sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Noel Rosa, Compositor




Esta coletânea - Noel Rosa Compositor Vol. 1 - organizada por mim e lançada pelo blog Noel Rosa Sempre reúne 13 músicas de autoria de Noel Rosa gravadas originalmente por outros intérpretes, estando composições e fonogramas em domínio público – inclusive duas parcerias, “Meu Sofrer”, com música de Henrique Brito, falecido em 1935, e “Esquecer e Perdoar”, que Noel escreveu com Canuto, morto em 1932. Há pelo menos três obras-primas no pacote: “Eu Vou pra Vila”, “É Preciso Discutir” e “Mulato Bamba”.

Considero importante a difusão desta parcela da obra de Noel Rosa, afinal foram os 113 fonogramas lançados de 1928 até 1937 de que Noel Rosa era autor, sozinho ou com parceiros, que o consagraram como um compositor excepcional ainda em vida, um reconhecimento que sabemos ser raro. De toda sua obra póstuma, apenas “Três Apitos”, lançado por Aracy de Almeida em 1951, tornou-se um clássico da música brasileira.

As gravações aqui reunidas foram lançadas originalmente entre 1930 e 1932, e compõem um painel bem variado da obra de Noel, geralmente associado apenas ao samba. Temos tango (“Pesado Treze”, paródia de “El Penado 14” – a única paródia de Noel que chegou ao disco enquanto ele vivia), modinha (“Meu Sofrer”, onde a letra segue os cânones fixados no começo do século 20 por autores como o poeta Catulo da Paixão Cearense, ao mesmo tempo em que antecipa “Eu Sei Sofrer”, do próprio Noel), embolada (“Não Brinca Não”) e até uma “marcha faminta”: “Não me Deixam Comer”, praticamente um esquete cantado que serve como veículo para a graça do cômico Pinto Filho.

Mais que essa variedade, a coletânea documenta a passagem de Noel de um compositor iniciante gravado principalmente pelos amigos para a de um autor de destaque no repertório dos maiores intérpretes brasileiros da época. Até o final de 1931, seus principais intérpretes eram ele mesmo e seus parceiros do Bando de Tangarás (Almirante e João de Barro). Só uma fora gravada até então pelo cantor de maior sucesso da época, Francisco Alves (a marcha “Gosto, Mas não é Muito...”, parceria com Chico e Ismael Silva). Quando Chico foi gravar outra marcha sua ("Palpite", parceria com Eduardo Souto), Noel apresentou-lhe o samba “É Preciso Discutir”, que escrevera especialmente para que gravasse com Mário Reis (a quem coube o famoso verso Para cantar com Francisco Alves em dueto). A partir daí, tornou-se um dos compositores preferidos de Chico e de Mário, gravando juntos ou separados (ou, no caso de Chico, também com outros parceiros vocais). Uma cabal demonstração de como Noel Rosa tinha senso de marketing, quando esta palavra ainda não estava incorporada ao vocabulário cotidiano.

Noel se faz presente em quatro faixas da coletânea, aquelas em que Almirante e Lucila são acompanhados pelo Bando de Tangarás (“Não Brinca Não” foi a última gravação de Noel com o grupo). Em “Dona Aracy”, é possível ouvi-lo fazer o contracanto Dona Aracy... na segunda e na quarta repetições do refrão (alternando-se com João de Barro, que faz a primeira e a terceira), e é seu o violão que cadencia “Eu Vou pra Vila”.


  • Making-off do texto - Texto escrito em setembro de 2011 para acompanhar, juntamente com a charge de autoria do próprio Noel Rosa que abre o post, o pacote de download do CD virtual Noel Rosa Compositor - Vol. 1, lançado em 1.10.11. 
  • Texto inédito até hoje, à exceção do segundo parágrafo. 
  • O título original deste texto era o mesmo do CD que ele acompanhava. O novo título foi dado hoje. 
  • Os primeiros dez downloads do CD foram oferecidos como brinde aos primeiros inscritos na segunda turma de setembro de 2011 do meu Curso à distância de Jornalismo Cultural



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