quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Entrevista: Jornalismo Cultural na internet

Em 19 de março de 2013, o jornalista Franthiesco Ballerini, por e-mail, convidou-me para ser o "entrevistado central" do capítulo sobre Jornalismo Cultural na internet do livro que ele estava escrevendo na ocasião (mais detalhes no final do post). Estas foram as respostas que encaminhei no dia 8 de abril, uma semana antes do prazo final.


Sendo entrevistado pela jornalista Raísa Carvalho
para a
Folha de Boa Vista - 11.3.13

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De modo geral, o que você acha da presença e da cobertura de jornalismo cultural nos blogs e portais nos últimos anos?

Creio que estamos vivendo uma etapa de expansão, com o surgimento de novos blogs e portais e consolidação dos já existentes. Depois de um período em que as pessoas se voltavam mais para redes sociais, e cujo auge considero ter sido no ano passado, noto que novamente os blogs voltam a ser referência na área. Muita coisa boa é veiculada em redes como o Facebook, porém a falta de um bom mecanismo de pesquisa impede que se localize facilmente um conteúdo publicado por um amigo seu (ou mesmo por você mesmo) na semana passada, pior se for algo mais antigo. Blogs e portais levam vantagem por serem facilmente pesquisáveis, indexáveis pelo Google, além de serem páginas que estão abertas a qualquer internauta. 

Quais foram as grandes mudanças na cobertura de cultura e entretenimento na internet com a proliferação de sites no século 21?

Eu considero, primeiramente, que a própria internet causou no jornalismo cultural uma das maiores mudanças desde a década de 1950, quando se tornou comum órgãos de imprensa apoiarem ou promoverem eventos culturais. A partir de meados da década de 1990, com o advento da internet,  pela primeira vez a imprensa não é mais necessária para a mediação entre artistas e público. Tanto artistas quanto público podem se expressar livre e diretamente, através de sites, blogs, Twitter e redes sociais. Seja gerando notícia (artistas e fãs), seja opinando sobre eventos culturais (fãs). Esta transformação segue em curso. 

Pensando em termos da própria internet, ao longo desses 17 anos de presença brasileira na rede, as mudanças têm sido o que a tecnologia de cada momento permite. Os primeiros sites, até o final do século passado, tinham poucas imagens, raríssimos áudios e vídeos e nenhuma interação em tempo real (interagir com um site era você mandar um e-mail para ele). Antes do YouTube, ter um vídeo em seu site exibia muita capacidade de armazenamento, e conhecimentos técnicos para criar um player para o vídeo. A partir de 2005, isso deixa de ser necessário. Em 2007, surge um similar do YouTube para áudio, o Souncloud, que veio facilitar a inserção de áudio principalmente em blogs (antes dele, para abrigar streaming de áudio era necessário registrar um domínio - ou seja, ter um site - e hospedar lá seus MP3s, além de precisar criar um player para os internautas ouvi-los). Estas modificações foram importantes, porque atualmente se você apenas posta um comentário ou notícia sobre um CD, mas não põe amostra alguma do som, o internauta se frustra, pois espera que o portal ou blog exercite ao máximo a convergência de mídias que a internet possibilitou. 

Você acredita que os jornalistas que cobrem cultura na internet têm a formação acadêmica, cultural e pessoal necessárias para tal? Por quê?

Desconheço estatísticas neste sentido. O ideal seria que sim, mas sabemos que hoje nem mesmo para escrever para impressos é exigido diploma (uma verdadeira aberração, que já está mais que na hora de acabar). Em relação a blogs, que geralmente são iniciativas pessoais ou de coletivos não ligados à grande mídia, mesmo que a pessoa não tenha formação específica, dificilmente ela vai se aventurar com o que não tem afinidade - só alguém que estude ou aprecie Filosofia irá cobrir um "Café Filosófico", por exemplo, já que este não é o tipo de evento frequentado por "famosos" e que geraria interesse nos chamados "sites de celebridades". Essa base da afinidade por si só acaba por limitar naturalmente maiores excessos. Já no caso de portais ligados a grupos de comunicação, nem sempre a pessoa tem a mesma liberdade, pode ser escalada para cobrir um evento com o qual não tenha afinidade alguma, por questões de pessoal da redação, interesses da empresa etc. Enfim, de todo modo cabe ao profissional interessado investir na sua qualificação, já que dificilmente a empresa irá fazer algo neste sentido por seu empregado. E acredito que também de certo modo funcione aqui uma espécie de "seleção natural" - se não tiver afinidade com a área, o profissional acabará por deixá-la, rumando para outra editoria com que se identifique mais.

Quais são as diferenças principais das matérias de cultura e entretenimento vistas em portais e blogs com relação ao que se vê na mídia tradicional (jornais e revistas)?

A principal diferença é a presença da opinião. Na mídia tradicional, o espaço opinativo em jornalismo cultural vem se reduzindo. O que se formos parar para pensar é espantoso, pois a cultura é a única editoria onde os eventos são anunciados no veículo, que depois não publica uma linha dizendo se eles ao menos aconteceram - só se dá o "antes", nunca o "depois", salvo raras exceções. Mas também há outras diferenças: a quantidade de assuntos publicada e o tamanho das matérias podem ser bem maiores na internet do que no meio impresso, sem falar no imediatismo. Hoje com um simples celular o repórter pode publicar na internet vídeo ou fotos de um show ou evento cultural que ainda esteja em andamento. 

Quais são os maiores obstáculos para se cobrir cultura na internet?

Para os blogs e páginas não ligados a grandes grupos de comunicação, a maior dificuldades geralmente é o acesso aos eventos - credenciamentos nem sempre são concedidos - e também a bens culturais - há quem ainda faça press-kit apenas para redações dos grandes veículos. Essa situação gera uma dificuldade correlata, que são os custos de cobertura - muitos não têm como pagar o ingresso, mais ida e volta ao local do evento. Ainda há também artistas e produtores que desdenham da oportunidade de falar para um veículo "alternativo". Mas essa sensação de pouca credibilidade associada ao meio internet está em franco declínio, felizmente. Outro fator que outrora era quase proibitivo, os custos de acesso à internet e manutenção das páginas, hoje não pesa tanto, devido à proliferação da rede de banda larga, lan houses, celulares e smartphones com acesso à internet - enfim, hoje é bem mais fácil navegar, e optar por ter um blog elimina o custo de criação e manutenção de um site. 

A linguagem utilizada na cobertura de cultura na internet é formadora de novos públicos ou há vícios de linguagem?

Tenho visto poucos vícios de linguagem nos portais e blogs que acesso, mas não sei se a excelência neste campo, por si só, formaria novos públicos. Vejo isto mais ligado aos assuntos abordados e à maior possibilidade de acesso à rede. 

Você acredita que a cultura é um campo privilegiado na internet ou é deixada de segundo plano em detrimento de política, economia, cidades?

Diferentemente dos meios impressos, com escassez de espaço, e dos eletrônicos, com escassez de tempo, a internet não tem essas limitações. Mesmo assim, nos portais de cobertura geral, não vejo aumento do espaço destinado à cultura, sendo uma proporção semelhante à dos veículos impressos similares. Mas também há bem mais veículos (no caso, sites e blogs) destinados exclusivamente à cobertura cultural, o que não ocorre no meio impresso. 

Você acha que o jornalismo cultural na internet brasileira segue as fórmulas e padrões de outros países do ocidente? Se pudesse, gostaria que ressaltasse as diferenças, caso conheça algumas delas.

Não tenho elementos para responder a pergunta. 

De modo geral, quais você acha que são os rumos que o jornalismo cultural está tomando na internet neste século 21?

Conforme já falei anteriormente, vejo como principais características do período o aprofundamento da convergência de mídias e um renascer do interesse por blogs, talvez porque as redes sociais não se mostraram tão aptas como os blogs para a cobertura cultural. 

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Como última pergunta, Ballerini me pedia que indicasse outra pessoa do ramo que pudesse gerar uma boa entrevista, e indiquei a jornalista Luciana Medeiros, do blog Holofote Virtual (Belém). 

O livro saiu pela Summus Editorial em 2015 (ao lado, sua capa), porém eu só soube disto em abril deste ano, quando uma jornalista me procurou querendo saber mais sobre o mercado para jornalistas culturais, dizendo que havia lido minha entrevista no referido livro. 


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