domingo, 4 de junho de 2017

O Incansável Monarco

Se eu tivesse que definir o sambista Monarco em uma palavra, com certeza seria "incansável". Ele esteve em Porto Alegre fazendo um show com duração em torno de uma hora e meia no Santander Cultural em 27 de junho de 2004. Após o final da apresentação, o líder da Velha Guarda da Portela ficou quase uma hora atendendo o público e a imprensa, conversando, cantando, posando para fotos, concedendo autógrafos... 

O momento que mais me emocionou no espetáculo não estava previsto no roteiro. Monarco contava que a escola de samba só tem a perder quando foge da autenticidade. A ala de balé que a Portela incluiu no desfile este ano tirou zero. "O turista quer ver o sambista autêntico, balé eles têm lá". Citou que quando a duquesa de Kent esteve no Rio de Janeiro, não teve interesse em ver os espetáculos sugeridos pelo governo brasileiro (balé, opereta...), pedindo uma escola de samba! Enquanto falava, Monarco lembrou que Cartola e Carlos Cachaça compuseram sobre o episódio o samba "Tempos Idos". Citou os primeiros versos, se entusiasmou, informou o tom aos músicos e cantou o samba completo, apenas com violão e cavaquinho.

Os músicos que o acompanham (Guaracy no violão de 7, Serginho Procópio no cavaquinho e Cosme no pandeiro - os três, como Monarco, com o uniforme da Portela - mais o reforço local de Carlos Branco no tantã) já devem estar acostumados com episódios como este, que se repetiram ao longo do fim de tarde. Serginho, cujo cavaco era a base do acompanhamento (esteve maravilhoso em "Com que Roupa"/"Palpite Infeliz", de Noel Rosa) também dividiu com Monarco os vocais de alguns sambas, como "Vivo Isolado do Mundo" (Alcides Dias Lopes - Monarco), "Foi um Rio que Passou em Minha Vida" (Paulinho da Viola) e "Contos de Areia" (Dedé da Portela - Norival Reis), o samba-enredo do desfile da Portela de 1984, que encerrou o show. 

Monarco, aos 70 anos, mostra estar em grande forma. Sua voz, a um tempo grave e melodiosa, firme sempre, é o veículo ideal para esse desfile de pérolas do samba de todos os tempos. Ele e o grupo estiveram soberbos na junção portelense de "Quitandeiro" (Paulo da Portela)/"Serei teu Ioiô" (Paulo da Portela)/"Coração em Desalinho" (Monarco - Ratinho)(definido como "um clássico do Zeca Pagodinho, aquele garoto maravilhoso"); "Passado de Glória" (Monarco); "Tive Sim" (Cartola); "Aquarela Brasileira", apresentada como "do maior compositor de samba-enredo, Silas de Oliveira, meu companheiro de cachaça"; e outra junção, "Tudo Menos Amor" (Monarco - Walter Rosa)/"Quantas Lágrimas" (Manacéa).

Entre os números mais aplaudidos, destaco "Sem Compromisso" (executado em andamento bem rápido), que ele anunciou como sendo "de Geraldo Pereira, um negão de 4 metros de altura", o clássico "Vai Vadiar" (Monarco - Ratinho); "Ilu Ayê Odara" (Cabana - Norival Reis); e a junção "Ai que Saudades da Amélia" (Ataulfo Alves - Mário Lago)/"A Voz do Morro" (Zé Kéti).

Além de todas essas músicas, cantadas inteiras, Monarco citou ao longo do espetáculo, complementando as histórias que contava sobre figuras do samba: "Falsa Baiana" e "Escurinho" (Geraldo Pereira), "Perdão, Meu Bem" e "Divina Dama" (Cartola), "Estamos Esperando" (Noel Rosa) e "Se Você Jurar" (Ismael Silva - Nilton Bastos - Francisco Alves).

A lamentar, mesmo, só a pequena presença do público, que ocupava apenas a metade da lotação do átrio do Santander. 

  • Making-off do texto - Publicado no site Brasileirinho em julho de 2004. Na mesma ocasião do show comentado, gravei com Monarco a entrevista que você lê abaixo ou clicando aqui."Junção" era o termo que eu costumava empregar na época, para evitar os estrangeirismos 'pot-pourri' ou 'medley'.... A foto eu encontrei no Google Images, infelizmente sem créditos para o autor.


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