sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Elton Medeiros: "A música é o meu ar"


Entrevista realizada em Porto Alegre, em 18 de fevereiro de 2004, após show do sambista no Santander Cultural. Publicado originalmente no site Brasileirinho.

BRASILEIRINHO - Há quanto tempo tu não vinhas a Porto Alegre?

ELTON MEDEIROS - Eu não vinha a Porto Alegre desde o início da década de 70, quando eu vim aqui fazer o Sarau com o Conjunto Época de Ouro e o Paulinho da Viola, no Teatro Leopoldina. E lamentavelmente, amanhã tenho que ir-me embora, porque eu queria ao menos dar umas voltas por aí. Mas cheguei de Minas, fiquei um dia no Rio e vim pra cá. E agora vou passar o Carnaval lá meio escondido, porque eu não quero mais saber... Tô no Carnaval desde os 8 anos, eu tô com 73, então chega.

B - Cansou do Carnaval?

E - É, chega. A garotada é que tem que tomar conta do Carnaval, não sou eu. Eu fundei três escolas de samba: a Tupi de Brás de Pina, que acabou, o Quilombo, que foi uma escola que representava a resistência ao luxo, à ostentação das escolas de samba e os Unidos de Lucas, que tá no 3º grupo. 

B - O Quilombo foi um projeto do Candeia, não?

E - É, a idéia foi do Candeia, mas quem participou da fundação foi Paulinho da Viola, Martinho da Vila, eu e muita gente, jornalistas como Juarez Barroso... Foi um movimento bastante interessante.

B - Tens composto ultimamente, como é que tá a tua produção?

E - Você respira todo dia?

B - Sim.

E - Se não respirar, o que que acontece?

B - Eu morro.

E - A música é o meu ar. Eu continuo fazendo música.


sábado, 12 de novembro de 2016

Entrevista: Wany Sampaio - Mitos Amondawa



A pesquisadora da Universidade Federal de Rondônia fala do livro Mitos Amondawa.

Entrevista realizada por e-mail em 12 de outubro de 2005

JORNALISMO CULTURAL - Wany, você é uma das autoras do livro Mitos Amondawa (Edufro, 2004), ao lado de Vera da Silva e Valdemir Miotello. Como se deu o seu contato com o povo Amondawa? 

WANY SAMPAIO - Na verdade, nós não somos autores do livro. Somos apenas os organizadores, porque os indígenas é que são os narradores dos textos míticos. Aliás, são narrativas lindas, que podem explicar muito sobre o universo mítico do povo Amondawa. O meu primeiro contato com esse povo se deu por volta de 1993, quando eu iniciava também o meu mestrado em Lingüística. Naquela época, os Amondawa eram ainda recém-contactados (os seus primeiros contatos com o não-índio aconteceram por volta de 1986) e ainda conservavam muito de sua tradição, cultura, costumes, rituais, enfim. Eu iniciei um estudo sobre a língua Amondawa, então, a fim de descrevê-la e trabalhar com o processo de redução de língua escrita, pois até então a sociedade era ágrafa. Os Amondawa queriam uma escola e então nós fizemos, em conjunto, a primeira cartilha de alfabetização, em caráter experimental, para testar um alfabeto que pudesse ser utilizado naquela escrita. Funcionou relativamente bem. Daí pra cá, tenho desenvolvido diversos trabalhos com a comunidade Amondawa, continuo colaborando com a escola, desenvolvendo trabalhos de pesquisa em Lingüística e Antropologia. A Vera é mestre em Antropologia; ela foi minha aluna de graduação e hoje mora na Inglaterra, mas continuamos trabalhando em conjunto, porque fazemos parte do mesmo grupo de pesquisa do CNPq/ Universidade Federal de Rondônia - onde eu trabalho - e também da universidade em que ela trabalha - Universidade de Portsmouth -, em que faço estágio pós-doutoral. O nosso grupo participa de um grupo internacional, com seis universidades da Europa, financiado pela União Européia e hoje desenvolvemos um grande projeto chamado Estágios da Evolução no Desenvolvimento do Uso de Sinais. Bom, voltando à questão, então, a nossa relação com os Amondawa se tornou extremamente consistente e produtiva. Ressalto que temos o total apoio da FUNAI, e trabalhamos em parceria com o Setor de Educação dessa instituição, na cidade de Porto Velho.

JC - Que estratégias vocês utilizam para realizar o estabelecimento da gramática Amondawa?

WANY - Nós iniciamos o trabalho de descrição da língua com as metodologias tradicionais em Lingüística e Antropologia (base estruturalista). Como não sabíamos nada daquela língua, optamos por trabalhar com os métodos chamados "calhambeque" porque tínhamos mais segurança na sua utilização e também porque nós próprias estávamos iniciando um aprendizado. Além do mais, são métodos eficientes para implantação de escritas, que era o nosso primeiro objetivo, naquele momento. Fizemos levantamentos lexicais, estabelecemos os fones e fonemas de língua e depois demos continuidade com sentenças simples, complexas, até chegar aos textos propriamente ditos. Hoje estamos testando novas metodologias, através do atual projeto. Usamos jogos, maquetes, seqüências de gravuras, filmes etc. Com isto, temos textos mais naturais. Nós descrevemos a morfologia lexical e depois passamos a fazer as relações significativas dentro das construções sintáticas e textuais. É um trabalho que dá trabalho! E exige muita concentração, muito estudo analítico, para que possamos fazer um descrição pelo menos razoável. Estamos tentando organizar uma gramática descritiva do Amondawa para que ela possa ser utilizada pelos professores indígenas. Mas isso ainda vai levar alguns anos de trabalho.

JC - Como os índios encaram este processo? Você vem observando mudanças ao longo do período de convivência com eles em relação à presença das equipes da Unir?

WANY - Os índios participam de todo o processo. Hoje já temos dois professores indígenas (um homem e uma mulher) em processo de formação. Com exceção dos mais velhos, todos os Amondawa escrevem na sua língua materna; e isso começa muito cedo porque os bebês vão pra escola com suas mães, então eles rapidamente se familiarizam com os materiais escolares. É claro que temos hoje um grande problema pra resolver, que é o estabelecimento da ortografia. As escolhas devem ser feitas pela comunidade... e isso não é muito fácil, porém é uma necessidade que os próprios índios, alunos e professores já estão sentindo; então eu acho que o momento chegou.... e teremos de trabalhar com isso no ano de 2006. Muita coisa mudou na sociedade Amondawa. Depois do contato, é impossível que tudo se mantenha igual... os índios são pessoas que têm inteligência, vontade, sonhos... Não podem ser mantidos em uma redoma de vidro e serem objetos de observação nem de ideologias românticas. Hoje temos energia elétrica, casas de madeira, TV, geladeira, fogão a gás, panelas de pressão, enfim, coisas da cultura não-índia que trazem maior conforto... Os índios se organizam socialmente em associações, grupos de discussão etc. É uma forma de se manterem índios, dentro de uma sociedade que os quer engolir e dizimar. É nesse sentido que o trabalho das universidades se torna muito importante, porque nós podemos contribuir com esse processo que é um caminho para a libertação dos povos oprimidos sem que eles percam a sua identidade enquanto indígenas.

JC - Quais devem ser os próximos passos do projeto?

WANY - O próximo passo do trabalho, com relação à escola Amondawa, é a construção coletiva de algumas regras que fixem a ortografia, porque todos já dominam à escrita. Com relação ao projeto de pesquisa que desenvolvemos com o financiamento da União Européia, deveremos trabalhar, nos próximos dois anos, com as construções metafóricas sobre o espaço, o tempo e o movimento. Essas são questões que nos permitirão analisar como os Amondawa representam o mundo no nível conceitual, ou seja, que tipos de figuras podem eles, através de suas linguagens (oral e gestual) utilizar para traduzir sua concepção de espaço, tempo e movimento e como é que isso é veiculado pela cultura. A nossa equipe está construindo instrumentos de coleta de dados - e já estamos testando alguns - que serão também aplicados na Tailândia. Como o grupo se constitui de lingüistas, antropólogos, psicólogos, biólogos, zoólogos etc, também serão desenvolvidos trabalhos com macacos (para estudar também a evolução no uso de signos e sinais); esse trabalho será realizado através do Museu de Zoologia de Roma. Uma outra parte do grupo trabalhará com o uso de sinais e signos nas relações mamãe-bebê com populações da Índia... enfim. É bastante coisa! Mas a nossa grande questão é: O QUE SIGNIGICA SER HUMANO? (What it means to be human?). Tradicionalmente se diz que o que distingue o homem dos outros animais é a capacidade da linguagem. Propomos a tese de que o que distingue o homem dos outros animais não é a capacidade da linguagem, mas a capacidade de organizar os signos e sinais e transformá-los em linguagem. Estamos trabalhando com diversos tipos de populações humanas, de indígenas a industrializadas, porque concebemos que o homem é único.


segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Opinião Cinema: É Fada!

Por Bianca Oliveira,
do Rio de Janeiro




Um fato é inegável: os youtubers estão tomando conta de tudo. Eles influenciam essa nova geração, sendo verdadeiros ídolos para eles. E Kéfera Buchmann é um desses fenômenos da internet. Com 23 anos, ela mantém há seis o canal 5minutos no YouTube, um dos primeiros no Brasil a atingir um milhão de inscritos (atualmente são quase 10 milhões), possuindo portanto um grande número de seguidores que são bem devotos. No entanto, com tanta exposição assim, ela também conquistou fervorosos haters, que “perdem” horas da sua vida criticando absolutamente em tudo que a youtuber faz e toca. E claro, se Kéfera lança um filme é impossível não ter polêmica.  E mais claro ainda, se tem treta e babado  aqui estou para comentar. É importante deixar bem claro que aqui eu vou falar sobre o longa e não a vida pessoal dela.
O filme é baseado no livro Uma Fada Veio Me Visitar, de Thalita Rebouças. A adolescente Júlia  (Klara Castanho) foi criada de uma forma muito simples pelo pai (Sílvio Guindane), mas com o retorno de sua mãe socialite precisa trocar de colégio, indo para uma escola de meninas riquinhas que agem bem estilo “Meninas Malvadas”. Para ajudar Júlia a conseguir amigas e se adaptar a este novo mundo aparece uma fada madrinha, Geraldine (Kéfera). A fada precisa ajudar a menina para conseguir de volta suas asas, que perdeu por aconselhar mal o técnico Felipão no famoso jogo dos 7x1 contra a Alemanha na Copa do Mundo de 2014. Juntas Geraldine e Júlia tentam se adaptar, se conhecer e buscar atingir seus objetivos, mesmo que... de forma errada.
Mas por que de forma errada? Bom, o roteiro de Patrícia Andrade, Fernando Ceylão e Sylvio Gonçalves é mal desenvolvido, não empolga e está repleto de preconceitos. Os personagens são rasos demais, Geraldine tenta “ajeitar” Júlia de todas as formas, diz que ela precisa alisar cabelo, mudar de roupa, personalidade, mentir que viajou para vários lugares, renegar o pai... Mas que bela mensagem, não?  Claro que no final há aquela ideia bonita dizendo que é errando que se aprende e blábláblá, mas é tão rápida que a gente nem percebe. Não adianta passar o filme todo com um discurso preconceituoso e bastante elitista e nos 2 minutos finais vir com um discurso de arrependimento. Não cola não.  O que aprendemos com o filme é que temos que ser superficiais para assim podermos ser “reconhecidos”. Além de tudo isso, o roteiro no final opta por soluções simples, inocentes, previsíveis  e bobas demais, mesmo para o público mais jovem.
O trabalho de Cris D'Amato como diretora deixa muito a desejar. Ela não deu conta de desenvolver as situações criadas pelo roteiro. Além disso, os diálogos, a fotografia e a montagem tem uma enorme pegada publicitária (parece mais aquelas propagandas bizarras da Jequiti);  há ainda uma enorme quantidade de imagens aéreas,  bem desnecessárias, inclusive, e há cortes demais, a gente fica perdido, não entende a cena toda. Foi preguiça na hora de montar? Vontade de dar ritmo? O que terá acontecido? Faltou criatividade, se arriscar,  se jogar de cabeça e se lançar em um projeto melhor. Por fim, ainda preciso dizer o quão sofrível foi ver em cena aqueles efeitos visuais, digitais e a maquiagem. A floresta parece que saiu do Sítio do Pica-pau Amarelo, os “poderes” da fada não convencem ninguém e para piorar até a orelha do guardião das fadas tinha uma tonalidade diferente da sua pele. 
Antes que vocês me perguntem por que ainda não falei da Kéfera, vou logo respondendo: porque ela está nos pontos positivos. Sim! A menina tem talento, seu carisma na tela é inegável! Claro que há espaço para ela se aperfeiçoar na interpretação, mas é inquestionável a relação entre a YouTuber e Klara Castanho. A pequena Klara, com todo seu talento, consegue explorar bem as mudanças que sua personagem sofre e juntas, elas fazem as melhores cenas do longa, cheias de caras e bocas e personalidade. A trilha sonora, embora não chegue a surpreender, também é outro ponto positivo. 

sábado, 5 de novembro de 2016

Homenagem a Mario Quintana

Bruna Lombardi e Mario Quintana


Mário Quintana foi o grande homenageado do 23º Seminário Brasileiro de Crítica Literária na PUCRS (Porto Alegre), realizado entre os dias 5 e 7 de dezembro de 2006. Nada mais justo, afinal, estávamos no ano do centenário do poeta, nascido a 30 de julho de 1906 em Alegrete (RS) e falecido a de 5 de maio de 1994 na capital gaúcha.

O seminário apresentou no dia 6 uma mesa-redonda com o poeta Armindo Trevisan, amigo e estudioso de Quintana, a poetisa e atriz Bruna Lombardi, musa do homenageado, e a atriz Elena Quintana, sobrinha do autor de A Rua dos Cataventos; já no dia 7 foi a vez do professor Antônio Carlos Secchin, membro da Academia Brasileira de Letras, proferir a palestra Um Olhar sobre Quintana. A seguir, apresentamos os principais trechos de cada pronunciamento:

Armindo Trevisan - "A poesia de Mário Quintana me interessa fundamentalmente por três aspectos: 1º, por sua autenticidade; 2º, pela sua intransigência - ele impõe o silêncio à velocidade desmesurada; 3º, por ser a um tempo simples e complexa: ela tende ao classicismo, apesar de apresentar também um caráter modernista.

A autenticidade corresponde ao que a pessoa está sentindo; o mundo interior do homem - idéias, sentimentos, emoções - é impressionante. O universo animal é mais simples, sua expressão se esgota em pios, uivos, latidos. Já a fala humana vem da necessidade de revelar o mundo oculto e rico que cada ser humano tem.

Quintana tem uma capacidade impressionante de poetizar coisas que para outra pessoa passariam como algo comum. Além disso, ele só aparentemente levava tudo na brincadeira, no fundo era um trágico. Para ele, o que não era poesia era fofoca; então tudo o que não podia ser dito de forma sublime para ele não tinha nenhum valor."

Bruna Lombardi - "Conheci Mário Quintana quando vim lançar meu primeiro livro, No Ritmo Dessa Festa (1976), na Feira do Livro de Porto Alegre. Ele estava na minha fila de autógrafos, eu o chamei para a frente - eu brincava dizendo que ele era o falso humilde (ele era humilde, mas sabia tudo!). Conversamos muito, eu fiquei aqui alguns dias e combinamos de tomar um chá anual. Nosso contato era mais de trocar cartas, imagina hoje com a internet, seria uma maravilha receber um e-mail dele todo dia! Uma vez me pediram pra eu publicar as cartas, eu recusei, hoje acho que seria legal. Eu sempre mandava meus poemas novos a ele, que fazia comentários. Pra mim foi um privilégio ter conhecido Mário, uma figura rara; penso que poderia ter sido mais assídua, mas a vida da gente é muito corrida.

Eu admirava muito a inteligência, o senso de observação e a informalidade do Mário. Ele gostava das coisas muito simples; nelas, está toda a resposta que você possa procurar. Mário observava a natureza, as criações de Deus, com uma sensibilidade muito grande. A poesia não é feita de grandes barulhos, ela é um riachinho que corre. Se você presta atenção nela, ela te dá um monte de respostas.

Mário Quintana nunca se deixou seduzir pelo falso brilho, vaidade, fama, esses valores tão usados na sociedade hoje. Algumas pessoas deviam ser preservadas como exemplo de comportamento. Quando penso no Mário, penso em valores bons, como honestidade, simplicidade. Ainda bem que a poesia dele está aí, ela serve como uma referência. Há dois pilares que sustentam as relações entre as pessoas: a solidariedade e a solidão. Escrever é um ato solitário. Mário vivia num quarto de hotel, com seu pequeno mundo, levava uma 'vida comum', mas sabemos que não era uma vida comum. A preservação desse dom da poesia que o levou a uma vida solitária é que tornou a poesia dele grande, em qualquer lugar do mundo."

Elena Quintana - "O tio Mário gostava de escrever mais à noite, quando os telefones não tocam. A idéia podia vir a qualquer momento, ele a anotava e olhava à noite. Algumas vezes já escrevia o poema, outras deixava a idéia na gaveta. Certas ocasiões buscava esses rascunhos na gaveta, juntava vários e fazia o que chamávamos 'rezar': pegava o poema, ficava lendo, relendo em voz alta, resmungando, buscando a melhor forma. Quando o poema estava mais perto de estar pronto, ele lia mais alto. Ele não gostava de música, assim como outros poetas (João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar, Carlos Drummond de Andrade...). Às vezes ele me pedia um palpite, mas quase nunca seguia o que eu sugeria! Só uma vez eu pedi pra mudar uma palavra: ele escreveu 'ignominiosa' e eu sugeri 'criminosa'; na hora ele deixou como estava, mas na última edição que revisou, ele me atendeu. (Elena se refere ao poema "Cocktail Party": "Não tenho vergonha de dizer que estou triste/ Não dessa tristeza ignominiosa dos que, em vez de se matarem, fazem poemas: / Estou triste por que vocês são burros e feios/ E não morrem nunca..."). Os poemas dele podiam levar muito tempo para ficarem prontos - "Cronologia" levou 40 anos!

Mário Quintana dizia que a única saída para os jovens poetas (que ele chamava natimortos) era participar de todos os concursos que pudessem. Numa das poucas palestras que fez, deu este conselho aos iniciantes: 'Escrevam, reescrevam, voltem a escrever. Não publiquem!'. E é uma verdade, muitos autores publicam muito jovens, depois com 40 anos se arrependem do que tinham escrito.

Ele gostava de ler os poemas, dizia que poema não pode ser declamado, e sim 'dito', 'lido como prosa'. Não gostava de declamadoras, só da Berta Singerman."

(Intervenção de Trevisan: "São raríssimos os autores que lêem bem seus próprios poemas: Quintana era um, Drummond já não era. A questão das declamadoras é que, no passado, como não havia bons microfones como os de hoje, às vezes se recorria à impostação da voz para conseguir preencher grandes auditórios. Interpretar poemas é uma coisa muito difícil.")

Antônio Carlos Secchin - "Em seus cinco primeiros livros, Mário Quintana vai do soneto com métrica não-ortodoxa (A Rua dos Cataventos, 1940) à prosa poética (Sapato Florido, 1948), passando pelo verso livre (Canções, 1946). Estilo, para ele, era a falta de capacidade de não ser repetitivo. Nesses cinco primeiros livros (a relação inclui, além dos citados, O Aprendiz de Feiticeiro, 1950Espelho Mágico, 1951), há um eu lírico constante, marcado por uma relação ávida com o mundo e maravilhado com ele.

Quintana está entre o clássico (pela tendência a seguir modelos fixos como o soneto) e o romântico (por sua espontaneidade). Sua obra se distancia tanto da geração de 1922 (novamente pela atração por formas fixas) quanto da de 1945 (da qual não tem nenhuma das características principais: pompa, solenidade, seriedade temática, vigilância lexical e restrição vocabular).

A poesia de Quintana parte de um choque, de algo fortuito, que ele reelabora, ferindo nossa sensibilidade anestesiada. Nesse ponto, ele se aproxima de Manoel de Barros e seus 'inutensílios': Quintana desfuncionaliza a realidade. Basta ver o título de seus livros: A Rua dos Cataventos, Sapato Florido, Espelho Mágico, Baú de Espantos, A Cor do Invisível. A um objeto com função determinada, liga-se uma característica inesperada, que o desfuncionaliza. Esse desvio de função remete ao surrealismo. É um olhar criador, e não reprodutor da realidade."


  • Making-off do texto - Publicado originalmente em dezembro de 2006 no site Jornalismo Cultural.