sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Noel Rosa, Cantor

Ao longo do tempo, as gravações feitas por Noel Rosa têm recebido pouca atenção. Entre 1930 e 1936, ele gravou 42 músicas de sua autoria, entre elas clássicos como "Com que Roupa?", "Gago Apaixonado", "Feitiço da Vila" e "Conversa de Botequim" (as duas últimas, parcerias com Vadico).

Em 21 dessas músicas - ou seja, exatamente metade deste repertório - , Noel convidou alguém para dividir o vocal; a recordista foi Marília Batista, que gravou com ele 6 sambas, mas a lista inclui parceiros como Ismael Silva, João de Barro, Artur Costa e ainda I. G. Loyola, João Petra de Barros e Léo Vilar (mais tarde líder dos Anjos do Inferno). Curiosamente, Noel dava preferência a fazer duetos nas músicas que compunha de parceria – são 13 duetos em músicas com parceiros, contra apenas 8 em obras assinadas exclusivamente por ele. Desconheço o motivo.

A obra gravada do Poeta da Vila, deste modo, aponta em duas direções. Numa, ao fazer tantas parcerias vocais, Noel mostrou-se um artista do seu tempo: como cada disco tinha apenas duas músicas, e muitos cantores lançavam vários discos por ano, esses duetos ocasionais eram muito comuns. Noutra, ao gravar regularmente suas composições, o que era raro na época, Noel antecipou o que é quase uma regra hoje, quando são poucos os artistas exclusivamente cantores.

A pouca atenção mencionada para esta obra gravada se reflete nas lacunas das discografias das biografias de Noel escritas por Almirante e João Máximo & Carlos Didier, onde não consta o número da matriz de cada disco, dado importante para que se consiga estabelecer, mesmo que de modo aproximado, em que data cada música foi gravada e até mesmo em que gravadora. Nosso levantamento traz os números de todas as matrizes.

Só posso atribuir essas lacunas ao descaso com que a obra de Noel como cantor tem sido tratada. Embora haja muitos relatos do sucesso que ele fazia cantando no rádio e em shows, e a venda expressiva de discos como o "Com que Roupa?", também se sabe de restrições que Noel recebia por não ter um "vozeirão", o que era muito valorizado em seu tempo.

Certamente outro fator que contribuiu para a pouca difusão das gravações de Noel ao longo do tempo foi o fato de ele, num período bastante curto, ter atuado em várias gravadoras, que nem sempre tinham depois repertório suficiente para um LP ou CD inteiro (na Victor, hoje parte da Sony Music, por exemplo, Noel gravou apenas quatro músicas). Assim, só quando do lançamento da caixa de CDs Noel Pela Primeira Vez (Velas/Funarte, 2000), o público teve acesso à totalidade das interpretações de Noel para suas próprias músicas. Sim, porque, como o conceito da caixa era de músicas assinadas por Noel, não havia como incluir o samba "Sentinela, Alerta!", de Ary Barroso, que o Poeta da Vila gravou em dupla com João Petra de Barros.



  • O texto era inédito até hoje, com exceção (novamente!) do segundo parágrafo. O título deste texto inspirou o novo título do texto publicado na semana passada
  • Fazia parte do pacote ainda a charge que abre o texto (charge que, escaneada por mim, ganhou o mundo, como contei em texto recente).
  • O levantamento mencionado no final do quarto parágrafo é a revisão completa da discografia original do Poeta Vila como cantor, compositor e instrumentista, e que será disponibilizada em futuras Sextas do Noel. As fichas técnicas dos CDs virtuais de Noel disponíveis para download aqui no blog já são baseadas neste levantamento. 

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