domingo, 29 de junho de 2014

Música Porto Alegre: Despertando Talentos


Poeta do Mês: Carlos Correia Santos (5)

JARDIM DEFINITIVO
(Carlos Correia Santos)


Meu jeito é um jardim definitivo,
sou do modo das coisas com cheiro.
Rosa desfolhada no infinitivo,
um choro que planta um jardineiro.

Meu estado é da maneira do claro,
sol na ponta de cada dedo.
As mãos em flores num arranjo raro,
plantado no centro de cada medo.

Sou do entender desentendido na terra,
meu jeito é chão eterno
para semente que definitivo jardim encerra
brotar canteiro em riso terno.

Debate Belém: Terças Profanas


quinta-feira, 26 de junho de 2014

Teatro Macapá: A Farsa do Boi ou o Desejo de Catirina



Opinião: Malévola


Por Calila das Mercês,
de Salvador

Quando vi Malévola pela primeira vez foi em um outdoor em Salvador. E por ter me surpreendido - negativamente - com os chifres na cabeça da personagem de Angelina Jolie achei que não assistiria ao filme. Mexeu comigo a tal da Malévola e acho que esse é o grande objetivo da publicidade. Contudo, como estamos todos suscetíveis às mudanças, superei o susto do outdoor e resolvi ir ao cinema.

A grande sacada do filme Malévola, já  lida no outdoor, é que as aparências enganam. Depois de assistir ao filme dirigido pelo estreante Robert Stromberg (que já havia atuado como diretor de efeitos especiais nos recentes Avatar, Alice no País das Maravilhas e O Mágico de Oz), a minha surpresa foi de um pólo para outro, ou seja, muito positiva.

 O filme, uma produção da Disney, é uma versão adicional ao conhecido enredo de A Bela Adormecida. Trata-se de um olhar direcionado ao outro lado da história, a partir da narração da personagem já em idade avançada, a princesa Aurora, que só percebemos no final da trama.

O roteiro escrito por Linda Woolverton (que realizou trabalhos notáveis como O Rei Leão, Alice no País das Maravilhas) envolve uma magnetizante coerência de ideias, fugindo de antigos padrões e equações já conhecidas em enredos de cinema.

Outro grande ponto alto do filme é a atuação de Angelina Jolie. Muito além das suas causas humanitárias, a atriz retorna a sua força para a arte que a consagrou como uma das mais belas e talentosas atrizes de sua geração. Vale destacar também a participação de Vivienne Jolie-Pitt, filha mais nova de Angelina com Brad Pitt, em uma pequena e emocionante participação na pele da princesa Aurora ainda criança.

Malévola quebra as barreiras entre o bem e o mal, duelo sempre presente nos contos de fadas. O que faz as pessoas e as suas relações são as circunstâncias, o amor e a falta dele. 




terça-feira, 24 de junho de 2014

Espetáculo Porto Alegre: Música de Cena




MÚSICA DE CENA – O ESPETÁCULO

Começou do jeito mais informal possível: uma data para um show solo de Arthur de Faria, num lugar de teatro. Bem, porque não fazer, então, um repertório baseado nas trilhas mais recentes que ele havia escrito para teatro? Próxima ideia: e se, em vez de solo, ele se cercasse de alguns dos atores e atrizes desses mesmos espetáculos? Próximo passo: convidar a atriz e diretora Áurea Baptista para dirigir tudo. Condição da Áurea: “tu não vai juntar um bando de atores e não deixar que eles atuem...

Assim nasceu a posta em cena, com alguns dos mais musicais atores dos tais espetáculos: Wonderland, Natalício Cavalo, Maicon Estallone, Os Plagiários e Ideologia, Marxismo e Rock´n´Roll. Como gosta de dizer a Áurea, “um paisano de cada povo”.

E não é que deu certo?

Não é bem um show, nem é bem uma peça. É um pouco de tudo. Pra fazer rir, pra emocionar, pra encantar, num clima meio cabaré brechtniano, com cenários e figurinos caprichados, e um arsenal de mais de 30 instrumentos musicais – da tuba ao tiple requinto colombiano, passando por baixo, guitarra, bateria, eletrônicos e por aí vamos, com direito a duelo de faroeste, sessão de desencapetamento e muito, mas muito mais...

Música de Cena - Canções e temas instrumentais de Arthur de Faria, escritos para teatro e cinema.

Direção: Áurea Baptista

Direção Musical: Arthur de Faria

Com: Áurea Baptista, Úrsula Collinschonn, Marina Mendo, Valquíria Cardoso, Frederico Vittola, Marcelo Crawshaw, Pingo Alabarse, Gustavo Susin, Arthur de Faria, Diego Steffani e Jéferson Rachewsky.

Som: Clauber Schölles


Luz: Marga Ferreira

Teatro Santarém (PA): 1º Puxirum Cultural


segunda-feira, 23 de junho de 2014

Teatro Belém: Encantados S.A.



E se a Chapeuzinho Vermelho frequentasse os mesmos lugares que você, disfarçada de pessoa comum? E se a Bela Adormecida fosse sua vizinha sem que você nunca tenha percebido? E se aquele seu professor estranho fosse ninguém menos que Capitão Gancho disfarçado? Já imaginou? 

Em Encantados S.A, espetáculo do Grupo de Teatro Universitário que volta a cena de 26 a 29 de junho no Teatro Cláudio Barradas, os seres dos contos de fada estarão infiltrados por toda a parte.

A trama central da dramaturgia, assinada e dirigida pela dupla Bárbara Gibson e Haroldo França, gira em torno de Noque, um garoto de 13 anos que é oprimido pelos colegas por ainda brincar de boneco. Gigy, seu brinquedo preferido, é também seu único amigo, e com ele o garoto compartilha suas descobertas, angústias e vivências. 

A pacata vida de Noque começa a mudar quando ele se dá conta das coisas estranhas que acontecem ao seu redor: seu professor de química uiva como um lobo, sua vizinha oferece maçãs para as pessoas na rua e uma colega de turma sempre está com doces para levar a sua avó adoentada. Com estas ocorrências, que mais parecem evidências, os dois começam a investigar os fatos até encontrarem a chamada OSSEAPEPROFOSOE - Organização Secreta dos Seres Encantados Aliados Pela Proteção da Fantasia ou Simplesmente Encantados –, que muda suas vidas para sempre.

Haroldo França, dramaturgo e diretor hoje radicado em São Paulo, afirma que o espetáculo é diversão garantida a crianças, mas especialmente aos adultos. "É uma metáfora do crescimento, uma homenagem às crianças que todos já fomos, e que de alguma forma ainda somos. O espetáculo tem um humor incrível e é especial". Já Bárbara Gibson, que assumiu sozinha a direção após a ida de Haroldo, pontua que cada temporada tem novidades, e que o público nunca pode esperar um mesmo espetáculo. "A cada temporada a gente muda bastante coisa no espetáculo, do corpo de atores a cenas inusitadas. É um espetáculo que está atento ao seu tempo e se renova. E não será diferente nesta temporada".

O espetáculo já possui um público cativo nestes quatro anos ininterruptos de atividades, e pensando nisto a produção disponibilizou ingressos mais baratos aos que entrarem em contato com a produção antecipadamente, por telefone ou redes sociais. “É uma maneira de fidelizar o nosso público e formar platéia. Já temos amigos que indicam o espetáculos a outros amigos e isso é bem legal. Fazemos um infantil para adultos que diverte todas as idades”, ressalta Bárbara.

Então, humanos, os agentes secretos encantados os aguardam ansiosos para mais esta missão. Mas tomem cuidado! Os segredos que serão revelados devem ser guardados no mais absoluto sigilo. Lembrem-se, eles estão por toda parte.

Serviço: Espetáculo “Encantados S.A”. 
Dias 26 e 27 de junho às 20h | 28 e 29 às 17h e 20H
Local: Teatro Universitário Claudio Barradas (Rua Jerônimo Pimentel, 546, quase esquina com Dom Romualdo de Seixas, anexo a Escola de Teatro e Dança da UFPA)
Ingressos antecipados a R$10. Ingressos na bilheteria do teatro a R$20 (meia R$10). 
Informações (91) 8292 8567 | 8095 9336 | 8152 2994 | 84901501. facebook.com/EspetaculoEncantadosSA. Instagram: @Encantados.


Ficha Técnica

Direção e Dramaturgia: Bárbara Gibson e Haroldo França

Elenco: Alice Bandeira, Allyster Fagundes, Antônio Júnior, Camilo Sampaio, Cássio Di Freitas, Diego Benício, Douglas Henrique, Erllon Viegas, Fábio Limah, Judite Torres, Leandro Oliveira, Luiza Imbiriba, Nazareth Menezes, Nilton Cezar, Rejane Sá, Renato Ferber, Roberta Proença, Sandro Mauro, Selma Salvador, Sofia Lobato, Terezinha Gentil, Thainá Chemelo, Valéria Lima.
Produção: Breno Monteiro e Lauro Sousa
Figurinos: Breno Monteiro, Kevin Braga e Lauro Sousa.
Maquiagem: Patrícia Zulu e Kevin Braga
Cenário: Breno Monteiro e Kevin Braga
Consultoria Plástica: Rejane Lima
Luz: Sol Henriques
Sonoplastia: Haroldo França e Leandro Oliveira
Operação de Sonoplastia: Haroldo França
Assessoria de Imprensa: Leandro Oliveira
Redes Sociais: Thamires Costa
Fotos: Thamires Costa

domingo, 22 de junho de 2014

Poeta do Mês: Carlos Correia Santos (4)

DIABO DELICADO

Carlos Correia Santos


Quando um demônio beija um colibri,
todo meu ardor voa com penas de anjo.
Minha paz é um demônio beijando um colibri,
um delicado diabo tocando banjo.

Quando leio a partitura dos gritos dos meus demônios,
entendo todo esse enorme inferno de ser feliz.
A alegria toca violinos de fogo nos meus sonhos
e faz demônios beijarem meus colibris.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Especial Chico Buarque 70 Anos (7): Meu Sonho com Chico (Com direito a Gal)


Esta última parte para mim é a mais especial. Refere-se a um sonho que tive na madrugada de 13 de dezembro de 2006, e que relatei naquele mesmo dia por e-mail a minha mãe. Não fosse essa circunstância, talvez hoje eu não recordasse mais com tantos detalhes.

Os primeiros a saber deste sonho foram os participantes da comunidade Chicomaníacos do Orkut, que eu criei em 2005 e mantive até 2008 (este ano, retomei a experiência, ao criar com Lindisay Moreira e Ramona Gemaque a fan page Buarque-se, no Facebook). Posteriormente, o texto foi publicado por mim na minha coluna no blog Protocolo do Incenso, criado pela jornalista e atriz Vanessa Morelli, e atualmente fora do ar. Como eu também já desativei minha conta do Orkut há quatro anos, o relato do meu sonho tinha ficado inacessível... até hoje! Resgatei-o do e-mail original, e o publico logo abaixo. Apreciem. :)

***

Meu Sonho com Chico (Com direito a Gal)

Sonhei com ... (tcha-rã) Chico Buarque!


Ele ia cantar no alto de um prédio junto a um parque. O show não começou muito bem: Chico, acompanhando-se ao violão, começou a cantar uma música do repertório de Dalva de Oliveira, em tom muito alto (talvez fosse "Que Será") e não se dava bem com algumas passagens.

Do banco onde eu estava, fiz sinal a ele pra baixar o tom, encerrar, fazer alguma coisa; ele, com uma leve careta, me fez entender que, uma vez começada a música, não podia acabá-la assim, no mais. O que o salvou foi que Gal Costa (!), sentada a meu lado no banco (!!), passou a cantar junto.

Na seqüência, lógico que Chico chamou Gal para continuar cantando com ele, e ela me pediu que sugerisse uma música. Pra ficar no repertório de Dalva, pensei em várias - todas assinadas por Herivelto Martins. A primeira que falei foi "Segredo", que Chico e Gal cantaram logo a seguir; lembro ainda de ter anotado "Lá em Mangueira", mas me parece que esta eles não cantaram, porque o sonho acabou antes...


Especial Chico Buarque 70 Anos (6): Eu fotografei o Chico!


Em 1999, Chico Buarque incluiu Porto Alegre no roteiro das capitais que receberiam um show da turnê do CD As Cidades, lançado no ano anterior. Era minha chance de enfim ver um show dele, já que em 1994, quando ele se apresentou no Teatro da OSPA com o Paratodos, o ingresso estava custando absurdos 48 reais (se você acha pouco, lembre - ou saiba - que o salário mínimo da época era de R$ 64!). Comparativamente, muito mais caro que os 80 reais de 1999.

O show foi programado para o Teatro do SESI em três noites de agosto (bem durante as minhas férias, olha que lindo!), sexta 13, sábado 14 e domingo 15. Comprei dois ingressos, já que minha mãe também não podia perder esse espetáculo (ela igualmente nunca conseguira ir ouvir o ídolo), e contratamos os serviços de uma van que busca e deixa em casa (comum nas capitais do Sul e Sudeste). Escolhemos o domingo.

Tudo certo, ali por quarta 11 ou quinta 12 vi no jornal que Chico, antes do show de sexta, faria um debate público com o escritor Luis Fernando Verissimo, na Casa de Cultura Mario Quintana, tendo como ingresso cobrado apenas um quilo de alimento não-perecível. No começo da tarde de sexta 13, lá estava eu com meu quilo na mão, pegando ainda o início de uma fila que foi ficando quilométrica. Tudo certo, ainda deu tempo de eu passar em casa (eu morava a umas três quadras dali) buscar minha câmera (ainda era daquelas "de filme", analógicas) e voltar para pegar o memorável encontro no Teatro Bruno Kiefer da CCMQ (como os porto-alegrenses chamam a Casa que já foi um hotel, o Majestic, onde de fato o poeta Mario Quintana morou alguns anos).

Por uma hora e meia, o teatro lotado ouviu embevecido Chico e LFV lerem textos um do outro (Chico leu uma crônica de Verissimo sobre o ovo, foi nessa hora que bati a foto, enquanto LFV leu um trecho de Fazenda Modelo), contarem causos, lembrarem da amizade de seus respectivos pais (o historiador Sergio Buarque de Hollanda e o escritor Erico Verissimo), além de responderem a perguntas da platéia. Um espectador quis saber, diante de tanta eloqüência dos debatedores, onde estava a propalada timidez de ambos - ou se ela seria inventada... O encontro foi mediado por Ben Berardi, diretor da CCMQ à época. Gravado pela TVE (a emissora estatal gaúcha), o debate foi exibido na noite daquela mesma sexta. 


Luis Fernando Verissimo, Ben Berardi e Chico Buarque
13.8.1999
(foto: Fabio Gomes)



Pouco após o final do debate, eu estava conversando com alguns amigos no térreo da CCMQ, quando vimos Chico passar, falando alegremente com algumas crianças, a poucos metros de onde estávamos e em seguida entrou num carro que viera buscá-lo. Afinal, em poucas horas tinha a estréia da turnê! 

Circulam lendas em Porto Alegre que numa das noites em que esteve na cidade Chico retornou à CCMQ, indo conferir um show no café do terraço, então chamado Café Concerto Majestic, e que gostou tanto do que estava rolando que, pela ÚNICA VEZ NA VIDA, levantou-se da mesa e foi dar uma canja ao microfone - o que eu particularmente acho mega improvável, mas enfim... há quem jure. 


Especial Chico Buarque 70 Anos (5): Trechos

Além dos textos que venho republicando aqui, nos quais Chico Buarque é o personagem principal, tenho mais dois onde há um trecho considerável dedicado ao autor de "Feijoada Completa". Fechando o post, um trecho do vídeo De Minas a Noel, onde, em entrevista a Ana Cristina Rodrigues, Chico fala da influência que recebeu de Noel Rosa. O vídeo foi publicado pela primeira vez na internet por mim, em 2008. 

***



Noites Tropicais

Um bar do Rio de Janeiro, freqüentado por artistas, jornalistas e gente de TV, resolveu, nos anos 70, homenagear seus clientes mais assíduos. Colocou fotos de todos em suas paredes. Lado a lado, ficaram dois então desafetos: o compositor Chico Buarque e o coordenador da Rede Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. Chico estava banido da Globo desde que retirou sua música do Festival Internacional da Canção de 1971. Seu nome não podia ser citado, ele simplesmente não existia. Chico, ao ver Boni a seu lado na parede, correu a retirar a foto do “inimigo”. Boni fez o mesmo com a foto de Chico, em outro momento. O dono do bar, preocupado com a celeuma causada por sua nova decoração, pediu aos dois para fazerem as pazes. Foi prontamente atendido. Boni recolocou o retrato de Chico na parede, mas o autor de “Carolina” não podia retribuir: além de tirar a foto da parede, Chico a levara para a praia em frente e pisoteou o quadro, quebrando-o. Resultado: Chico continuou na lista negra da Globo por muito tempo. Esta é uma das histórias saborosas que recheiam o livro Noites Tropicais - Solos, Improvisos e Memórias Musicais, de Nelson Motta (Editora Objetiva, 2000, 453 páginas). 

(Abertura do texto em que resenho o livro de Nelson Motta, que escrevi como trabalho da faculdade de Jornalismo da UFRGS em 2000. Publicado no site Brasileirinho em 2003). 

***

Em 1995, participei do concurso Histórias de Trabalho, promovido pela Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre, com dois textos, um contando minha experiência como produtor do radiojornal "A Voz dos Distritos" (o programa deu origem ao meu terceiro livro publicado, também intitulado A Voz dos Distritos, lançado em 1992). O outro era uma ampla abordagem da presença do trabalho como tema de letra na música popular brasileira, desde os anos 20. Ambos concorriam em categorias diferentes, o que era permitido pelo edital. Mas infelizmente, o responsável pela inscrição inverteu as categorias dos dois textos, e isso me desclassificou em ambas (ao menos foi o que me informaram). Devidamente atualizado e ampliado até 1996, o texto sobre o trabalho na música brasileira foi publicado em 2003 no site Brasileirinho. Dois anos depois, apresentei um resumo na sessão de comunicação do GT História e Trabalho.do  2º Colóquio Internacional Cátedra Unesco-Unisinos/ 5º Encontro de Estudos sobre o Mundo do Trabalho, realizado na Unisinos, em São Leopoldo (RS). A comunicação foi publicada no mesmo ano no livro Políticas Públicas e Trabalho: Dimensões Éticas, Socioeconômicas e Culturais - 2º Colóquio Internacional Cátedra Unesco-Unisinos/ 5º Encontro de Estudos sobre o Mundo do Trabalho: Caderno de Resumos (Unisinos, 2005). 

Em todas as versões (exceto a do livro, mais resumida), há um capítulo dedicado a Chico Buarque, que reproduzo abaixo (clique aqui para ler o texto original completo):

"O Trabalho na Música Popular Brasileira 

2 - O TRABALHO NA MÚSICA BRASILEIRA RECENTE (1958-1996)

2.2 - Chico Buarque

Chico Buarque apareceu na década de 60 fazendo um samba tradicional, trazendo de volta o morro e seus temas de malandragem, trabalho, carnaval e problemas com a polícia. Já no seu primeiro sucesso, em 1965, estava o operário esperando a condução: “Pedro Pedreiro”.

“Pedro pedreiro penseiro esperando o trem/(...) Esperando, esperando, esperando/ Esperando o sol/ Esperando o trem/ Esperando o aumento/ Desde o ano passado/ Para o mês que vem.”

“Com Açúcar, Com Afeto”, feita a pedido de Nara Leão em 1966, retoma a preocupação feminina com o homem que não trabalha:

“Você diz que é operário/ Vai em busca do salário/ Pra poder me sustentar/ Qual o quê/ No caminho da oficina/ Há um bar em cada esquina/ Pra você comemorar/ Sei lá o quê.”

Até aqui, tudo bem. O cidadão fingia que trabalhava, a mulher tinha razão em se queixar. Mas quando ele faz até hora extra e a mulher continua a reclamar, não dá. Era a história de “Logo Eu?”, que Chico compôs e gravou em 1967:

“Essa menina quer me transformar/ Chego em casa, olha de quina/ Diz que já me viu na esquina/ A namorar/ Logo eu, bom funcionário/ Cumpridor dos meus horários/ Um amor quase exemplar/ A minha amada/ Diz que é pra eu deixar de férias/ Pra largar a batucada/ E pra pensar em coisas sérias.//(...) E tem mais isso:/ Estou cansado quando chego/ Pego extra no serviço/ Quero um pouco de sossego/ Mas não contente/ Ela me acorda reclamando/ Me despacha pro batente/ E fica em casa descansando.”

Depois dessa fase inicial, Chico voltou ao tema apenas em sua produção destinada a teatro e cinema. Foi assim com “Vai Trabalhar, Vagabundo” (“Vai trabalhar, vagabundo/ Vai trabalhar criatura/ Deus permite a todo mundo/ Uma loucura”), de 1973, tema do filme de mesmo nome dirigido por Hugo Carvana. Também com “Homenagem ao Malandro”, de 1977, que integrava a peça Ópera do Malandro:

“Eu fui fazer um samba em homenagem/ À nata da malandragem/ Que conheço de outros carnavais/ Eu fui à Lapa e perdi a viagem/ Que aquela tal malandragem/ Não existe mais./ Agora já não é normal/ O que dá de malandro regular, profissional/ Malandro com aparato de malandro oficial/ Malandro candidato a malandro federal/ (...) Mas o malandro pra valer/ Não espalha/ Aposentou a navalha/ Tem mulher e filho e tralha e tal/ Dizem as más línguas que ele até trabalha/ Mora lá longe e chacoalha/ Num trem da Central/ (Xi!).”

***

Entrevista com Chico Buarque (De Minas a Noel - parte 3)




Em entrevista gravada em 1987, Chico Buarque conversa com Ana Cristina Rodrigues sobre a influência de Noel Rosa em sua obra, definindo como "noelescos" seus sambas "Juca" e "A Rita". Chico fala também de outras influências, fazendo um rápido panorama da evolução permanente da MPB, e destaca a qualidade das melodias de Noel, cujo mérito não se resumiria em ser um bom letrista. A entrevista foi gravada no Rio de Janeiro, próximo ao campo do Politheama, time mantido por Chico (é possível ouvir apitos vindos do campo no áudio da matéria).



Especial Chico Buarque 70 Anos (4): Homenagem ao Malandro

Por Ramona Gemaque

A banda tocava músicas do cotidiano. Chico entrou. Sentou em minha mesa e pediu um cálice, mas dessa vez sem vinho tinto. Chico começou a falar da vida, contou-me seu amor por Carolina e Beatriz e disse que verá Yolanda quando o carnaval chegar. 

Chico estava triste, acabara de voltar do funeral de um lavrador. Perguntei a ele se temia a morte, e Chico respondeu:  malandro quando morre vira samba, o samba agoniza mas não morre. Chico falou-me sobre a roda-viva da vida, e disse que ela destrói qualquer construção que não tenha sido feita com açúcar e com afeto. 

A conversa de botequim adentrava a noite, então pedi á Chico que cantasse o samba para Vinicius que acabara de compor: o samba do grande amor. Chico lembrou-se da mocidade, dos seus amigos João e Maria, nascidos antes do tempo da maldade. Chico lembrou da tatuagem que fizera junto com seu amigo Jorge Maravilha no dia primeiro de maio de um ano qualquer. Lembrou da morena de Angola que subia o morro para ver de perto o zepelim. 

Chico lembrou da bela Geni, a puta que todos jogavam pedras. Chico tirou do bolso um folhetim e um retrato em preto e branco de uma biscate com cabelos cor de abóbora que o deixou no abandono. Jamais seremos futuros amantes, dizia ele. Viva de samba, viver de amor é o desafio do malandro. Naquela noite Chico me contou sobre todas as coisas do mundo, acendi meu último cigarro e como um samba do adeus engoli meu choro bandido, disse até segunda-feira, meu caro amigo.



Fabio Gomes e Ramona Gemaque
(foto: Prsni Nascimento)

Leia também:

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Evento Sobradinho (DF): São João do Boi de Seu Teodoro



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Especial Chico Buarque 70 Anos (3):Trocando em Miúdos

Trocando em Miúdos

Na Tenda de Pasárgada, na quarta, 5 de novembro, o escritor Luiz Paulo Faccioli fez uma leitura pública de seu conto "Depois que ele chegou", inspirado na música "Maninha", de Chico Buarque. As sugestões juninas da letra ("se lembra da fogueira, se lembra dos balões") originaram um conto em que uma festa de São João pouco animada marca o fim da paixão não-correspondida de um menino. Todos os 13 contos do livro Trocando em Miúdos foram escritos a partir de músicas de Chico Buarque, não dependendo do conhecimento prévio das canções para serem entendidos ou apreciados.



(Tópico do texto 54º Feira do Livro de Porto Alegre
atualizado diversas vezes durante o período de realização do evento,
em outubro-novembro de 2008)


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Rádio Cabeça

Sabe aquela música que você ouve de manhã e passa todo o dia cantarolando, assobiando ou ao menos lembrando? Pois é, ela está tocando na sua Rádio Cabeça.

A primeira referência formal que tive dessa emissora foi em “O Último Blues”, que Chico Buarque fez para o filme Ópera do Malandro, de Ruy Guerra (1985), onde é cantada por Cláudia Ohana (Gal Costa a gravou no mesmo ano). Após dizer a Tigrão (Edson Celulari) que não adianta achar que ele vai seduzi-la e esquecê-la, Ohana revela que está é se divertindo com ele (“Os dois parecem um casal/ Mas é mentira” – grande sacada!) e - atenção agora - está lá, na última estrofe, com maiúsculas e tudo:

“Essa menina pode ir pro Japão/ Na vida real/ Você é quem enlouquece/ Apaga a última luz/ E nos cantos do seu quarto/ A figura dela fosforece/ Ao som do último blues/ Na Rádio Cabeça/ Se puder esqueça/ A menina que você seduz.”

Seria, então, Chico o criador (ou o descobridor) da Rádio Cabeça? Não, não. Já na década de 1840, o pequeno Piotr Ilich Tchaikovsky, sem saber que quando crescesse seria o mais popular compositor russo, já demonstrava grande facilidade de memorizar na hora qualquer música que ouvisse. Sua família acostumou-se a ser acordada pelos gritos do filho no meio da noite:

- Tirem essa música da minha cabeça, ela não me deixa dormir!


(Mistura e Manda nº 9, 4.8.2003)

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Pagodespel

Caetano Veloso pretendia que o programa Chico e Caetano (TV Globo, 1986) pudesse trazer de volta o papel da televisão como lançadora de músicas inéditas, a exemplo do que ocorria nos anos 1960. A possibilidade real de reproduzir as condições de vinte anos antes era bastante improvável, mas ao menos ele teve a ousadia de tentar. O fruto da ousadia chamou-se "Pagodespel" (algo como pagode + gospel), a única parceria conhecida entre Caetano, Chico Buarque, João Bosco e... Oswald de Andrade (1890 - 1954).

Caetano já "compusera" com Oswald, musicando o poema que abre o livro Pau-Brasil (1925): "Escapulário". Lançado em 1975 no LP Jóia, foi trilha do filme Na Ponta da Faca (Miguel Faria Jr., 1977). Já em 1986, "Escapulário" foi transformado no início de "Pagodespel", com Chico e Bosco compondo mais versos. O novo samba foi arrematado com outro poema de Oswald, "Relicário", também do livro Pau-Brasil, e se constituiu num dos pontos altos do programa de outubro de 86, o antepenúltimo da série.



(Mistura e Manda nº 50, 24.5.2004)

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"Uma Canção Desnaturada"

No artigo "A Malandragem Estrutural" - que integra o livro Chico Buarque do Brasil (Garamond, 2004) -, Arturo Gouveia analisa a peça Ópera do Malandro, dedicando três páginas ao tema "As diferenças entre o livro e o disco". Chama-lhe a atenção que a música "Uma Canção Desnaturada", que qualifica como "uma das mais acabadas realizações de Chico Buarque", não figure no livro, o que a seu ver conferiria "um valor de vantagem ao disco".


Não havia, entretanto, como a letra dessa canção ter sido incluída no livro, que saiu em 1978 pela editora Cultura. "Uma Canção Desnaturada" - assim como "Hino de Duran" - foi composta especialmente para a montagem da peça em São Paulo em 1979. Nesse mesmo ano, as duas músicas figuraram na gravação da trilha sonora da peça em álbum duplo pela PolyGram: "Hino de Duran" com Chico acompanhado pelo grupo A Cor do Som e "Uma Canção Desnaturada" reunindo os vocais de Chico com a veterana Marlene.


(Mistura e Manda nº 128, 6.2.2006)
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Wisnik e outra "bigamia"

Contamos no Mistura e Manda nº 41 a história de uma "bigamia" envolvendo uma melodia de Guinga, que se chama "Canção Desnecessária" com a letra de Manuel Aguiar e, com os versos de José Miguel Wisnik, o primeiro escalado para letrá-la, "Canção Necessária".

Outro caso de "bigamia" recentemente envolveu Wisnik, como ele revelou no show que fez ao lado do diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa no Salão de Atos da UFRGS (Porto Alegre), em 29 de agosto de 2005. Gal Costa pedira a Wisnik e Chico Buarque uma música para o show Todas as Coisas e Eu (2003), mas não foi atendida. Quando se preparava para gravar o CD Hoje, a baiana renovou o pedido. Wisnik procurou Chico, que acabou passando uma melodia para Wisnik colocar letra, o que resultou em "Embebedado". Isso é completamente fora dos hábitos de Chico, em geral ele é que recebe uma melodia pronta para colocar versos. Mais ainda: talvez tenha sido a primeira vez que isso aconteceu, pois as poucas vezes em que Chico musicou versos de outros (João Cabral de Melo Neto, Cecília Meireles, Augusto Boal e Hermínio Bello de Carvalho), os versos já existiam ou, como na sua parceria com Ruy Guerra, Chico os escrevia junto com o parceiro.


A "bigamia" está no fato de a mesma melodia já ter sido entregue por Chico a Sergio Bardotti, que escreveu uma letra em italiano e batizou a canção como "Risotto Neto" - que vem a ser a canção inédita do DVD Vai Passar.


(Mistura e Manda nº 124, 12.12.2005)


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Chicomania

Há um movimento espontâneo em todo o Brasil, a chicomania (exaltação a Chico Buarque). Ela, pelo que se pode notar, independe de qualquer coisa, inclusive do próprio Chico. Ele não comemorou nenhum aniversário "redondo" - completou 59 anos em 19 de junho -, não lançou CD novo (lançou foi é um livro, Budapeste, mas a chicomania é anterior), não conclamou as massas, nada.

Muito legal constatar que, sem forçação de barra nenhuma, o povo brasileiro, sempre que pode, está rendendo homenagem a um de seus grandes integrantes vivos. Não se passam duas semanas sem que chegue a nosso conhecimento, pelo menos um show inteiramente dedicado ao autor de "Injuriado", isso quando não é peça de teatro, debate ou etc. e tal.

Em Porto Alegre, o cantor Dudu Sperb e o violonista Toneco da Costa aderiram à chicomania, apresentando no Café Concerto Majestic, em 16 de outubro, um repertório só do mestre, com e sem parceiros. Chamaram a atenção as versões da dupla para "Samba e Amor", "Atrás da Porta" (Francis Hime - Chico), "Morena dos Olhos d'Água" e "Deixa a Menina". Já em "Vai Passar" (Francis Hime - Chico), "Trocando em Miúdos" (Francis Hime - Chico) e "Eu te Amo" (Tom Jobim - Chico), uma surpresa: no início das canções, a voz de Dudu chegou a lembrar o timbre de Chico! Isso e muito mais deve ser conferido em breve, com a adesão do superbom Jorginho do Trumpete, na temporada programada para o Teatro do Museu do Trabalho.

(Mistura e Manda nº 20, 20.10.2003)


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Continuações (2)

A continuação, uma especialidade do cinema americano, nunca foi o forte no cinema brasileiro. Contam-se nos dedos filmes como Vai Trabalhar Vagabundo 2 - A Volta ou Xuxa e os Duendes 2 (desculpem!). Já na música, a continuação é bem mais freqüente.

Um tipo curioso de música de continuação é a feita por outro autor. É um tipo raro também, localizei apenas três casos. O mais antigo é "Cabo Laurindo" (Haroldo Lobo - Wilson Batista, 1945), samba com o personagem que Herivelto Martins criou em "Laurindo", no carnaval de 1943. 

Os outro dois casos são ambos de 1972. Um deles é "Cotidiano nº 2 (Como dizia o Chico...)" de Toquinho e Vinicius, de 1972, continuando o sucesso de Chico Buarque "Cotidiano", de 1971.

Ainda em 1972, Caetano Veloso compôs "Janelas Abertas nº 2", cantado por Chico no show que deu origem ao LP Caetano e Chico Juntos e ao Vivo. Caetano referia-se a uma canção de Tom Jobim e Vinicius de Moraes que fora gravada por Elizeth Cardoso no LP Canção do Amor Demais (1958) - mas, se nesta, as janelas seriam abertas para que o sol viesse iluminar o amor do poeta e sua adorada, na canção de Caetano elas dariam ingresso a todos os insetos...


(Mistura e Manda nº 20, 20.10.2003)

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Chico, o tranqüilo



Domingo, 15 de agosto de 1999. Chico Buarque acaba de cantar “Vai Passar”, já como número extra. O show As Cidades (e também a turnê em Porto Alegre) encaminha-se para o final, quando uma fã aparentando 15 anos consegue pular para o palco do Teatro do SESI e abraçar o cantor. Dois seguranças rapidamente contornam a situação e em seguida Chico encerra o espetáculo com “João e Maria”, como se nada tivesse acontecido.

(OBS2014: Um dos quatro textos publicados na leva inaugural do site Brasileirinho, em 17 de outubro de 2002. Apesar de beeeem curto, nunca foi dos mais acessados, desmentindo a tese de que internautas só gostam de textos curtos.) 


Especial Chico Buarque 70 Anos (2): Chico Buarque na TV 2006-2007

Chico Buarque é conhecido como um artista reservado - há quem diga que ainda é excessivamente tímido, como quando era jovem; outros, porém, garantem que ele usa essa fama a seu favor para escapar a possíveis constrangimentos. Enfim, seja como for, o certo é que é rara sua presença na TV aberta. Mesmo que se possam apontar vários programas em que apareceu, no segundo semestre de 2006 e ao longo do ano de 2007, eram sempre imagens de arquivo ou gravadas para outros projetos - inclusive o que ficou conhecido como "a entrevista para o Fantástico", em que a TV Globo simplesmente exibiu material promocional que Chico gravara para o CD Carioca (Biscoito Fino, 2006). Vamos lembrar alguns desses momentos.

TV Bandeirantes

Esta sem dúvida foi a emissora em que Chico mais apareceu nesse período. Afinal, garantiu o direito de exibir em canal aberto todos os 12 DVDs de Chico que a EMI lançou entre 2005 e 2006. A série foi aberta por três especiais exibidos em julho de 2005 - Meu Caro Amigo, À Flor da Pele e Vai Passar. Em dezembro, mais três: Anos Dourados, Estação Derradeira e Bastidores, nos domingos 4, 11 e 18 respectivamente, às 22h30.

O Futebol

Este especial foi exibido no domingo, 6 de agosto de 2006. Eu gostei de ver/ouvir Chico cantando músicas que não são de seu repertório habitual - como "Conversa de Botequim" (Vadico - Noel Rosa) e "E o Juiz Apitou" (Wilson Batista - Antônio Almeida). Teve alguns lances nada-a-ver, como Chico cantando com Pelé (Moreira da Silva dizia que Pelé, como cantor, era "um chute nos meniscos") e aquele "papinho" em Barcelona com Ronaldinho Gaúcho (que tava falando mais pra dentro do que nunca). Ronaldinho fazia parte de uma banda de pagode em Porto Alegre, era mais indicado que Pelé para um dueto com Chico.

Cabia também uma valorização maior da música "O Futebol", que é na real a única em que Chico que trata unicamente do esporte bretão. Ela só foi usada como fundo, com vários cortes e sons interferindo, no vídeo da partida Veteranos do Santos x Politheama, o time do qual Chico é dono. O melhor teria sido mostrar Chico cantando a música inteira (afinal, além de dar título ao especial, é uma música muito boa mesmo!).



Uma Palavra

Excelente o especial que encerrou em 13 de agosto de 2006 a terceira fase de exibição dos DVDs na Band. Primeiro, ressalte-se a sacada do diretor Roberto Oliveira: o título deixava livre qualquer abordagem da obra de Chico, tanto na literatura, quanto na música (só não valeriam temas apenas instrumentais, aliás raros na obra buarqueana).

A parte de depoimentos tava bem rica & solta (alguém fazia idéia de que o "penseiro" com que Chico qualificou "Pedro Pedreiro" viria de um desejo seu de "imitar" Guimarães Rosa???). Particularmente boa a seqüência em Budapeste - a de Lisboa ficou meio nada-a-ver, Chico em pé contra o sol perto do Castelo de São. Jorge...

Já a parte musical também reservou surpresas, como Chico cantando "Mano a Mano" com João Bosco e, noutro número antológico, "Ela Desatinou", com Daniela Mercury (e o piano luxuoso de Tom Jobim!).


Cinema

O especial exibido em 26 de novembro de 2006 foi gravado na cidade de Parati (RJ). Na Casa de Cultura da cidade, o compositor recordou as trilhas que fez para filmes como Joana Francesa (Carlos Diegues, 1973), Bye Bye Brasil (Carlos Diegues,1979) e A Ostra e o Vento (Walter Lima Jr., 1997). Também se pôde ver imagens de Chico atuando em Garota de Ipanema (Leon Hirszman, 1967) - numa das cenas, ele aparece dedilhando "Um Chorinho" ao violão. Aliás, falando nisso, foi uma surpresa foi saber que Chico compôs alguns temas instrumentais para o filme Anjo Assassino (Dionísio Azevedo, 1966).

Embora não se tenha dito formalmente, ficou claro no decorrer do programa que o diretor Roberto Talma optou por abordar apenas filmes de ficção. Em função disso, é compreensível que não se mencionasse a recente participação de Chico nos documentários Vinicius (Miguel Faria Jr., 2005) e Maria Bethânia - Música é Perfume (Georges Gachot, 2005). Mas é imperdoável não haver referência alguma aos filmes baseados em livros de Chico, como Estorvo (Ruy Guerra, 2000) e Benjamim (Monique Gardenberg, 2004).

Foi para este programa que Chico compôs a (para mim, ao menos) melhor música do CD Carioca: "Ela Faz Cinema", que adequadamente abriu e encerrou o especial. Outros destaques da parte musical foram as canções do filme A Noiva da Cidade (Alex Viany, 1976), que Chico cantou com o parceiro Francis Hime - a faixa-título e "Quadrilha". E não dá pra deixar de falar dos momentos musicais extraídos dos filmes: a fantástica "A Volta do Malandro" (de Ópera do Malandro, Ruy Guerra, 1985) e "Vai Trabalhar, Vagabundo" (do filme de mesmo nome dirigido por Hugo Carvana, 1973).



Saltimbancos

O especial exibido pela Band em 3 de dezembro de 2006 comprovou definitivamente minha idéia de que é preciso conhecer uma obra (ou produto) cultural por inteiro para depois emitir um conceito sobre ela.

Explico: já estávamos no último bloco do programa e até ali minha idéia era de que, em termos do conjunto dos 12 programas, Saltimbancos era dos mais fracos, junto com Futebol - afinal, Chico na real tem poucas músicas sobre futebol ou escritas para crianças (ok, as que existem são ótimas, mas pra sustentar um programa inteiro são mesmo poucas!). Assim, ao contrário do que acontecia com Bastidores ou Cinema (em que muita música boa ficou de fora), em Saltimbancos houve um abuso daquelas cenas nada-a-ver de Chico caminhando na rua. O mais incrível é que, se já partia de um universo pequeno - as músicas de Chico para crianças -, a produção do especial limitou-o mais ainda, ao deixar de fora as músicas que Chico fez para o filme Os Saltimbancos Trapalhões, adaptado da peça (só uma canção desse filme entrou no especial Cinema); também com certeza poderia ter-se comentado algo do livro infantil de Chico, Chapeuzinho Amarelo.

Bom, e o que foi que me levou a afirmar que é preciso acompanhar um programa até o fim para só então comentá-lo verdadeiramente? O depoimento no último bloco. Foi completamente inesperado: Chico fez uma fala absolutamente lúcida sobre racismo no Brasil, a própósito do fato de ter se tornado sogro de Carlinhos Brown. O músico baiano, hostilizado num condomínio fechado na Zona Sul do Rio, preferiu voltar a morar na Bahia, com a esposa e os filhos; quando vão ao Rio, ficam na casa de Marieta Severo. E o pior, segundo Chico, da atitude racista, é que ela se funda na idéia falsa de que haveria "brancos puros" no Brasil. Pra quem, como eu, acabara de reler, no mesmo dia, o livro O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro (Cia. das Letras, 1995), o depoimento teve um sabor ainda mais especial! Viva Chico!




Roda Viva

Gravado em São Paulo, este especial que a Band exibiu em 10 de dezembro de 2006 como último da série abordou o início da carreira de Chico e sua participação nos festivais. Pudemos ver boas seqüências de Chico nos festivais da Record de 1966 e 1967 e da Globo de 1968 (aliás, parabéns à produção da série, que, mesmo ligada à Band, conseguiu a liberação de exibição de imagens pertencentes à Record e à Globo, em geral a mesquinharia impede essa comunhão).




Também é de ressaltar o bom destaque dado a outras músicas importantes do período, não só as imagens quase sempre exibidas do festival de 1967 (com Gilberto Gil cantando a sua "Domingo no Parque" com Os Mutantes e Caetano Veloso mandando ver a sua "Alegria, Alegria" com os Beat Boys), mas imagens raras como a de Elis Regina cantando "Ensaio Geral" (Gilberto Gil) em 1966.

Já a imagem de Tom Jobim e Chico vaiados enquanto Cynara e Cybele cantavam "Sabiá" em 1968, suavizada quando de sua inclusão na minissérie Anos Rebeldes (TV Globo, 1992), de Gilberto Braga, aqui foi mostrada em toda sua crueza.

Só o que cansou um pouco foi o excessivo número de execuções, no todo ou em parte, de "A Banda" nesse programa - devem ter sido quase 10!!

Uma surpresa foi a referência ao filme Chico Buarque, Retrato em Branco e Preto, TOTALMENTE IGNORADO no programa Cinema (vá entender esses critérios!).

O especial secreto: Palavra-chave

Durante a exibição de Saltimbancos, em 3 de dezembro de 2006, a Band apresentou um comercial da EMI que mencionava a existência de um 13º DVD, chamado Palavra-Chave, dado de brinde a quem comprasse os 12 todos de uma só vez. Morrer nessa grana preta tá com jeito de ser a única forma de saber do que se trata, porque, além da TV Bandeirantes não transmitir esse especial, a própria EMI não parecia muito empenhada em dar muitas informações. Naquela semana, uma nota no site da gravadora informava (?) o seguinte:

"DISCO 13  
1 DVD BONUS [sic] - MELHORES MOMENTOS (INCLUI CENAS INÉDITAS) 
Este box reúne os 12 DVDs da série e um DVD extra, Palavra-Chave, uma divertida montagem de clipes divididos em temas, pessoas e lugares."

E só!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Homenagem ao Artista

Chico ainda não foi convidado (que eu saiba!) para o programa Homenagem ao Artista, que Raul Gil apresenta na Band aos domingos. Mas naturalmente volta e meia é mencionado. Ele chegou a aparecer no programa de 13 de maio de 2007, no primeiro dos dois programas em que Raul homenageou Erasmo Carlos. No caso, era uma imagem da sessão em que os dois gravaram "Olha" (parceria de Erasmo com Roberto Carlos) para o DVD Erasmo Carlos Convida - Volume 2 (Indie). Uma pena que, mesmo que a participação do autor de "Carolina" tenha sido uma das mais comemoradas por Raul, foi bem na hora em que Chico aparecia que o apresentador falou, abafando o áudio do DVD...


É a gravação citada, mas não o vídeo 
exibido no referido programa do Raul Gil

Certamente uma das passagens mais engraçadas do Homenagem ao Artista envolvendo Chico foi em 8 de abril de 2007, quando Toquinho contou da maior briga que teve com o antigo parceiro - e amigo de décadas. Eles nunca divergiram por questões musicais, apenas por causa do futebol. Em 1985, quando Falcão foi contratatado pelo São Paulo, sua estréia foi num clássico contra o Corinthians. Para a preliminar, programou-se Politheama x Namorados da Noite.

No Politheama, time que mantém há anos, Chico só convida artistas famosos para jogar. Já o Namorados seria organizado por Toquinho e Miéle especialmente para a partida. Para montá-lo, ambos convocaram cantores que faziam coro nas gravações de estúdio, mas que eram sabidamente bons de bola.

O inesperado aconteceu: o Politheama foi surpreendido e derrotado pelo Namorados em pleno Pacaembu num jogo que teve transmissão nacional de TV. Em função disso, Chico ficou TRÊS MESES sem falar com Toquinho!!!

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TV Globo

Paraíso Tropical

No final de janeiro de 2007, a Globo anunciou que a citada gravação de "Olha" seria o tema de abertura da nova novela de Gilberto Braga, Paraíso Tropical. Porém, quando a trama entrou no ar, em 5 de março, o que se ouviu foi "Sábado em Copacabana" (Dorival Caymmi - Carlos Guinle Filho), que Maria Bethânia gravou especialmente para a novela.

Mas Chico, Erasmo e Roberto não tiveram do que reclamar: "Olha" passou a ser o tema do casal protagonista, Paula (Alessandra Negrini) e Daniel (Fábio Assunção), sendo tocada quase todo dia, principalmente na primeira fase do folhetim - até que Taís (também Negrini) assumisse a identidade da irmã gêmea que pensava ter matado.

Por Toda a Minha Vida - Tom Jobim

Em 27 de janeiro de 2007, dia em que Tom Jobim completaria 80 anos, a Globo apresentou um programa da série Por Toda a Minha Vida. Parece-me ter sido o único em que não houve passagens dramatizadas, como aconteceu nos programas sobre Elis Regina e Nara Leão.

A presença de Chico se concentrou no segundo bloco. Foi exibido um vídeo do FIC de 1968 (e não 1969, como foi identificado no final), em que Chico e Tom Jobim entravam para, ao lado de Cybele e Cynara, receberem as vaias do público que preferia que "Caminhando" de Geraldo Vandré, e não "Sabiá", ganhasse. Foi mostrado só o começo da música com as irmãs baianas; logo se cortou para a interpretação de Chico e Tom com a Banda Nova no Chico e Caetano (1986). Na seqüência, Chico e Tom conversaram na casa deste sobre "Anos Dourados"; chegou a aparecer os dois cantando o começo desta música no multipremiado e pouco exibido programa Antônio Brasileiro (1987).

Duas Caras

Outra música de Chico - "Folhetim" - foi incluída na novela que se seguiu a Paraíso TropicalDuas Caras, de Aguinaldo Silva, que estreou em 1 de outubro de 2007. A música, gravada por Luiza Possi, é o tema de Alzira (Flávia Alessandra).

Por Toda a Minha Vida - Nara Leão

O especial Por Toda a Minha Vida - Nara Leão, escrito por Patrícia Andrade, dirigido por João Jardim, apresentado por Fernanda Lima e exibido pela TV Globo na sexta, 26 de outubro de 2007, surpreendeu, teve seus méritos, mas também escorregou em alguns pontos.

As surpresas começaram já pelas atrizes que interpretaram Nara nos trechos encenados. Inêz Viegas decepcionou: sua voz era muito mais grave do que a de Nara, fisicamente ela não lembra a cantora e não foi convincente como atriz. Já Pérola Faria, que fez a Nara adolescente, esteve ótima. Além de ter ficado mesmo muito parecida com a cantora, ela soube valorizar em especial, aquele que considero o grande momento do programa: a reconstituição da primeira vez que Nara cantou em público. Colocou-se o áudio original do show de 1959, isso foi informado ao telespectador, e a sincronia da voz de Nara com a interpretação de Pérola foi primorosa. Somado a isso, após os primeiros segundos um pouco hesitantes, a Nara real mostrava mesmo que já era uma grande cantora nessa sua versão de "Se é Tarde me Perdoa" (Carlos Lyra - Ronaldo Bôscoli). Pérola Faria poderia muito bem, daqui a alguns anos, viver Nara no cinema.

Outra reconstituição interessante foi a do programa Pra Ver a Banda Passar, que Nara e Chico Buarque (interpretado por André Engracia) apresentaram na TV Record logo após a vitória de "A Banda" no Festival da Música Popular Brasileira de 1966. O Pra Ver a Banda Passar durou poucas semanas, porque, sendo os dois muito tímidos, não tinham realmente o perfil para segurar o programa, volta e meia ficando vários minutos em silêncio (isso no ar ao vivo!).



Um pecado técnico do programa apareceu nos depoimentos. Quando, por exemplo, Chico contou como escreveu "Com Açúcar, com Afeto", por encomenda de Nara, houve cortes entre um e outro trecho de sua fala. Isso faz com que a imagem dê "pulos" na tela - um amadorismo que não combina com o "padrão Globo de qualidade".

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TV Cultura

Especial Tom Jobim

Outro programa que comemorou os 80 anos do Maestro Soberano foi o exibido pela TV Cultura em 30 de janeiro de 2007. Dirigido por Fernando Faro, teve todas as características do Ensaio, menos a ambientação, já que foi gravado na casa de Tom, no Rio, em 1993.

As manifestações de Tom sobre Chico foram um misto de ironia com ternura. O maestro falou que "não conheceu" Chico, estava todo dia conhecendo-o (profundo isso!). Disse ainda que poderia ter pedido muitas outras letras a Chico, mas não queria incomodá-lo, já que Chico estava sempre tão ocupado (!!!). Destacou também a excelência da parceria de Chico com Edu Lobo, tocando na seqüência "Choro Bandido".

Outra ironia foi quando Tom falou sobre ter escrito os prefácios dos songbooks de Chico e de Edu, o que poderia abrir-lhe as portas de uma nova carreira, a de escritor de prefácios.

TV Record

Cidadão Brasileiro

Chico entrou na trilha desta novela exibida pela Record em 2006 cantando com Dominguinhos a clássica toada "A Vida do Viajante" (Luiz Gonzaga - Hervê Cordovil), lançada por Gonzagão em 1953. Pra quem não tá ligando o nome à música: ela é muito conhecida por seus versos iniciais: "Minha vida é andar por esse país/ Pra ver se um dia eu descanso feliz...".

Vidas Opostas

A trilha sonora da novela seguinte da Record teve apenas músicas de Chico Buarque (fora a abertura, com Leo Gandelman solando no sax "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso). A relação completa está disponível na página da novela na Wikipedia.

Desta forma, depois da Bandeirantes, que exibiu os 12 DVDs lançados pela EMI, a Record foi a emissora que brindou o público com o maior teor de chicos-buarques no período considerado.

* Publicado originalmente no site Brasileirinho - 13.1.2008


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O making-off desse texto já estava pronto: uma nota publicada no Mistura e Manda nº 175, de 14 de janeiro de 2008, explica sua curiosa confecção. 

Novidades no Brasileirinho

No domingo, 13, entrou no ar meu texto Chico Buarque na TV 2006-2007. Vale a pena contar o processo de criação desse texto. Ele é uma compilação de vários textos curtos (também conhecidos como "posts") que fiz na comunidade "Chicomaníacos" do Orkut, que criei em agosto de 2006.

Embora a comunidade tenha um número razoável - diria até bom - de inscritos, o fato é que na comunidade praticamente só quem escrevia era eu, o que era justamente o contrário da idéia de ter um espaço mais interativo do que o site. Na real, hoje eu penso que o Orkut não é um bom canal de interatividade, por ser um site que é ao mesmo tempo "fechado" (ou seja, o que está ali não aparece nos sites de busca) e no qual hoje qualquer pessoa pode se inscrever, com o fim da exigência de convite. Enfim, a coisa lá tá muito esquisita! Não devo excluir a comunidade, mas certamente a partir de fevereiro não vou mais "moderá-la" (até porque, com tão pouca participação, é muito remota a possibilidade de alguém se exceder!).

Voltando ao texto: relendo os posts que escrevi, notei que os que ainda poderiam despertar algum interesse lidos hoje tinham uma unidade temática - referiam-se às participações de Chico ou utilização de suas músicas em programas de TV aberta nesse período de um ano e meio (o que inclui boa parte dos 12 DVDs da megacaixa da EMI) - além de ser uma abordagem original, pois não há outro texto disponível na internet falando do mesmo assunto (pra variar...).

O único outro texto que me pareceu ter condições de sobreviver fora da comunidade e que não tinha a ver com Chico na TV eu publiquei no blog Protocolo do IncensoMeu Sonho com Chico (Com direito a Gal). 
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OBS: Fora os textos resgatados do Orkut, incluí nessa nova versão a nota "Altos e baixos no especial da Globo sobre Nara Leão", publicada originalmente no Mistura e Manda nº 171, de 27 de outubro de 2007. 


  • O blog Protocolo do Incenso, atualmente fora do ar, foi criado em 8 de janeiro de 2008 pela jornalista e atriz paulista Vanessa Morelli, que convidou para participar dele pessoas de diferentes profissões e lugares - entre eles Ruy Jobim Neto, Marcelo Teixeira, Ricardo Rayol, Leãonardo Carmo, Cris Passinato, Michel Fernandes, Domenico Hur, Lizandra Silva e eu. Foi lá que publiquei pela primeira vez o texto Palavras - Alóvena, ebaente, aliás escrito especialmente para aquele blog. Já o texto do sonho com Chico e Gal Costa eu só tinha publicado no Orkut (desativei minha conta em 2010, depois de realmente deixar de gerenciar a comunidade Chicomaníacos ainda em 2008) e no Protocolo do Incenso. Mas não se preocupem, vou preparar uma nova versão para ser publicada aqui no JC no dia 19!