quinta-feira, 18 de maio de 2017

E por falar em aposentadoria (Ovelhas Desgarradas - 23)

Passeata da Greve Geral de 28 de abril de 2017,
contra a proposta de reforma da Previdência
- Av. Presidente Vargas, Belém-PA


O presidente que quer que você contribua 49 anos para receber aposentadoria integral se aposentou aos 55 anos....de idade.

Hoje com 75 anos, Michel Temer é aposentado como procurador do estado de São Paulo desde 1996. Recebe por isso R$ 30.613,24 (valor referente a maio - mesmo descontado o Imposto de Renda, sobram R$ 22.082,70). Mais até do que recebe como Presidente da República - R$ 27.841,00. Somando os valores brutos de aposentado e presidente, são R$ 57 mil/mês, R$ 684 mil/ano.

Para comparar, o valor médio dos benefícios concedidos pelo INSS, em maio de 2016, foi de R$ 1.303,58 para os trabalhadores urbanos e de R$ 880,84 (ou seja, um salário mínimo) para os rurais. Nenhum destes, com a reforma da Previdência proposta por Temer, poderia se aposentar hoje com 55 anos.

Em entrevista a Miriam Leitão em outubro, Temer comentou sua aposentadoria precoce, querendo usá-la como justificativa para a reforma ora em tramitação:

"É interessante como o meu exemplo serve para revelar como há aposentadorias precoces. Passaram-se 20 anos e estou aqui conversando. Ainda consigo trabalhar. Naquele tempo não se pensava nisso, naquele tempo era natural, você tinha tantos anos de serviço ou de contribuição e se aposentava. Foi o que aconteceu comigo como procurador do estado. Mas há 20 anos atrás, o déficit da previdência não era o tamanho que é hoje. Hoje são R$ 100 bilhões, R$ 140 (bilhões) no que vem, R$ 180 (bilhões) daqui a dois anos."

Vamos analisar as ideias por trás desta citação:

1 - Ninguém sabia que há aposentadorias precoces, era necessário que Temer revelasse isso (ele chegou a dizer a Miriam: "Minha aposentadoria é uma revelação", como se falasse de um grande mistério)

2 - Há 20 anos, o rombo (ou 'déficit', como prefere Temer) da Previdência era menor do que hoje. O fato de haver um rombo de 100 bilhões hoje, produzido com as regras que estão em vigor, faz com que o presidente pense não em gerir melhor a Previdência para diminuir o rombo, mas sim em estender o tempo de contribuição - o que só posso ver como uma forma de punir o trabalhador pela má administração dos recursos feita pelo próprio governo!

3, para mim o mais grave - "Ainda consigo trabalhar. ....naquele tempo era natural, você tinha tantos anos de serviço ou de contribuição e se aposentava". Mas é essa a ideia-base de um sistema de previdência: você contribui X anos, comprova as contribuições, se aposenta e passa a receber pelos anos trabalhados! Porém nesse trecho da fala presidencial posso detectar uma visão condenatória à possibilidade de alguém ainda ter vigor físico, saúde etc etc e sair do mercado de trabalho (que aliás foi o que o próprio Temer fez ao se aposentar há 20 anos).

Tentando fazer uma leitura unificada do trecho, teríamos algo como: 'havendo um déficit gigantesco na Previdência, o trabalhador brasileiro não tem o direito de se aposentar numa idade em que ainda possa desfrutar de qualidade de vida".

Mas por qual motivo, fora resquícios feudais ou escravocratas, a população deve ser punida pela má gestão da Previdência, algo que cabe ao governo controlar?

Na visão presidencial, enquanto você tiver energia para trabalhar, e mesmo quando possivelmente já não a tiver, você deve estar trabalhando e contribuindo para o INSS, para que você conserte um problema que não foi você quem causou!

Belém, 19.12.16

  • Making-off do texto - Se eu houvesse planejado, não daria tão certo: este artigo que mostra a falácia da "Reforma Previdenciária" proposta por Michel Temer entra no ar um dia depois de o presidente ser incriminado em delação premiada da JBS, o que pode resultar em sua renúncia ou em um novo processo de impeachment. 
  • Meu 14º texto para o Digestivo Cultural, lido 892 vezes até hoje (meu segundo menos lido por lá, só perdendo para (ou seria 'ganhando de'?) O bom e velho formato site, republicado aqui anteontem. 
  • A foto que abre o post é inédita, não saiu na cobertura da Greve Geral que publiquei no blog Fabio Gomes Foto & Cinema nem em nenhum outro lugar.
  • Esta publicação encerra o resgate das "ovelhas" da minha coluna no Digestivo. Os textos que saíram este ano por lá já estão disponíveis em outros blogs meus. 


quarta-feira, 17 de maio de 2017

Fazendo a coisa certa (Ovelhas Desgarradas - 22)

Li no site português Observador que, em 25 de outubro, foi devolvido à biblioteca da cidade norte-americana de Guilderland um livro que havia sido retirado de lá...em 1974! O caso me recordou um episódio da minha infãncia que creio nunca tenha contado a ninguém.

Morei dos 5 aos 22 anos em Bento Gonçalves, na serra gaúcha, e sempre fui assíduo frequentador da Biblioteca Pública Castro Alves, nos vários endereços que ela teve, sempre no Centro da cidade. Sempre, menos num período de alguns meses...

...nos quais eu mantive em meu poder um livro que havia retirado de lá e do qual gostei tanto que simplesmente decidi não devolver. Eu teria então por volta dos meus 10 ou 11 anos, e devo ter achado o máximo a ideia de poder ler aquele livro à hora que eu quisesse.



Porém, essa euforia inicial durou pouco. Afinal, como eu ainda era um sem-rendimentos, todos os livros que circulavam dentro de nossa casa ou eram livros didáticos ou presenteados por minha mãe, ou então volumes retirados da já citada biblioteca Castro Alves, que os cedia por uma semana, se lembro bem. Um livro que minha mãe não comprara e que fosse visto circulando pela casa por semanas a fio despertaria suspeitas. Ou seja, a ideia de "ler quando eu bem entender" já ficara descartada.

Eu já tinha idade suficiente para saber que estava fazendo algo errado - tecnicamente, era um furto. Então, depois de algum tempo, somou-se à preocupação já citada de ter o furto descoberto a consciência de que eu havia pego um livro destinado a todos e o desviado para meu deleite pessoal (um deleite que já nem ocorria mais).

Então um belo dia decidi dar uma fim àquela situação e enfrentar as consequências, quaisquer que elas fossem. O que me assustava particularmente era a questão da multa, afinal sendo eu um sem-renda, caberia à minha mãe ter que pagar, e aí inevitavelmente ela acabaria sabendo do meu delito. Pus o livro na mochila e me dirigi à Castro Alves, onde enfim entrava depois de meses ausente e apresentei como justificativa pelo atraso um singelo "esqueci de devolver!".

Não sei dizer se as funcionárias da biblioteca acreditaram, de todo modo ficaram felizes pela volta do livro (e, quero crer, por eu ter enfrentado a situação) e acabaram me isentando da multa (o que fez com que minha mãe jamais soubesse do ocorrido). Dali em diante, voltei a ser habituê na Castro Alves, devolvendo o que retirava sempre dentro dos prazos.

Lição aprendida: fazer a coisa certa sempre é a melhor opção!

Macapá, 14.11.16


  • Making-off do texto - O fato narrado, até onde eu lembro pela primeira vez, neste texto, deve ter ocorrido por volta de 1981/82. De fato nunca contei para minha mãe, e pelo visto as bibliotecárias também não. Meu 13º texto para o Digestivo Cultural, foi lido 1268 vezes até hoje. A foto é Google Images, não creditada. 

terça-feira, 16 de maio de 2017

O bom e velho formato site (Ovelhas Desgarradas - 21)

Em 17 de outubro de 2002 - há 14 anos, portanto -, entrava no ar o meu primeiro site, o Brasileirinho, dedicado ao jornalismo musical e com foco na MPB, em especial o samba e o choro. Penso ser oportuno, então, fazer nesta data uma reflexão sobre o 'formato site' a partir de minha experiência na área (assim como já fiz aqui anteriormente com o 'formato blog').

Milton Moura, Luiz Carlos da Vila e eu em debate 
sobre a História do Samba - Salvador, 2007 
(Foto: Adenor Gondim)


O Brasileirinho não foi meu primeiro projeto de site, foi apenas o primeiro que deu certo (antes dele, ali por 1999, pensei em ter um site com meu acervo fotográfico - já contei esta história em meu blog de Foto & Cinema). Me formei em Jornalismo pela UFRGS em 2001 já com a ideia de ter um programa de rádio semanal voltado para o samba e o choro. Cheguei a produzir um programa-piloto finalizado em CD, gravado e editado profissionalmente em estúdio, porém as rádios de Porto Alegre que procurei não se interessaram nem em me contratar para produzi-lo, nem em me vender horário para que eu produzisse de forma independente. Então me ocorreu que eu poderia aproveitar o fato de ter registrado um domínio com o nome que o programa teria - Brasileirinho, inspirado no clássico de Waldir Azevedo - e veicular diretamente na internet minha proposta de jornalismo musical independente.

Comecei então a publicar no Brasileirinho artigos que eu já tinha escrito sobre figuras da MPB, charges, entrevistas e dicas de shows, filmes, teatro e outros sites. Quando passei a produzir textos inéditos, em especial resenhas dos shows que assistia em Porto Alegre, esbarrei numa dificuldade: as atualizações do site eram semanais, devido ao acerto que eu havia feito com o webdesigner que contratei para criar o site. Então às vezes acontecia de a resenha entrar no ar duas semanas depois do show. Acabei assumindo eu mesmo a tarefa de ser o webmaster do meu próprio site no começo de 2003, usando os conhecimentos adquiridos num curso de criação de sites publicado em fascículos (ainda existe isso? risos).

Creio ter feito um bom trabalho, pois já em 2004 aconteceram dois fatos significativos. Primeiro, o Brasileirinho foi escolhido pela Representação Regional do Iphan no Rio Grande do Sul para representar o estado na fase nacional do Prêmio Rodrigo Mello Franco, do MinC. Segundo, e talvez o mais importante, meu trabalho no site motivou um convite do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo para ministrar um curso de Jornalismo Cultural na capital paulista.

Por vários motivos, não pode aceitar de imediato o convite do Sindicato. Quando enfim pude fazê-lo, no ano seguinte, já havia também o convite da Fundação Getúlio Vargas para que eu fizesse o curso também em Belém (foi minha primeira viagem ao Norte). Acabei criando novo site, chamado justamente de Jornalismo Cultural, para veicular meus textos sobre outras artes como o cinema, o teatro e até vertentes da música que não a MPB. O site nunca chegou a ter a audiência e repercussão do Brasileirinho, mas acabava gerando mais renda porque era nele que eu divulgava o curso, tanto na versão à distância (antes do YouTube, curso à distância era curso feito por e-mail mesmo ;) quanto na presencial, que fez com que eu fosse nos anos seguintes a Joinville, Blumenau e Rio Branco, onde nova mudança aconteceu.

Na capital do Acre, cobri em 2008 um festival de música independente, tendo pela primeira vez contato com a sonoridade amazônica, que raramente chegava ao Sul do país. Isto, mais o interesse de artistas de Belém em meu trabalho como assessor de imprensa e as inúmeras inscrições que eu recebia do Norte para o curso à distância de Jornalismo Cultural me levaram em 2009 a criar novo espaço para falar da música da Amazônia - o Som do Norte. Mas já não como site, e sim blog.

O Som do Norte teve de imediato imensa repercussão, o que fez com que eu acabasse deixando um pouco de lado os dois sites. O Jornalismo Cultural não chegava a ser atualizado com frequência, talvez eu postasse um texto/mês; dinâmica bem diferente da atual, em que, convertido em blog desde agosto de 2011, é atualizado quase diariamente (inclusive com material veiculado originalmente nos dois sites mencionados). Já o Brasileirinho chegou a receber bastante material de artistas do Pará até a criação do Som do Norte, sendo pouco atualizado depois disso, o que me levou a anunciar o encerramento das atividades há exatos 5 anos e por fim tirá-lo do ar há um mês.

Comparando a quantidade de sites e de blogs que criei, deve-se concluir que prefiro este formato àquele? Não necessariamente. Ali por 2009, eu dizia que um site equivalia a um jornal, atualizado regularmente, mas com menos frequência que um blog, que seria como um programa de rádio, que permite atualizar a informação a qualquer momento. Hoje, penso que quem cumpre a função de rádio são as redes sociais, ao passo que quem está mais para um jornal são os blogs, já que os sites passaram a "se comportar" como...livros! Sim. Como eu já disse no texto sobre os blogs citado no começo, se você quer postar conteúdo com frequência, o mais indicado é criar um blog; se você começa a postar muuuuito texto num site, em algum momento terá que resolver a questão de como o internauta localizará todo o conteúdo nele publicado - este foi o grande problema que acabei tendo no Brasileirinho.

Por isso os sites hoje são mais recomendados para uso institucional, tanto por empresas quanto artistas. Ali você encontra histórico/biografia, fotos, vídeos, agenda (no caso de artistas), as principais informações de contato e, quase sempre, o link para um blog, onde então irá acessar atualizações frequentes.

Só pra fechar, o fato de eu ter tirado recentemente do ar meu primeiro site não significa que eu desacredite hoje do formato. Ao contrário, meu próximo site inclusive deverá tornar realidade o antigo sonho de 1999: será uma página 'institucional' do meu trabalho com foto & cinema, linkado com o blog. Quando entra no ar eu não sei, mas o domínio já está registrado!

Macapá, 17.10.16



  • Making-off do texto - Como citado logo no começo do artigo, ele foi a consequência natural do texto Eu blogo, tu blogas? - que originou o Os blogs poderão voltar a ser mais relevantes que as redes sociais?, já republicado aqui. Foi minha 12ª colaboração para o Digestivo Cultural, e é o meu texto menos lido na coluna (842 visualizações até hoje). O site de foto & cinema ainda não entrou no ar. 
  • Ah, não cheguei a mencionar, mas em dado momento (creio que ali por 2005 ou 2006), o Brasileirinho foi destacado no site do Instituto Goethe (o da sede, na Alemanha), como "exemplo de uso da língua portuguesa"! :)


segunda-feira, 15 de maio de 2017

Etapas em Combustão (Ovelhas Desgarradas - 20)

Recentemente, duas pessoas próximas, ambas jovens cantoras, me contaram (uma sem saber da outra) que entraram em contato com artistas com um tempo de carreira maior. Coincidentemente, as duas, ao relatarem a eles seus planos para o futuro, em médio e longo prazo, receberam um balde de água fria - nas falas dos dois "veteranos", havia a mesma expressão: Você está querendo queimar etapas!

Ou seja: seria uma transposição, em termos de carreira musical, da velha piada de veteranos sobre calouros que, já na primeira viagem, "querem sentar na janelinha" - em outras palavras, querem figurar em lugar de destaque. Só que, na visão dos veteranos, os novatos ainda não mereceriam tal destaque, pois haveria 'N' etapas a percorrer, e pulá-las, ou ignorá-las, ou descartá-las, seria equivalente a uma 'queima'.

Mas quem é que define isto, ainda mais numa carreira artística? O primeiro disco de Marisa Monte - MM, lançado em 1989 -, era ao vivo. Em 2007, Mallu (ainda assinando com o sobrenome Magalhães) pegou uma grana que tinha juntado, gravou quatro canções suas e as postou no MySpace e do dia pra noite teve um expressivo número de audições - detalhe, ela estava com apenas 15 anos. Anitta era só um ano mais velha quando, em 2009, começou a postar vídeos em seu canal do YouTube; dois anos depois, este material acabou atraindo a atenção do produtor Batutinha, garantindo à cantora o seu primeiro contrato profissional.

No campo musical, há valores que evidentemente não mudaram, como o talento. Mas quem é que define quando, por exemplo, é o momento de uma cantora ou uma banda lançar seu primeiro disco, seja apenas na internet, seja físico? Ou de cantar apenas composições próprias, ou escritas especialmente para sua voz, e não ficar repetindo a eterna parada de sucessos que se escuta nos bares da vida? Ou largar o circuito de barzinhos e se aventurar no palco de um teatro? Penso que cabe a cada artista decidir quando é este momento - até porque, se for de fato prematuro, a resposta não se fará esperar.

De todo modo, falando agora como público, hoje em dia quando conheço - seja pessoal, seja virtualmente - algum/a artista ou banda, vou logo perguntando onde posso ouvir seu trabalho. Não são raras as bandas que lançam singles ou mesmo EPs no Soundcloud antes mesmo do primeiro show. Curiosamente, de um escritor não se cobra que tenha publicado um número X de contos em revistas literárias antes de lançar seu primeiro livro.

Há outro fator também que parece animar os 'novatos' a "queimar etapas": o estabelecimento de seu próprio status como artistas. Como já me disse o violonista gaúcho Maurício Marques numa entrevista de 2005: Parece que passei a existir depois do CD. Isto é maluco, você estuda e toca anos a fio, grava com muitos, vai a todos os festivais (eu já fui a todos e já devo ter umas boas 300 gravações) mas você só existe se tiver um disco. Para grandes contratantes, você precisa enviar junto com seu projeto de show a ser vendido... um CD (ou seja, se você não tiver, está fora do jogo).

Logo, se você decidiu que vai viver de arte, o momento em que seu trabalho estará disponível para ser apreciado por fãs e gerar contratações tem que ser decidido por você, eventualmente por sua equipe de produção (caso você já a possua), e não seguir um manual que nunca existiu.

Se você tem uma mensagem que considera importante mostrar ao mundo, faça isso, o que não faltam hoje são canais que o possibilitem. Nossos ouvidos agradecem.


Belém, 18.4.16


  • Making-off do texto - Meu sétimo texto para o Digestivo Cultural foi publicado na data citada acima e é desde então meu maior sucesso por lá, já tendo sido lido 2.258 vezes até hoje. Com o mesmo título, foi publicado de forma reduzida em 26 de abril de 2016 no espaço "Papo Cabeça" que eu escrevia dentro da Coluna RoraimaRockNRoll, do Victor Matheus Mattos, veiculada em duas mídias: o jornal Folha de Boa Vista, da capital de Roraima, e o blog RoraimaRockn'Roll

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Pare de dizer que você tem problemas (Ovelhas Desgarradas - 19)


Se há algo que eu recomendo fortemente para o ano que se aproxima, é que você pare de achar que tem problemas. "Mas por quê?", você poderia me perguntar. E minha resposta seria: "Porque as palavras têm força". Na verdade, não é preciso ser um especialista em Neurolinguística para perceber isto. Basta lembrar de toda a sabedoria popular associada ao poder do pensamento positivo.

De certa forma, não deixa de ser curioso que, numa sociedade que valoriza tanto a posse de coisas (tema, aliás, brilhantemente abordado por Milton Jung no LinkedIn), se prefira dizer que "temos problemas", e não que "estamos com problemas". Em geral, afora a menção a problemas, nossa tendência para expressar coisas não palpáveis é o uso da expressão "estar com" - podemos estar com saudades, ou com alguma doença, ou com vontade de viajar, ou com um palpite para jogar na Mega Sena. Já o verbo "ter" é costumeiramente associado a objetos que possuímos, seja do tamanho que forem - de um alfinete a uma casa ou um carro.

E quando você tem alguma coisa, é porque de algum modo essa relação não é facilmente modificável. Que o diga o cantor Belchior, que abandonou dois carros há cerca de sete anos (um no estacionamento do aeroporto de Congonhas, em outubro de 2008, e outro na garagem de um flat também localizado na cidade de São Paulo, em março de 2009. Fonte: Época). A propriedade de um carro, por si só, acarreta uma série de consequências jurídico-econômicas; você inclui o carro em sua declaração de Imposto de Renda e recolhe anualmente o IPVA, entre outras obrigações legais. De modo que diferentemente de um alfinete que eventualmente entorte ou enferruje, e que você pode jogar num cesto de lixo ou abandonar ao deus-dará e ninguém voltará a associá-lo a você, um carro não pode ser simplesmente largado por aí; a documentação do veículo seguirá em seu nome, e você será responsável pelos prejuízos que ele acarretar ou danos que vier a sofrer decorrentes do abandono. Em resumo: você diz que tem um carro porque sua relação com este objeto não pode ser facilmente modificada a qualquer momento.

Você percebe então o que está em jogo quando diz que tem um problema? Você está, de algum modo, afirmando que possui com o problema um vínculo cuja dissolução não é nada simples. Ao passo que se você mudar o verbo - e a forma de encarar a situação - para "estou com um problema", você modifica o quadro para algo com o que pode lidar: se você está com saudades de alguém, você entra em contato com a pessoa e marca um reencontro; se você está com uma doença, você vai procurar tratamento; se você está com vontade de viajar, você pesquisa preço de passagens, se agenda e viaja; e se você está com um palpite para a Mega Sena, você vai a uma lotérica e aposta (boa sorte!).

Notaram a diferença? Enquanto dizer que "temos um problema" nos paralisa - já que em nossa cultura materialista, "ter" é algo desejável, você raramente se mobiliza para deixar de ter algo que possua -, pensar que "estamos com" alguma coisa de certa forma nos impele, nos convida à ação, para que o estado agora imperfeito se modifique para a situação sonhada.

Fica então minha sugestão para 2016 (que na verdade vale para qualquer tempo): pare de achar que você tem um problema, comece a se dizer que está com um problema (o que lhe fará agir para que deixe de estar com ele) ou mesmo que apareceu um problema - afinal, o que aparece, e não lhe pertence, é melhor que desapareça, não é mesmo?

Um feliz e produtivo 2016 a todos nós!

Macapá, 11/1/2016

  • Making-off - Esse texto tem toda a cara de mensagem de começo de ano, não é? Pois foi com esse intuito mesmo que ele foi escrito para ser publicado no Digestivo Cultural (meu quarto testo por lá, lido 1791 vezes até hoje), onde saiu com o título Em 2016, pare de dizer que você tem problemas, que evidentemente tinha que ser mudado para a republicação aqui. Também no começo do ano passado, cheguei a postar o texto no meu finado LinkedIn. A foto é minha, creio que feita em Macapá em algum momento de 2015. É talvez meu único texto onde eu mencione Belchior, um dos grandes nomes da MPB, falecido em 30 de abril de 2017, aos 70 anos. 

quinta-feira, 11 de maio de 2017

O que não fazer em época de crise (Ovelhas Desgarradas - 18)

Que o Brasil atravessa uma profunda crise econômica, não é novidade alguma, já há meses os noticiários deixam isto bem claro. Inclusive me surpreendi ao escutar, em pleno mês de setembro, um jingle de Natal tocando no som de uma grande loja de departamentos, em Salvador (ouvi certa vez que, quanto piores as vendas ao longo do ano, mais cedo as lojas canalizam a atenção do consumidor para as compras natalinas, consideradas o ápice do movimento anual). Se o momento é de crise, seria de imaginar as empresas buscassem aproveitar todas as oportunidades para faturarem, certo? Bem, a julgar por uma recente experiência que tive, talvez a resposta a esta pergunta seja "errado".

Vamos aos fatos: no começo de novembro, entrei em contato com diversas gráficas, de vários estados do Brasil, no intuito de solicitar orçamento para impressão de um livro (a obra, prevista para lançamento no primeiro semestre de 2016, dará continuidade a meu projeto As Tias do Marabaixo). Ainda em outubro, sondei alguns profissionais de design para fazerem a diagramação da obra, e imaginei que as pessoas contatadas pudessem me indicar gráficas para eu consultar, o que não se confirmou. O jeito foi eu reservar uma tarde para ir a uma livraria e procurar livros semelhantes ao que eu pretendo fazer, anotando então os nomes das gráficas onde eles foram impressos. Juntando essas informações com mais algumas indicações recebidas de amigos, cheguei então a uma lista de 11 empresas, cujo nome fui jogando no Google visando encontrar o site de cada uma.

Nessa etapa, a lista já reduziu um pouco, seja porque algumas empresas já haviam saído do mercado (o que pode ser considerado natural, afinal uma livraria não é uma banca de revistas, onde só há publicações do mês atual; os livros que encontrei foram publicados em diversos momentos ao longo dos últimos 10 anos), seja porque algumas delas não tinham site ou mesmo algum contato localizável, fosse e-mail, fosse telefone.

Enviei e-mail para todas as 8 empresas que sobraram na lista. Apenas 4 me responderam. Uma somente para informar que só trabalha com tiragens superiores a 20 mil exemplares. Outra indicou uma página em seu site onde eu poderia fazer a cotação e o pedido e até mesmo enviar o arquivo com a arte do livro - um tanto quanto impessoal, é verdade, mas bem fácil de operar, salvo a questão de excesso de termos técnicos que quem não é da área não domina (afinal, ninguém é obrigado a saber o que significa uma capa 4/0 ou um acabamento PUR). 

A mesma questão aparecia nas mensagens das outras duas gráficas, a quem então solicitei a 'tradução' dos termos, consultando ainda a designer que fará a arte e cheguei então ao seguinte impasse: as duas empresas ofereciam, no geral, condições, prazos e valores semelhantes; a distância entre a cidade onde cada uma delas está situada e Macapá (informação fundamental para o cálculo do frete) também era quase idêntica, de modo que o desempate se deu por um detalhe, justamente o já citado acabamento PUR (que nada mais é que uma cola resistente para evitar que as folhas do livro se soltem); uma das gráficas não aceita fazer o acabamento PUR para a tiragem que eu pretendo (1.000 exemplares), trabalhando apenas com costura de linha. Como a designer me assegurou que o PUR é melhor, escrevi então para as duas empresas que ainda estavam no páreo: à que oferece o acabamento PUR, informei que ela foi a escolhida por mim; à outra, agradeci a atenção dispensada e informei o motivo de ter escolhido a outra empresa.

Qual não foi minha surpresa em receber, no dia seguinte, uma resposta da empresa preterida, agradecendo minha informação, não sem também dar uma alfinetada na minha designer, dizendo que ela "parece não entender nada de gráfica", pois na concepção de quem respondeu, costura de linha é melhor que PUR.

Creio não ser necessário dizer que, em situação de crise ou não, tal manifestação é completamente equivocada - ou alguém pode acreditar que desqualificar a profissional que eu selecionei irá fazer com que eu resolva mudar o local onde irei imprimir meu livro, optando justamente por quem assim se posicionou?

Mas enfim, afora esta postura indefensável, duas coisas me preocupam no conjunto dos fatos relatados, ainda mais se considerarmos que vivemos um momento de crise:

1) a insistência em usar termos técnicos que só quem trabalha na área conhece. Por que criar essa barreira com um possível cliente? Por que já não explicar logo ao que a gráfica está se referindo?

2) mas, muito pior, é a pura e simples ausência de resposta. Enquanto quatro empresas contatadas responderam, nem que fosse para dizer que não poderiam me atender, outras quatro ignoraram solenemente uma mensagem na qual eu solicitava um orçamento; ou seja, em última análise eu estava oferecendo dinheiro a estas empresas, em troca de um serviço que elas poderiam me prestar - caso, claro, ao menos respondessem a mensagem.

Atitudes como ignorar um contato do consumidor, não facilitar a comunicação com ele ou mesmo desqualificar seus parceiros evidentemente não são recomendáveis em qualquer conjuntura, mas em período de crise me parecem se assemelhar a um tiro no pé.

Macapá, 7.12.15



  • Making-off do texto - Esta publicação inaugura a segunda leva de Ovelhas Desgarradas, desta feita republicando os textos que saíram na minha coluna mensal no Digestivo Cultural e que não se encontram em nenhum outro lugar. Inclusive ele continua lá. Este foi meu terceiro texto escrito para o site, já tendo sido acessado 1301 vezes até hoje. Chegou a ser republicado no LinkedIn, quando eu tinha conta lá. 
  • A livraria onde fiquei uma tarde buscando referências de gráficas é em Porto Velho, onde estive em novembro de 2015. 
  • O livro de fotos d'As Tias do Marabaixo segue em projeto mas já agora de outro modo. Em vez de fazer uma grande tiragem, de 1 ou 2 mil exemplares, me parece mais interessante e viável fazer tiragens menores (há gráficas que aceitam pedidos a partir de 25 exemplares) e aliá-las à venda pela internet através da impressão por demanda (na qual o exemplar só é impresso quando é efetivamente adquirido). 

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Opinião Cinema: Power Rangers - O Filme (2017)



Por Bianca Oliveira,
de Macapá


A série Power Rangers, criada em 1993 pelo empresário Haim Saban, que se inspirou na série japonesa Super Sentai, foi um grande sucesso nos anos 90. Cheio de cores e poses exageradas, o grupo conquistou uma geração inteira. E agora, em 2017, voltou com um reboot que promete deixar todo mundo nostálgico.

O longa começa há muitos milhões de anos atrás, com uma batalha da geração passada de Power Rangers que acaba sendo derrotada. O Ranger Vermelho então, enterra as moedas do poder, para que futuramente o próximo grupo possa salvar o planeta de Rita Repulsa (Elizabeth Banks). Daí já pulamos para o presente, onde conhecemos os cinco jovens que terão o futuro de sua cidade em suas mãos: Jason (Dacre Montgomery), Billy (RJ Cyler), Kimberly (Naomi Scott), Trini (Becky G) e Zack (Ludi Lin). Juntos, os cinco buscam muito mais do que se tornarem super-heróis, eles buscam o autoconhecimento.



Mas, vamos ser sinceros, Power Rangers não era a melhor franquia do mundo, muito menos a mais coerente, então o filme de 2017, não poderia nos dar tanta expectativa, não é? Não pra mim, pelo menos.

O longa tem momentos bem divertidos e outros sombrios, e essas mudanças acontecem muito rápido, sem uma transição ou uma explicação plausível, prejudicando assim extremamente o ritmo, sem contar todos os furos do roteiro e as conexões rápidas para que tudo tenha um “desfecho logo”.

Porém, o diretor Dean Israelite acerta em mostrar os Rangers humanos, jovens com todos os seus problemas e diversidades. Ele apresenta os super-humanos de uma forma mais realista, e esse é o ponto alto do filme todo.


Israelite reserva uma boa parte só para mostrar que Jason é o capitão do time de futebol americano da escola que se envolve em algumas coisas erradas em busca de atenção; Billy é o gênio autista, que tem sérios problemas para se comunicar; Kimberly é a patricinha, chefe das líderes de torcida, que resolve se rebelar; Trini (foto ao lado) não consegue se encaixar com sua família, não tem amigos, é totalmente solitária, e Zack é o famoso bad boy que finge ser mau só para esconder seus medos. Ou seja, Israelite consegue falar sobre autismo, homossexualidade, bullying, alienação... temas que não imaginaríamos em um filme assim. E isso é maravilhoso!

As atuações não são nenhum presente, exceto RJ Cyler que faz o melhor Ranger: o azul. Cyler está tão bem em seu personagem, tão carismático, interpreta com vontade, sabe? Aquele tipo de personagem que temos vontade de abraçar. A vilã caricata de Elizabeth Banks também é um prato cheio. Seu personagem é complicado, com muitas performances, caras e bocas e Elisabeth consegue fazer tudo isso com excelência.

Cheio de nostalgia e informações diferentes, esse novo formato veio para mostrar que há sempre uma forma de se morfar, de se modificar. Se a intenção foi deixar os adultos bobos e as crianças animadas com as pirotecnias do final, Power Rangers vale a pena assistir e cumpriu seu papel. Poderia ter feito melhor, mas quem sabe no próximo, não é?





quinta-feira, 4 de maio de 2017

Não somos eternos (Ovelhas Desgarradas - 17)

Fabio Gomes


(O título se refere à sua, à minha, à nossa presença enquanto pessoas aqui no planeta Terra. Não vou entrar na questão de imortalidade da alma e vida eterna, ok? Sigamos.) 

O ser humano tem a estranha mania de se julgar eterno, ou mesmo imortal. Isso se reflete em vários aspectos de como funcionam nossas sociedades, ao menos no Ocidente. Contratos de trabalho, por exemplo. Creio que só jogadores de futebol e atores/atrizes de televisão assinem contratos por tempo fixo. A praxe do mercado é que, ao ser contratado por uma empresa privada, ambas as partes esperem que você só saia de lá aposentado - afinal, nem a empresa espera que você vá para uma concorrente, nem você almeja uma demissão. O próprio medo da demissão reflete um pouco como é forte essa expectativa de que o vínculo seja duradouro. 

Mas vamos pensar em termos de vida mesmo, não só trabalho. Quantas vezes adiamos um sonho, um projeto, uma viagem, tanta coisa!, com o pensamento de ah isso eu faço depois! uma hora aí eu faço isso. O problema desta equação é que nunca saberemos a variável que é = o tempo que nos resta neste planeta.

Na verdade, acredito que deveríamos, sim, nos pensar como seres finitos. Não estou dizendo para ficarmos o tempo todo pensando em nossas próprias mortes futuras, mas ao menos deixar de jogar tudo para um futuro tão tão distante. Isso serve pra muita coisa. Vou dar alguns exemplos pessoais:


  1. Em 2009, quando lancei meu blog Som do Norte, ainda morando em Porto Alegre, eu sabia que em algum momento iria morar em Belém, o que de fato acabou acontecendo no ano seguinte. Nesse meio tempo, me perguntei "O que tem em Porto Alegre que é absolutamente imperdível e que eu devo aproveitar nesses últimos meses aqui?". A resposta foi as quintas de choro e jazz, com o veterano flautista Plauto Cruz, no bar Odeon - que, detalhe: ficava a duas quadras da minha casa e onde eu só fôra até então apenas UMA vez. Passei a ir toda quinta até me mudar pro Pará.

  2. Ano passado, meti o pé na estrada com a cara e a coragem e fiz meu projeto As Tias do Marabaixo circular por três estados em cinco meses. Nesse processo, acabei ficando um trimestre inteiro na Bahia - o que simplesmente foi muito além de qualquer sonho anterior. A foto do post é desse período, um dos tantos pôres-de-sol que presenciei junto ao Elevador Lacerda (esse foi o de 28 de setembro de 2015). Qual seria a pergunta aqui? Talvez algo relativo a editais para circulação (cada vez mais escassos) e à minha própria vontade de passar mais tempo nesses lugares (além da Bahia, o roteiro incluiu Tocantins e Rondônia). 

Enfim, penso que isso vale pra tudo, ou ao menos pra bastante coisa. Comece a se perguntar: quando é que vou começar a caminhar/correr/fazer atividade física? O que tem na minha cidade que vem gente de fora pra ver e eu nunca fui? Etc etc Vai por mim: depois que você entender que é finito, pode começar a aproveitar a vida infinitamente melhor! ;)



  • Making-off do texto - Foi meu último artigo original para o LinkedIn (minha 55ª publicação no site). Foi publicado em 16 de novembro de 2016 e até hoje foi lido 53 vezes, em sua maioria por pessoas de Macapá, Belém e São José dos Campos, com 5 "gostei". O texto me ocorreu a propósito de um projeto que eu havia iniciado no dia 9 e que não é mencionado no texto, propositalmente (com este, resolvi retomar o procedimento que fiz quando lancei meus sites, cursos e livros, e só mencioná-lo quando estiver pronto para vir a público :)
  • Depois deste, só publiquei no LinkedIn o artigo sobre o incidente no hotel em Belém que acabou sendo meu texto mais lido na 'fase blog' (ou seja, de 2009 para cá). Falo de O que uma empresa ganha constrangendo as pessoas?. Publicado aqui em 31 de março, foi lido até agora 10.281 vezes, com 23 comentários, sendo o mais acessado e o mais comentado desde que o blog entrou no ar, em agosto de 2011. No mesmo dia 31 de março, o texto foi republicado no LinkedIn, sendo lido até hoje por 335 pessoas, a maioria de Belém, São Paulo e Rio de Janeiro, recebendo 3 comentários e 17 "gostei". Aliás, de modo geral, todos os textos que haviam saído só no LinkedIn e estão sendo republicados aqui na série "Ovelhas Desgarradas" recebem em poucos dias mais visualizações do que ao longo de meses por lá. Creio que os números falam por si e reforçam minha decisão de privilegiar a publicação de meu conteúdo em meu próprio blog. 

quarta-feira, 3 de maio de 2017

De Masi por Bedendo (Ovelhas Desgarradas - 16)

Domenico De Masi em foto de João Lino da Silva

Em 10 de setembro do ano passado, Marcos Bedendo publicou aqui no LinkedIn a primeira parte de uma entrevista sua com o sociólogo italiano Domenico De Masi - Entrevista com Domenico De Masi: o trabalho no Século XXI. Ao final do belo texto, o autor revela que aquela era a primeira de um total de três publicações que faria a partir da entrevista, no site da revista Exame. 
Localizei no site citado todas as partes da entrevista, que linko a seguir. Sua leitura em sequência traz importantes reflexões sobre o mundo que vivemos, e em especial sobre o papel do Brasil nele - é, pois, uma leitura altamente recomendada.
  1. Entrevista com Domenico de Masi: o trabalho no Século XXI
  2. Domenico De Masi: Vivemos num manicômio, onde o homem tem que ir até a informação
  3. Domenico De Masi: O Brasil e o consumo na era Pós-Industrial
  • Making-off do texto - Texto hiper-atípico na minha produção para o LinkedIn (foi meu 53º artigo por lá), publicado em 10 de setembro de 2016. Até hoje foi lido 15 vezes, na maioria por internautas de Macapá, Belém e São Paulo, recebendo 2 "gostei". Por um lapso de minha parte, não creditei a imagem quando da publicação original. Devido à sua pequena extensão, mantive aqui o layout original do LinkedIn, só trocando a tradicional cor 'desmaiadinha' de letra que o site usa por preto. Certamente tive a ideia desta publicação ao encontrar o link do primeiro texto nas Lembranças do Facebook. Ao acessar e me dar conta de que o texto abria uma série, fui atrás das outras partes da matéria. Textos assim, reunindo links, eram comuns no Som do Norte entre 2009 e 2011 (numa seção intitulada "Na Rede").  O link do primeiro tópico não está mais no ar no site da Exame, então o substituí pelo link da publicação original de Marcos Bedendo no LinkedIn. A bem da verdade, em setembro passado não localizei no LinkedIn as publicações de Bedendo (que foi, em última análise, o que me motivou a fazer este post no estilo "Na Rede),  por isso optei por usar os links da Exame. De todo modo, vou deixar aqui os links alternativos das postagens de Bedendo, para a hipótese de a Exame tirar do ar também as partes seguintes - segunda parte e terceira parte

terça-feira, 2 de maio de 2017

Os blogs poderão voltar a ser mais relevantes que as redes sociais? (Ovelhas Desgarradas - 15)

Foto e design: Fabio Gomes


versão original deste texto, intitulada "Eu blogo, tu blogas?", entrou no ar ontem em minha coluna no Digestivo Cultural. Quem é do meio jornalístico sabe que muitas vezes os textos são escritos com uma certa antecedência, o que foi o caso com este, escrito em 24 de junho. Não tinha eu como imaginar que, apenas dez dias depois, um dos temas dominantes no debate público seria o futuro das redes sociais como as conhecemos hoje, em virtude da mudança do ranqueamento do feed de notícias do Facebook.

O assunto logo repercutiu aqui no LinkedIn Pulse:
  • Eden Wiedemann foi taxativo ao afirmar: O Facebook vai acabar. (a análise dele lembra em alguns pontos a que fiz para a coluna Papo Cabeça, ainda em 2012, intitulada O Facebook não pode ser seu único canal de comunicação profissional).

  • Gina Bianchini lançou um convite para que criemos redes sociais melhores, nas quais as pessoas se conectariam por interesses em comum, o que também é a proposta da nova rede social do criador do Orkut; intitulada Hello, estará disponível apenas para dispositivos móveis. A entrevista de Orkut Büyükkökten a Paula Candiago Soprana e Bruno Ferrari pode ser lida aqui. 

  • Enquanto escrevo esta introdução, Fernanda Pompeu acaba de publicar em seu Diário Digital um questionamento sobre quão confiáveis são as informações que as pessoas publicam em seus perfis nas redes sociais, onde "todo mundo é legal".

  • Já Renê Fraga apresenta uma visão mais otimista, a começar pelo título de seu artigo: Novo Feed de Notícias do Facebook vai salvar a internet! Isto porque, com a limitação do conteúdo que aparece no feed do Facebook,  "As marcas e profissionais terão que procurar novas formas de introduzir seus conteúdos e até mesmo retomar esforços em mídias como o Twitter, LinkedIn, Google+, YouTube e, por que não, os Blogs."

Então, nesse momento em que os blogs podem voltar a ser parte importante da websfera, compartilho com vocês uma reflexão sobre minha trajetória de blogueiro ao longo dos últimos sete anos.

***

Em 23 de junho, coloquei no ar aquele que é meu 12º blog - Fabio Gomes Foto & Cinema. Como o nome já indica, naquele espaço estarei destacando meu trabalho com as imagens, ao contrário de quase todos os anteriores, voltados para o jornalismo cultural. Eu já divulgava meus filmes e fotos em uma fan page no Facebook, mas conforme vinha intensificando meu trabalho nesta área (audio)visual, fui sentindo a necessidade de ter um local específico na internet. Num blog (assim como num site), você pode gerenciar melhor o aspecto das publicações, assim como o público dispõe de ferramentas para localizar facilmente o que procura, dois aspectos em que o Facebook historicamente deixa a desejar. 

Enquanto configurava as diferentes áreas do novo blog, foi inevitável ficar me sentindo como em 2009, quando criei meu primeiro blog que teve destaque, o Som do Norte. Ao longo desses sete anos pouca coisa de fato mudou no bom e velho Blogger. A facilidade de uso é a mesma, assim como o caminho para localizar e implantar algumas funcionalidades continua tortuoso. De toda forma, ao menos para mim, o Blogger é bem mais fácil de operar que seu congênere Wordpress - ao menos mais intuitivo.

Minha primeira experiência com blogs foi em 2003, ano em que o formato se impôs como uma novidade na websfera brasileira. Criei um blog do qual confesso que já nem lembro o nome, até porque ele só esteve no ar uns poucos dias, e para o qual não produzi conteúdo original, limitando-me a republicar nele textos sobre cinema. Mais especificamente, resenhas de filmes, escritas para meu site Brasileirinho, lançado no ano anterior. Minha intenção era entender a ferramenta; cumprida essa meta, excluí o blog. A experiência talvez tenha ocorrido em maio, pois em 9 de junho daquele ano lancei dentro do Brasileirinho o informativo Mistura & Manda, que incorporava algumas características de blog - atualização periódica (semanal, aos domingos), textos curtos e o convite para que a pessoa comentasse e enviasse sua opinião (ou, no caso, "misturasse e mandasse"); este último cumpria a função da caixa de comentários de um blog. Além de ser postado no site, o M&M era enviado por e-mail a assinantes. O M&M seguiu sendo atualizado até o começo de 2009.

Minha experiência seguinte com blog foi como colaborador do Protocolo do Incenso - Ritual & Atração, criado pela jornalista e atriz paulista Vanessa Morelli, ali por 2008, e que já não está no ar. Posteriormente colaborei também com o Falando das Telas, do crítico de cinema Ruy Jobim Neto, também sediado em São Paulo (2009); com o blog do Coletivo Megafônica (Belém, 2011); e sou colaborador permanente do Roraima Rock'n'Roll, do músico e produtor Victor Matheus, desde seu lançamento em 2010. 

Minha opção por trabalhar com blog, e não site, ao me propor a abordar a musicalidade da Amazônia, em meados de 2009, foi em parte pela facilidade de uso, já comentada ao início desse texto, e também porque os blogs viviam talvez seu momento de maior prestígio e influência no Brasil, ao contrário do que ocorria seis anos antes. Para ilustrar a popularidade que o Som do Norte obteve logo de saída basta dizer que em dezembro de 2009, com apenas quatro meses no ar, enquete realizada pelo blog para escolher a Música do Ano recebeu mais de 21 mil votos! 

Isto me levou a no ano seguinte dedicar novo blog à sonoridade amazônica: o Música do Norte, onde só posto álbuns inteiros, sejam clássicos ou lançamentos. Já em 2011, transformei em blog meu antigo site Jornalismo Cultural, lançado em 2005, e criei meu único fan-blog, o Noel Rosa Sempre, para publicar notícias ligadas ao legado do artista e disponibilizar sua obra que se encontra em domínio público.  (OBS: o Noel Rosa Sempre saiu do ar em 18.9.16).

No ano seguinte, pus no ar meu blog mais ao estilo "internet roots", o Rapidola. O Rapidola começou em 2010 como um informativo do Som do Norte enviado a assinantes, ao estilo do Mistura & Manda, porém com um diferencial: não continha textos completos, apenas links, com uma breve frase de abertura, pinçada de uma das notícias linkadas. A seleção incluía posts de outros blogs que também falassem da música nortista. O Rapidola-blog nasceu para deixar acessíveis esses informativos, e a referência a 'roots' é porque eram exatamente assim os primeiros blogs da internet: uma coleção de links (duvida? Confira). Também em 2012, comecei a editar o blog da Poeta Amadio, de Porto Velho, artista cujo trabalho venho produzindo desde então (na época em que produzia vários artistas, acabei criando outro blog para divulgá-los, o Artistas Som do Norte).  Já o blog do projeto As Tias do Marabaixo está no ar desde 2014, quando comecei o trabalho de resgate e divulgação do Marabaixo, cultura tradicional de matriz africana típica do Amapá.

Os poucos blogs que lancei sem ligação com cultura ou comunicação tiveram vida curta. Em 2013, decidi criar um guia virtual de restaurantes econômicos, que geralmente ficam fora dos guias turísticos disponíveis no mercado. O Comendo Bem e Barato foi pensado para se viabilizar obtendo anúncios dos estabelecimentos citados no blog, o que acabou não se confirmando. Já o Apontam Estudos era uma antologia de posts publicados em meu Facebook pessoal. A criação da ferramenta 'Lembranças' pela rede social esvaziou o sentido desse espaço existir. 

Como já mencionei, vai longe o auge dos blogs no Brasil. A audiência foi caindo lentamente a partir de 2012; no começo de 2013, pareceu embalar novamente (lembro de ter falado sobre isso numa conversa que tive com alunos da PUC-SP em abril daquele ano - no mês anterior, o Som do Norte atingira 21 mil visitas únicas, marca jamais repetida), mas depois seguiu em queda, mantendo-se agora estável. Digamos que é um público pequeno, porém fiel. Claro que estou falando de meus espaços no Blogger, até porque não tenho acesso às estatísticas dos blogs de outros jornalistas. 

O novo blog Foto & Cinema atingiu 500 visitas nos primeiros 11 dias, uma média de 40 por dia, o que considero muito bom, tendo em vista que só o divulguei até agora em redes sociais. Mas nem ele nem nenhum outro dos que ainda estão ativos se comparam ao blog que desde o ano passado mantenho dentro do site Digestivo Cultural, o Cinema Independente na Estrada. Em média, meus posts lá têm 339 acessos, com a fantástica marca de 1.652 para o post inaugural do blog, que conta a história do projeto As Tias do Marabaixo (os números foram colhidos em 24.6.16).

Só para comparar, os posts do Som do Norte que atualmente chegam a 300 acessos são os de entrevistas ou lançamentos exclusivos. Aliás, exclusividade me parece ser a palavra-chave que justifica a manutenção de blogs, era assim no passado e hoje segue sendo. Desde o ano passado, parei de postar no Som do Norte agenda de shows - as informações sobre os shows em sua cidade você obtém hoje muito mais fácil através de redes sociais ou mesmo por Whatsapp. 

Considero sim que os blogs seguem sendo boas ferramentas, principalmente se quem o edita tem noções de HTML, que ajudam a compensar a limitação de recursos. Para quem gosta de publicar regularmente, um blog ainda é preferível às redes sociais (que vejo como seu complemento: grandes ferramentas para a difusão do conteúdo blogado), mais ainda se você pretende usar o blog como forma de oferecer serviços e produtos (o mural do Facebook, talvez propositalmente, não se presta muito bem a este fim).

Pra concluir: por muito tempo ouvi a pergunta, geralmente a propósito do Som do Norte: "Ah, seu blog é tão legal, por que você não o transforma num site?" Mas na verdade são coisas bem diferentes: cada vez mais, um site é recomendado se você quer publicar um conteúdo de forma institucional, com atualizações ocasionais. Para publicar regularmente e se manter pesquisável & localizável neste mar sem fim que é a internet, vá por mim: a melhor opção em 2016 segue sendo o bom e velho blog.



  • Making-off do texto - "Eu blogo, tu blogas?" é um raríssimo caso de texto meu escrito com muita antecedência que, ao finalmente sair, encontra o seu assunto na ordem da dia. Aproveitei o ensejo para republicá-lo no LinkedIn, com outro título e incorporando links de publicações recentes sobre o assunto - tão recentes que cheguei a incluir um texto de Fernanda Pompeu publicado enquanto eu redigia a introdução que abre este artigo, que foi o meu 47º texto a sair no LinkedIn, em 5 de julho de 2016, apenas um dia depois de "Eu blogo, tu blogas?" entrar no ar. Até hoje, o artigo recebeu 92 acessos, na maioria de leitores de Macapá, São Paulo e Curitiba, 3 comentários e 7 "gostei". Em linhas gerais os artigos seguem o mesmo texto, com algumas diferenças a partir do terceiro parágrafo (contando a partir do trecho "Em 23 de junho, coloquei no ar....").