domingo, 24 de agosto de 2014

Música Curitiba: Janaina Fellini


Especial 60 anos sem Getúlio Vargas



A Carta-Testamento deixada pelo presidente Getúlio Vargas a 24 de agosto de 1954 é um documento ainda hoje atual, em muitos aspectos, mas não posso de forma alguma concordar com sua última frase: "Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História."

Na História, Getúlio já estava há muito tempo - desde 1930, pelo menos - e vamos combinar que sair da vida com um tiro no coração não é lá muito sereno...


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Getúlio pequenino, homem forte sim sinhô!

Tendo sido, na República brasileira, quem ocupou por mais tempo a chefia da Nação, e das mais diversas formas (presidente provisório, presidente eleito direta e indiretamente, ditador), era natural que Getúlio se tornasse um dos políticos mais citados ao longo do século 20 nos mais diversos gêneros de arte. Busquei os exemplos citados a seguir no período do último governo Vargas (1951-1954), por entender que as homenagens dessa época se produziram espontaneamente, sem ter por trás a famigerada atuação do DIP durante o Estado Novo.

Paulo Perdigão, no conto O Dia em que o Brasil Perdeu a Copa (incluído em seu livro Anatomia de uma Derrota, L& PM, 1986), menciona que teria ouvido "uma camioneta com um enorme retrato do Getúlio" nas cercanias do Maracanã em 16 de julho de 1950 irradiando uma paródia de "Paraíba" (Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira):

"Olha, Cristiano, a cigana te enganou/ Olha Brigadeiro, o teu voto eu já não dou/ Quem vem é o Getúlio/ Que o Brasil já governou/ Pois eu mando o meu voto pra ti, pequenino/ Getúlio pequenino, homem forte sim sinhô!".

Do mesmo baião saiu o título do maior sucesso teatral de 1950: Muié Macho, Sim Sinhô, escrita por Luís Iglesias, Freire Jr. e Walter Pinto, que estreou a 26 de outubro no Teatro Recreio (Rio). Trazia o ator Pedro Dias imitando Getúlio no quadro "Tiro e queda", além de apresentá-lo dançando o "Baião do Catete". A peça manteve-se em cartaz até 25 de março de 1951, só fazendo uma paradinha estratégica para o carnaval, somando mais de 300 representações. Getúlio também era citado em mais duas peças: em agosto de 1950, a companhia do casal Juan e Maria Daniel apresentou no Teatro Follies Botas e Bombachas; enquanto Dercy Gonçalves encabeçava o elenco de Quem Tá de Ronda é São Borja, de Luiz Peixoto, produção de Zilco Ribeiro para o Teatro Glória. A temporada se estendeu de 29 de dezembro de 1950 até 1 de fevereiro de 1951.

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Retrato do Velho


O carnaval de 1951 teve um caso raro de homenagem a governante no poder, na menção a Getúlio no samba-enredo "61 Anos de República", de Silas de Oliveira, que deu o 4º campeonato seguido ao Império Serrano. A recente eleição de Getúlio era citada como o auge do período republicano - como se tudo até ali fosse apenas uma preparação:

"Hoje a justiça/ Numa glória opulenta/ A 3 de outubro de 1950/ Nos trouxe aquele/ Que sempre socorreu a Pátria/ Em horas amargas/ O eminente estadista/ Getúlio Vargas".

Outras músicas também saudaram o retorno do líder: "Getúlio Vargas" (Jaime Guilherme), "Gegê" (Claribalte Passos - Valentim dos Santos), "O Pequenino é o Maior" (Roberto Roberti) e a mais conhecida, a marcha "Retrato do Velho" (Haroldo Lobo - Marino Pinto). Gravada em 16 de outubro de 1950 por Francisco Alves, foi lançada em janeiro de 1951, constituindo-se num dos sucessos do carnaval e ganhando o 2º lugar no concurso da Prefeitura do Distrito Federal. Já em 1947 Marino compusera um samba, "Rei do Circo" (parceria com José Roy e Mário Rossi), profetizando a volta de Getúlio à presidência.

Mas não se pense que Getúlio gostou de "Retrato do Velho". Em uma visita de compositores ao Catete, Herivelto Martins apresentou ao presidente Haroldo e Marino, ressaltando que eram os autores da marcha. Percebeu então a imediata transformação da fisionomia de Vargas, que ficou subitamente sério, convidando em seguida Herivelto para mudarem de lugar no salão...


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Os artistas vão a Getúlio...


Não estranhem a presença de sambistas no Catete. Getúlio fez questão em seu último governo de manter excelente relacionamento com a classe artística. A citada visita dos compositores ocorreu em novembro de 1952, para apresentar reivindicações da classe. Ao final do encontro, Getúlio indagou a Herivelto como ia a Rádio Nacional. Herivelto comunicou que não podia responder, pois desde 1950 estava na Tupi (saíra porque a Nacional negara-se a lhe conceder 6 meses de licença para excursionar com o Trio de Ouro). Getúlio, na hora, só comentou que Herivelto Martins, "um nome consagrado", não poderia "estar fora da nossa Rádio". Dois dias depois, o diretor da Nacional, Victor Costa, telefona ao autor de "Caminhemos", para acertar sua volta à emissora...

Já a 16 de março de 1953, outros compositores, membros da SBACEM (Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Editores de Música), pediam ajuda financeira para que a entidade pudesse comprar o prédio que alugava no Centro do Rio. Getúlio acolheu o pedido, liberando recursos do IAPC (Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Comerciários). Foi também com recursos desse órgão que ele atendeu solicitação de uma comissão de radialistas, integrada por Almirante e Lamartine Babo, entre outros, para cobrir 70% das obras do Hospital dos Radialistas.

Uma das poucas vezes em que o assunto não foi prontamente resolvido foi quando Getúlio recebeu a Comissão Nacional de Belas Artes, presidida pelo pintor Iberê Camargo, em 2 de fevereiro de 1954, pleiteando a retirada das tintas importadas dos itens classificados como "supérfluos" pela Portaria 70 do Ministério da Fazenda, editada em 9 de outubro de 1953. Desta forma, o preço das tintas quintuplicou, sem que o similar nacional tivesse a mesma qualidade. Getúlio prometeu revogar a medida, mas isto só aconteceu depois de intensa mobilização da categoria, com um abaixo-assinado nacional em abril e a transformação, articulada por Iberê e Djanira, do 3º Salão Nacional de Arte Moderna em Salão em Preto e Branco (no prédio do Ministério da Educação e Cultura, no Rio, de 15 de maio a 30 de junho).

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... e Getúlio vai aos artistas


Além de receber os artistas no Catete, em várias ocasiões Getúlio foi até eles. Prestigiou, por exemplo, o baile de carnaval do Teatro Municipal (Rio) em 1951. Também passou com o elenco do Teatro Recreio uma noite de Ano Novo, ocasião em que chegou a visitar Oscarito no camarim (creio que foi a passagem de ano de 1952, quando a peça em cartaz era Eu Quero Sassaricá!, de Luís Iglesias, Freire Jr. e Walter Pinto). Oscarito, inclusive, foi elogiado como talento incomparável de comediante num discurso presidencial.

As poucas intervenções conhecidas de Getúlio em relação à produção artística no segundo governo foram a favor. Conseguiu em 1953 que a Censura liberasse a peça de Nelson Rodrigues proibida desde 1948 Senhora dos Afogados, que foi encenada pela Cia. Dramática Nacional do SNT, o mesmo acontecendo com A Falecida. Também deixou ordens para a Justiça para resolver definitivamente o caso da indenização à família Rodrigues pela destruição do jornal Crítica, de Mário Rodrigues, pai de Nelson, ocorrido no dia da vitória da Revolução de 1930, por populares revoltados com o apoio do veículo a Washington Luís. O processo, iniciado em 1935, transitou em julgado em março de 1955... (Ah, sim, o pagamento foi efetuado em 1956)

Também pôde ser exibido sem problemas o filme Nem Sansão nem Dalila (Carlos Manga, Atlântida, 1954), no qual, interpretando um político de Gaza, Oscarito parodia Getúlio. Chega a imitar sua voz e sorrir como ele em meio a um discurso aos "trabalhadores de Gaza", no qual afirmava que "a situação política nacional está uma pouca vergonha", acrescentando: "As mamatas andam soltas por aí!".

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Getúlio dá samba, filme, peça, livro, minissérie...


Pouco depois de Getúlio sair da vida, ainda em 1954, Moreira da Silva gravava um samba baseado na Carta-Testamento: "A Carta" (Marcelino Ramos - Silas de Oliveira).

A Carta, lida por Paulo César Peréio, também fazia parte do documentário Getúlio Vargas (1974), de Ana Carolina, com música original de Jards Macalé. Outro filme que o destacava como figura central foi Getúlio, Glória e Drama de um Povo (ou Getúlio Vargas, Sangue e Glória de um Povo), de Alfredo Palácios (1956).

Do mesmo ano é o último samba-enredo que o escolheu como tema: "Homenagem a Getúlio, o grande presidente" (Padeirinho), com o qual a Mangueira obteve o 3º lugar no desfile: "Salve o estadista, idealista e realizador/ Getúlio Vargas/ Um grande presidente de valor, ô ô."

Outro samba-enredo a destacar é "Dr. Getúlio" (Edu Lobo - Chico Buarque), gravado por Simone, composto em 1983 para o espetáculo Vargas, de Dias Gomes e Ferreira Gullar. Tratava-se de nova versão dos autores para a peça Dr. Getúlio, Sua Vida e Sua Glória. A peça estreara no Teatro Leopoldina (Porto Alegre) em 1968, dirigida por José Renato. O compositor Silas de Oliveira fazia parte do elenco, sendo ainda autor, junto com Walter Rosa, da música "Legado de Getúlio Vargas". Outros sambas de Walter Rosa também integravam a trilha da peça, cujo texto foi publicado em livro no mesmo ano pela editora Civilização Brasileira. Dr. Getúlio, Sua Vida e Sua Glória se desenrola numa escola de samba, que prepara seu desfile tendo como tema... Getúlio Vargas. Os fatos de sua vida e carreira política, assim, surgem no palco como reconstituições para o enredo, enquanto uma trama paralela apresenta como opostos o novo presidente da escola, Simpatia, e o antigo líder, o bicheiro Tucão. Este, inconformado com a derrota (e com a perda da mulata Marlene para o rival), retira o apoio financeiro à escola. Impedido de prosseguir os preparativos para o carnaval, Simpatia recusa-se a renunciar à presidência, mas é morto pelas Aves de Rapina (que utilizam nas suas falas trechos de discursos de Carlos Lacerda...).

Na ficção, o livro mais conhecido sobre Getúlio é Agosto, de Rubem Fonseca (1990). Até 1998, o livro foi publicado no México, Colômbia, Portugal, Itália, Espanha (nestes 5 países com o título original), mais Holanda, França (2 edições) e Alemanha. Gerou ainda uma minissérie da TV Globo em 16 capítulos, exibidos a partir de 24 de agosto de 1993. Com roteiro adaptado de Jorge Furtado e Giba Assis Brasil e direção de Paulo José e Carlos Manga, teve José Mayer interpretando o comissário de polícia que, em agosto de 1954, investiga o assassinato de um empresário e vai descobrindo ligações desse caso com o atentado a Carlos Lacerda na rua Tonelero, culminando com o fatídico dia 24.


* Publicado originalmente no 
Mistura e Manda nº 63, de 23.8.2004,
 como "50 anos sem Getúlio Vargas"

sábado, 23 de agosto de 2014

Fotos: Sesc Amazônia das Artes em Macapá

Nesta semana, acompanhei dois eventos da programação do SESC Amazônia das Artes aqui em Macapá. Pra quem não sabe, é um evento que os SESCs da Amazônia Legal realizam duas vezes por ano (maio e agosto), promovendo a circulação de espetáculos de música, dança e teatro, além de filmes, por 10 estados (toda a região Norte, mais Maranhão, Piauí e Mato Grosso).  

Estas primeiras fotos são do show Inoromô, do grupo maranhense Afrôs, cuja formação tem predominantemente (mas não exclusivamente) mulheres tocando percussão. O repertório, de composições próprias, traz também surpresas como cantos indígenas. O show aconteceu na segunda, 18, no SESC Centro. 



Grupo Afrôs degusta a gengibirra amapaense


Já agora, no começo da noite do sábado, em frente à Casa do Artesão, assisti a montagem do grupo Visse Versa, de Rio Branco, para As Mulheres de Molière, uma colagem de textos do comediógrafo francês do século 17 relidos pela graça e pela musicalidade brasileiras. A música permeia o espetáculo todo, cuja encenação recorre, mas sem se apoiar exclusivamente, em elementos da commedia dell'arte. O resultado é um espetáculo de rua delicioso, que interage o tempo todo com a platéia (o que fica muito interessante quando o grupo tem pela frente, ou melhor, ao seu redor, um povo tão caloroso e receptivo como o macapaense). 






sábado, 16 de agosto de 2014

Opinião Cinema: Junto e Misturado reforça estereótipo da "família feliz"

Por Calila das Mercês, 
de Salvador






Para quem não é tão exigente e gosta de filme como os da Sessão da Tarde, água com açúcar, para dar umas risadas, mas não esperar discussões muito profundas, este é um bom filme. Junto e Misturado (Blended, 2014), dirigido por Frank Coraci e escrito por Ivan Menchell e Clare Sera, é uma comédia romântica que conta a história de duas famílias que se encontram em férias para lá de desafiadoras, depois de um encontro “romântico” frustrado dos protagonistas Jim Friedman (Adam Sandler) e Lauren Reynolds (Drew Barrymore), pais solteiros que tentam criar os respectivos filhas e filhos da melhor forma.

Na verdade, o único trunfo do filme é o reencontro da parceria dos dois atores, que considero bons no gênero que atuam. Sandler e Barrymore trabalharam anteriormente em Afinado no Amor (The Wedding Singer) e em Como Se Fosse a Primeira Vez (50 First Dates).

O que acho retrógrado em um roteiro contemporâneo é um conteúdo raso e artificial, coberto de piadas de mau gosto, além da visão machista de que um pai solteiro não é capaz de educar bem garotas e uma mãe solteira também não é eficaz na criação de garotos, trazendo à tona a necessidade da família tradicional, baseada em princípios cristãos: pai, mãe e filhos (só faltou um animal de estimação pra completar!). Algo que me deixou intrigada e chateada é a visão estereotipada dos africanos. As férias em questão foram na África e não em um país da África. No filme, africanos agem como engraçados, dançarinos, músicos e exóticos. Queria ver férias reais, algo mais realístico. África não é um circo e sim um continente plural.



Está na hora de se produzir humor sem subestimar a capacidade das pessoas. Hoje, família é vista como algo mais abrangente. Mães e pais solteiros se bastam e não precisam mais da alavanca de sustentação do outro. Acho perigoso tipos de abordagens como estas, e em jovens adolescentes não refletirem sobre o que estão vendo.





Pois bem, é preciso ter senso crítico até ao rir de piadas indelicadas, como de uma idosa que se acidenta em um passeio de quadriciclo na savana. Mas para quem segue a risca o jargão “gosto de ir ao cinema para rir”, pode ser que o filme funcione.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Opinião Cinema: A culpa é das estrelas? Não, das lágrimas!

Por Calila das Mercês,
de Salvador

A Culpa é das Estrelas : PosterSabe quando a reação do público diante de um filme parece mais importante do que o próprio filme? Desde que ouvi falar de A Culpa é as Estrelas a polêmica se dava em torno dos espectadores, como se o sucesso do filme dependesse do choro ou não dos que iam assistir.

O filme une os gêneros drama e romance e é baseado no best-seller homônimo – A Culpa é das Estrelas (The Fault in Our Stars, 2012) – do escritor americano John Green, que conta a história de perdas e sonhos dos jovens Hazel Grace Lancaster (Shailene Woodley) e  Augustus Waters (Ansel Elgort). Eles se conhecem em uma reunião de grupo de ajuda a pessoas com câncer e passam a construir uma história alicerçada em afinidades.


Segundo sites especializados em cinema no Brasil, o filme já assumiu a dianteira da maior bilheteria do ano, ultrapassando Malévola e o número de 5 milhões de espectadores. Assim como outros filmes que se inspiram em adaptações literárias (o que acaba se constituindo numa dobradinha de vendas), a produção se utiliza em seu enredo de fórmulas já conhecidas para seduzir e envolver o público. Em momento nenhum se esquece que os jovens são doentes em estado quase terminal.



De tanto tentar fugir da “história de amor perfeita” ou de um “mundo perfeito”, o roteiro pesa a mão no drama, conseguindo, assim, passar muito longe de um realismo que ele mesmo tenta forjar.

Não existe destaque para a trilha sonora ou fotografia. Todas permanecem no lugar comum das produções de estúdio americanas. Apenas a atuação dos protagonistas é envolvente e permanece acima da média.

O estigma do choro fica compreensível, pois o que mais importa na produção é a utilização recursos de comoção do público. Se eu chorei? Não. E daí??

Música Ribeirão Preto: Gafieira Carioca


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Caetano Veloso, 72 anos

Por Ramona Gemaque

Inicia-se mais um domingo. Caetano está sozinho, Bethânia, Gal e Gil foram até Sampa ver de perto o Menino do Rio de quem tanto ouviram falar. Aproveito a sorte e sutilmente me aproximo. Ao me ver exclama com alegria, alegria: Você é linda, me lembra a garota de Ipanema, exala beleza pura! 
Coisa mais linda foi ouvir palavras tão belas, que, diferentes de outras, não tinham o dom de iludir. Pedi logo um abraçaço, e ao tocar debaixo dos caracóis dos seus cabelos, sussurrei baixinho uma oração ao tempo, desejando que o mundo parasse de girar, para que pudesse ficar alí, junto daquele leãozinho. Senti uma força estranha que me fez voar na asa do vento, e uma felicidade sem tamanho. 
Caetano me convidou para dançar, colocou na vitrola um velho disco, e lembrando-se da época em que era proibido proibir, exclamou: A bossa nova é foda, mas prefiro a tropicália! 

Tomamos um vinho, pedi que tocasse "Rapte-me Camaleoa", e sob o céu de Santo Amaro, naquela noite vivemos Nosso estranho Amor.


Ramona Gemaque com Fabio Gomes
em foto de Prsni Nascimento

Exposição Macapá: A Gravura de Lasar Segall


terça-feira, 5 de agosto de 2014

Exposição Belém: O Mundo de Dentro pra Fora


Macapá: Bancos do Formigueiro foram destruídos nesta terça (exclusivo!)



Exatamente às 16h45, uma equipe formada por dois funcionários da  Secretaria Municipal de Manutenção Urbanística (Semur) da Prefeitura Municipal de Macapá concluiu o serviço de que fora encarregada: a remoção dos bancos que ainda existiam no Largo dos Inocentes, popularmente conhecido como Formigueiro, um local histórico na área central de Macapá. A foto acima retrata como o local ficou após a saída da equipe.

Afora eu, não havia mais nenhum profissional de imprensa no local, de modo que podemos afirmar sem erro que esta publicação se trata de um material exclusivo do blog Jornalismo Cultural

Fui alertado do fato via Facebook: perto de 16h, um amigo meu compartilhou um aviso de que os bancos do Formigueiro estavam sendo destruídos naquele exato momento. Em seguida, me dirigi para lá, encontrando os dois funcionários da Semur. Perguntei a eles se sabiam o que se pretende fazer no local e eles me responderam que só tinham orientação para remover os bancos, sem maiores detalhes.

O Formigueiro, junto com a orla do rio Amazonas, se constitui num dos lugares mais antigos de ocupação de Macapá. O nome popular Formigueiro vem das casas que havia no local até os anos 40, todas muito juntas, lembrando um formigueiro. Mas por volta de 1947, a população do local, na maioria constituída de afro-descendentes, foi removida para outros bairros, a exemplo do que já acontecera com os moradores da orla em 1943, quando da instalação do Território Federal do Amapá (removidos da orla, os negros macapaenses fundaram os bairros da Favela, hoje Santa Rita, e do Laguinho).

Atualmente, o Formigueiro tem servido como ponto de encontro da população jovem, da capital, em especial à noite. Um dos pontos preferidos de reunião era justamente onde haviam os bancos destruídos hoje. Há poucas residências no entorno do Largo (que fica atrás da Igreja de São José, antiga catedral, e ocupa o trecho da Mendonça Furtado entre São José e Tiradentes), as principais edificações em redor são um shopping center, alguns comércios, a igreja citada e uma secretaria estadual. A maioria dos quais nem funciona à noite. De toda maneira, não estamos mais em 1947 e o bom senso, ao menos, recomenda que antes de se fazer uma intervenção dessa natureza num espaço público e histórico se proceda antes a uma ampla consulta pública.

Este era o aspecto do Formigueiro à hora que eu cheguei, aproximadamente 16h15 (o que indica que a equipe já estava trabalhando há algum tempo):



A equipe seguiu trabalhando tranquilamente, mesmo após a minha chegada e vendo que tanto eu quanto alguns transeuntes tiravam fotos:




Perto dali, policiais exerciam uma vigilância discreta e que não chegou a interferir de modo algum no período em que permaneci no largo.



Foi aí que, quando um dos funcionários marretava um dos bancos, se aproximou um grupo de estudantes.



Uma delas, chamada Flávia, ficou chocada com o que viu e, indignada, perguntou aos funcionários por que eles faziam aquilo.



Eles explicaram e Flávia resolveu sentar em um dos bancos, enquanto continuava conversando com os dois para tentar entender o sentido de tudo o que acontecia ali.





De todos os presentes no Formigueiro naquele horário, Flávia foi a única que tomou uma atitude de questionamento de toda aquela situação. 




Por fim, vendo que os funcionários seguiam sem alterações as ordens recebidas, Flávia acabou se levantando do banco onde estava. 


Perto das 16h45, os funcionários deram o trabalho por concluído...


... dirigindo-se para a viatura da Semur e deixando o local...




... assim.



  • Desde as 17h30, quando comecei este post e divulguei sua foto de abertura no Facebook, algumas pessoas têm dito que haveria assaltos e outras violações da lei no Formigueiro. Embora eu não tenha presenciado nem assaltos nem outras situações relatadas, penso que violações da lei se resolvem ou mesmo se previnem com policiamento, não vejo como a remoção dos bancos possa influir nisso. 


  • Atualização 6/8, 14h32: ontem, quando a equipe saiu, o banco amarelo onde Flávia se sentara havia permanecido intacto. Hoje, perto de 11h, o referido banco já fôra transferido para o lado de outro idêntico, poucos metros adiante, para o lado da rua Tiradentes. O banco transferido foi fixado no chão de um modo que não consegui identificar (é o da esquerda na foto ao lado; já o da direita, que sempre esteve ali desde que conheço o largo, está cimentado no chão). 

Afora eu, não havia naquele momento ninguém no largo, então se o objetivo da remoção dos bancos era afastar a população de um espaço público, ele foi plenamente atingido. 






  • Atualização 8/8, 15h50: Perto de 13h, estive no largo, constatando que até os bancos amarelos já foram retirados. No lugar destes e dos outros bancos já retirados na terça, apenas círculos de cimento.




A presença de intervenções feitas sobre o cimento ainda fresco indicam que aconteceu hoje mesmo este último ato no sentido de apagar qualquer vestígio de que um dia o largo teve bancos. Ao nome da já citada Flávia, soma-se o de Kelvin como um dos resistentes à descaracterização do local sem consulta alguma à população.