quinta-feira, 13 de abril de 2017

O dinheiro não vai se acabar (Ovelhas Desgarradas - 7)



Vou começar a publicar alguns textos opinativos aqui no LinkedIn, numa série que irei denominar Choque de realidade. O objetivo da série é contrapor opiniões minhas a temas que vejo serem considerados consenso atualmente, ou ainda temas que são debatidos sem que (a meu ver) as pessoas levem em consideração todas as variáveis envolvidas. Lembrando sempre que os fatos citados serão elencados para embasar minha opinião, então, a rigor, o que vou dizer é minha opinião, jamais a verdade absoluta (até porque isso seria impossível - risos). OK? Sintam-se convidados a debater nos comentários.

Como primeiro tema, escolhi o tema do fim do dinheiro, que está previsto para breve. Em sua argumentação, os defensores dessa tese comentam que este é um caminho inevitável, tendo em vista a crescente automação das operações financeiras, o amplo acesso a "telefones espertos", que poderiam ser usados como meios de pagamento, e cita-se o exemplo de um país europeu (ora a Dinamarca, ora a Suécia) onde se prevê o iminente fim da circulação de dinheiro em espécie (ou seja, em forma de células ou moedas). 

Mas não preciso ir até a Escandinávia para saber que, se isso vier a acontecer, não será para a nossa geração, ao menos no Brasil. Vou citar para exemplificar transações simples que efetuei neste final de semana na região metropolitana da capital do Pará. No fim da tarde do sábado, peguei um ônibus urbano no centro de Belém para ir até a rodoviária, de onde segui para Castanhal, onde fui assistir um show no SESC. O único local onde não tentei pagar com cartão de débito foi o ônibus urbano, eu sabia que precisava ter dinheiro em espécie para isto. Ao chegar ao terminal rodoviário, achei ser interessante fazer um lanche antes de embarcar para Castanhal (pensei que, se o SESC Boulevard, de Belém, não tem lanchonete dentro, o SESC de Castanhal talvez também não tivesse). O restaurante existente no terminal, que aceita cartão, já estava fechado (eram pouco mais de 19h!). Das duas lanchonetes abertas, uma aceitava cartão, mas me pareceu que os melhores lanches eram da outra....que não aceita. Ok, o famoso custo de oportunidade, comi melhor mas diminuiu ainda mais o dinheiro em espécie que eu tinha em mãos.

Fome dominada, fui ao guichê da empresa que vende passagem para Castanhal, a qual... surpresa (?), só aceita pagamento em dinheiro! Chegando à cidade, mais uma tentativa de pagamento em cartão malograda: o SESC Castanhal só aceita o pagamento de ingressos para os shows em dinheiro. Constatei, com agradável surpresa, que a unidade citada do SESC possui, sim, uma lanchonete - que só aceita dinheiro. Saindo do show, liguei para amigos que estavam em um bar nas proximidades e iriam me dar uma carona até Belém. Dirigi-me então até um táxi - ao qual nem perguntei se poderia pagar em cartão (afinal, isso é muito raro mesmo) - e com o qual cheguei ao bar.

Resumo da ópera: de quatro situações em que já é possível em alguns pontos do Brasil você pagar com cartão (cinco, se incluir o táxi), não consegui fazer a transação de modo eletrônico em nenhuma delas! 

Já de volta a Belém, hoje, depois de almoçar no shopping (e pagar com cartão), tive dificuldade para comprar nozes num quiosque dentro do próprio shopping, pois a máquina de cartão estava fora do ar por algum tempo. Tentei apelar para o posto do meu banco também dentro do shopping, onde... os NOVE terminais que o banco mantém lá estavam fora do ar. Nesse meio tempo a máquina do quiosque carregou e pude efetuar o pagamento com cartão. 

O que isso quer dizer? Vamos lá:

  1. Não temos ainda, e estamos longe disso, uma total conexão dos pontos comerciais existentes no país com formas de pagamento eletrônico simples como cartões de débito e crédito, o que dirá com smartphones.

  2. Mesmo quando essa conexão total for atingida (o que pode levar, talvez, décadas), sempre podem haver oscilações do sinal e eventual queda na rede.

  3. Um dos obstáculos a essa conexão ser total é o custo da operação - além de pagar encargos trabalhistas e impostos pesadíssimos (a caótica estrutura tributária do país será tema de outro dos Choques de realidade), o empresário paga um percentual por operação à operadora do cartão.

  4. Não custa lembrar também os recentes anúncios das provedoras de internet brasileiras, avisando que não irão manter o acesso à rede ilimitado mesmo nas conexões fixas. A se concretizarem essas ameaças, qualquer planejamento que preveja acesso 24x7x365 à internet deve ser, no mínimo, reavaliado.

  5. Fora isso, há toda uma rede de pontos comerciais informais que não têm interesse em se formalizar, devido à já citada estrutura tributária, e portanto não podem adotar formas de pagamento eletrônico.

  6. E sempre vão haver os locais onde os valores envolvidos não cobrem o custo da operação, e nos quais você seguirá tendo que ter dinheiro em espécie para pagar - o ônibus urbano, o cafezinho na padaria, o lanche na esquina etc etc. Talvez na Dinamarca não se venda castanha do Pará descascada à sua vista na calçada, mas em Belém vende e não me parece que tão cedo o vendedor irá aceitar meios eletrônicos de pagamento para receber os R$ 2 que cobra por pacotinho. 


  • Making off do texto - Meu 35º texto para o LinkedIn foi também o primeiro artigo de uma série de seis que publiquei lá; este saiu em 17 de abril de 2016 e teve até hoje 27 acessos, a maioria de Macapá, seguido por Belém e Campinas, com 1 "gostei" - como se vê, o convite para o debate seguir nos comentários foi solenemente ignorado (risos). A imagem não chegou a ser creditada, mas sem dúvida é "Google Images". O texto sobre o caos tributário, mencionado no item 3, foi o quarto da série. Choque de Realidade foi a última série de textos em sequência que publiquei no LinkedIn (a primeira foi da Campanha Vamos Sonhar Juntos e a segunda foi a disponibilização em capítulos do meu livro Cinema Independente). O pouco volume de acessos me fez reavaliar a ideia de seguir publicando no site (enquanto nesta série Choque de Realidade postei 6 textos em pouco mais de uma semana, ao longo dos 6 meses seguintes publiquei apenas outros 6 textos originais por lá). 

Nenhum comentário:

Postar um comentário