segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A propósito de Halloween, Dia do Saci e outras patrulhas

1 - A primeira vez que ouvi falar em 'Dia do Saci' foi em 2003, quando estive em São Paulo cobrindo o Festival de Música Instrumental, que foi nesta época do ano (final de outubro, começo de novembro, por aí). Amigos músicos do grupo Sociedade do Choro me levaram a um bar próximo ao Ó do Borogodó onde havia uma roda de choro toda noite de segunda, e lá em algum momento alguém falou de 'Dia do Saci', explicando que seria uma 'reação' ou 'resposta' brasileira ao Haloween. Na hora, eu achei aquilo tão desconectado de qualquer coisa que parecia uma daquelas brincadeiras que volta e meia eu posto no Facebook, tipo imagina se ninguém mais se meter na vida dos outros, que louco seria!

2  - Não muito tempo depois, talvez ainda naquela viagem, ou quem sabe no ano seguinte, eu soube da existência em Sampa de uma Sociedade Amigos do Saci, ou algo assim, que faria anualmente em 31 de outubro uma festa pelo 'Dia do Saci', sempre, claro, como uma "resposta brasileira" ao Halloween. Ignoro se a festa continua acontecendo, imagino que não, pois jamais ouvi referências a ela depois disso. 

3 - Foi só bem recentemente, em função da existência do Facebook, que voltei a ouvir falar de tal 'festividade', o 'Dia do Saci'. Mas, enquanto os convites para festas de Halloween são postados já a partir da metade de setembro, as referências ao 'Dia do Saci' iniciam, quando muito, no dia 30 de outubro. Geralmente é mais no dia 31 mesmo e acabou. Os escassos posts sempre reforçam o caráter de 'resposta brasileira' contra o que seria uma invasão, ou algo parecido, do Halloween. 

4 - Só que existe nisso tudo uma coisa muito engraçada (ou, vai ver, até mais de uma... ;) O brasileiro, não comemora, de fato, o Halloween. Como todo mundo que leu revistas Disney na infância nas décadas 1960-80 sabe, no Dia das Bruxas norte-americano, crianças saem fantasiadas pela vizinhança batendo nas casas e fazendo a pergunta clássica "Travessuras ou gostosuras?" Invariavelmente (ao menos nas histórias Disney), recebem doces, de modo que eu nunca soube quais seriam as travessuras perpetradas caso não viessem as 'gostosuras'. E é isso, gente, é essa a 'famigerada' comemoração do Halloween norte-americano! Uma coisa que não ultrapassa os limites da vizinhança e que não incomoda ninguém, salvo um que outro vizinho mais rabugento.

5 - E como é que no Brasil se "comemora" o Halloween? Com festas temáticas, que podem ou não ser a fantasia, sejam estas festas em casas particulares, seja em boates e tal. Nenhum sinal de crianças fantasiadas pedindo doce para os vizinhos. Eu conheci ainda bem novo essas festas temáticas, pois minha mãe era professora de Inglês - sim, pessoas, durante muito tempo as "comemorações" do Halloween no Brasil se restringiam às escolas de Inglês. Talvez o incômodo que gerou a idéia do 'Dia do Saci' tenha começado quando as tais festas deixaram de ser feitas apenas nos cursos de idiomas e foram abraçadas pelas casas noturnas. Mas que tanto incômodo isso gera, afinal de contas? É só mais uma festa temática entre trocentas que tais estabelecimentos fazem ao longo do ano - nem todas "fomentando" a cultura nacional, evidente, pois não é pra isso que alguém se torna empreendedor noturno. 

6 - Em tempo: não tenho nada contra o Saci Pererê, personagem aliás que goza da minha mais ampla simpatia. Não lembro qual versão conheci primeiro, talvez tenha sido o Saci dos quadrinhos do Ziraldo, ou - mais provavelmente - o Saci do Sítio do Pica-pau Amarelo, inicialmente na adaptação para a TV dos anos 1970, e pouco depois nos livros de Monteiro Lobato, e mais tarde em vários filmes - isso sem falar que o Saci é o personagem símbolo do Inter de Porto Alegre. 

7 - Por tudo isso, entendo que, sim, o Saci deva ter um dia dedicado a ele, por que não? Mas também não compactuo da idéia de que a melhor data para isso seja 31 de outubro, nem a melhor motivação para isso seja uma "resposta brasileira" à "invasão do Halloween" - até porque, como já disse, não vejo invasão alguma. Por que não eleger uma outra data sem essa motivação algo estranha (ao menos para mim) e celebrar de fato, sim, o Saci e até mesmo outras figuras do nosso imaginário, como o Curupira, a Mula-sem-Cabeça, a Cuca etc etc? 

8 - Porque uma coisa é fato: a batalha contra o Halloween já nasce perdida. Quem quer fazer sua festa temática alusiva às bruxas no final de outubro vai fazer, independente de quem postar no dia 30 e 31 que isso é uma "invasão" (e, peloamordy né, não é). E com isso se perde a oportunidade de ter um dia que de fato seja uma homenagem ao Saci e cia. Ou então, se é pra manter a data dedicada ao Saci em 31/10, que se faça uma divulgação mais ampla das programações que comemorem a data (embora, como eu já falei no começo, não tenho visto mais comemoração alguma faz teeempo). Enfim, se se pretende mudar um imaginário mais que consolidado mundialmente, não vejo outro caminho senão fazer eventos para promover o que se quer, divulgar muito e persistir mais ainda - e deixar os mimimis de 'fomos invadidos' de lado.

9 - Até porque se formos levar essa questão nacionalista tão a sério, precisaríamos urgentemente de criar eventos para substituir  carnaval, Páscoa, Dia do Trabalho, festas juninas, réveillon, Natal e todas essas festas estrangeiras importadas, afinal, vai que elas resolvem ameaçar a pureza da cultura brasileira ;)

  • Making-off do texto - Um dos poucos escritos que fiz especialmente para publicar no Apontam Estudos, blog que lancei há dois anos e cuja principal função era ser uma antologia do meu Facebook pessoal. Foi publicado lá há exatos dois anos (31.10.14). O lançamento do recurso 'Lembranças' pelo próprio Facebook tirou a razão de ser daquele blog. 

sábado, 29 de outubro de 2016

Zé Celso: Tropicalismo, Oswald & Outras Bossas




O diretor José Celso Martinez Corrêa, um dos maiores nomes do teatro brasileiro, esteve no Solar dos Câmara (Porto Alegre) em 24 de julho de 2004, narrando sua batalha para convencer o Grupo Sílvio Santos a desistir de construir um shopping center no terreno destinado às arquibancadas do Teatro Oficina, no bairro da Bela Vista (São Paulo). Zé Celso confessa que não sabe como isso vai terminar, mas revelou que Sílvio sensibilizou-se com a causa em recente visita ao Oficina. Pudera: a recepção cantada que lhe prepararam iniciou com uma "Ave Maria" e durou cerca de uma hora e meia. Só depois disso tratou-se de negócios. A mais recente adesão à causa de Zé Celso é do arquiteto Oscar Niemeyer, que projetou uma arquibancada em curvas, com desníveis que tanto podem acomodar espectadores como compor a cenografia - seriam ideais, por exemplo, para a peça que o Oficina deve estrear em novembro: Os Sertões - A Luta (I), com as três primeiras expedições a Canudos (a quarta expedição fica para a peça que encerra o ciclo iniciado em 2002 com Os Sertões - A Terra, seguida de duas partes de Os Sertões - O Homem). Mas é pouco provável que o projeto de Niemeyer possa ser executado até novembro.

Com destacada atuação na época do Tropicalismo (dirigiu as duas únicas peças que se considera integrarem o movimento, O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, em 1967, e Roda-Viva, de Chico Buarque, em 1968), Zé Celso considera que o Tropicalismo não acabou. Ao contrário, está cada vez mais forte: "Em todo o mundo, São Paulo, Nova York, Londres, a periferia está comendo o centro". As manifestações culturais mais fortes de hoje vêm da periferia, como o hip hop, o funk e o rap. "Não é o centro, que se mantém conservador e burguês, que renova a cultura".

Isso não é de hoje, observa: a periferia já legou manifestações como o samba e o maracatu, cercados de um certo luxo - característica que foi abandonada por produtores culturais que, ao longo do século 20, colocaram a arte a serviço de causas sociais, econômicas ou políticas. "A arte tem que ser feita pela arte. O teatro militante apequenou o teatro, o importante era a militância." Vê uma certa culpa cristã no processo, que levaria os praticantes do teatro militante a um resultado visualmente feio e artisticamente discutível. Cita como exemplo o Teatro do Oprimido, de Augusto Boal. Ressalva: Zé Celso respeita Boal como artista, mas crê que hoje a mensagem do Teatro do Oprimido já não tem razão de ser.

- Vivemos um outro momento. O rap trouxe novamente à cena a rima, abriu a possibilidade de fazer uma coisa rimada, o teatro em versos. Hoje é possível você encenar uma peça em versos de Shakespeare por causa do rap. No tempo dos pequenos burgueses (provável referência à peça Os Pequenos Burgueses, do russo Máximo Gorki, que o Oficina montou em 1963) não tinha como você fazer isso.

Resultado de imagemLamenta que, dos dois cinqüentenários importantes assinalados em 2004, só se fale do suicídio de Getúlio Vargas e se esqueça completamente da morte de Oswald de Andrade, também ocorrida em 1954:

- Oswald em 1928 já dizia que não era mais modernista: era pós-moderno, e datava o início do Brasil a partir do dia em que os índios devoraram o bispo Sardinha (esta manifestação de Oswald, inspirado pela tela Abaporu, de Tarsila do Amaral, funda o Movimento Antropofágico). Oswald é um artista fundamental para o Brasil, mas não é reconhecido. Não é conhecido. Ainda quero montar dele a peça O Homem e o Cavalo, que é uma maravilha. É uma peça escrita contra o stalinismo, mas não ficou datada. É atualíssima.

Roda-viva (declarações de José Celso Martinez Corrêa exclusivas ao Brasileirinho):
  • O Chico Buarque sofreu muita pressão na época do Roda-Viva. A maioria dos amigos dele era contra.
  • Uma das músicas do Roda-Viva, "Sem Fantasia", teve uma gravação horrível no disco Chico Buarque e Maria Bethânia ao Vivo (1975). Um não ouvia o outro, e vinha aquela orquestra forte em cima.
  • Uma bela gravação é "Cálice" (Chico Buarque - Gilberto Gil), com Bebel Gilberto e Miúcha (no LP Miúcha e Tom Jobim, 1979).
  • Bebel se inspira muito no pai dela (João Gilberto), que é O rigor.
  • Adoro João Gilberto.
  • Fiz um show, cantando, com José Miguel Wisnik no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio em 5 de maio. Combinamos de voltar a apresentá-lo.
  • Além dos poemas e das peças, Oswald tem livros com estudos filosóficos que pouquíssima gente conhece.
  • Caetano Veloso só foi conhecer Oswald quando o Oficina montou O Rei da Vela, mas intuitivamente já estava praticando o Antropofagismo.
  • Participei como ator do clipe da música "O Estrangeiro", do Caetano.
  • Gilberto Gil não gosta de teatro. Só respeita o Oficina, mas não gosta de mim pessoalmente.
  • Quero muito vir com Os Sertões a Porto Alegre, no (festival de teatro) Porto Alegre em Cena, mas isso depende da decisão da organização do festival. Fica caro porque é muita gente (60 pessoas em cena), mas pode ser feita uma estrutura cênica mais simples que a que fazemos no Oficina.
  • Tô com uma saudade do Caetano!

***

Making-off do texto - Zé Celso esteve em Porto Alegre a convite da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, que anualmente realiza seminários e debates sobre temas teatrais. Após assistir o debate, aberto ao público, fui convidado por Zé Celso para jantar com a organização do evento, no Bar do Beto (se não me engano, o da av. Venâncio Aires), onde então pude colher as declarações exclusivas reproduzidas na parte final do texto. 
  • A saga imobiliária do Teatro Oficina, 12 anos depois dos episódios relatados no começo do texto, ainda não acabou, como podemos ler no mais recente post publicado por Zé Celso em seu blog: Vitória da nossa paixão


sábado, 22 de outubro de 2016

Opinião Cinema: Madame Satã



Grande ano, 1932. Não politicamente, é certo: São Paulo pegava em armas para exigir a convocação de uma Assembléia Constituinte para a qual o “governo provisório” de Getúlio Vargas já marcara eleições. Mas, na área do samba, incomparável. O rádio era autorizado por lei a veicular anúncios, passando a incluir cada vez mais a música popular em sua programação. Vivia-se o auge da incrível dupla Francisco Alves e Mário Reis, abastecida por pérolas de Noel Rosa, Ismael Silva, e outros bambas, como Lamartine Babo – este, aliás, o grande vencedor do carnaval, com o controverso “O Teu Cabelo Não Nega”, cujo disco não indicava os verdadeiros autores da marcha, os Irmãos Valença. Carmen Miranda já arrancava suspiros dos rapazes – arrancaria mais ainda em breve. Já na música romântica, Vicente Celestino era o maior cartaz. É, grande ano, 1932.

Pois não foi preciso usar mais que esse ano para Karim Aïnouz contar a história de Madame Satã (Brasil, 2002, 100min), o célebre transformista da Lapa. O bairro das quatro letras era o reduto boêmio do Rio de Janeiro (então Capital Federal) e por seus bares, cafés, cabarés e prostíbulos (dizia-se “casa de tolerância”) passava a nata da música brasileira.

João Francisco dos Santos (Lázaro Ramos) era o que hoje seria definido como um excluído: negro, pobre, homossexual. O futuro Satã não levava desaforo para casa e envolvia-se seguidamente em brigas, como quando tenta entrar no seletíssimo clube High Life, freqüentado apenas pela elite... branca. João trabalha como camareiro da vedete Vitória (Renata Sorrah), que é tudo o que ele quer ser. Um dia, a estrela o pega com a roupa que ela, Vitória, deveria usar dali a pouco em cena. Revoltada, ela o humilha. João foge, não sem antes ferir a estrela e obrigar o empresário dela (Floriano Peixoto) a lhe pagar os salários atrasados.

A polícia invade a casa onde João mora com Laurita (Marcélia Cartaxo), a filha desta e Tabur (Flávio Bauraqui), outro transformista, que o ajuda em golpes de “suador” (onde eles atraem rapazes prometendo amor para furtar dinheiro). João foge, mas, a conselho de um rapaz que o ama (apesar de ter caído no “suador”), Renatinho (Fellipe Marques), entrega-se. Aliás, a concisão da seqüência da entrega, prisão e soltura demonstra um grande domínio da narrativa cinematográfica.


Solto, João procura seu velho amigo Amador (Emiliano Queiroz), dono de um bar, que lhe oferece emprego. Vendo aí sua grande oportunidade artística, João, a pretexto de comemorar o aniversário de Laurita, é autorizado a fazer um espetáculo (onde canta “Noite Cheia de Estrelas”, de Cândido das Neves). Um incidente após o espetáculo quase faz João perder a cabeça, mas ele (incrivelmente) se controla.

O grande sucesso autoriza João a repetir a dose, interpretando “Mulato Bamba” (Noel Rosa), e “Ao Romper da Aurora” (Ismael Silva – Lamartine Babo – Francisco Alves). Mas há outro incidente, a reação de João é outra e isso, digamos, muda seus planos imediatos para a vida.



O filme, que até aí vai num ritmo delicioso (mal se percebe o tempo passar), apela então para a velha solução de letreiros tipo “depois disso, nosso herói fez isso, isso e aquilo”. Felizmente, alternando com um desfile do bloco Caçadores de Veado, ao som de uma grande batucada - escrita especialmente para a fita pelos diretores musicais, Marcos Suzano e Sacha Amback. Eles foram felizes tanto nos temas que criaram quanto na seleção de repertório – que incluiu, além dos sambas já citados, “Fita Amarela” (Noel Rosa), “Na Batucada da Vida” (Ary Barroso – Luiz Peixoto) (aliás, música de 1934) e o campeoníssimo “Se Você Jurar” (Ismael Silva – Nilton Bastos – Francisco Alves).

Filmado na própria Lapa, Madame Satã consegue se destacar como um dos melhores filmes num ano de boa safra do cinema brasileiro – basta pensar em Cidade de Deus, Abril Despedaçado, Avassaladoras,A Festa de Margarette, Bellini e a Esfinge. Grande ano, 2002.



  • Making-off do texto - Publicado originalmente no site Brasileirinho em 2003. Também fez parte da minha brevíssima primeira experiência com blogs, no mesmo ano - republiquei num blog alguns textos sobre filmes saídos no site, para testar a ferramenta. 

sábado, 15 de outubro de 2016

O Encouraçado Potemkin e Guerra de Canudos - A História no Cinema

A intenção deste texto é analisar a forma como os filmes O Encouraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein (URSS, 1925) e Guerra de Canudos, de Sérgio Rezende (Brasil, 1997) abordaram os fatos históricos que foram seu ponto de partida.


Em Potemkin, Eisenstein nos fala da Revolução de 1905 na Rússia, através da revolta dos tripulantes de um navio (que dá título ao filme) contra a comida podre que lhes era servida. O líder da revolta é morto e levado a Odessa para ser sepultado. A chegada do navio à cidade faz o povo apoiar os revoltosos, havendo confronto entre soldados e população.

Canudos mostra a luta do Exército brasileiro contra uma comunidade messiânica do sertão da Bahia no final do século 19, por meio da história de uma família que se divide por divergências em relação ao líder da comunidade, Antônio Conselheiro. O sentimento de lealdade ao líder faz Canudos resistir a várias expedições militares até o aniquilamento completo.

Fidelidade dos roteiros em relação à História

Acredito que é exagerado o uso do termo "Revolução" para os acontecimentos ocorridos na Rússia em 1905, "revolta" ficaria melhor. Após a derrota do país na guerra contra o Japão pela posse da Mandchúria, o povo russo se levantou contra o czar Nicolau II, forçando-o a aceitar a limitação de seus poderes com a criação da Duma, assembléia legislativa com membros eleitos pelo povo. Uma vitória importante, com certeza, mas esvaziada porque a Duma jamais teve condições de funcionar como um parlamento de país democrático enquanto durou o czarismo. Nada disso, porém, aparece em Potemkin. O espectador que não tenha esse conhecimento prévio pode ser levado a crer que tudo aconteceu por causa de um quarto de boi podre. Também não é citada a conseqüência política da, vá lá, Revolução, a criação da Duma. Isto, claro, não invalida o filme, mas este com certeza ficaria enriquecido com mais um ou dois letreiros que esclarecessem isso. Até causa estranheza a ausência dessa contextualização, quando se tem em mente que Potenkin foi uma encomenda do governo da União Soviética para comemorar os 20 anos do movimento.


Em Canudos, o espectador também fica sem saber os antecedentes. Rezende não explica a origem do Conselheiro, e apenas uma fala e alguns letreiros bem no início abordam suas três décadas de pregação pelo Nordeste antes de escolher Canudos para sediar sua comunidade de fiéis. No filme, porém, vemos Conselheiro apenas como um líder religioso, cabendo o comando civil e militar do arraial a um "estado-maior" (Vilanova, João Abade, Pajeú e Beatinho), em desacordo com o narrado no livro de Euclides da Cunha, Os Sertões, que ressalta que o comando de tudo era do Conselheiro. As expedições militares contra Canudos estão bem realizadas, com impecável reconstituição de época. Rezende resolveu o que seria a maior dificuldade narrativa - como apresentar a vida no interior do arraial? - criando uma família, os Lucena, que se divide logo no começo da ação, porque uma das filhas, Luísa, foge, por não confiar nas promessas de salvação do Conselheiro. É uma solução interessante, pois as informações sobre o dia-a-dia em Canudos são escassas, as fontes principais são os relatos dos militares e o de Euclides da Cunha. Por conta da família fictíca, porém, acaba ocorrendo um arranhão na fidelidade histórica do final. Euclides conta que apenas três homens e um menino sobreviveram ao massacre; no filme, além da protagonista Luísa, o diretor poupou a vida de sua irmã Tereza, que vivia no arraial.

Eisenstein não chega a empregar ficção em Potemkin; o que fez foi concentrar na seqüência da escadaria de Odessa eventos revolucionários que se deram ao longo do ano de 1905 em várias cidades russas. Mas a lona cobrindo os amotinados a bordo do navio, por exemplo, nunca teria existido, de acordo com Georges Sadoul (Dicionário de Filmes, L&PM, 1993). Não posso, porém, deixar de assinalar o anacrônico uso da expressão bolchevique para qualificar o marinheiro Vakulintchuk. O termo só passou a ser empregado em 1914 para designar a facção com maior número de integrantes do Partido Comunista. Como o governo de 1925 e o próprio diretor eram bolcheviques, é provável que a expressão se destinasse a mostrar que o líder da revolta de 20 anos antes era alguém que compartilhava das mesmas idéias que vieram a derrotar definitivamente em 1917 o czarismo. Isto, e mais a grandeza do funeral, sugerem a elevação de Vakulintchuk à condição de mártir.

Semelhanças e diferenças

Não considerando os prenomes dos diretores (Sergei e Sérgio), o que há de diferente ou de semelhante entre Potemkin e Canudos?

Basicamente, ambos os filmes falam da mesma coisa: o povo unido lutando por uma vida melhor, desafiando a ordem estabelecida e enfrentando as forças da repressão.

O lugar que esse povo ocupa na narrativa é diferente, porém. Em Potemkin, o povo é o personagem principal. O espectador jamais perde de vista os marinheiros revoltados ou a população que os apóia. Algumas pessoas se destacam do conjunto (Vakulintchuk, a mãe que sobe a escadaria com o filho morto), mas nunca por muito tempo. Já em Canudos, o povo, embora também importante, nem sempre é o protagonista. Isto se dá mais na primeira parte, quando Rezende mostra o final da peregrinação do Conselheiro e o estabelecimento do arraial. Dali em diante, a narrativa centra-se na família Lucena e nas expedições militares.

Essa diferença do papel reservado ao povo na trama é fundamental para o caráter de cada filme. Potemkin apóia abertamente os revoltosos, o que não se dá com Canudos. Este tem o mérito de, sem tomar partido de forma explícita, apresentar os sertanejos como uma comunidade que se bastava economicamente e que apenas queria viver de acordo com suas convicções religiosas - de modo sutil, Rezende nos aponta o massacre como absurdo.

A interação desejada com o povo em cada filme também produziu as diferenças dos funerais exibidos. O do marinheiro é grandioso, pois era do interesse dos revoltosos que a população soubesse que o líder fora morto por oficiais do império. Já o do Conselheiro é discreto, porque o "estado-maior" não queria que as forças republicanas soubessem de sua morte; a notícia, se espalhada pelo arraial, também poderia tirar o ímpeto dos sertanejos para o combate. Aliás, uma das poucas falhas do filme é não ter resolvido bem a cena da morte do Conselheiro: em uma cena, ele despede os fiéis, querendo ficar só; mais adiante, toma um livro; em outra cena, aparece sem vida (o espectador fica com uma sugestão de suicídio).

Como semelhanças, aponto duas, uma narrativa, outra visual. A narrativa: Potemkin inicia com a discussão em torno da carne de boi podre. Canudos abre com as vacas da família Lucena, que já as "apalavrara" num negócio, sendo levadas pelos soldados. A visual: perto ao final de cada filme, um canhão se destaca; na fita russa, é o canhão do navio que destrói portais, durante a cena da escadaria; no filme brasileiro, o potente canhão do Exército conhecido como a matadeira derruba a igreja do arraial e inicia a seqüência da destruição total de Canudos.


  • Making-offf do texto - Escrito como trabalho da disciplina Fundamentos de Cinema, ministrada pelo professor Giba Assis Brasil, em meu curso de Comunicação Social - Jornalismo na UFRGS, creio que em 1998. Lembro que a proposta consistia em comparar dois filmes; se não me engano, ...Potemkin foi passado em sala de aula, e cabia a cada aluno escolher o outro filme. Optei por ...Canudos, que havia visto na estreia - apenas uma vez! - no ano anterior. Publicado no site Jornalismo Cultural em 2007.

sábado, 8 de outubro de 2016

Pixinguinha em Porto Alegre

Estatua_PixinguinhaO compositor, flautista, saxofonista e maestro Pixinguinha (Alfredo da Rocha Vianna Filho, 1897-1973), eternamente lembrado por ser o autor de “Carinhoso”, apresentou-se duas vezes em Porto Alegre, em 1927 e 1969.

Não se pode dizer propriamente que as apresentações de 1927 foram de Pixinguinha: ele integrava o conjunto Oito Batutas (então formado por ele, Pixinguinha, na flauta e saxofone, e mais Donga no violão, violão-banjo e cavaquinho, Esmerino Cardoso no trombone, Bonfiglio de Oliveira ao pistom, João Batista Paraíso ao saxofone, Mozart Correia no piano, Aristides Júlio de Oliveira à bateria, Alfredo de Alcântara no pandeiro e Vidraça no ganzá). Como se pode ver, os integrantes do conjunto eram nove, o que levou o jornal O Estado, de Florianópolis (SC), a perguntar: “Mas qual deles não é Batuta?”. Pixinguinha com certeza era um grande destaque nos shows, já era um flautista famoso, mas nem os jornais sabiam ao certo como escrever seu nome - a revista carioca Careta o chamara de “Pinxinguim” no ano anterior.

Já em 1969, Pixinguinha foi o homenageado do Show de Melodias, promovido pelo Liceu Musical Palestrina e pelo jornal Zero Hora. Ninguém mais tinha dúvidas sobre quem ele era ou como se escrevia seu nome.

Antes de 1927, Pixinguinha poderia ter vindo a Porto Alegre uma vez com os Oito Batutas, não fosse a pressa dos argentinos. No final de novembro de 1922, o diretor do Teatro Empire de Buenos Aires contratou o grupo para se apresentar na capital argentina. O consulado emitiu o visto para os músicos em 1º de dezembro e no dia 7 aconteceu a estréia no Empire. Pelo jeito, um funcionário do consulado deve ter levado o visto para o conjunto no cais do porto, de onde eles embarcaram no navio sem nem piscar.

Era a primeira temporada no exterior dos Batutas após o retorno de Paris, onde eles estiveram sete meses no mesmo ano de 1922. O êxito na Argentina durou quatro meses, acabando em abril de 1923 por uma briga que dividiu o grupo. Donga (famoso por ser autor do primeiro samba de sucesso, “Pelo Telefone”) voltou ao Brasil com outros três integrantes e pouco depois criou o grupo Oito Cotubas. Mas, para o bem da música brasileira, Donga e Pixinguinha não demoraram a fazer as pazes. A pressa do início e a briga do final da viagem impediram uma prática comum na época para os artistas que iam a Buenos Aires e Montevidéu: escalas para apresentações em Porto Alegre, principalmente porque as viagens eram de navio.


Os Oito Batutas - década de 1920


Foi justamente de navio o deslocamento dos Batutas na vinda de 1927. Contratados pelo empresário Vitor Busch, eles iniciaram a excursão em Florianópolis em 28 de agosto, exibindo-se depois em Blumenau, Joinville, Curitiba e Porto Alegre. É possível que só ao retornar ao Rio de Janeiro, em outubro, é que Pixinguinha tenha sabido da morte de seu irmão China, ex-vocalista dos Batutas, que não viajara por estar muito doente.

Na visita de 1969 - por sinal, a última vez que Pixinguinha saiu do Rio de Janeiro - o maestro veio de avião - o Electra da Varig. Ele chegou em 29 de outubro para o show do dia 31, uma sexta-feira.

As apresentações dos Batutas duraram vinte dias em setembro de 1927, nas exposições do Menino Deus, numa promoção da Companhia Cervejaria Brahma, comemorando a inauguração das suas instalações na avenida Cristóvão Colombo, 545 (nos anos 1990, foi inaugurado no local o Shopping Total). As exposições do Menino Deus, na atual avenida Getúlio Vargas, 1384 (numa área que hoje é a sede da Secretaria Estadual da Agricultura), foram as precursoras da Expointer. A permanência prolongada favorecia o intercâmbio com artistas locais. Durante um jantar com integrantes do Regional Espia Só, Pixinguinha os aconselhou a tirar “regional” do nome e acrescentar “jazz”, mudando também o repertório, o que teria contribuído, segundo o jornalista Antônio Goulart, para o sucesso do grupo porto-alegrense.

Falando em repertório, o que os Batutas tocaram aqui? Sambas, maxixes, choros e emboladas eram a base do seu show. Um êxito garantido era “Urubu Malandro”, com destaque para o solo de flauta de Pixinguinha. Não, eles não tocaram “Carinhoso”. Pixinguinha evitava tocar em público na época um choro só com duas partes, e não três, como era o “certo”. A música só foi lançada em 1929 (embora já estivesse pronta desde 1923, pelo menos - alugns autores falam em 1917), num lado B de um disco de 78 rotações (geralmente a música do lado B era “contrapeso” ao sucesso que se pretendia com o lado A - mas alguém aí já ouviu “Suspiros”, de Desmond Gerald, lado A daquele disco?). Em algumas gravações, saía como “Carinhos”... Mesmo com o passar do tempo, a estranheza de classificação da música continuava. Quando foi feita a primeira gravação da melodia com a letra de João de Barro, em 1937, por Orlando Silva, a gravadora Victor informava no selo do disco que se tratava de um “samba estilizado” (sic).

Em 1969, Pixinguinha ficou bem menos tempo em Porto Alegre. Tendo chegado em 29 de outubro, partiu a 1º de novembro. No dia 30, foi homenageado com um almoço nos pavilhões da FENAC, em Novo Hamburgo, após visitar a Feira da Habitação. Encontrou-se com o escritor Érico Veríssimo e o sambista Túlio Piva, este no Theatro São Pedro. Concedeu ainda entrevistas aos jornais Zero Hora e Diário de Notícias. A este, falou de sua relação com o álcool no início dos anos 40: “Tomava uma garrafa (de cachaça) por manhã”, declarou. Sua marca preferida era Virgínia. Um dia decidiu parar: chegou no botequim, o dono abriu a garrafa e Pixinguinha, fitando-a, resolveu resistir. Pediu um papel e escreveu um choro chamado “Briguei com Virgínia”. À Zero Hora, o compositor revelou que, mesmo “Carinhoso” sendo seu maior sucesso, sua obra preferida era “Ingênuo”, que tinha sido “feita com o coração”. Reclamava que a música do final da década de 60 era forçada, “de laboratório”, visando só o lucro. Mas destacava como positiva a aparição de Martinho da Vila.

No Show de Melodias, Pixinguinha recebeu do prefeito Célio Fernandes a chave da cidade, tocando depois acompanhado do ritmista Carijó. Tomaram parte ainda na apresentação no auditório Araújo Vianna (já na atual localização junto ao Parque Redenção) a Orquestra Filarmônica Popular de Porto Alegre regida por Voltaire Dutra, parte da OSPA, sob a regência de Manoel Gonzaga, e o tenor Amílcar Machado. A soprano Eni Camargo, diretora na época do Departamento de Cultura da Prefeitura, foi convidada especial da apresentação. Ao todo, mais de cem músicos atuaram na oitava edição do evento, criado pelo Liceu Palestrina, dirigido à época por Antônio Crivellaro.


  • Making-off do texto - Escrito como trabalho de aula durante o curso de Comunicação Social-Jornalismo na UFRGS (década de 1990, talvez 1997 ou 98). Lembro que a avaliação da professora foi de que o texto em si estava bom, mas dificilmente um jornal o publicaria sem estar ligado a uma matéria principal sobre algum lançamento que estivesse ocorrendo de obra ligada a Pixinguinha, ou pelo menos o aniversário de seu nascimento ou falecimento. O que eu particularmente acho um absurdo, não tem que ter data pra se falar dos grandes nomes da cultura do nosso país. Publicado originalmente no site Brasileirinho em 2003.


quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Opinião Cinema: Aquarius

Por Bianca Oliveira,
do Rio de Janeiro





Aquarius tem estado no meio de polêmicas o tempo todo. A equipe protestou em maio, no Festival de Cannes, com cartazes dizendo “Um golpe ocorreu no Brasil", "Resistiremos" e "Brasil não é mais uma democracia”.  O protesto foi criticado pelo jornalista Reinaldo Azevedo em seu blog no site da revista Veja, dizendo que "O dever das pessoas de bem é boicotar 'Aquarius'”. Mal podia imaginar Azevedo que o diretor do filme, Kléber Mendonça Filho, iria usar esta frase no cartaz publicitário de Aquarius (na foto abaixo, o cartaz com a frase e, ao lado, Reinaldo Azevedo), gerando novo protesto, desta vez de Azevedo. 




Além de toda essa polêmica, o filme foi primeiro liberado para maiores de 18 anos, por causa de algumas cenas de sexo, sendo finalmente aprovado para maiores de 16. Por fim, Mendonça Filho acusa a Comissão Especial responsável pela seleção do longa-metragem a ser indicado como candidato brasileiro ao Oscar 2017 na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira de boicotar seu filme. O Ministério da Cultura negou a acusação, mas de todo modo a obra indicada em 12 de setembro pela Comissão foi Pequeno Segredo, de David Schürmann, que só foi estrear comercialmente no dia 22 de setembro (Aquarius estreou três semanas antes); a praxe é que só se indique filmes que já foram exibidos. 

Enfim, dito isso tudo, vamos ao que está em jogo aqui: a qualidade e tudo de bom que Aquarius pode nos proporcionar, então chega de blá-blá-blá e vamos fazer aquele resumão!



O longa mostra a história de Clara (Sônia Braga), uma jornalista aposentada com personalidade forte, viúva e a última moradora do Aquarius. Um edifício antigo, em Boa Viagem (Recife), que é cobiçado por uma construtora que pretende derrubá-lo e construir um “Novo Aquarius”, mais moderno. Clara se recusa a vender seu apartamento por infinitos motivos que são mostrados durante as três partes em que o filme é dividido: “O Cabelo de Clara”, “O Amor de Clara” e “O Câncer de Clara”. Com tanta resistência, a construtora passa a assediar, provocar e fazer de tudo para que ela desista. 

Essa divisão é extremamente importante. O longa divide a personagem para então uni-la no final com tanta força que emociona, a cada olhar, gesto, música, vamos conhecendo mais e mais da personagem, conhecendo sua história e toda a sua luta. O diretor nos leva a mergulhar na relação da personagem com sua casa, conhecemos os quartos, corredores, paredes, móveis, mas não como em outros filmes, conhecemos intimamente, cada história ali vivida, existe uma tensão o tempo todo entre os dois, mas nada de grandes saltos ou coisas mirabolantes, a simplicidade ali é o ponto forte. 



Não é um filme fácil de ver e entender, nele não há espaço para divagações e esse mundo de redes sociais que estamos inseridos, o longa está em um formato diferente do habitual para o cinema brasileiro, mas com poder surreal. Kleber nos brinda com um roteiro fantástico, cheio de diálogos bem construídos e importantes que deixa com um clima como se algo fosse acontecer, o tempo todo, mas não acontece - como naquela cena dos carros saindo da garagem. O seu trabalho está impecável em cada momento, nas cenas, no figurino, na iluminação (o uso de tons quentes nos proporcionou toda a tensão que a personagem principal estava passando), a fotografia (ah Recife... S2) e a trilha sonora então? Essa merece um parágrafo inteiro. 




Clara respira música, e o filme também. A trilha sonora proporciona épocas e sensações que somente a música pode fazer com a gente. Como na melhor cena do filme em que Clara e Júlia (Júlia Bernat) trocam olhares de identificações ao ouvirem uma música no vinil - aliás, todas as personagens femininas parecem estar conectadas, com olhares, toques, sorrisos, lágrimas, tudo é compartilhado conosco. Maria Bethânia, Reginaldo Rossi, Queen, Taiguara e até forró, pop e Beatles, ouvimos música do começo ao fim, ela é uma das melhores partes do filme, inclusive. 

Sobre o elenco só há elogio, principalmente a protagonista. Sônia Braga, meu pai do céu, QUE MULHER! Não é a toa que ela foi escolhida a dedo, ela emprestou trejeitos, características, sensibilidade e toda a força que seu personagem precisava. Os seus olhares e descobertas estavam ali entregues de uma forma tão bonita quanto toda aquela luta de Clara. 

No fim, temos ali não só polêmicas fora dos cinemas mas dentro também. Em tela é questionado a moral sexual, a vida sexual de uma mulher após os 60, especulação imobiliária, desigualdade social entre tantos outros. Além de como o Brasil perde suas memórias em função de uma "inovação" que só beneficia de verdade os empresários da construção civil. 

Agora entendo porque Reinaldo Azevedo se incomodou tanto com esse longa, é difícil mesmo ver assim tantos questionamentos e redescobertas, mas sem dúvidas, há uma grande necessidade de preservação da memória em tempos que esquecemos de quase tudo. É um presente para a sociedade.


segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Opinião Cinema: Porta dos Fundos - Contrato Vitalício

Por Bianca Oliveira,
do Rio de Janeiro




"Porta dos Fundos" é um dos canais brasileiros do YouTube que mais tem acessos e inscritos, neste momento exatamente 12.623.794, que viram os 597 vídeos postados  2.781.348.255 de vezes (eu disse mais de 2 bilhões de vezes!). A turma já é conhecida pelas suas esquetes curtas, com no máximo 3min, e sátiras bem humoradas e inteligentes. E agora vem com um longa, um formato totalmente diferente do que estão acostumados, para tentar provar a sua capacidade nos cinemas. Talvez por causa desse formato, o filme não consegue se encontrar, acaba indo para o pior lado da comédia: o pejorativo e vulgar.




A história já é ruim por si só. Depois de serem premiados em Cannes, o ator Rodrigo (Fábio Porchat) e Miguel (Gregório Duvivier) saem para uma bebedeira. Entre umas doses e outras eles estabelecem um contrato vitalício de trabalho, em um guardanapo, onde eles deveriam trabalhar juntos em todos os filmes que Miguel fosse dirigir, caso contrário, seria multado. Sim. Sério. Mas depois disso, Miguel desaparece sem explicação, retornando após dez anos, dizendo que foi abduzido por alienígenas e por causa do contrato, força Rodrigo  a trabalhar em seu próximo filme, A Batalha de Klinglonfland, onde contaria o tempo que passou no cativeiro. Basicamente é isso, e só isso.


O roteiro de Fábio Porchat parece uma cópia, quase fiel, do  filme norte-americano Se Beber Não Case (2009). Esta foi sem dúvidas uma fonte de inspiração para o roteiro, que exagerou em praticamente tudo, o que nos deixou saturados de tantas piadas sem graças e frases de efeito chatas. O roteiro focou em ter personagens estereotipados: Thati Lopes (ao lado), uma blogueira fitness superficial; Marcos Veras, o colunista que mostra o lado sensacionalista da mídia; Luis Lobianco é o agente egoísta de Rodrigo, que só pensa no exibicionismo. Todos acabaram se mostrando repetitivos e rasos.


O lado bom é que o elenco estava entrosado e definitivamente caíram de cabeça no projeto. A direção de Ian SBF é certeira também.  Ele consegue trabalhar no ponto certo a câmera,  os closes, detalhes e passagens de um cena para outra, a transição era suave e gostosa de ver. Ele deixou sua marca, o que já estávamos acostumados, claro que fez isso certinho, mas o lado ruim é que foi certo demais, sem surpreender ninguém. Faltou ser mais cinematográfico, em determinados momentos parecia que estávamos assistindo as esquetes do grupo, no YouTube, só que dessa vez esquetes longas que pareciam infinitas. Esse formato pode até dar certo no canal, mas no cinema ninguém quer pagar o que pode ver de graça. Faltou inovação e se arriscar de verdade. Quem sabe no próximo filme o grupo consiga superar tudo isso, porque potencial para isso eles têm.




sábado, 1 de outubro de 2016

Opinião Música: O Disco Americano do Caetano



O melhor o tempo esconde
Longe, muito longe
(“Trilhos Urbanos”, Caetano Veloso)

Caetano Veloso não tinha como saber, mas os versos com que abriu seu disco americano (Caetano Veloso, Nonesuch, 1986) de certa forma previam o que aconteceria com a gravação: ficou escondida longe, muito longe do público brasileiro, que só pôde conhecê-la quando a PolyGram (hoje Universal) se dignou a lançá-la aqui, em novembro de 1990.

Este disco foi gravado em dois dias, direto, sem playback nem nada, numa sala alugada especialmente, depois de uma apresentação em Nova York que Caetano considerou péssima mas arrancou elogios dos críticos americanos. Apesar da rapidez, é um bom disco. O baiano selecionou um repertório de composições suas que vão do começo da carreira (“Coração Vagabundo”, uma das melhores faixas, é de 1967) a canções do seu LP anterior de estúdio, Velô (1984)(“O Homem Velho” e “Pulsar”, esta uma parceria com o poeta Augusto de Campos). Aliás, em “Pulsar” Caetano não tocou violão, o único acompanhamento é o bater de um sino, além da participação do guitarrista Toni Costa fazendo eco em uma palavra (justamente “eco”!). Há alguma percussão em várias canções, mas sempre discretamente. Mais discreto ainda, é possível detectar um teclado em “Nega Maluca” (Fernando Lobo – Ewaldo Rui)/“Billie Jean” (Michael Jackson)/“Eleanor Rigby” (John Lennon – Paul McCartney).

Aliás, a propósito do medley (tá assim no encarte!), ressalte-se a versatilidade do repertório de Caetano, pois em três LPs lançados em 1986 – este nos EUA, Totalmente Demais (PolyGram) e Melhores Momentos de Chico e Caetano (Som Livre), ambos ao vivo -, só uma faixa se repete: justamente esta colagem, embora no disco do programa Chico e Caetano "Eleanor Rigby" não estivesse presente.

É louvável a preocupação que Caetano teve, variando o estilo de acompanhamento ao violão ao longo do disco. Também lançou mão de alguns recursos vocais, como o assobio na excelente “Trilhos Urbanos” e a bocca chiusa em “O Homem Velho” e “Odara”. Já em “Terra”, os malabarismos no começo da faixa, antes de começar a tocar, deixaram a desejar, num dia em que ele não interpretou bem esta que é uma de suas mais belas criações. Outro momento não muito feliz é “Eu Sei que Vou te Amar” (Tom Jobim – Vinicius de Moraes), com leve citação de “Dindi” (Tom Jobim – Aloysio de Oliveira) - a voz de Caetano está irregular, em geral não alcançando o tom nesse clássico da bossa nova.

A bossa nova, aliás, está presente em um dos grandes momentos do disco: “Get Out of Town” (Cole Porter), a única inédita do LP, é feita numa levada de bossa muito boa, com respeitável solo de violão. Inédita, claro, no sentido de nunca ter sido gravada antes por Caetano, já que se trata de um clássico lançado em 1938. 

  • Making-off do texto - Originalmente, fiz esta apreciação do disco em dezembro de 1990 para o espaço de comentário que eu mantinha na Rádio Revista de Bento Gonçalves (RS), iindo ao ar pouco antes do meio-dia entre os anos de 1990 e 1992. É dos meus raros textos curtos para rádio que ainda circulam. Adaptado em 2003 para publicação no site Brasileirinho, chegou a ser incluído em 2005 na primeira versão da apostila do curso de Jornalismo Cultural. 
  • OBS: Na Wikipedia, consta que o disco teria sido gravado em setembro de 1985, o que bate com a informação que eu tinha à época, de o registro ter ocorrido após os shows do baiano em Nova York. Já na biografia disponível no site oficial do artista, afirma-se que a gravação se deu em maio de 1986. Na dúvida, deixo as duas informações aqui ao final, sem alterar o texto original..