Wave do Tom Jobim.

Quero pichar no muro do Pixinguinha
quero acordar na tarde de Dominguinhos
quero balas e bombons do Baleiro.

Quero que o meu coelho saia do Cartola
quero o nascimento do Milton
e enfeitar o meu Natal com Paulo César Pinheiro.


sábado, 8 de março de 2014

Nove impressões sobre o Carnaval 2014 de Salvador

Por Calila das Mercês,
de Salvador 



1 – Carnaval é a festa do povo! O Carnaval da cidade de Salvador é considerado uma das maiores manifestações de rua do mundo, que reúne milhares de pessoas a fim de comemorar, beber, brincar e se divertir em circuitos que foram criados para este fim. 

2 – Axé e pagode na veia! A festa é marcada por milhares de foliões que dançam e brincam ao som de variados ritmos, mas o que predomina em Salvador é o axé e pagode baiano, ficando em segundo lugar o arrocha, seguido do carnaval das guitarras baianas (Armandinho, por exemplo), que embora seja tradicional, ocupa também o espaço alternativo da festa.

3 – Carnaval alternativo? Por falar em alternativo, este ano teve a implementação de variados espaços alternativos, como: o Espaço do Rock, situado próximo a praia de Piatã, o Circuito Batatinha, com apresentações de marchinhas, música pop, orquestras, sambas e frevos, localizado no Pelourinho, o Carnaval nos Bairros com apresentações de samba em alguns bairros da cidade - Itapuã, Liberdade, Plataforma, Periperi, Boca do Rio e Cajazeiras. 

4 – Chuva, suor e cerveja. Em Salvador a chuva foi uma das coadjuvantes da festa, junto à sujeira nas ruas. A protagonista da festa foi uma marca de cerveja, que de ponta a ponta espalhou o seu estridente laranja, e forçando o folião a bebê-la, quisesse ou não. Quem fosse pego vendendo outra marca, tinha a mercadoria confiscada e não devolvida. Quando o consumidor perguntava o porquê de se vender apenas uma marca de cerveja, a resposta era fácil: porque sim!

5 – Afródromo. Nova invenção de Carlinhos Brown desde a sua mal sucedida caxirola. Bem, na verdade, como o caso do caxixi, ops, da caxirola, o espaço já existia, o compositor baiano o nomeou de Afródromo, pois é o local onde desfilam os blocos Afros, no Campo Grande. Na verdade um desfile belo (Ilê Ayê, Muzenza, Cortejo Afro, Filhas e Filhos de Gandhi, entre outros) que aconteceu na segunda-feira e é uma pena não ter tido um público maior para aplaudir e vibrar com a apresentação. E até mesmo a ausência das grandes mídias prestigiando este Circuito. Por que será? Engraçado que este ano o tema do carnaval foi 40 anos dos blocos Afro...



6 – Segmentação 1. Barra e Ondina são dois bairros em que predominam a classe média alta e a classe alta de Salvador. E nos Circuitos do Carnaval não é diferente! Quem pode pagar 600 reais ou mais em um dia de camarote? Quem pode participar de uma festa que para você estar dentro de cordas com um abadá você paga no mínimo 180 reais (com atrações não muito badaladas) por dia? Bloco com cantores conhecidos? Para uma pessoa que recebe um salário mínimo é quase impossível, a não ser que divida as parcelas no cartão de crédito! Bem, caso não seja possível o que resta é participar de fora das cordas, o chamado "folião pipoca" e sofrer as consequências. O que se vê é uma segmentação: quem não pode, trabalha, e quem tem dinheiro se diverte, e tira fotos para as colunas sociais e revistas de fofoca junto a políticos, artistas e ex-BBB’s.

7 – Transporte e engarrafamentos. Uma das maiores lacunas do carnaval de Salvador, assim como do cotidiano da cidade, foi o sistema de transportes. Chegar ao circuito do carnaval, seja qualquer um dos já citados, era mais complicado que permanecer neles. Os táxis, escassos em alguns horários, rodavam preferencialmente com preço fixo e combinados, quando não davam as famosas voltas, seja por conta das barreiras montadas ou da “boa” índole dos condutores. Na ausência dos mesmos, os inevitáveis e perigosos moto-táxis. Os ônibus rodavam normalmente e com perigo, quando não ficavam, assim como os outros meios de transporte, presos nos engarrafamentos da cidade. A logística de deslocamento para o carnaval, mais uma vez, deixou a desejar!

8 – Segmentação 2. Mesmo diante do fato de muitos blocos tradicionais e comerciais terem como público principal o LGBT, a organização do carnaval achou por bem segmentá-los na chamada Vila da Diversidade, que ficou localizada no largo 2 de Julho. Importante estar pautando o público gay, contudo, por que não inserir apresentação de drags, concursos e música eletrônica nos circuitos principais do carnaval, ao invés de criar mais um novo gueto? O Carnaval já não é uma diversidade por si só?

9 – Com quem fica o Chiclete. Muito além do “lepo-lepo”, um outro assunto que fez parte dos noticiários sobre o carnaval de Salvador foi a saída do cantor Bell Marques do grupo Chiclete com Banana, depois de mais de 30 carnavais. Ninguém sabe ao certo o motivo do rompimento. Bell Marques já aproveitou 2014 para se lançar em carreira solo no bloco Vumbora. Ano que vem, sem o Chiclete, continua comandando o bloco mais caro da cidade, o Camaleão. Em luta de camaleões, é melhor mascar chicletes – sem banana!



quarta-feira, 5 de março de 2014

Mistura e Manda: Depois do Carnaval

Cinzas

Vem do início do cristianismo a idéia de que cada cristão fizesse anualmente um período de jejum de 40 dias, a exemplo do vivido por Jesus no deserto, quando sofreu tentações do demônio. O período, conhecido como Quaresma, teve a Quarta-Feira de Cinzas como marco oficial a partir do século VII. "De cinzas" em função da bênção com as cinzas feita pelo padre na testa dos fiéis. (Saiba mais sobre a data na matéria da Agência Católica de Imprensa em www.acidigital.com/quaresma/cinzas.htm).

Do ponto de vista do Carnaval, porém, a Quarta-Feira de Cinzas sempre foi vista como um fim. Pode ser um fim inevitável, como em "Pra Tudo se Acabar na Quarta-Feira", samba-enredo de Martinho da Vila com o qual a Vila Isabel desfilou em 1984: "Sonho de reis, de pirata e jardineira/ Pra tudo se acabar/ Na quarta-feira/ Mas a quaresma lá/ No morro é colorida/ Com fantasias já usadas na avenida/ Que são cortinas/ Que são bandeiras/ Razões pra vida tão real da quarta-feira."

Esse caráter inevitável também aparece na marcha-rancho "Até Quarta-Feira" (H. Silva - Paulo Alves Sette), gravada por Marcos Moran em 1968, falando do acordo de um casal que, não tendo conseguido se divertir no carnaval anterior, combinava de sair em blocos diferentes: "Se acaso meu bloco/ Encontrar o seu/ Não tem problema/ Ninguém morreu./ São três dias de folia e brincadeira/ Você pra lá, eu pra cá/ Até quarta-feira."

Além de inevitável, a data aparece também como triste em "A Última Orquestra", sucesso de Dircinha Batista no carnaval de 1971: "Nosso amor tão lindo/ Teve seu final/ São as cinzas de um carnaval".

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Luto e renascimento

A palavra "cinza" remete também a luto. Era a partir desse significado que Luiz Carlos Paraná estruturou "Maria, Carnaval e Cinzas", que contava a história da menina "semente de samba e de amor" que morreu "quando a folia/ Na quarta-feira também morria/ E foi de cinzas seu enxoval/ Viveu apenas um carnaval". Roberto Carlos gravou o samba num compacto CBS em 1967.

Outro sentido para "cinza" é profunda tristeza. É assim que a palavra aparece em "Renascer das Cinzas". Martinho da Vila compôs o samba em 1974, para levantar o astral dos componentes da Vila Isabel. A escola ia desfilar com o samba-enredo "Tribo dos Carajás" (Martinho), mas a letra (que falava em um índio que não deixara escravizar) foi considerada subversiva pela censura. Pressionada, a diretoria da escola trocou o tema para uma exaltação à Transamazônica, levando à avenida "Aruanã Açu" (Rodolfo de Souza - Paulinho da Vila). Os componentes reagiram desfilando com indiferença e o resultado foi o último lugar na classificação. A Vila só não caiu para o grupo 2 porque o governador do Rio de Janeiro, Chagas Freitas, determinou à Riotur que nenhuma escola desceria naquele ano. Para isso acontecer, foi decisivo o empenho de Martinho - que ainda conseguiu escrever a respeito algo tão belo como "Vamos renascer das cinzas/ Plantar de novo o arvoredo/ Bom calor nas mãos unidas/ Na cabeça um grande enredo/ Ala dos Compositores/ Mandando o samba no terreiro..."

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Ignorando a quarta-feira

Eventualmente, como em "Bloco da Solidão" (Evaldo Gouveia - Jair Amorim), o folião podia estar tão angustiado pela perda de um amor que, para ele, Carnaval e Quarta-Feira de Cinzas não tinham a menor diferença. A marcha-rancho foi gravada por Jair Rodrigues no LP Festa para um Rei Negro (Philips, 1970): "Lá vai meu bloco/ E lá vou eu também/ Mais uma vez sem ter ninguém/ No sábado e domingo/ Segunda e terça-feira/ E quarta-feira vem/ O ano inteiro é todo assim/ Por isso quando eu passar/ Batam palmas pra mim".

Mas essa não é a regra. Quando se fala em não terminar o carnaval na quarta, podia ser por... desatenção, como no samba "Às Três da Manhã" (Herivelto Martins), lançado por Aracy de Almeida em 1946. Laurindo levava a escola para a Praça Onze, sem se dar conta que o Carnaval acabara.

Já em "Ela Desatinou", que Chico Buarque compôs e gravou em 1968, o motivo era a desatenção - ou a alegria mesmo? "Ela desatinou/ Viu chegar quarta-feira/ Acabar brincadeira/ Bandeiras se desmanchando/ E ela inda está sambando// (...) Ela não vê que toda gente/ Já está sofrendo normalmente..."

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Cinzas de outros dias

Grande sucesso do carnaval de 1934 na interpretação de Mário Reis, o samba "Agora é Cinza" (Bide - Marçal) não se refere à Quarta-Feira de Cinzas. Os autores falavam da cinza que ficara depois que a chama do amor fora desfeita pelo sopro do passado. Mas é natural associar com a data os versos "Agora é cinza/ Tudo acabado e nada mais".

Outra música que fala na data, embora não tenha sido escrita para carnaval, é a "Marcha da Quarta-Feira de Cinzas", de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes. A letra desta marcha-rancho começa dizendo que "Acabou nosso carnaval/ Ninguém ouve cantar canções/ Ninguém passa mais brincando feliz/ E nos corações/ Saudades e cinzas foi o que restou." A tristeza do início progressivamente cede lugar a um crescendo de esperança que vai envolvendo/encantando o ouvinte. Que carnaval era esse que tinha acabado? Muitos autores apontam esta composição de 1963 como premonitória, ao antecipar o clima que o país viveria a partir do golpe militar do ano seguinte. A pensar assim, não é preciso muito para classificá-la como verdadeiramente profética, pois na última estrofe fica claro que o poeta, embora esperançoso, não imagina participar da volta da liberdade: "Quem me dera viver pra ver/ E brincar outros carnavais/ Com a beleza dos velhos carnavais/ Que marchas tão lindas/ E o povo cantando seu canto de paz". Vinicius morreu em 1980, cinco anos antes do fim do regime militar.

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Depois do Carnaval

No Brasil, as resoluções de Ano-Novo costumam ser, ao longo do verão, empurradas para depois do Carnaval. Seria a ocasião ideal, por exemplo, para o lançamento, "num disco voador", do "iê-iê-iê romântico" que Caetano Veloso dizia estar escrevendo em "Não Identificado" (1969).

Um samba de Beto Scala e São Beto, incluído por Jair Rodrigues em seu LP Dez Anos Depois (Philips, 1974), intitulava-se justamente "Depois do Carnaval" e trazia na primeira parte uma série de boas intenções do protagonista: "Depois do Carnaval eu vou criar juízo/ (...) Largar mão da viola, procurar batente/ Preciso urgentemente me regenerar." Boas intenções que não o impediram de, na segunda parte, bater na esposa e ainda dizer a ela que ela ia compreender que era "muito natural"!!!

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Enterro dos ossos

O período imediatamente posterior ao carnaval é chamado de "enterro dos ossos" - principalmente os bailes carnavalescos em clubes no primeiro fim-de-semana da Quaresma. Não lembro de ter ouvido a expressão associada ao desfile das campeãs no sábado. Afinal, que ossos seriam esses, e que relação tem seu enterro com o fim do carnaval?

"Enterro dos ossos" designa duas coisas diferentes. Uma delas é uma reunião festiva íntima, em que se aproveita sobras da festa da noite anterior, com muita dança, comida e bebida. É o que Alexandre Gonçalves Pinto chamava, no livro O Choro - Reminiscências dos Chorões Antigos (1936), de "dobrar o pagode" - ou seja, continuar a festa. Entre os chorões que não dispensavam o enterro dos ossos, Alexandre relaciona Policarpo Flauta, o cavaquinista João Capelani, o violonista Arthur Pequeno e o clarinetista João dos Santos, integrante da orquestra do rancho Ameno Resedá.

Dicionário do Folclore Brasileiro, de Luís da Câmara Cascudo (Ediouro, 1969) registra este significado e também o outro:

"Em Corumbá, Mato Grosso, o enterro dos ossos, até 1930, era um préstito carnavalesco, no primeiro domingo depois do carnaval, em que os clubes e cordões mais populares saíam, conduzindo cada qual o seu caixão mortuário. Os foliões, vestindo negro, com a caveira pintada, traziam conjuntos musicais, que executavam músicas fúnebres. Dentro dos caixões havia o farto recheio de galinhas, perus, churrasco, cabrito, aguardente de Tamandaré etc."

* Publicado originalmente no Mistura e Manda nº 88, 
de 14.2.2005