quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Entrevista: Jornalismo Cultural nos dias atuais

Em 27 de setembro, Mateus Santana, estudante de Jornalismo do UNIAN (Centro Universitário Anhanguera de Niterói, RJ), enviou-me as seguintes perguntas, para um trabalho de grupo referente a Jornalismo Cultural e a atuação do profissional da área nos dias atuais. Estas são as respostas que enviei em 3 de outubro. 

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que gravei em Belém em 17.5.17


Porque o jornalismo cultural é importante, na sua visão?

Permitam-me reproduzir o conceito de Jornalismo Cultural que exponho no meu livro de mesmo nome, à pág. 8 (obra disponível em http://www.jornalismocultural.com.br/jornalismocultural.pdf):
Jornalismo cultural é o ramo do jornalismo que tem por missão informar e opinar sobre a produção e a circulação de bens culturais na sociedade. Complementarmente, o jornalismo cultural pode servir como veículo para que parte desta produção chegue ao público.  

Deste modo, podemos dizer que o jornalismo cultural é importante, primeiramente, por levar ao público informações sobre um setor da vida cotidiana com igual ou até maior importância que os demais - se no dia a dia, seja nas redações, seja nos lares em geral, se priorizam notícias sobre política e economia, é muito raro que alguém guarde ou mesmo colecione cadernos de jornal sobre assuntos econômicos. O mais certo é que os escolhidos para serem colecionados sejam cadernos sobre cultura; talvez o único assunto que igualmente mobilize o público neste sentido de guardar seja o esporte (em especial edições especiais e pôsteres de conquistas de campeonatos).

Além do papel complementar de levar a público parte da produção de bens culturais, auxiliando em sua difusão (exemplos seriam os CDs e livros encartados em edições de jornais ou revistas, ou publicação de capítulos de romance, contos, fotografias, reprodução de quadros, ou divulgação de músicas e até filmes inteiros em páginas de internet), atualmente acredito que uma importante missão do jornalismo cultural é demonstrar ao público em geral que a arte é fundamental na vida humana, e que a verdadeira arte tende a ser mais questionadora do que acomodada em relação ao estado de coisas vigente em nossa sociedade. 

Na sua opinião, existe espaço na imprensa brasileira para grandes reportagens sobre cultura, entretenimento, entre outros? 

Teoricamente falando, o espaço existe, a questão é que os grandes veículos não costumam cobrir eventos que não ocorram em suas cidades (salvo grandes exceções como o Oscar, por exemplo) nem têm aberto espaço para eventos que não estejam ligados a interesses econômicos dos grupos a que pertencem (podemos citar aí a generosa presença dos festivais Rock in Rio e Lollapalooza nos telejornais da Rede Globo, contra quase nenhuma presença de festivais da cena independente brasileira). 

O mesmo se repete na mídia impressa e nos espaços destes veículos na internet. Acrescente-se que mesmo os jornais de grande circulação nacional costumam limitar a cobertura cultural ao que aconteça no município onde têm sede, priorizando além disso a parte de agenda; a crítica, embora com menor presença do que tempos atrás, ainda é mais frequente que a reportagem. Geralmente quando questionados a respeito, os editores dos cadernos de cultura costumam alegar que não fazem reportagens por não haver verba para cobrir as despesas decorrentes (razão porque se vê muito release publicado na íntegra e pouca reportagem na imprensa em geral). 

Enquanto os grandes veículos, que poderiam fazê-las, preferem não se dedicar às grandes reportagens, os veículos independentes muitas vezes gostariam de suprir esta lacuna, porém não dispõem dos recursos necessários. 

Na sua opinião, que competências deve ter um jornalista cultural?

Um jornalista cultural é, antes de mais nada, um jornalista, então deve ter todas as competências que se exige para a profissão - ter acesso às fontes, fazer uma apuração correta, redigir bem e cumprir prazos. A especificidade da editoria Cultura, aliada às expectativas do público que consome este tipo de informação, faz com que seja preferível e até imprescindível que o jornalista cultural saiba escrever com uma certa elegância. Uma boa dose de cultura geral também é recomendável; por mais que um profissional admire Dança, se estiver numa redação poderá um dia ser escalado para cobrir Teatro, ou um festival de Cinema, e geralmente há pouco tempo para se informar do básico sobre cada linguagem antes de partir para o evento. De todo modo, um bom grau de curiosidade e uma mente aberta sempre são importantes para se trabalhar com Cultura.



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